Um conto de duas cidades - C. DickensOctober 26, 2006 1:45 pm

O Agenor era católico apostólico romano. Rezava todo santo dia, agradecia Santo Expedito pela graça alcançada. Batia na esposa de vez em nunca. Na oficial, com certidão, igreja e tudo o mais. Já a amante ele tratava a pão de ló.

Pedro, vulgo Pedrinho, último dos três filhos da Dona Maria, incendiava casas por prazer, matava gatos por esporte e vendia ingressos para que os amigos olhavassem sua irmã tomando banho. Aos 25 se formou em direito, abriu um escritório e foi para Brasília, onde perdeu a carteira da Ordem dos Advogados após investigações da Polícia Federal na Operação Casca de Ferida. Hoje, aos 47, trabalha como cafetão.

Lucélia, 23, usava drogas "leves" e tinha um restaurante que só servia refeições macrobióticas. Acreditava no poder da luz, dos astros, na energia de Gaia e em alienígenas. Foi para São Tomé das Letras, após receber uma mensagem de pouso dos seres de Marte, para ver os visitantes e comprar "umas coisinhas". Acabou seqüestrada e há dois anos vive em cativeiro, quase esquecida do que é o Sol, comendo arroz, feijão, farinha e batatas pelo menos três vezes por semana.

Sara, 28, morou três meses em um kibbutz, antes de voltar para o Brasil. Ia à sinagoga duas vezes por dia e passava sempre pelo bairro árabe, onde era hostilizada. Ensinada pelo pai, um ex-recruta do Mossad, executou Hassan-Al-Ali com golpes de Krav-Magá. Gostava de ir a escola de tiro e comia presunto escondida da família.

Hassan-Al-Ali, 47, filho de libaneses, discordava preceitos árabes e nunca foi à Meca. Gostava de samba e costumava freqüentar os ensaios do Vai-Vai. Foi encontrado morto perto de casa, segurando um exemplar de O Estrangeiro, do Camus. À polícia, o pai, Mohammad Khaled, declarou que ele era uma vergonha para o Islã e que, tal qual um dos personagem do livro, teve o destino que merecia.

Carlinhos, 11 anos, era doente terminal.

Um conto de duas cidades - C. DickensOctober 24, 2006 10:19 pm

- Pô, sabe, eu ando meio estressadão.
- Ae, tenho uma parada ótima, você cheira e fica novinho em folha…
- Não, não curto esse lance de químicos não.
- Ah, é natureba? Então, tem uma parada que você fuma e fica numa nice, manja…
- Pô, eu sou asmático, não rola.
- E um chazinho da hora pra acalmar, produto gringo e tal…
- Nada, chá me dá piriri, qualquer um que seja.
- Então, tem um que vai na veia que é foda. Relaxa tudo em segundos…
- Nem, tenho um puta cagaço de agulha.
- Ah tá. E um comprimidinho, serve? Coisa suave, menor que muito tarja preta por aí…
- Pô, eu tenho alergia a remédio, mas vou topar!
- Beleza, eu tô sem agora, mas você acha em qualquer "farmácia", tá ligado?
- Certo… qual é o nome?
- Do que?
- Do remédio!
- Que remédio?
- Do remédio que você me indicou!
- Sei lá, cara…
- Como assim?! Você indica e não sabe?
- Porra, deu brancão aí. Mal aí…
- Bah, à merda. Eu vou é tomar uma breja pra ficar novo em folha…
- Pô, nunca usei, funciona?!
- Se tiver algum problema com copos, pode até tomar no gargalo.

Um conto de duas cidades - C. Dickens 5:23 pm

Semana passada eu havia avisado: aproveitem para ler o ótimo Livinrooom, criação da amada, idolatrada salve, salve Lívia, enquanto eu não o corrompesse com meus erros de potuguês, de concordância e de nascença. Pois bem se você não aproveitou, ainda resta uma chance: leia todos os textos do site e, por último, este aqui.

Eu aposto o Fort Knoxx que, logo após ler o primeiro páragrafo, você vai mandar email reclamando a presença nefasta deste por lá.

Grato.

O Imperador. Destruindo sites ótimos desde 415 A.C.

Um conto de duas cidades - C. Dickens 2:52 pm

- Pô Will, preciso trocar uma idéia contigo! Chega ae!
- Se queres comigo parlamentar, temos de antes combinar, que muito não posso me demorar, pois o tempo, escasso está.
- Tá bom, tá bom. Negócio é o seguinte: tô com um problemaço aí, com uma mulher do pagode rapá. Troquei até uma idéia com o Dom, mas ele queria me bater, dizendo que eu peguei uma tal de Dulcinéia…
- Deves ter dito que era formosa, morena de ancas largas, bela mexicana, muy hermosa, há de ser louvada.
- Tá, tá, sem rima, só escuta. Então, como não deu para falar com o Dom, procurei o Mano Dante, mas aquele lá diz que eu tinha que ir até o Inferno pela mulher. Pô, ela mora no Ermelino, e eu nem posso pensar em chegar lá…
- O Inferno é para…
- Porra, não rima, escuta! Aí veio o Faustão, trocou maior lero comigo, cheio de patati e patatá. Veio me falar de uma seita aí, prende amor, faz trabalho, essas coisas. Eu nem sou desse lance da macumba, minha mãe é evangélica, rapá! Mas se liga, o nome do malaco que aprontavas as paradas era um tal de Mefisto, Menisco, sei lá. Conhece o figura?
- Se sucumbir…
- Porra, deixa pra lá. Seguinte Will, o pai da mulher não vai com a minha cara. Sabe, o cara é poderoso na região, e diz que meu pai andou aprontando umas com a mulher dele. Na boa, cada um cada um né, mas aí, tô afinzaço da morena. Que você acha que eu devo fazer, mano?
- Casa com ela e depois vocês se matam.
- Tá, tá, falou.

