O complexo de Portnoy - Philip RothJanuary 23, 2007 9:38 pm

Gisele.

Gisele foi meu primeiro casamento. Eu tinha, sei lá, treze anos. Ela acho que 14, 15, com uma beleza de mulher (e não de menina como as concorrentes mais próximas) que era fascinante para aquela cambada de moleques que não tinham a menor idéia do que era sequer Amélia. Quando ela entrava na sala da sétima série, o mundo tremia para todos, desde o fortão que sempre jogava no time titular e comia de graça na cantina até o obscuro nerd que só não usava óculos por um milagre da natureza. Este era mais conhecido como Júlio.

Uma das poucas coisas na qual a vida faz questão de imitar a arte é dar momentos memoráveis para os nerds, principalmente na escola. Não que à época eu levasse o título à ferro e fogo. Eu jogava bola, deixava uma ou outra lição de lado e aprontava minhas estripulias para entrar na patota dos que falavam palavrão e, em se tratando de colégio público, talvez até filhos já tivessem. Conseguia, mas assim que o sentido aranha dos maiorais apitava e não havia nenhum nerd por perto, eu me fodia bonito entre tapas, corredor polonês e outras brincadeiras importadas de Auschwitz quando Adolf desfilava por lá. Era o preço a se pagar para andar com a Máfia. Até Nicola Brasi sofreu para ter Corleone por perto.

Até que apareceu aquela chance típica de colégio americano: o papel principal na peça a ser encenada na Semana da Gincana, ou um diabo desses. Era a chance, a única. Como bom outsider que sempre fui, me encarreguei, junto com outros amigos babões, do roteiro. Bem simples, por sinal: o ex-presidente Fernando Collor de Melo seria assassinado durante um comício.

Acontece que, talvez pela carga dramática do tema, provavelmente pela preguiça e pelo bom senso de não participar do mico do século, muita gente recusou o papel principal. Como redator, diretor, camareiro e o escambau, não poderia deixar que trocassem o tema para, sei lá, Cavaleiros do Zodíaco em Marte. Era hora de agir com pulso firme, mostrando quem é que manda, quem tem atitude:

- Eu faço o papel do Collor!

Tinha gente que quase se mijava de rir. Mas o destino, ah, esse roteirista maldito de comédias românticas estudantis, haveria de pregar suas peças.

Dia seguinte, dia da peça. Acorda, escova os dentes, veste o terno e vai para a escola. Todos, sim, todos, riem como se você fosse a mais nova anomalia do Circo Vostok, o que não deixa de ser verdade. O mundo não enxerga sua arte, sua luta para transformar jovens alienados em futuros líderes de uma revolução qualquer. Não, você é o estranho, o freak, aquele que vai levar tapas na cabeça ao subir as escadas, que vai ter seu estojo da NBA revirado. E na sua cabeça, apenas um pensamento:

- Fodeu, Gisele…

Sim, ela. Ruiva, pernas magras, seios incipientes. Não tinha os peitões de outra menina que me fugiu o nome, mas também não era uma das tábuas que costumava ver no recreio (é, recreio, e aí?). Era o peito perfeito para tudo que eu tinha até então. E os óculos, aquele fascínio de nerd pelos óculos dela, pelo tirar dos óculos. Era a Madonna, a dos quadros, até a cor dos cabelos era igual, a pele branca que parecia brilhar, como se deste mundo não fosse. E não era mesmo.

Enquanto eu ficava pensando em mil maneiras de prepará-la, com ou sem Neston, Gisele, ela, impossível, se enlaçou em meu braço, coberto por aquele paletó onde caberia dois Júlios e, sem cerimônia, anunciou para a sala de aula toda:

- Meu noivo…

E cantarolou a marcha nupcial. Diabos, como pode isso? Ela, Gisele, ali, sem o tapete vermelho, sem o padre, nem sequer aliança porque eu já tinha gastado o pouco de dinheiro que tinha em um lanche! Eu via a Abadia de Westminster, via a Praça de São Pedro, eu via qualquer merda de capela enfurnada no meio do Brasil, do mundo, do Universo Paralelo. Caraleo, era Athena de braço enlaçado comigo, trêmulo, rubro, em estado de epifania. Chupem, seus merdas, é a Gisele!

E tão rápido quanto ela fez isso, ela se desvencilhou. O namorado havia chegado na sala. Ainda pensei no risco de apanhar, mas o cara sabia que o perigo era nulo. Afinal de contas, nunca Gisele sequer cogitaria enlaçar seu lindo braço branco no daquele infeliz que tinha apenas uma camiseta da escola e vivia a correr feito uma besta no pátio, chutando uma lata de alumínio massada e gritando "Gol".

