Os cães ladram - Truman CapoteAugust 28, 2006 5:11 pm

Previously on Lost Post

*fade in*

- Na última vez que nos vimos, prometi que você morreria se eu o visse de novo!
- Eu lembro, eu lembro. Um encontro amistoso demais, sem dúvida.
- Então, agora é a hora?

*fade out*

Quando alguém com uma força considerável aperta seu pescoço, a sensação é de que algo vital e muito frágil vai partir tal qual um biscoito chinês. Pena que, neste caso, quebrará para o azar, e não para a sorte. Era assim que o Caixa via o mundo naquele instante: um naco de carne de gato na sarjeta estava mais vivo do que ele, que tinha nas mãos do Hóspede o início e o fim de seus problemas com a coluna.

- Eu não faço a menor idéia do que…

A respiração ofegante denunciava que a dor era insuportável.

- Não faz? - disse o Hóspede, aliviando a mão - Tem certeza? Não foi o que o Visitante me disse!
- Ah claro, o Visitante! Aquele mesmo que te enganou outras vezes, certo?
- Me enganar é o esporte favorito de três em cada dois ladrões…
- E o Visitante já ganhou tantas medalhas quanto a maldita União Soviética!
- O problema não é ele por aqui!
- Nem eu!
- Então, qual é o problema?
- Seus dois mil que me roubaram ontem!
- Claro, alguém roubou meu dinheiro? O mesmo que você havia roubado, aposto?
- Sim… talvez um ladrão crédulo que quer 100 anos de perdão.
- Boa, muito boa. Você deveria ser comediante. Pena que você não passará de um monte de ossos se soltar mais uma piada infame.
- Seguinte, ontem eu estava com a sua grana, daí bem, eu precisava de uma Acompanhante. No outro dia acordei numa banheira cheia de gelo.
- Ela levou a maleta e seu rim?
- Não, ela tinha uns fetiches bizarros. Me deixou lá na banheira e levou a maldita maleta.

Aos poucos, o tom inicial da conversa arrefeceu. Não era mais o pescoço do Caixa que estava nas mãos do Hóspede, mas sim uma arma. Para o Caixa, continuava tão assustador quanto antes. Ao fim da conversa, a despedida foi de uma cortesia que assombrava:

- Na próxima, Caixa, aquele naco de carne na sarjeta será maior. E de péssima qualidade…
- E eu aposto dois mil reais que isso não acontecerá… - retrucou, seguido de uma piscadela.

Andando por caminhos desconexos, passando pela Trajano, depois Roma e Nossa Senhora da Lapa, o Hóspede deteve por um instante em frente a Igreja, como que a suspeitar de que a paróquia tinha pego o santo dinheiro roubado a tanto custo. A mulher de preto apareceu como que do nada, com o cigarro apagado:

- Tem isqueiro?
- Fósforos… - disse o Hóspede, pegando a caixa distribuída como brinde pelo motel.
- Hum, o Rodeio, ou Alabamba. Ótimo lugar para se ir às escondidas com uma mulher. Quem é o marido?
- De quem?
- Dela, da sua Acompanhante.
- Como você sabe que?
- Ah, eu sei de muitas coisas, Hóspede. Sei inclusive do destino dos seus dois mil.

Como que combinado, os sinos da igreja começaram a soar anunciando o início do discurso do Padre. Nunca significou nada para o Hóspede, agnóstico confesso que era. Mas o assunto, o badalar um tanto quanto uníssono e, principalmente, a mulher que tudo sabia, o intrigou:

- Ótimo, onde está a grana.

A mão tocou o bolso e aqueceu o ferro morbidamente frio da arma.

- Desculpa, mas os sinos me chamam, e eu não costumo atrasar quando minha presença é requisitada. A propósito, talvez você precise de mim para achar sua maleta.

E com um rebolar lindo de morrer ou de matar, a Fé fez da igreja sua morada.

(continua, no melhor modo Buerão)

Os cães ladram - Truman CapoteAugust 25, 2006 2:37 pm

Texto nascido por obra e graça de Ana Gabriela, o mais adorável homem que já habitou a Terra.

