O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckMarch 14, 2007 4:22 pm

Na copa, os dois se encontraram às escondidas. Já se conheciam de antes, do tempo do almoxarifado, mas por linhas tortas do destino - e um salário-miséria dele - acharam melhor deixar cada um ir para o seu lado. Como tempos de crise agregam, lá estavam os dois novamente. Ele, chefe de setor. Ela, secretária e esposa do presidente da empresa.

Ela mal acreditava que ele tinha conseguido. Aquele homem de futuro incerto virou um estupendo chefe, um homem enérgico e brando, rigoroso sem ser déspota. Era o grande libertador do setor. Em tempos outros, mais românticos, havia sido o grande libertário de seu coração.

Ele mal acreditava que ela continuava tão linda.

Ali, naquela copa, dividindo um café, eles se reencontraram sem ninguém saber, nem eles mesmos. O marido húngaro era uma ótima pessoa, um patrão tão exemplar quanto era o seu gerente. Ele continuava solteiro, como sempre fora, talvez só esperando por ela.

- Tire outra cópia, Sam…

E assim que o jovem contínuo saiu com o documento, o tão esperado beijo viria. Mas não veio.

- Vá, apenas vá. Pegue logo o fretado. Seja feliz.
- Desculpe, eu…
- Vá, é perigoso aqui.

E ela se foi. Se tivesse ficado, não há a mais remota idéia de como seria. O copeiro, confidente de tudo que aconteceu desde sempre, olhou com o semblante caridoso. Ele retribuiu:

- Esse é o começo de uma grande amizade.

THE END.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckMarch 9, 2007 12:42 pm

O presidente chegou com todo seu staff. Trouxe seguranças, repórteres, a esposa, milhares de toalhas brancas, uma canga para a primeira-dama, um patinho de borracha, repelentes contra mosquitos, moscas tsé-tsé (essas mosquinhas comunistas!), dinossauros e macacos (é sabido, eles andam soltos nas ruas) balde e pás de brinquedo para o lazer na praia, frango, farofa e água.

Mais de mil pessoas estavam envolvidas no aparato da visita. O Serviço Secreto (que de secreto não tem nada: homens de preto com fones de ouvidos e Land Rovers que mais parecem carros abre-alas da Viradouro), batedores para combater os macacos (eles andam soltos!) e soldados kamikazes para entrar na linha de fogo em caso de um ataque das terríveis zarabatanas. Tinha aprendido com portugueses e espanhóis o quão terrível era este aparato bélico em especial, a grande nuke weapon daquele país perdido nos Trópicos.

A comida também era típica. Do Texas. Desde que o Arby’s fechou, nenhum americano metido à John Wayne arrisca comer por estas bandas. Aquele sanduichão de rosbife com molho barbecue e tudo o mais, não existe no país. Tem feijoada, mas como pos isso, um presidente comendo da culinária de escravos?

E daí que Buenos Aires vai parar? O Brasil é uma nação amiga, tem até for all no Largo da Batata, mas que se dane Buenos Aires! Não é mesmo, Liza Minelli?

E aqueles aborígenes protestando nas ruas? Fora isso, fora aquilo! Fora my ass, pô. Todo lugar que o presidente vai é assim mesmo. É preciso zelar pela vida do comandante-em-chefe, assegurar que nenhum louco com um tacape na mão ataque o presidente daquele país tão evoluído. É como uma santidade vindo nos visitar. Saudemos, chegou o Deus do Vulcão! Bóra sacrificar algumas virgens! Difícil vai ser achar, mas bóra sacrificar!

E lá está o presidente, tomando todos os cuidados. Pena que o idiota tropeçou em um dos seus cães, e acabou perfurando o pulmão com a faca do jantar americano (Dona Bárbara sempre avisou, "não corre com uma faca na mão, meu filho!"). Pelo menos não teremos problemas diplomáticos. A faca era americana.

Post Scirptum importante: é só eu, ou você também imagina que antes do Barbudo trocar uma idéia com o Cabeçudo, vai rolar aquele samba do Zeca Baleiro na parada? Aquele lá, lembra, só que com alguma alterações e comentários de Casagrande e Falcão:

Venha provar meu brunch
saiba que eu tenho approach
na visita do Bush
eu ando de ferryboat

eu tenho savoir-faire
meu temperamento é light
minha casa é hi-tec (pois é!)
toda hora rola um insight (hahahahahahahahaha!)
já fui fã do jethro tull
hoje me amarro no Slash
minha vida agora é cool (e a nossa também ¬¬)
meu passado é que foi trash (o passado ou o presente?)

