Pós-modernoAugust 22, 2006 3:56 pm

No dia 3 de setembro de 2020 os carros já voavam, os andróides eram escravos e a Dercy ainda era viva. No Masp, precisamente em frente ao finado vão livre e agora chamado de vórtex livre, ele aguardava uma pessoa, de um encontro marcado há quinze anos.

O que o levou a cumprir uma promessa de quinze anos era mistério. Ele continuava na mesma vida. Ok, tinha um número maior de blogs e uns escritos espalhados em algumas livrarias. Continuava solteiro e, de vez em quando, ia tomar uma Serra Malte para lembrar dos velhos tempos. Se tudo era tão igual, por que diabos da curiosidade seria menor do que antes?

Já dela, ele não tinha notícias desde quando, há 14 anos, o infortúnio se colocou entre os dois. Resolveram até esquecer. Pelo menos até aquela tarde de 2020.

Então às 14 horas ele estava na porta. Esperou um tanto e ela apareceu, da mesma forma que ele imaginou que ela apareceria 15 anos atrás. Estranho ela vir e estranho ele achar tudo igual.

- Você veio…
- E por que não haveria de vir?
- Sei lá… talvez por que não veio há 14 anos?
- Eu tive meus motivos…
- Inexplicáveis, mas acredito que teve mesmo. Talvez o motivo seja eu, ou os motivos, se preferir no plural.
- Não, não foi por sua causa. Foi por… ah, foi por outra coisa…
- Ok, ok. Escuta tem uma exposição no Masp, topa?
- Eu prefiro cerveja.
- Eu também.

Do Masp para o bar, e depois para o quarto mais próximo, foi um pulo. Não deu tempo de conversar muito, afinal de contas eram 15 anos de abismo. E como disse o alemão, "quando você olha para o abismo, o quarto de motel olha para você".

- Eu tenho que te contar uma coisa…
- O que?
- Eu tô casada…
- Há quanto tempo?
- Quatorze anos.
- Quatorze?! Desde então…
- É, desde aquele dia.
- Mas…
- Mas?

Ele engasgou. Queria matá-la ali mesmo. Queria que ela visse que o simples ato de não ter ido 14 anos atrás não a redimia vindo depois.

- Mas e agora?
- E agora estamos aqui. Me dá um cigarro seu…
- Como assim?
- Um cigarro, oras!
- Mas e seu marido?
- Que que tem?
- Você é casada? Deve ter filhos inclusive!
- Dois, um casal, uns fofos…
- E então?
- Sabia que eu parei de fumar?
- Se parou, por que então vai fumar?
- Por que eu quero ter algo nas mãos…
- Mas já tem.
- Tenho? O que?
- Eu, um marido e dois filhos!
- Você é um fofo! Sempre foi! Agora eu tenho que ir, meu marido está esperando. Hoje o Maurício tem apresentação na escola…
- Você deu meu nome para seu filho!
- Dei ué… você é inesquecível, sabia?
- Ah, claro!
- Nos vemos na semana que vem?
- Sim, na porta do Masp.

Três dias depois, o Masp foi demolido, pois o vórtex livre tinha uso como acampamento de vagabundos ou quem quisesse protestar contra o governo opressor do planeta OMFG 18. Para a sorte deles, o boteco e o motel continuam, perpétuos.

Não fosse, é claro, o problema de ereção que atinge a maioria dos homens, e que fez com que ele fosse mais uma infeliz vítima dos efeitos colaterais cardiovasculadores de um arcaico produto da Pfizer.

Pós-modernoAugust 16, 2006 3:54 pm

Ontem eu fui com a Blogagi tomar umas cervejas. Fechamos duas caixas de Serra Malte e, por incrível que pareça, eu não acordei de ressaca. A Monica Belucci ainda estava na cama quando eu levantei, fiz o café e levei para ela, ternamente agradecida e exuberante de tão nua.

Tomei um banho e fui à piscina, onde terminei de ler O ladrão que estudava Espinosa, do Lawrence Block. No autógrafo, a admiração do autor pelo meu mais recente trabalho, Homícidios linkados. Subi, escrevi mais algumas páginas do meu próximo livro, guardado a sete chaves. A empregada tirava o pó dos meus sete Pulitzers, o último de uma matéria classificada como fantástica, sobre as melhores cervejas do mundo. Achei um tanto meia boca, mas vai entender esse pessoal.