Há um tempo descobri que ela anda meio estranha, para não dizer feia, segundo me contaram. Dizem que em quase nada lembra àquela menina, ou melhor mulher, da sétima série. É normal, todos mudam. Eu, por exemplo, não tenho mais uma única camiseta para ir à escola ou o que o valha. E já tive o privilégio de poder comer comida japonesa no intervalo da faculdade. Sem contar que agora uso óculos, um dos apetrechos que adornavam aquela face branca e sardenta de Gisele. E que aproveitaria melhor aquele momento para dizer, em alto e bom som:

- Eu sou foda rapá! Eu caso e vocês pegam.

Porque espírito de porco eu nunca deixei de ser. E acho que nunca vou deixar.

O complexo de Portnoy - Philip RothJanuary 22, 2007 3:54 pm

Vencedor do maior prêmio de jornalismo do país há dez anos, Miguel caiu em desgraça quando descobriram que fraudara uma matéria, a cobertura de um daqueles "julgamentos do século" que acontecem a cada ano, pelo menos. O caso do pai acusado de matar a esposa, a filha e o cachorro renderia ao jornalista outro prêmio, não fosse o fato de que o suposto finado cachorro estava em cativeiro na casa de Miguel e o pai era tão inocente quanto qualquer querubim. Era mais um dos casos em que o repórter vira notícia. Até os fatos de hoje, Miguel mais bebia e fumava e saia com mulheres estranhas do que respirava. Não duraria mais um ano.

José Ferreira Santos era um homem simples. Veio do interior para a capital em busca da sorte grande, como tantos outros. Acabou como lixeiro de um grande grupo de investimentos e, entre uma recohida de outra das mais de mil latas do complexo empresarial, achou um daqueles chamados "documentos comprometedores". Era também um dos únicos a saber do tórrido caso de amor entre o Presidente da compania e o Diretor Financeiro, graças a uma das horas-extras nunca remuneradas. Por sorte estranhou o tal documento. O primo, bacharel em Direito, ajudaria na leitura dos tais papeís encontrados.

Osmar Aparecido Santos, primo de José, não queria que houvesse menção de seus laços familiares. Acaba de passar no concurso para Promotor Público e precisava do seu "peixe-grande", mas nunca imaginara que o pescaria em um dos inúmeros (e acusadores de seu passado pobre) churrascos na laje que o primo realizava na periferia da cidade. Quando poderia imaginar que daquele rio de latas de lixo seu primo, recompensado mensalmente com módicos 300 paus, pescaria tão fabulosa truta. 300 paus, sem benefícios. E sem hora-extra!

O Presidente da compania era casado e pai de dois filhos, o que não impedia de amar incondicionalmente o Gerente Financeiro, e não por causa dos resultados deste último. Já tivera outros casos, mas nada tão intenso, com tamanho "superávit", como gostava de dizer. Tinha fama de ser duro, intransigente, centralizador. Era o macho-alfa das reuniões de balanço, amendontrando todos os funcionários do RH, Contas a Pagar e afins, mas sempre exaltando os resultados de Alceu, seu gerente de Finanças. Herdara a empresa da família, cujo avô, fundador da compania, tinha laços estreitos com a Igreja na figura do Bispo Manuel Avagarda que, reza (ops) a lenda, era sucessor de Torquemada nos modos, seja à mesa ou não. Bom pai, bom marido, empresário excepcional, queria mesmo era ser Catarina. E não era em homenagem à esposa, mas sim à czarina.

Alceu Franco, economista, vinha desde os dez anos de idade tal qual o rocket man. De presidente do Grêmio Escolar à Gerente Financeiro da compania, passara pelas mãos dos maiores sábios em economia do país, gênios do mal em sua maioria. Sabia como falsificar um balancete assim como Barba Negra sabia saquear, mesmo com a possibilidade do pirata ter em mente motivos muito mais nobres. O céu não era o limite. E para chegar à cobiçada presidência, faria o que necessário fosse. Inclusive o citado superávit.

A Morte não era cadavérica, como nos acostumaram a vê-la. Nem assumia tal forma na hora final, de modo a aterrorizar o incauto que se via de passagem para qualquer outro lugar. Era apenas mais uma funcionária do "outro mundo". Ou melhor, funcionário; terno preto, camisa branca, gravata mais escura que o breu. Acumulara trabalho de outros dois colegas. Um se foi por estafa. Outro, teve uma crise de estresse. A Morte foi buscá-los, apesar de todo o conflito trabalhista que isso poderia gerar e de todo o burburinho que rolaria no sindicato. Estava prestes a ter um colapso e só queria ter mais alguns benefícios, como vale-refeição, por exemplo. Seria um ano difícil.