- Sabe, Julio, eu vou virar lésbica.
- É mesmo, Gabi?
- É.
- Por quê?
- Eu já sou praticamente um homem: gosto de futebol, sei o que é impedimento, sei a diferença entre lateral, escanteio e tiro de meta. Sei até quando é gol.
- E quando é gol?
- Quando o juiz levanta o braço. E vai Corinthians!
- É, vai Corinthians!
- Mas enfim: veja o sexo, por exemplo.
- O quê?
- Sex… ah, deixa eu te mostrar um desenho.
*mostra*
- Viu?
- Ah, isso é sexo.
- É. Então, depois de fazer isso, eu gosto de fazer sabe o quê?
- Aquilo?
- Não, aquilo dá torcicolo. Eu gosto de calar a boca e dormir. Dormir, sabe?
- Nada de discutir a relação?
- Nada. Calar a boca e dormir e pronto.
- Nada de mimimi?
- Nope.
- Pô.
- Pois é, eu sou quase um homem, entende?
- Mais ou menos.
- Não tenho paciência de fazer charminho. Não sei fazer cara de fofa e esperar o moçoilo se manifestar. Não sei fazer olharzinho meigo.
- Ah, faz um beicinho aí.
- Não consigo! Tá dando cãibra!
- Toma mais uma cerveja…
- Taí mais uma coisa: eu bebo como homem. Me recuso a tomar drinques com guarda chuvinhas. Coisas docinhas e coloridas me fazem vomitar. Eu gosto de cerveja, tequila, uísque, pinga… e você já me viu bebendo pinga.
- Até bate o copo na mesa.
- Tá vendo? E minha voz, Julio?
- O que tem sua voz?
- Eu tenho voz de homem, droga.
- Não tem não…
- Claro que tenho. Eu já me ouvi em gravações. Voz grossa, rouca e falando mil palavrões por minuto: homem.
- Hum.
- Tá vendo? Até você concorda!
- Mas daí a virar lésbica…
- Veja, já que eu tenho voz de homem, bebo que nem homem, transo que nem homem… vou pegar mulher.
- Ah, pára.
- Não. Vou virar lésbica mesmo.
- Acho que você não deve fazer isso. Virar lésbica, não aquele isso do desenho.
- Por que?
- Veja a minha situação: eu gosto de discutir relação, eu lavo louça, eu abro portas, eu sei distinguir cores.
- E?
- E daí que você dará margem para que as pessoas pensem em outras opções. Droga, você irá contra o princípio Divino!
- Mas você é ateu!
- Ok, ok, deixe-me por em outros pontos: mulher é bom bagaraleo, assim como lavar louça é bom. Então podemos juntar os dois, entende?
- Mais ou menos. Você diz que eu posso ser o homem da relação.
- Claro! Mas nada disso te impede de virar lésbica por uma noite e fazer um filminho bem legal para esse seu amigo que te deu uma baita força agora.
- Sabe, isso dá um post…
- Um não, oito posts!
- Só precisamos de um final engraçadinho.
- É vero, senão vai parecer que cogitamos trocar de time…
- Cogitamos, Júlio?
- Olha lá a loira Gabi!
- Caraleo mano! Agita para mim que eu mando embrulhado na tua casa o rapaz da mesa dois…

Os cães ladram - Truman CapoteAugust 24, 2006 8:09 pm

A Lapa é de uma decadência estranha. Diferente da São Petersburgo de Crime e Castigo ou da Los Angeles dos livros policiais, não causa pena, amor, ódio. Nem ao menos charme o bairro tem. É como se padecesse de uma decadência fria, típica dos bairros encrustrados entre a pobreza do extremo e o classe média way of life dos bairros emergentes paulistanos.

Na rua Guaicurus, em frente ao Terminal Lapa, há o hotel sem nome, carinhosamente apelidado de "Rodeio". No quarto 12, o Hóspede chegou acompanhado e, enquanto gravata, meias, saia e calcinha eram atiradas para o alto, o Visitante cortou os sussuros e gemidos:

- Uma bela cena, eu diria.

O Hóspede e a Acompanhante, até então no calor da luta para ver quem se despia primeiro, gelaram a ponto dela quase morrer, ali mesmo, de choque térmico.

- Querida, desce e vai tomar uma cerveja ali no bar da esquina, que eu já já apareço por lá…
- Mas…
- Vai agora, eu resolvo isso e desço em cinco minutos.

Ao encostar da porta, o Visitante mal teve tempo de respirar. As mãos voaram da maçaneta para o colarinho, e do colarinho sua cabeça vôou para porta em tempo recorde:

- Na última vez que nos vimos, prometi que você morreria se eu o visse de novo!
- Eu lembro, eu lembro. Um encontro amistoso demais, sem dúvida.
- Então, agora é a hora?

Marcas de dedos apareciam, rubras, no pescoço do Visitante, como um câncer maligno agindo mil vezes mais rápido do que o Ebola. Uma cena animadora.

- Não, se você me deixar falar.
- Dois minutos! Se em dois minutos você não falar algo que preste, eu aperto seu pescoço até transformá-lo em um daqueles patês chiques de ganso.

Definitivamente, o Hóspede sabia ameaçar.

- Lembra do Caixa?
- Lembro dos meus dois mil reais!
- Enfim, cada um com a memória que convém…

As marcas rubras voltaram, e a respiração já começava a minguar.

- Tá, tá… então, ele voltou! E disse que vai te matar, só para parar de dizer que o roubo dos dois paus não valeram nada.
- Onde ele está?
- Agora?
- Não, no dia sete de setembro! Claro que é agora!
- Neste exato momento, num churrasquinho ali do outro lado da rua!

Se roubar 2 mil reais do Hóspede era pedir carona para a Morte, degustar do churrasquinho da Lapa era ir de carona e ainda mexer no som. Feito com a mais tenra e desconhecida carne de alguma coisa, matava mais do que as duas Grandes Guerras somadas. O Caixa já ia para o quinto espeto da noite quando a desconhecida, talvez marciana, carne entalou no pescoço:

- Dizem as más línguas que carne de gato não passa por lugares estreitos!

Ouviu algo parecido com "mas que merda é…".

- E também dizem, as mesmas más línguas, que você quer me matar, fazer o roubo dos meus dois mil valer a pena.

Um naco de algo desconhecido pulou, parando na sarjeta em frente à Estação Ciência…

(continua)