A tarde o produtor do meu próximo filme disse que o Sean Connery queria ser o ator principal da película. Disse à ele que aceitasse o velhinho, e o mesmo agradeceu me enviando um pôster do Indiana Jones e a última cruzada autografado. Guardei junto com os do Star Wars, pensando em que ordem os classificaria depois: entre os "muito fodas" e os "caraleos, nem sei o que dizer".

O pessoal da Academia disse que o próximo Oscar é meu. O Clint Eastwood disse o mesmo. O Tiago disse que é o melhor filme que ele viu desde O Massacre da serra elétrica. A Isabela Boscov, da Veja, criticou a produção do meu recente trabalho, o que significa que estou no caminho certo.

O Junior chamou para uma sinuca, onde ele ganhou todas as partidas. Tudo bem, mais tarde o pessoal sairia para tomar cerveja. Povo que não dorme e, mesmo assim, não reclama nem um pouco disso. A Gabi, com 1,65 de altura, ainda tinha um show para ir, do seu namorado baixista, que fazia ótimas músicas para ela. Lilhoca disse que ia sair com o Bernal e que daria um pulo no Opção mais tarde. Formam um belo casal e ele provavelmente participará do meu próximo filme.

Eric também era presença confirmada. Ia apenas fazer um show de rap na Vila Mazzei, então tinha tempo de sobra.  estava um pouco ocupado com a nova edição do Superman, mas daria um jeito. O Théo terminaria a resenha sobre o disco do Simple Plan para a Rolling Stone e iria, porque Taboão é bem perto de São Paulo. Alê Félix tinha acabado de descer em Brasília mas chegaria a tempo graças ao jatinho particular. O Milton terminaria algumas roupas da sua nova coleção e também apareceria por lá. Lelê deixaria o jornal dela um pouco tarde, as crianças na casa da avó, pegaria o marido e iria.

Então às dez estavam todos no Opção, para finalmente conhecerem a Monica Belucci. Tomamos ao todo umas quatro caixas de Serra Malte. Mesmo o Eric, que tinha acabado de operar o nariz, deu lá suas goladas. Mais tarde Monica disse que estava com sono, e em seguida deu uma piscadela inesquecível. Fomos para casa e trepamos loucamente, depois ela me trouxe duas cervejas, enquanto eu via o Corinthians sendo campeão do Mundo pela quinta vez consecutiva e pensava:

- Até que a minha vida não é lá tão mal assim.

As pessoas que faltaram ao encontro no Opção também estavam bem. Tinham morrido no trágico atentado ao World Trade Center, mas adquiriram 51% das ações da Microsoft**.

* Plágio da Gabi, que plagiou a Lilian e que provavelmente será plagiada pelo Théo

** Idéia chupinhada da Lilhoca. Obrigado dotôra!

Pós-modernoAugust 9, 2006 7:05 pm

Hoje, aqui no trabalho, rolou um telefonema do qual eu era a pauta principal da conversa. A certa altura, ele estava assim:

- Não, porque ele é jornalista, é inteligente, centrado, conversa bem, educado e tá solteiro… ou pior…

Não que metade disso seja verdade. Exceto pelo solteiro, é claro.

Então decidi consultar o oráculo, mais conhecido como Lilhoca Pimentão:

- Responda com sinceridade: eu to com cara de encalhado?

- Como assim, cara de encalhado? Existe essa cara? Eu achei que as pessoas só tinham cara de animais…

- Não, quando transparece, entendeu?

- Ah, mas isso é por causa das piadas, dos posts, dos 8 blogs e do eric; é, o Eric tem culpa nisso…

- Hahahahahahaha, mas para quem nada sabe disso, ou sabe pelo menos sobre as piadas?

- Tá nada.

- Explicando: aqui no trabalho, uma secretária falava ao telefone e começou: não, porque ele é jornalista, é inteligente, centrado, conversa bem, educado e tá solteiro… ou pior…

- "Ou pior"…

- hAHAHAHahHAHAH. É, sei lá…

Com licença, vou ali encostar em um banco de areia.

Pós-modernoAugust 2, 2006 9:04 pm

Infelizmente, meus caros, o título tem toda razão de ser. Por mais que nos esforcemos para mostrar às mulheres quem manda, quem está por cima, "na crista da onda" diria meu pai (se eu tivesse um), basta uma palavra para fazer tudo cair.

Miremos no exemplo dele e dela. Ela conversava com ele, e este, numa chata tarde de inverno, resolveu ser tão chato quanto a garoa fina de Sampa. Cheio daquelas coisas de "ah, não enche", "agora não béibe", "ah tá, benzinho" e demais, fazendo com que aquela sentisse tudo ficar tão insuportável quanto ele e a chuva juntos. Bastava uma palavra, que ela, assim como todas, sabe qual é:

- Quer saber, foda-se. Eu odeio seus nhénhénhés, tô cheia desse troço todo!

