O Chefão - Mario PuzoNovember 7, 2006 12:43 pm

O publisher da revista, iluminado por belos e límpidos lustres - dignos do "essa porra vai cair na minha cabeça", dito certa vez pelo pai do Ronaldo Nazário, vulgo Fenômeno, no Castelo de Chantilly - agradecia às presenças ilustres:

- O Presidente, o Governador, o Presidente da Câmara, o Prefeito, o Ministro…

Na linha de frente, mais autoridades. Presidentes de autarquias, coordenadores de campanha, senadores da República, defuntos econômicos. Na segunda linha, empresários; aquele dos calçados, o rei do aço, o barão do aço, os construtores, os banqueiros, comércio, varejo, moscas varejeiras. Estava formado o front de guerra. O publisher, no púlpito, anunciou:

- O país é dividido em uma minoria que controla os bens de consumo, de comunicação, o dinheiro que o país produz, e a maioria pobre que não têm acesso à isso. É preciso mudar essa condição, é preciso que trabalhemos para o futuro do país. E para tal, somente esse presidente aqui é capaz. Lembro como se fosse ontem a greve dos engraxates contra a ditadura dos tênis All Star, onde este homem ascendeu. Eu fui o primeiro a entrevistá-lo, ainda em pêlos negros, não como o estadista de hoje.

A platéia aplaudia, enquanto o publisher cambaleava sob efeito de alguma coisa que não a lucidez. Sobre plácidas cabeças, um teto abobadado de madeira cobria o amplo salão de uma torrencial chuva. A acústica do lugar isolava o dilúvio e outras coisas que separam aqueles que dormem na rua dos que dormiam durante a estranha e presa fala do prefeito, que aparentava ter a língua maior que a própria boca. A noite seria longa para os "dois países" supracitados.

Subiram os premiados, pessoas admiradas. Recebe o prêmio, cumprimenta a autoridade, desce. O imigrante alemão foi chamado para, em nome de todos, falar sobre o ambiente econômico do país pós-eleições. No púlpito, deu números, falou de spread, taxa de juros, inflação. Quando foi falar do povo, o sotaque de colono veio à tona:

- Devemos serrrr assistencialistas até cerrrrto ponta. Não podemos tirrar a dinidade do povo. O trrrabalho salvar!

Lembrou um pouco àquela frase de Dachau, o campão onde conterrâneos do empresário faziam experiências curriculares, como bem sabemos. Arbeit macht Frei (O trabalho liberta). Palmas para ele, que não disse "um só palavra" sobre como "liberrrrrtar" o "outrrrrro ladô" do "nação".

Então veio o presidente, para delírio da massa. Massa? Enfim, no palco, ele era um gênio, ele fazia rir, ele falava coisas constrangedoras aparentemente sem constranger. Ele era o Rei que, cercado pelo séquito, sentia-se como que iluminado, tal qual o Rei Sol. Periga, conforme a analogia, perder a cabeça, se já não a perdeu.

- Eu não quero dividir o país, eu quero somar. Na minha trajetória, eu vi muita coisa acontecer no mundo, no país. Ao mesmo tempo, em se tratando de ineditismo, nunca na história desse país houve um governo tão inédito quanto o meu, que não tem vergonha de chamar banqueiro de companheiro. Eu chamo! Chamo de companheiro o dono o Irajú, o dono do Tedesco! Nao tenho vergonha de dizer, senhores e senhoras presentes, que nunca falei mal de banqueiro na vida! Inclusive, eu apoiei os banqueiros na minha última corrida presidencial. Todo mundo falava mal, mas eu ia a favor. Quando, no passado, eu não apoiava os banqueiros, ninguém votava em mim. Agora, meus adversários fazem o mesmo, e todo mundo vota! É estranho isso…

E a platéia, com um riso gostoso, aplaudiu o Presidente, que disse não se alongar mais por conta do tempo escasso de mandatário da Nação. Ninguém também estava muito afim de longas palavras sobre abismo social e como os empresários poderiam melhorar isso. O cocktail estava pronto, regado a scotch, canapés, frutas silvestres, essa coisa toda. Seria uma noite longa para aqueles que se importam, e muito, com o futuro do país. E graças a Deus, Alá, Abrahão, eles se reúnem uma vez por ano. O que seria de nós se, mais do que serem premiados, eles não falassem sobre nosso futuro?

O Chefão - Mario PuzoNovember 6, 2006 5:07 pm

O Lima chegou ao Escritório montado num belo alazão branco, disposto a salvar a Secretária Executiva das garras do terrível Papelada e à tempo de tomar o choppinho do Happy Hour, a famosa taverna do ilustre Garçom. De espada em punho, encontrou pela frente o infame Office-boy e sua legião de jogadores de fliperama, desentortadores de clipes e compradores de papel carbono em pó. Brandiu a arma e, em nome da lei, da bravura e do holerite no fim do mês, em segundos acabou com o infame grupo, restando apenas o Boy, que fugiu correndo antes que o banco fechasse.

