Quando nosso boteco fecha as portas - Lawrence BlockFebruary 14, 2007 1:10 pm

Eu não queria me pronunciar sobre a morte do garoto João Hélio Fernandes, no Rio de Janeiro. Apesar da grande maioria dos textos começarem assim, eu juro que não estou copiando ninguém. Não queria mesmo, me é assunto indigesto, que já deu alguns problemas antes. Não é a primeira criança que morre em situação bárbara, nem - infelizmente - será a última. Não é a primeira vez que se "debate" sobre a redução da maioridade penal, nem será a última. Não é a primeira vez que se é hipócrita, nem será a última.

A última vez que falei sobre assassinato e maioridade penal foi quando do caso do Xampinha, menor que participou do estupro e assassinato da jovem Liana Friendebach e do namorado desta, Felipe Caffé. Pois à época, assim como hoje, as pessoas foram às ruas com tochas, foices e faixas pedindo que os "jovens delinqüentes" fossem enforcados em praça pública. Porque, é claro, eles estavam cansados e queriam paz.

O processo é simples: tranca-se o "jovem delinqüente" em uma cadeia por mais tempo. Lá, ao contrário dos quatro anos de faculdade, ele ganha direito a um MBA no mundo do crime. Porque mudar a lei é fácil. Mas mudar o sistema penintenciário, corrigir dando um norte para molecada que de lá sai, ah, isso é muito difícil. E além do mais, a sociedade quer paz, ora pois.

Afinal de contas, para que pensarmos no quanto o "jovem delinqüente" pastou para chegar até ali. Tudo bem, você pode me dizer que também teve uma infância dura e, nem por isso, arrastava crianças por sete quilômetros. Eu também não vivi um conto de fadas, mas já fiz coisas sórdidas, como matar um gato com um bloco de concreto. Não, isso não é uma comparação.

Detalhe é que temos lá o rapaz, preto, pobre, favelado. Se ele batesse na porta da família de João, seria enxotado, quando não preso pela polícia. Se ele vai à uma multinacional, buscar emprego, dão com a porta na cara dele. Se ele vai ao gabinete do Prefeito Gilberto Kassab, favorável à redução da maioridade penal, o mesmo o chama de "vagabundo" e "suma daqui". Então o rapaz vê que, com uma arma, ele subjuga todos esses que lhe negam qualquer alternativa. É de manuseio simples e tem poder avassalador. Basta enfiar na cintura e chega de "neguinho", chega de "favelado", chega de "pobre", chega de "vagabundo". É "por favor", "com licença", "sim, é claro que eu faço o que você mandar".

Vê a diferença. Se essa paz tão propagada pelas classes médias, do Leblon à Madalena, fosse exercida por meio da educação, do tipo "estuda, aí, lê o Machado, ele era negro igual à você e teve uma Academia só com o nome dele", a coisa seria diferente. Mostrar para o "jovem delinqüente" que é possível, sim, ele mudar o mundo dele por outros meios que não os utilizados até então, que é possível viver e não sobreviver, ensinar que amamos uns aos outros, independente de cor, raça, posição social. Porque a partir do momento que a sociedade respeitá-lo, deixando de achar que ele é o "neguinho", o "pivete", o "jovem delinqüente", ele a respeitará também, não mais apontando armas contra os vidros elétricos de seus carros.

Mas do que eu estou falando? É muito mais barato para o Estado e para a "sociedade" trancar mais cedo. Cortar o mal pela raiz, não é esse o dito? A questão é: dá mesmo para dividir apenas em "o bem" e "o mal"? E já que dá, de qual lado estamos? Pelo menos seis do sete quilômetros é culpa minha e sua. A conta é bem simples, não é?

Quando nosso boteco fecha as portas - Lawrence BlockFebruary 13, 2007 5:53 pm

Pois então, o "texto" abaixo está mais errado do que apoiar o Chinaglia. Isso é óbvio, afinal de contas são duas semanas de aula para um cara que mal sabe escrever em português.