Venha provar meu brunch
saiba que eu tenho approach
na visita do Bush
eu ando de ferryboat

fica ligada no link (http://oimperador.blogsome.com)
que eu vou confessar my love
depois do décimo drink (só dez?)
só um bom e velho engov (Fraco!)
eu tirei o meu green card
e fui pra Miami Beach (junto com o Collor?)
posso não ser pop star (mas se acha, não?)
mas já sou um noveau riche (Romaneè Conti na veia!)

Venha provar meu brunch
saiba que eu tenho approach
na visita do Bush
eu ando de ferryboat

eu tenho sex-appeal (Dona Marisa que o diga)
saca só meu background
veloz como Damon Hill (barbeiro)
tenaz como Fittipaldi (barbeiro e mala)
nao dispenso um happy end (nem eu!)
quero jogar no dream team (com o Delfim?)
de dia um macho man (ui!)
e de noite um drag queen (ui! ui! ui!)

Venha provar meu brunch
saiba que eu tenho approach
na visita do Bush
eu ando de ferryboat

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckMarch 8, 2007 4:15 pm

Eu conheço mulher pra caramba. Não posso dizer que já tive muitas mulheres, igual aquela música ruim do Martinho. Tá certo que, das poucas que eu tive, tem as confusas, as donzelas e até as meretrizes. Tem do tipo atrevida, do tipo acanhada e do tipo vivida e tal. Mas como a música é ruim, não vale ficar numerando por aqui usando a obra do cara lá de Vila Isabel.

Já no campo amizade, camaradagem, coleguismo, essa coisa toda, eu sempre me dei melhor com a mulherada do que com os homens. Não porque eu talvez tenha algum problema, do tipo gostar mais de Barbie do que de Comandos em Ação e tal. Acho que as mulheres me suportam mais do que os homens, elas tem mais paciência do que nós, os meninos, os machos-alfa e tal. Aguentam minhas infâmias, meu humor de frases feitas, minha pouca auto-estima. Provavelmente agem por instinto materno, como mulheres que são.

Lembro que minha primeira grande amiga mulher foi a Mirella, minha vizinha de infância. A Mirella era testemunha de Jeová (e se fosse hoje, eu faria piadas com tribunal e tal) e tinha uma mãe implacável. As coisas se resolviam sempre na chibata. Mesmo assim, conseguia ser adorável com todo mundo, em especial comigo. Mirella e eu conservamos a amizade até quando eu mudei da Casa Verde, bairro onde morava. Fui à casa dela algumas vezes, tivemos uma época de "ódio mútuo", o que denunciava que estavamos um a fim do outro (adolescentes têm códigos bizarros) e hoje não mais tenho notícias.

Depois da Mirella, tive outras amizades, algumas superficiais, outras com interesses que a minha imaginação púbere ansiava e minha timidez infantil rechaçava, e a maioria sincera, porém sem aquela cumplicidade fraternal de Mirella. Isso até aparecer a Lelê.

A Lelê tinha me encontrado na sarjeta, no segundo ano da faculdade. Graças à uma daquelas donzelas supraplagiadas de Martinho da Vila, eu estava na mais completa merda. Nada tinha sentido, a comida não tinha sabor, essa merda toda que acontece quando uma bigorna ACME cai na sua vida. Daí a Lelê chegou com aquele jeito carinhoso dela:

- Pô Julião, manda essa vaca se foder!

E ela foi mesmo. Se foi útil para algo, posso dizer que serviu para sacramentar uma amizade que, de uma forma ou de outra, nunca deixaria de acontecer. Não fosse ela, seria o Corinthians. Não fosse o Corinthians, seria o Duran Duran. Não fosse o Duran Duran, seria mais uma porrada de coisas.

Claro que há outras mulheres importantes. Tem Dona Helena, minha mãe, aquela que aguentou e não deu para adoção, como seria o lógico. Tem Dona Rose, que adotou, o que é ilógico. Tem minha irmã, Lilhoca, Gabi, Lívia, Helozita, Claudinha, Carolzinha, Alê, Maria, Luisinha, Vitória, a vindoura Júlia, as meninas da faculdade (exceto umas duas ou três, talvez), Celeste, Cintia, Paloma, Luana, Gisele, Roberta, Silvana, Silvia, figuras de infância e colegial no Tolosa, Madonna, Mônica Belucci, Maira Rocha, Isabele Adjani, e mais um monte porque a lista é longa.

