O Agenor era católico apostólico romano. Rezava todo santo dia, agradecia Santo Expedito pela graça alcançada. Batia na esposa de vez em nunca. Na oficial, com certidão, igreja e tudo o mais. Já a amante ele tratava a pão de ló.
Pedro, vulgo Pedrinho, último dos três filhos da Dona Maria, incendiava casas por prazer, matava gatos por esporte e vendia ingressos para que os amigos olhavassem sua irmã tomando banho. Aos 25 se formou em direito, abriu um escritório e foi para Brasília, onde perdeu a carteira da Ordem dos Advogados após investigações da Polícia Federal na Operação Casca de Ferida. Hoje, aos 47, trabalha como cafetão.
Lucélia, 23, usava drogas "leves" e tinha um restaurante que só servia refeições macrobióticas. Acreditava no poder da luz, dos astros, na energia de Gaia e em alienígenas. Foi para São Tomé das Letras, após receber uma mensagem de pouso dos seres de Marte, para ver os visitantes e comprar "umas coisinhas". Acabou seqüestrada e há dois anos vive em cativeiro, quase esquecida do que é o Sol, comendo arroz, feijão, farinha e batatas pelo menos três vezes por semana.
Sara, 28, morou três meses em um kibbutz, antes de voltar para o Brasil. Ia à sinagoga duas vezes por dia e passava sempre pelo bairro árabe, onde era hostilizada. Ensinada pelo pai, um ex-recruta do Mossad, executou Hassan-Al-Ali com golpes de Krav-Magá. Gostava de ir a escola de tiro e comia presunto escondida da família.
Hassan-Al-Ali, 47, filho de libaneses, discordava preceitos árabes e nunca foi à Meca. Gostava de samba e costumava freqüentar os ensaios do Vai-Vai. Foi encontrado morto perto de casa, segurando um exemplar de O Estrangeiro, do Camus. À polícia, o pai, Mohammad Khaled, declarou que ele era uma vergonha para o Islã e que, tal qual um dos personagem do livro, teve o destino que merecia.
Carlinhos, 11 anos, era doente terminal.