Há de se destacar, porém, o papel da "girlfriend" citada no texto. A namorada de "Uptown girl" (uma das piadas mais infames do mundo, fazendo referência à uma das coisas mais lindas do Universo, quase uma Guerra Fria de tão eqüidistante), com uma paciência quase mitológica, se pôs a corrigir toda essa ofensa à língua inglesa (coisa que, por sinal, deve aumentar o número de visitantes franceses a este blog) publicada neste espaço. Para dar dimensão à coisa, um texto de três parágrafos têm mais correções do que um livro do tamanho do Ulisses.

Em suma, tudo isso é apenas para agradecer e dizer que a moça é muito boa de língua. Mas não tem nada de aula particular não, seus vagabundos (obrigado, Kassab).

Obrigado querida. E bóla fazer intensivão no Carnaval, né?

Quando nosso boteco fecha as portas - Lawrence Block 3:46 pm

Yesterday, at night, Lelê and I - backing from the english school - keeping a long conversation in the language of Shakespeare, Faulkner and others (OTHERS! OTHERS!) fucking good writers. In this conversation, we talk about a lot of things, like how ugly is her neighborhood and how good is our speaking, especially the two new phrases learned in the english lessons:

- Does it fit?
- It’s a biiiiiiiiiig mistake!

Also, in that night, I explained to Lelê my theory of music parts and how these can make our conversation better. And that’s not a biiiiiiiiiig mistake. In fact, I can tell some examples, like these: my girlfriend lives in Rio. In the map of Brazil, Rio is above São Paulo, my address. So, I can use the name of and old song called "Uptown girl". Got it? Got it?

We have other (OTHERS! OTHERS!) example. To Lelê, if I say that: "she’s buiyng a Starway to Heaven." she can answer: "I don’t now. Does it fit?". I mean, maybe Lelê can answer like that. But it’s fact, probably i’m made a biiiiiiiig mistake. Or maybe "Lelê, one day I wish upon a star." and she can answer: "That’s a biiiiiiiiiiig mistake!".

You see. With two phrases, we can conquer the english bastards and rule the world. Or eat a burguer and drink a beer. I don’t now. Maybe this is a biiiiiiiiiiig mistake.

Quando nosso boteco fecha as portas - Lawrence BlockFebruary 7, 2007 5:01 pm

- E ae cara, beleza?
- Putz, acordar cedo pra trabalhar é uma merda!
- Pois é. Na próxima encarnação eu quero é ser vagabundo…
- Pode crer. A uma hora dessas eu ia acordar pra ir na academia e… nah, não ia não.
- Cara, eu estaria bebendo numa hora dessas!
- Pode crer. Estaria chegando da balada agora, e ia dormir.
- Que dormir nada, cara! Vamos supor que viveremos mais, sei lá, cinquenta anos…
- Pô, você tá sendo otimista bagaraleo!
- Nada, daqui dez anos inventam o fígado de plástico. Pois bem, cinquenta anos. Mais o quê, vinte anos para a passagem para um novo corpo? Porque temos de levar em conta que não é chegar lá, falar com os hômi e já descer em outro corpo.
- Certo.
- Então, até lá já inventaram pílulas para não dormir, cara…
- Ou então baterias!
- Isso, baterias é melhor!
- Mas cara, do jeito que eu sou azarado, é capaz de eu voltar mulher. E daquelas bem vagabundas, que curtem uma taroba de negão e tal.
- E, ainda por cima, nascer no meio da África. Cara, tem certeza que a gente não bebeu nada não?
- Olha, eu já estou com dúvida sobre.
- Provavelmente bebemos…