Mas está incompleta, como quase tudo assim era até antes de chegar uma mocinha do Rio. Eu nem sei por que fui na Outs, o templo indie e tal. Aliás, nem sei o que é ser indie, e só conheço Franz Ferdinand por causa do Guitar Hero. Mas sei que fui e, diferente de tudo que eu já havia visto, ouvido e tocado, lá estava Mõnica, com seu chiadinho gostoso de se ouvir, falando e falando e falando e eu não cansando de escutar, pensando o "que será que ela achou de mim?", se eu era muito bobo, muito feio, muito pouco pra ela, até que paramos de nos falar, até que o mundo todo parou de falar, como ou sem All Star. Sim, hoje, lembrando daquele dia, sinto que o mundo todo parou, de tão único que foi aquilo tudo. Do abraço, do beijo, do "nos vemos depois" daquela noite, nasceu um amor que parece não ter fim, que parece não caber em nós dois e se transfere para o mundo todo. Nós somos capazes de acabar com a crise do Oriente Médio. Só não rola Imagine na cama porque não sei tocar violão e porque a Mô é infinitamente mais linda que a Yoko.

E hoje cá estou eu de novo, salvo por uma mulher que, desta vez, mais do que me entender, me preenche, me faz ouvir sinos e poeminhas mimimimimimi cada vez que nos vemos. É como se fosse uma coisa só, mas é tudo ao mesmo tempo. Com ela e por ela eu sou capaz de rodar o mundo, de dar um braço e de dar a vida. E quando penso que ela já levou tudo, tem sempre uma coisa nova para ser conquistada, algo que eu não sabi que eu tinha e que ela descobriu sozinha, me deixando mais babão (a ponto de gritar "eu te amo" para todo mundo ouvir, igual à música do Roupa Nova) e mais alegre (a ponto de sorrir para uma janela de MSN) do que eu jamais imaginaria que poderia estar.

A estas, que cada dia nos dão alegrias, ou dão tristezas para depois nos devolver a felicidade em dobro, eu dedico todos os dias, não só hoje. Hoje eu dedico ao Eric e ao Junior que, por serem são-paulinos, não podem ficar fora de uma piada sobre o dia.

Parabéns meninas, mulheres, senhoras. Sem vocês, eu provavelmente não estaria aqui.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckMarch 7, 2007 5:24 pm

Pobre garota, sentada na rua, chorando ao lado do seu estimado cachorro, sem saber para onde ir, para onde levar aquele par de sapatos vermelhos e brilhantes. Balbuciava, coitada, para seu mirrado cachorro, palavras de consolo:

- Não estamos mais na periferia, Rex.

Uma senhora muito prestimosa, vendo o quão triste estava a garotinha, resolve ajuda-la:

- Menina, pega o Terminal Pirituba e desce na Raimundo!
- Mas eu não sei qual é, e não tenho dinheiro…
- Analfabeta, é o amarelo! E tenta passar por baixo!

E lá foi a pobre garotinha, Dorotenilde, filha de Dorotéio com Ivanilde, seguindo o coletivo amarelo. Por recusa do motorista em deixá-la passar por baixo, foi a pé atrás do ônibus, até encontrar, apavorado, um jovem de cabelos brancos à beira da avenida:

- O que houve, moço?
- O que houve o quê? Você é minha mulher? Vai pro motel comigo?

Pobre Leão, estava atônito. A garotinha sabia que o motivo disso era a maldade de homens atrozes, mais conhecidos como Gustavo e Marinho, e só uma pessoa poderia resolver o problema:

- Vamos comigo seguindo o coletivo amarelo, moço.
- PRA QUÊ?
- No final da linha, há a coragem…
- Ela joga de quarto zagueiro?

E lá foram Leão e a garotinha, em direção ao arco-irís. Um pouco a frente, uma jovem completamente perdida perguntava para qualquer um passasse à sua frente:

- Oi, escuta. Dois mais dois são cinco, não são? Ei, me responde.

O pobre Leão escondeu-se atrás da garotinha, com medo de que fosse Betão, mais uma vez. Dorotenilde não se fez de rogada e ajudou a pobre Luciana.

