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*fade in*
- Na última vez que nos vimos, prometi que você morreria se eu o visse de novo!
- Eu lembro, eu lembro. Um encontro amistoso demais, sem dúvida.
- Então, agora é a hora?
*fade out*
Quando alguém com uma força considerável aperta seu pescoço, a sensação é de que algo vital e muito frágil vai partir tal qual um biscoito chinês. Pena que, neste caso, quebrará para o azar, e não para a sorte. Era assim que o Caixa via o mundo naquele instante: um naco de carne de gato na sarjeta estava mais vivo do que ele, que tinha nas mãos do Hóspede o início e o fim de seus problemas com a coluna.
- Eu não faço a menor idéia do que…
A respiração ofegante denunciava que a dor era insuportável.
- Não faz? - disse o Hóspede, aliviando a mão - Tem certeza? Não foi o que o Visitante me disse!
- Ah claro, o Visitante! Aquele mesmo que te enganou outras vezes, certo?
- Me enganar é o esporte favorito de três em cada dois ladrões…
- E o Visitante já ganhou tantas medalhas quanto a maldita União Soviética!
- O problema não é ele por aqui!
- Nem eu!
- Então, qual é o problema?
- Seus dois mil que me roubaram ontem!
- Claro, alguém roubou meu dinheiro? O mesmo que você havia roubado, aposto?
- Sim… talvez um ladrão crédulo que quer 100 anos de perdão.
- Boa, muito boa. Você deveria ser comediante. Pena que você não passará de um monte de ossos se soltar mais uma piada infame.
- Seguinte, ontem eu estava com a sua grana, daí bem, eu precisava de uma Acompanhante. No outro dia acordei numa banheira cheia de gelo.
- Ela levou a maleta e seu rim?
- Não, ela tinha uns fetiches bizarros. Me deixou lá na banheira e levou a maldita maleta.
Aos poucos, o tom inicial da conversa arrefeceu. Não era mais o pescoço do Caixa que estava nas mãos do Hóspede, mas sim uma arma. Para o Caixa, continuava tão assustador quanto antes. Ao fim da conversa, a despedida foi de uma cortesia que assombrava:
- Na próxima, Caixa, aquele naco de carne na sarjeta será maior. E de péssima qualidade…
- E eu aposto dois mil reais que isso não acontecerá… - retrucou, seguido de uma piscadela.
Andando por caminhos desconexos, passando pela Trajano, depois Roma e Nossa Senhora da Lapa, o Hóspede deteve por um instante em frente a Igreja, como que a suspeitar de que a paróquia tinha pego o santo dinheiro roubado a tanto custo. A mulher de preto apareceu como que do nada, com o cigarro apagado:
- Tem isqueiro?
- Fósforos… - disse o Hóspede, pegando a caixa distribuída como brinde pelo motel.
- Hum, o Rodeio, ou Alabamba. Ótimo lugar para se ir às escondidas com uma mulher. Quem é o marido?
- De quem?
- Dela, da sua Acompanhante.
- Como você sabe que?
- Ah, eu sei de muitas coisas, Hóspede. Sei inclusive do destino dos seus dois mil.
Como que combinado, os sinos da igreja começaram a soar anunciando o início do discurso do Padre. Nunca significou nada para o Hóspede, agnóstico confesso que era. Mas o assunto, o badalar um tanto quanto uníssono e, principalmente, a mulher que tudo sabia, o intrigou:
- Ótimo, onde está a grana.
A mão tocou o bolso e aqueceu o ferro morbidamente frio da arma.
- Desculpa, mas os sinos me chamam, e eu não costumo atrasar quando minha presença é requisitada. A propósito, talvez você precise de mim para achar sua maleta.
E com um rebolar lindo de morrer ou de matar, a Fé fez da igreja sua morada.
(continua, no melhor modo Buerão)