Deixou Will falando sozinho e foi ter com o Ellroy. Depois de contar toda a história, o mestre disse:

- Espere a calada a noite. A garoa do inverno, a lama tomando calçadas, casas, vidas. Sentado na soleira da porta, você aguarda, soco inglês na mão, .45 na cintura. O velho entra, um soco no joelho; ele tomba, .45 no meio da testa. O maior dos filhos da puta está ali, pronto para morrer.
- Pô James, vou ter de matar o velho?
- É, pela Dália.

Ele desistiu. Saiu da biblioteca, foi até o Ermelino Matarazzo, no extremo leste de Sampa, a fim de falar com o patriarca e resolver tudo de uma vez. Chegou e viu o velho lendo Crime e Castigo. Saiu fugido com um machado zunindo porta afora, enquanto escutava ao fundo:

- Se César e Napoleão puderam, eu também posso!

Só pegou em um livro novamente tempos depois. O mito de Sísifo, do Camus. Que foi encontrado preso em suas gélidas mãos, enquanto ele balançava, de um lado para o outro. Com fio do telefone amarrado no pescoço, próximo à porta da cozinha.

Um conto de duas cidades - C. DickensOctober 23, 2006 4:21 pm

Tudo estava na mais perfeita ordem. Alfabética, por sinal. Contemplando a obra, dois dias de trabalho quase initerruptos, salvo pausa para café e cigarros, ele só faltou bater no joelho, se houvesse um, e dizer "Parla!", tal qual Michelangelo. A, B, C, D, pratos rasos, pratos fundos, amarelo, azul, branco, preto. Havia transformado um pedaço de pedra em uma obra de arte.

Foi à banca de jornais. Quarta-feira era dia de começar pelo caderno de Cultura. Começava a segunda com Brasil, terça ia de Cotidiano. Era assim toda semana, toda vida. Ligava para seus clientes em ordem alfabética. Se outra pessoa fosse atender o chamado, perguntava o nome. Os "fora de ordem" recebiam um bom dia ou boa tarde, seguido de um desligar educado.

No começo de cada dia, uma olhada no obituário. Ontem morreram Joaquins, Josés, Júlios. Nenhum Saulo, nenhum Serafim. Haveria de viver mais um dia, antes de ser o próximo. Eis que, em uma conferida mais aguçada, vê um Tadeu, entre o Alaor e o Caio. Pega rapidamente o telefone e liga na redação do jornal:

- Escuta, tem um erro na página de obituários.
- Um momento.

Pacientemente ele aguarda. E torce para que a próxima atendendente tenha um nome que comece com L.

- Obituário Tarso, em que posso ajudá-lo?
- Tem alguém cujo nome comece com a letra L e que possa me atender?
- Como senhor?
- Nada. Escuta, publicaram o obituário de hoje fora de ordem alfabética.
- Uma pequena falha daqui da redação senhor. Gostaria de uma errata?
- Não, amanhã eu não poderei ler o jornal.
- Como senhor?
- Amanhã, pela ordem alfabética dos obituários, eu morrerei.
- Morrer é fácil, senhor. Fazer comédia é difícil.
- Como?
- Nada. Mas veja só, o senhor não quer aproveitar nossas promoções para obituário?
- Quanto sai?
- Cem reais, meia página.
- Que belo desconto! Eu quero!

E no outro dia o atendente-filósofo Tarso receberia mais um telefonema. Desta vez nem tão cordial assim:

- Obituário Tarso, em que posso ajudá-lo?
- Eu queria reclamar de um anúncio que saiu errado.
- Pois não senhor. Qual o nome?
- Tadeu Borges de Almeida vem depois do Sérgio Alcântara, não antes!
- O nome do senhor, por favor?
- Tadeu Borges de Almeida.
- Er… sim senhor, publicaremos uma errata.
- Tá bom Tarso, mas não erra, viu!
- Sim senhor, mais alguma ajuda?
- Não.
- Tenha uma boa tarde, senhor.

No dia seguinte, a edição do jornal saiu correta, com errata e tudo. E o caderno de Cotidiano noticiou que o senhor Tadeu Borges de Almeida, 56, havia matado a tiros o atendente do caderno de Obituário, Tarso Vinicius de Lima, 23, que será sepultado às 17:30, no Cemitério da Vila Alpina. Ao lado de Sandra Peixoto e Túlio Santos da Costa. O assassino, que se matou após o crime, deixou uma carta dizendo que fazia aquilo por uma simples questão de ordem. Tarso deixou a mulher Zulaiê e a filha recém-nascida Zumira, mulheres de sorte.