- São quatro, moça.
- Não, são cinco, eu sei disso. Mesmo sem cérebro, sei que são cinco!
- Você não tem cérebro?
- Não. O pouco que eu tinha o Keith Richards fumou.

E Luciana juntou-se a trupe que seguia o coletivo de cor amarela. Trupe essa que, mais tarde encontraria Júlio, sentado na porta de um bar:

- Eu virei um éééééééééééébrioooooooooooooooooooo!
- Moço, tudo bem?
- Comigo ótimo gashtina. Probléééma é meu figo…
- Seu o quê?
- Vígado!
- O quê?
- Aquele órgão dos líquidos, cazzo!
- Ah, fígado! Você não tem fígado?
- Não sei. Visão de raio-x é que eu não tenho.

E este humorista nato também se juntou à comitiva que buscava coragem, cérebro e um coração, muito parecida com aquela outra. Quando o coletivo amarelo parou em seu ponto final, lá estava o famoso fiscal de Oz, com sua prancheta dourada e sua indefectível camisa azul.

- Vejo que o caminho foi longo para vocês. Porque não vieram de ônibus?
- Não tínhamos dinheiro, senhor.
- Ah, mas eu sou o fiscal de Oz. Eu permitiria que vocês viessem sem pagar. Você é a moça dos sapatos vermelhos, oras.
- Mas que vilho da puta!
- O que?
- Nada não, senhor. Senhor, eu e meus amigos viemos pedir algumas coisas. Eu, por exemplo, preciso de um Bilhete Único para voltar para casa. Já Leão, coitado, precisa de coragem para encarar os torcedores. Luciana, então, nem consegue mais contar quanto o Mick manda para Lucas. E o Júlio, pobrezinho, precisa de um coração.
- Cooooooração? Que?
- Você não precisa de um coração, meu jovem?
- Não, nem. Tem figo?
- O que?
- Vígado?
- Como?
- Aquela porra de órgão dos líquidos, cazzo!
- Ah, fígado! Você não tem fígado?

Ele pensou seriamente em repetir a piada do raio-x.

- Não. Nem fígado nem uma Serra Malte.

E o fiscal de Oz realizou apenas o pedido daquele jovem bêbado. Afinal de contas, faltavam cinco minutos para as seis e a cervejinha depois do trabalho era a coisa mais urgente.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckMarch 1, 2007 4:32 pm

Ela, por ele:

- Você não vai acreditar nisso! A Mariazinha me ligou perguntando se o esmalte rosa combinaria com aquele vestido lilás dela, horroroso!

Eu não acreditava naquilo. Estava lá há o quê, duas horas, e nada de levantar logo daquela maldita mesa. A música ao vivo do bar me dava azia. O público do lugar merecia uma bomba de sabe-se lá quantos quilotons em suas vazias cabeças. Eu, se pudesse, sacava uma .45 e acabava de vez com aquele sofrimento. Acabaria ganhando o Prêmio Nobel do Martírio, se tal existisse.

- Aham…
- Pois é. Pode uma coisa dessas?
- Não, não pode…

Não sei porque respondi aquilo. Aliás, eu não escutava nada além de blábláblá. Estava focado no par de coxas, usando da tática de fugir para o mais longe possível, o mais rápido.

- Sabia que você concordaria! E o pior, ela está pensando em usar aquele salto agulha cafona que ela comprou em uma ponta de estoque! Não posso deixar ela fazer isso, ela é minha amiga!

Ah, claro, muy amiga! E que diabos é um salto agulha? Meu Deus, isso não acaba nunca! Devia já chegar aqui despido, só com a minha meia preta no pé esquerdo. Se o tal do salto agulha (se veste com calça de linha para combinar?) já causou essa celeuma, uma meia preta causaria a Terceira Guerra Mundial. Por que temos de ser sociáveis? Por que?! Eu devia ter sido claro, "olha, eu só tô a fim de dar uma contigo, nada mais", mas não, eu sou o psicólogo das vazias, o maldito terapeuta das fãs de roupas roxas (fúcsias, desgraçado, fúcsias!), Mariah Carey e toda essa sorte de desgraças.

- E uma pessoa tão sem cultura, ela, tadinha. Acredita que nunca leu Paulo Coelho na vida?

Então eu levantei e fui embora.