- Mas espera, te incomoda?

- Claro pô, eu aqui toda toda e você fazendo doce?

- Eu não sabia, desculpa…

- Ah, é bem fácil pedir desculpas. É sempre fácil pedir desculpas…

- Mas eu…

- Não, não tem mais nem menos. Que porra!

E assim elas batem as portas, fecham janelas, vestem a roupa. E você, lógico, vai correr atrás, sempre correu atrás, com as mesmas desculpas, os mesmos discursos, e tudo vai dar certo até mais um dia chato de inverno, onde tudo vai se repetir e vai acabar bem, como sempre acaba.

E você vai manter a pose de macho, como se fosse um estivador no Porto de Santos. Mas se procurar um pouco, ou se ela soltar a sonda de busca chamada desprezo, você vai voltar atrás e dizer coisas boas, comprar flores, essa merda toda. Porque no fundo, todos nós somos emos. Mas tem gente que disfarça muito bem.

* O título, e o texto em si, é dedicado à uma pessoa por quem tenho carinho inestimável e inenarrável. Não, eu não estou pegando ninguém. Não, não se trata de cocaína. É como se fosse uma obra de gost writter onde lá, do alto da minha sapiência, capitaneada por esta cabeça de tamanho sem fim, eu vim, vi e venci tudo. Entenderam? Não? Nem eu, e durmam muito bem esta noite com isso.

Pós-modernoJuly 26, 2006 2:37 pm

Numa fábrica de açúcar em Beirute, durante uma partida de truco, Hassam-Al-Hareein e Hareein-Al-Hassam discutiam, entre uma bomba e outra de Israel que caia sobre a capital libanesa:

- Cara, ontem eu vi um filme do Amos Óz muito foda e…

- Tá louco?

- Por que?

- O cara é judeu, é sionista, rapá!

- E daí? Anteontem você assistia ET!

- Mas pera lá, o Spielberg é um judeu legal!

- Nem fodendo, além de judeu, é americano!

- Mas e a história lúdica e infantil? Que porra, é um puta filme!

- Bah, lixo. Eu prefiro os filmes do Jerry Lewis!

- Outro judeu porco sionista! Assim você vai arder no mármore do inferno, preibói!

- Pera lá! É o Lewis! Até o Aiatolá Khomeini daria risada com o Lewis! Até mesmo Maomé iria rir!

- É verdade… e o Seinfeld, hein?

- Maldito filho de Abrahão! Engraçado que só a porra!

E enquanto eles riam recordando o episódio do anti-dentista, uma bomba caiu sobre a fábrica. De origem israelita, é claro. Tanto a fábrica quanto a bomba.

Pós-modernoJuly 20, 2006 1:08 pm

O advento da intimidade criou grandes problemas para a civilização pós-moderna (e quem lê essa frase pode até achar que eu quis dizer algo interessante. Mas esqueçam, não é nada disso).

Ontem, por exemplo, eu estava no ônibus, voltando para casa. E eu tenho um problema com ônibus.

*deita no divã*

- Então Júlio, qual o seu problema com ônibus? - pergunta o doutor, acendendo um charuto.

- Seguinte véi, sempre que eu estou no ônibus, costumo ter uma ereção. Manja, do nada, sem nem ao menos pensar em sexo. Já tive isso lendo Stephen Hawkins!

- Isso é por que você tem desejos pela sua mãe…

- Porra, por quê todos vocês dizem a mesma merda, rapá!?

- Tá, você tem dois problemas: fica de pau duro no ônibus e lê Hawkins. Você já viu "A dama do lotação"? 

- Qual das versões?

*levanta do divã*

Então, dentro do ônibus, recebi uma ligação importante, sobre uma pauta mais importante ainda que anda rolando por aí. A certa altura da conversa, o ônibus passou em frente à loja da De Millus, Valisére, Victoria Secret, Calcinhas Panamá, sei-lá-que-diabos-fabricante-de-seguradores-de-peitos (fica ali na Sumaré e tem dois belissímos, redondinhos e empinados outdoors) e resolvi informar a pessoa com quem conversava, cuja identidade será mantida em sigilo:

- Gabi, tô em frente aquele outdoor do sutiã!

- No ônibus? Putz…

"No-no-notorius!" diria o fresco do Simon LeBon.