Quando nosso boteco fecha as portas - Lawrence BlockFebruary 6, 2007 4:18 pm

"Prefeito Kassab,

seguinte Jão, vai se crescê aqui na Vila pra cima do mano Kaiser, caraio? Vem aí, todo malucão, chamar o mano de vabagundo? Qualé manézão, vagabundo é você que fica lá no gabinete sem fazer porra nenhuma, enquanto os mano tão na maior correria pra cima e pra baixo, tendo de levá o leite das criança e o caraio. Enquanto tem mano que tá andando na rua, dando uma ripa, fazendo a festa da playbozada pra depois sê engolido por buraco. Vagabundo? Pelo menos o mano Kaiser, que tava na pulha contigo por causa dessa parada dos outdoor aí, pelo menos o mano foi lá e representou, certo? Chegou e já chamou na chincha mano, não ficou pagando de gatinho inaugurando hospital aqui na Vila, onde tem mãe que sempre chora porque não consegue levar a molecada pra ser bem tratada. Daí o mano vai reclamá que tá sem trampo e cê vai chamá o cara de vagabundo? Tomá no teu cu, rapá. Vagabundo é você que fica de conversinha, dando uma de lôco, com o César Giobbi, fazendo piadinha de motel. Puta falta de proceder mano. E quando os cara te vaiaro na Sé, cê veio dar uma de loco gritando São Paulo, São Paulo. Era por causa dos bambi, mano? Ou era por causa da cidade que cê fode todo dia, pensando que aqui só tem vagabundo. Vagabundo um caraleo, certo mano, porque tem muito nego na cidade que dá um ralo pra comprá um pisante foda, o material da criançada, o leite, põe o pão na mesa da família, sem ser na aba dos outros que nem você foi na aba do Serra, seu otário. Firmeza você não gostar do protesto do cara. Mas moral pra chamar alguém de vagabundo, cê num tem não, Jão. E fica esperto porque se colá na quebrada de novo tu vai tomá nas idéia pra ficá esperto."

O que o Imperador acha do assunto? Ah, vai dizer que alguém esperava algo diferente de um prefeito do PFL? Esses caras da SS são todos descontrolados. Amanhã eles vão acender "um grande fogueirrra" de livros. E quando os livros acabarem, vão começar a incinerar gente. "Acabar com este raça", os vagabundos, manja? Sieg heil.

Quando nosso boteco fecha as portas - Lawrence BlockJanuary 31, 2007 4:20 pm

- É o fim, meus filhos! É o fim!

Enquanto o Profeta falava, todos prestavam muita atenção, o que era incomum para a época. Profetas eram figuras mortas há cerca de dois séculos.

- Mas por que o fim, ó grande mestre?
- Ô bicho burro da porra, já falei durante dois dias! Pragas, alianças do PMDB com o PT, o efeito-estufa! Ééééééé ooooo fiiiiiiiiiiiiiiiim!

Com um cajado na mão, barba desgrenhada e a cara do Sivuca, o Profeta foi atingido por uma lufada de vento que assustou aos espectadores. Sua veste, uma simples túnica que cobria todo o mirrado corpo, voava, pintando uma imagem, vejam só, profética da coisa.

- Depois disso, virão as pragas. Chuva de cds do Calipso, uma manada de trios elétricos, livros do Paulo Coelho. Toda a sorte de Inferno! Chagaaaaaaaaaaaaaaaaaas!
- Sim, meu Profeta!
- Sim o quê, retardado?
- O Senhor me chamou, Profeta!
- Chamei porra nenhuma, nem te conheço, pazzo!
- Eu sou o Chagas
- E o problema é teu, morre!

Assim o pobre Chagas caiu duro, naquele instante. Todos correram a beijar o pé do Profeta. Do fundo da platéia, alguém perguntou:

- Mestre! Mestre! É verdade que o Júlio está namorando?

Visivelmente cansado, o Profeta apoiou-se em seu cajado e foi ao chão. Todos os seguidores fizeram o mesmo, em solidariedade ao sábio homem.

- É sim, meu filho. É o início do fim, a primeira das grandes pragas do Apocalipse, que abaterá cada infiiiiiiiiiiiiiieeeeeeeeeeeel!
- Eu, Mestre!
- Você o quê, cazzo?
- Você me chamou, eu sou Fidel.
- Chamei porra nenhuma, seu surdo!

É um evento que não acontece há séculos. Não o fim do mundo, pô, o fato de eu ter namorada. E a culpa não é só dela, não. É nossa.