Ele, por ela:

Meu Deus, ele é uma das coisas mais hediondas que eu já vi na vida. Não, espera, ele é a coisa mais hedionda que eu já vi na vida. Acho que eu já o vi em algum lugar. Já sei, no quinto círculo de Dante, se a memória não falha. Bom, hora de enxotá-lo daqui:

- Você não vai acreditar nisso! A Mariazinha me ligou perguntando se o esmalte rosa dela combinaria com aquele vestido lilás dela, horroroso!

Funcionou, ele se contorceu! Tomara que ele seja um daqueles machões estilo mecânico da Dutra. Só faltava essa, além de feio igual o capeta, ele vai e gosta de moda. Se ele insistir no assunto, eu pego minhas coisas, levanto e sento no colo do primeiro cara que eu ver sozinho nesse bar. Aliás, quem escolheu uma desgraça dessas?

- Pois é. Pode uma coisa dessas?
- Não, não pode…
- Sabia que você concordaria! E o pior, ela está pensando em usar aquele salto agulha cafona que ela comprou em uma ponta de estoque! Não posso deixar ela fazer isso, ela é minha amiga!

Pronto, tiro de misericórdia. Ele começa a sofrer espasmos. Aposto que se tivesse uma .45 agora, ele enfiaria o cano na boca e não pensaria duas vezes. Dá até vontade de dizer que o vermelho do sangue combinaria com a camisa dele, mas guarda esse humor negro delicioso senão ele gama e serão noites com isso. É, isso.

- E uma pessoa tão sem cultura, ela, tadinha. Acredita que nunca leu Paulo Coelho na vida?

Pronto, acabou. Ele levantou e foi embora. Meu Deus, que cara feio. Pior que isso só aquele maldito salto agulha. Puta merda.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckFebruary 27, 2007 3:58 pm

Mano Willian Deividison Shakespeare e o Romeu e Julieta.

Julieta:
Meu velho não adianta nosso lado,
Fica igual gambé no encalço,
Na calada, na surdina,
Nem fodendo libera sua filha.

Mano Romeu:
Mina, muita treta nossa história,
Pior que as prova de geografia,
Seu Capuleto é fichinha,
Perto do véio Montéquio cheio de ira.

Julieta:
Mó goela mano Romeu,
Acho melhor a gente mocozar a bagaça,
Senão nossas família embaça,
E acaba tudo no Cidade Alerta, em desgraça.

Mano Romeu:
Mas aí mina, eu tenho um plano,
Melhor do que assalto a banco,
Nóis fica de assalto na quebrada,
E quando os véio chegá, dedo mole na parada!

Julieta:
Que fita, mano!
Sobe os pano, faz teu nome!

Mano Romeu:
Já é, neguinha!
É nóis na fita!

Seu Capuleto:
Mas que caraleo é isso,
Cêis tudo na surdina, só no sapatinho,
Tudo doido pra senta o dedo,
Mas aqui na quebrada véi, é tudo sem medo!

Seu Montéquio:
Truta forte, nóis era,
Mas depois dessa fita da molecada,
Pra quebrada nóis vai de armada,
Resolver a fita, dá um fim nessa parada!

Julieta:
Doce mano Romeu,
Acaba com as fita dos mano,
Faz pagar pela mancada um por um,
Depois foge do 121!

Mano Romeu:
Mó embaço mina, já tô com o Audi nas costa,
E o assalto ao carro forte,
Que por causa do Iago deu merda,
E até causou a morte.

Seu Montéquio:
Larga essa arma, mano Romeu,
Pirituba vai chorar sem dó,
Depois do tiro, fodeu,
Como fica a entrega do pó?

Julieta:
Doce Mano Romeu,
Não permita que acabe nessa treta,
Tira essa arma da boca,
E bóra no boteco tomá umas breja,

Mano Romeu:
Mina Julieta, já era princesa,
Os véio não qué a vontade de Deus,
A gente se vê na quebrada de cima,
Junto com o Sangue No Zóio e o Lima.

Julieta:
Ó vida filha da puta!
Que senta o dedo no meu truta!
Me dá o Bilhete Único daí de cima,
Pois vou com Romeu, amor da minha vida!