O complexo de Portnoy - Philip RothJanuary 19, 2007 7:59 pm

Ganhei quinze minutos. Tem gente que com isso faria fama. Outros, que já a tem, deitariam na cama. Eu venho escrever um texto. Poderia, até, ir tomar uma cerveja, mas o expediente não acabou e o cheiro poderia subir, ser notado. Vai que tem algum religioso fervoroso por aqui.

Esses quinze minutos poderiam ser gastos na Livraria Cultura. A coleção de pockets books da Cia das Letras tem coisas novas. Se meu Playstation estivesse aqui, seriam duas, até três músicas de Guitar Hero. Depende de quantas vezes eu precisaria reiniciar a canção por causa do meu perfeccionismo besta.

Acabei descendo para ver a rua. Dez minutos gastos. Sem contar a espera do elevador. Quando se tem pouco tempo, não deveríamos ter de esperar. Poxa, já há pouco, e esse pouco deve ser gasto em algo útil. Sei lá, escrever um conto, plantar uma muda, fazer um filho prematuro. No fim, quinze minutos, diferente daqueles em que se faz fama, não dão para nada. Esperar o café sair da máquina, esperar o elevador, descer, olhar, respirar, sentir o pulso da cidade, lembrar que o sol está eclipsado pelo prédio, cogitar comprar um pacote de cookies na máquina de doces, olhar a barriga e desistir. "Ou isso ou a cerveja". Mesmo porque, os dois não combinam.

Em quinze minutos eu já fiz algumas merdas. Para outras, dediquei todo meu dia. E há ainda outras que hei de dedicar uma vida toda. Se levarmos em conta as estimativas na África, quem sabe até umas três vidas somadas. Mas nunca, em momento algum, algo tão ruim e sem sentido quanto essas palavras brotou de forma tão rápida, em míseros quinze minutos. No fim, o que parece muito é, na verdade, muito pouco. E este é o clichê mais profundo que você vai ler neste espaço. Se é que já não leu em outro lugar, durante seus quinze minutos de folga, de ócio, de qualquer coisa que dependa apenas de quinze minutos.

Droga, eu queria pelo menos meia-hora.

O complexo de Portnoy - Philip RothJanuary 16, 2007 4:00 pm

Desaparecido desde a última sexta, Júlio pode ser a única vítima de desmoronamento de trabalho em São Paulo.

Da redação em Reykjavik

Da última vez que foi visto até hoje, dois dias depois, há apenas um depoimento sobre Júlio César, possível vítima do soterramento de trabalho que ocorreu na última sexta-feira em São Paulo.

"Estava ali ó, caído na sarjeta. Aliás, minha sarjeta", diz José Torres da Costa e Silva, que se auto-intitula irmão do ex-presidente da República e é um famoso indigente da Avenida Paulista. "Ele saiu do bar sei lá que horas, mais torto do que eu quando estou realmente bêbado", completa Costa e Silva.

As autoridades continuam as buscas pelo corpo. O Governador do Estado, José Serrote, afirma que não perdeu as esperanças de encontrar Júlio vivo. "Esperamos que a sociedade paulistana não tenha perdido um cidadão tão importante para o Estado", disse. O chefe do Corpo de Bombeiros também lamenta o desaparecimento de Júlio. "Precisamos achá-lo com vida. Ele já incendiou uma casa quando criança e não pode ficar impune!", bravejou o comandante.

A equipe de busca no local usam de Serramalte para encontrar o desaparecido. Segundo os técnicos do Valladares, se Júlio estiver vivo, chegará a tona ainda esta noite. "Um pouco bêbado, é verdade, mas esperamos que ele ao menos pague a conta", diz o garçom Buné, chefe da equipe.

A família e os amigos de Júlio acampam no local. Segundo um dos amigos, que não quis se identificar, trata-se apenas por conta da boca-livre. "O Júlio nunca faria isso se fosse vivo. Que sua alma descanse em paz", lamenta o entrevistado, dando em seguida um gole na cachaça Espírito de Minas servida pelo governo aos parentes e amigos do soterrado.

O complexo de Portnoy - Philip RothJanuary 12, 2007 4:49 pm

Era um fetiche doido, absurdamente doido, pela "morena do trabalho". Beirava aquele ridículo que todos nós temos, algumas vezes, de encenar situações: encontros no elevador, encontros no setor financeiro, uma pausa para o café onde ela o convida para dividir a cabine do banheiro no meio do expediente. Os fetiches eram diversos.

