“Dizem que bebo porque sou russo. Não é verdade, bebo porque a vodca é russa.”
Deu agora pouco em diversos jornais online que Boris Yeltsin foi fazer parte da grande mesa de cachaceiros políticos do Céu, aquela que tem Jânio, Churchill e Stálin na cabeceira e Hitler como garçom. Ok, se é do Céu eu não sei, mas isso poderemos resolver com o Papa Bento XVI em dias próximos.
Comentava com o Júnior que a morte de Yeltsin é o fim dos saudosos tempos em que o politicamente correto não campeava como se fosse a coisa mais normal e legal do mundo. Era uma época, principalmente na Rússia, em que o presidente não era um engomadinho com cara de santo e corpo de Diabo, como o Vladimir Putin. Época em que o mulherio do time de vôlei do clube da vodca era humilhado pelo maior de todos os símbolos do Clube Irmão Caminhoneiro Shell: o técnico Karpov, que a cada tempo pedido durante o jogo humilhava as moças geladas a ponto delas voltarem para a quadra chorando, sonhando com o dia em que queimariam seus sutiãs de veludo. Vai dizer que você, todo machista, não adorava ver o russo falar pra mulherada que o lugar delas era na cozinha do Gulag?
Tinha também a Máfia. Pô, a Máfia Russa era quase pior que os cappos do Coppola. Nego resolvia a coisa do machado. Hoje em dia, o que fazem os mafiosos da terra do Tolstói? Compram times de procedência duvidosa, como o Chelsea e o Corinthians.
A Rússia era o símbolo do país macho: a casa era uma zona, todo mundo bebia e a mulherada era tratada como se fizesse parte de um outro país. De preferência, da Polônia. Era o tempo em que ser metrossexual era pegar a Romanova no metrô. Tempo em que jogador de futebol bom era o Salenko, que era feio igual o diabo mas era artilheiro da Copa sem o time passar sequer da primeira fase. Era quando o mundo era preto e branco, sem essa coisa de "acho que sou Liberal mas vou virar Democrata" dos dias de hoje do PFL-DEM. As coisas eram mais óbvias, mas o que não é o macho do Clube Irmão Caminhoneiro Shell senão um óbvio.
Com Yeltsin se vai o símbolo de toda uma década de zona, cachaça, desordem. Podíamos jogar as meias no meio das salas sem sermos repreendidos pela Condolezza Rice ou pela Dilma Roussef. Era tudo ébrio, nunca sóbrio.
Nós, os pinguços de todo o mundo, sentiremos saudades de um de nossos melhores representantes. O cara que ousava cantar na posse do primeiro-ministro da Alemanha, vingando Stálin e a batalha de Stalingrado de uma forma ímpar. O cara que atendia a imprensa numa ressaca brava, e provavelmente tomava uma depois, para curar. O cara dos tempos em que os crimes políticos eram na bala, e não em um veneno mais caro do que a vodca russa. Provavelmente alguém, em um grave engano, deu água para Yeltsin beber e, como bem lembrou novamente o Júnior, a água é mortal, 100% das pessoas que bebem morrem. Algumas, inclusive, morrem mesmo com sede, como o caso dos atingidos pela Tsunami nas Filipinas ou pelo Katrina em Nova Orleans.
Saúde Boris! E guarda um lugar lá na mesa que em breve Lula e eu estaremos por aí! Como diz o cara da NET, scavushka! No tempo do Yeltsin, aquele pseudo-cossaco faria comercial da cachaça Pitú. Ê saudade.