Seu Capuleto e Montéquio, em coro:
Muita treta é a vida na favela,
E o amor, que os leva de nossos lares,
Ontem, crianças firmeza, sem goela,
Hoje, superstar do Notícias Populares…

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckFebruary 26, 2007 4:03 pm

- Você é destro ou canhoto?
- Canhoto.
- Pois então, eu sou destro. Não tem como dizer que este texto é a quatro mãos.
- Como não?
- Eu escrevo com a direita, você com a esquerda. Logo…
- Mas vamos digitar o texto. Logo…
- Mas eu não digito com a mão esquerda.
- Eu sei digitar com os pés. Conta?
- Acho que não. Você come com os pés?
- Quando meus braços estão cansados, sim.
- Então o correto é dizer quatro patas?
- Não, porque a partir do momento que escrevemos, nos distinguimos dos animais.
- E a partir do momento que brigamos por este pedaço de carne, somos animais.
- Isso é só um pedaço de carne. Podemos lidar civilizadamente com a situação.
- Não podemos. Somos pessoas que escrevem e comem com o pé.
- Somos não, eu sou.
- Então está aberta a temporada de caça à você?
- Não, eu sou um ser em extinção!
- É, por que?
- Porque eu escrevo e como com o pé. Nenhum animal faz isso. Assim como nenhum animal era tão feio quanto o pássaro dodô. Era isso, não era?
- O ornitorrinco é.
- Mas não é extinto.
- Tem razão.
- Bom, definido isto, como será o texto?
- O texto será animal, meu caro.
- Odeio seus trocadilhos.
- Ok, será sobre animais em extinção.
- Uma autobiografia?
- O quê sou eu? Um animal manco?
- Três patas e muitas idéias.
- Somadas a uma pata sem idéia alguma.
- Pata não, pato!
- Já virou música, vira texto.
- Não, chega de João Gilberto por hoje.
- Tá, vou acasalar.
- Com o pé?
- Também, sei lá.
- Se precisar de quatro mãos, tenho duas!
- Não, isso o torna um animal em extinção.
- O fato de ter duas mãos.
- Não, o fato de querer acasalar com a minha mulher.

E dito isto, rasgou-lhe dos pés à cabeça e fez um ótimo guisado com o último da espécie.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckFebruary 23, 2007 12:01 pm

Passando Parati, mais trinta quilômetros, surge a placa informando que você está próximo de Tarituba, um local esquecido pelos cigarros de menta, mas lembrado pelo fermento biólógico Fleischman e por quase toda a sorte de animais do mundo.

Tarituba é famosa por ser o berço da segunda versão da novela Mulheres de Areia, aquela com a música do Pepeu que tinha um lance de "sexy Iemanjá" e tal. Os dados foram fornecidos pela namorada, quase uma das fundadoras do local. Andando pelas ruas da cidade (duas, que podem ser consideradas uma, se levarmos em conta o formato em L), você passa pela casa da Raquel (que era a má no folhetim) e Rutinha (por sua vez, a boazinha da história) e, um pouco mais a frente, encontra Tonho da Lua em pessoa, sem os chifres do Marcos Frota. Como a vida não imita a arte e vide verso, Tarituba não lembra uma praia daquelas do Ceará, cheias de dunas que nos remetem à músicas da Elba, mas sim uma praia de paulistas: um pouco de sujeira, uma farofa cá outra acolá e lodo no fundo, segundo relatos de quem não tem amor à vida.

E eu não consegui avançar além disso. O texto está aqui há dois dias e não anda. Houve a greve dos pasteleiros de camarão na cidade, provocando uma revolta sem fim na casa paulistana/carioca/mineira de Tarituba. Houve uma ida ao mar, bem longe, só por causa da dona da pensão. Houve a construção de um castelo, que ruiu por ser obra de paulistas. Talvez sejam coisas inenarráveis, talvez seja incompetência minha. Certo é que não há como contar tudo sem ser injusto. Nunca havia pensado em deixar a selva de pedra e viver de caça, pesca, troca de espelhos com a civilização e noites mimimimimi te amo. Pois naqueles cinco dias eu trocaria fácil, mas tinha de ser com ela. E com pastel de camarão, porque ninguém é de ferro.

* O original é "Entre Caraguá e Ubatuba. A infâmia é minha mesmo.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckFebruary 16, 2007 3:31 pm

Quando a sexta cerveja chegou, já tinha a companhia de uma caipirinha, duas doses de uísque e uma dose de uma legítima cachaça mineira.

- Chefe! Chefe! Traz mais uma aqui!

E lá vinha a sétima, enquanto o nada era contemplado e sobre nada se pensava. Eis que, súbito, bateu-lhe a mirabolante idéia.