Um dos poucos que levavam a comida de casa para o trabalho, sentia-se de certa forma constrangido, uma vez que o status social dos prédios do Itaim era, justamente, o que você carrega na sua maleta. Comida e animais vivos eram encarados como uma versão selva de pedra daqueles bolivianos apinhados em ônibus com galinhas, carneiros, enfim, toda a sorte de fauna. Mas aquele almoço haveria de ser diferente.

No exíguo espaço de cerca três por três metros, cabiam duas pessoas, mais frigobar, forno microondas e forno elétrico. Ególatras não podiam almoçar acompanhados. Para a mocinha gordinha do almoxarifado, diziam as más línguas, a companhia era uma tarefa hercúlea. E naquele dia ele pensava que seria justamente isso: o ególatra ou a mocinha.

Eis que, ao abrir a porta, se depara com a sua morena. Ela almoçava e, puta merda, comia como se fosse um anjo, seja lá como os anjos comem. Aquela estrutura comum aos contos românticos apareceu como se fosse oxigênio. Sim, além de ser abundante, era indispensável. Entre uma gaguejada e outra, soltou o "boa tarde", "posso?", "com licença" que o momento pede e sentou ao lado dela. Era o princípio do fim.

Tinha perdido a mania de confirmar o que carregava na marmita. O motivo era a desconfiança que aquilo representava para sua mãe. Longe de ser uma mãe judia ou a célebre matrona italiana, não deixava de parecer tal qual um mafioso com seus códigos de honra. Olhar a marmita era profanar um dos sentimentos mais nobres que se estabelece entre duas pessoas, era ofender todas as gerações anteriores de mães que, com todo o zelo do mundo, preparavam o almoço de seus filhos como se fosse um banquete a ser oferecido aos deuses. Aquele bom e velho bife equivalia, sem dúvida alguma, ao sacríficio de mil touros em nome de Zeus ou qualquer um que fosse.

E quando sentou e abriu o pote com o mais suculento de todos os almoços, quase caiu de susto. Ali, espalhados sobre o arroz, seis coxas de frango, daquelas pequenas, o esperavam para serem devoradas. Ela já tinha visto, tarde demais. Era aquilo ou ir embora sem a chance de sua vida.

Há um acordo tácito, mundialmente famosoa apesar de oculto, na qual coxas de frango foram feitas para se comer sozinho ou com pessoas as quais você tenha o mínimo de intimidade. Coxas de frango das pequenas então (aliás, de onde diabos vem aquele frango anão?), são para ser degustadas em um quarto escuro. Isso porque é humanamente impossível comer aquilo sem o uso das mãos. E comer com as mãos na frente daquela mulher era o mesmo que assinar o acordo Ribbentrop-Molotov sem ler, como fez Stálin.

Munido de garfo e faca, ele virava e desvirava aquele punhado de ossos. Carne havia, mas ao alcance das mãos. Poderia ser um sinal para ela. "Tenho mãos agéis". Ou então, algo humanitário, "olha, não deixo carne para ser jogada fora, pobres crianças africanas". Mas não, não poderia arriscar. Vai que justo naquele dia ela pensa em convidá-lo para jantar com a família.

E assim foi o almoço, a eterna batalha contra o Frango Maligno pelo coração na nobre donzela. A cada investida de garfo e faca o frango, como se vivo estivesse, dava-lhe um olé e contra-atacava saindo pela borda da tampa do pote, da qual fazia uso como prato anexo. Era como um ataque pelos flancos, o maldito frango se portando como Alexandre Magno. Empenhado em fazer bonito, não podia nem ao menos falar sobre o tempo. Mesmo porque falar sobre o tempo em uma sala 3 x 3 é tão bizarro quanto comentar sobra a trilha sonora do elevador com aquele seu colega de trabalho meio surdo. Quando terminou a refrega, os ossos jaziam no vasto campo do guaradanapo branco. O fim de uma civilização e o começo de uma nova era. Ele, orgulhoso, mostra à sua Dulcinéia que dera cabo de seis agentes do mal. Ela, impassível, continuava a comer seu bife como se uma Milady, daquelas de cavalaria e tal, assim fosse.

Cabisbaixo, saiu do campo de batalha. "Tchau, boa tarde, bom almoço", "obrigada". Da próxima vez, não tinha dúvidas: comeria com as mãos! As duas! E ainda soltaria aquele arroto que é motivo de orgulho em banquetes das mil e uma noites.