- Sabe meu caro, eu me casaria com você!

O pobre Raimundo, no terceiro turno como garçom, três bares em três dias, não agüentava mais ouvir o número três. Mas a idéia de um dois, um casal, também não lhe agradava.

- Hahahahahahaha, eu não sei se seria uma boa idéia. Meu pai, lá no Norte, ia arrancar o bucho de nós dois.
- Não rapá, tô falando sério. Tu me traz cerveja sem que eu tenha de pedir. Conversa comigo e entende o que eu falo, mesmo quando eu estou para lá de Pirituba. Se eu chamo Jesus de Genésio, você não corrige, e ainda por cima não critica a zaga do Timão mesmo quando o Marquinhos tá lá. Rapaz, você é a esposa perfeita!
- Pera lá, cabra safado, esposa um cacete! Além do que, eu não sou chegado nesses negócios de veadagem não!
- Mas quem falou em veadagem rapá!?
- Ué, esse lance de mulher. Tá louco que eu vou dormir contigo de noite.
- E quem te disse que casado dorme junto?
- Mas mesmo assim, esse negócio de mulher é estranho…
- Você quer o quê? Você me serve, limpa minha camisa quando eu vomito no banheiro do bar, comenta comigo como foi o dia aqui. Rapá, tu é melhor que muita esposa aí, tá sabendo!

Raimundo desistiu. Horas depois, boteco quase a fechar, Raimundo decide encarar o destino e ir até a mesa do "maridão". Os outros garçons, para pregar uma troça no coitado, resolveram não atender o homem. O bar só fecharia por obra e graça de Raimundo. Mesmo que isso lhe custasse a macheza do sertão.

- Chefia! Chefia! Fecha a minha!
- Tá aqui doutor!
- Porra? Trezentos e quarenta paus!
- Ué, você não começou com esse negócio de esposa? Pois então, 50 % é de gorjeta. E domingo mamãe vai almoçar lá em casa.
- 50% de gorjeta? Porra!
- Ah, alguém tem que arrumar o microondas, a geladeira e comprar o material escolar das crianças.
- Quer saber, chefia, eu quero o divórcio!
- Tem outro vagabundo na jogada né, cabra safado!?
- Tem nada. O problema sou eu.

E cambaleando, subiu mais umas duas ruas até outro bar. Sentou na cadeira mais próxima e, contemplando o nada, chamou o garçom:

- Chefe! Chefe! Uma Serramalte! Eu ando tão solitário desde que o outro garçom me deixou…

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckFebruary 15, 2007 3:28 pm

Tinha aquele ar professoral que algumas vezes dava raiva, mas "exalava sabedoria", como costumava dizer dos outros e, no que o cheiro subia, ia tomando conta de tudo e de todos. Dava até para ver a "fumaça", como nos desenhos com tortas de morango esperando o vento frio na janela.

- Sabe, você precisa dar um rumo para as coisas. Schoppenhauer dizia que…

E isso, o fulano "dizia que…". Sempre havia uma frase de plantão, como se tivesse uma cola por perto. Para cada situação, havia um referencial. Niestzche, Shakespeare, Machado, Seu Adão, da loja de pipas. A bibliografia era imensa.

- Eu sei que tenho que dar um rumo, mas isso é quase impossível porque…

Havia o "porque". Sempre tinha de ter um. Era avesso aos eventos que aparentemente não tinham explicação alguma. Para ele tudo tinha uma causa, uma razão. Se não houvesse, não havia porque debater. Gostava muito do "não discuto o sexo dos anjos", mesmo sendo o maior descrente que a humanidade já teve.

- Ah, mas com um ponto de vista deste, ficará estacionado ad eternum…

E o latim. Qualquer coisa era em latim. Quando não sabia, inventava. E o fazia tão bem que as pessoas realmente acreditavam que Pilatos, César, Tito, alguém havia dito.

- Bom, pelo menos espero que tenha vagas, caso fique estacionado…

A infâmia era sempre o último recurso para fugir de um assunto. Quando se via acuado pela fera das perguntas sem respostas, ou das réplicas sem tréplicas.

- Se não tiver, não pare em fila dupla…

Da concordância nasce a luz. Ou brota mais uma garrafa de cerveja na mesa. É condição sine qua non. Mesmo que bebendo quase sempre sozinho. Ou com seu alter ego, ou o que o valha.