Dona Mirtes, dizia a lenda, cuspia fogo pelas ventas, algo tão apavorante quanto sua temida lança com espinhos em uma das extremidades, chamada de vassoura. O Lima entrou cavalgando pelo corredor, onde Mirtes, A Terrível, aguardava do outro lado, em posição de combate. Um rápido e certeiro golpe no flanco do alazão o tornou rubro no mesmo instante. Lima, num átimo, saltou do animal em direção à jugular da terrível Faxineira; com o escudo, protegeu o peito. Com a espada, deu cabo daquele monstro que, vendo o fim próximo, praguejou:

- Nunca mais sua mesa será limpa, seu Lima!

Depois de pequena prece ao pobre Coletivo, o alazão branco, Lima seguiu à pé de encontro ao Gerente, o Maldito, um antigo Rei que caiu em desgraça quando as ações do Reino Empresa caíram na Bolsa. Destinado a viver de pequenos feudos no Escritório, o Gerente ansiava por conquistar todo o Reino e, para isso, o apoio ao terrível Papelada era essencial. Reunido o séquito, o implacável Gerente disse que Lima não poderia passar, caso contrário cabeças rolariam. E rolaram, pois Lima, excelente espadachim, ambidestro e tudo mais, derrotou o temível grupo dos Puxa-Sacos, não conseguindo chegar ao Gerente, pois o mesmo estava em uma reunião com a equipe.

E eis que um riso de escárnio surgiu, após a batalha contra os Puxa-Sacos. Ele, Papelada em pessoa, veio para o duelo final contra Sir Lima. O nobre cavaleiro sentiu as pernas bambearem, mas segurou firme e, por São Vale Refeição, não poderia deixar que nada de mal acontecesse à Secretária Executiva nem ao choppinho do final de tarde. Papelada, impiedoso, valeu-se logo de formulários como a DARF, o CAGED e outros como IRPF e o IPTU, de propriedade dos sábios diretores do Reino Empresa. Lima, defendendo-se com galardia, via suas forças se exaurindo, enquanto a pobre Secretária gritava por socorro na mais alta sala do mais terrível Conjunto Empresarial. Papelada, por sua vez, atacava sem dó, até que viu o pobre Lima subjugado e, sem clemência, deu-lhe com um bloco de notas, todas a terem o valor do IPI corrigido, o que destruiu o escudo do nosso herói, deixando-o a mercê da mais terrível arma já usada pelo homem, o infame Relatório.

Vencido pela burocracia, o cavaleiro teve de fazer serão. E como nem tudo é conto de fadas nessa história, Sir Lima não recebeu hora extra. E também não tomou choppinho com a Secretária.

O Chefão - Mario PuzoNovember 1, 2006 10:00 pm

O Pedro juntou dinheiro de tudo quanto era jeito. Vendou os livros, os filmes, a casa, o carro. Perdeu esposa, o filho, parou de fumar, de beber, de jogar. Pediu grana emprestada para o pai, a mãe, o tio e, pasmem, até o cunhado. Quando contou toda a soma, pegou o avião e rumou para a Praça Vermelha, em Moscou.

O avião pousou e ele não pode acrediatr que estava na Rússia. Não sabia o que ia comer, mas pombas, aquilo já foi um país comunista! Deve ter algum lugar para gente desprovida, sempre fica um ranço. Se até o Brasil tinha, a Grande Mãe haveria de ter também.

Pegou a condução, em direção ao mausóleu de Lênin. Eufórico, imaginava o que dizer para o Grande Líder da Revolução Socialista de 1917. Imaginava a cara de inveja do Abreu, do Lima e do Vladimir. Caraleos, o Vladimir! Com um nome desse, ele ia morrer de inveja.

Comprou uma dessas máquinas fotográficas descartáveis que os turistas usam e foi em direção ao túmulo do líder soviético. Já tinha ensaiado o discurso, tinha até chorado no ensaio! Não podia acreditar naquilo tudo. Apertou a maleta que carregava junto ao peito, para espantar o frio. Chegou ainda no horário de visitas e aguardava impacientemente na fila.

Quando da sua vez, dois guardas estavam prostrados próximos ao túmulo. Ele sorrateiramente enfiou a mão na mala, tirando um 38 já gasto. Aprontou a câmera, encostou a arma em uma das mais famosas carecas do mundo e disparou, fazendo voar serragem para tudo quanto é lado.

- Mooooooooooooooooooorre vermelhinho!

Depois do incidente internacional, pouco sabíamos sobre o Pedro. O governo brasileiro não queria ele de volta. O pessoal da Rússia queria matá-lo, exceção feita ao presidente do país, que não agüentava mais o defunto no armário, quase que literalmente. Pedro ficou durante anos realizando trabalhos forçados na Sibéria, achando que isso tinha caído junto com o Regime. Era out em Paris ser exilado na Rússia.

Anos depois o governo russo se encheu e mandou o Pedrão de volta. O Vladimir esperou no aeroporto para dar-lhe um murro de Berlim. Assim, bem infame mesmo. Acabou que o Pedro entrou em um partido de esquerda e virou líder dele no Congresso. Até o dia em que ele foi flagrado rompendo o painel de votações, sendo que já havia rompido algumas estagiárias da Casa. Acabou cassado e hoje dá palestras sobre democracia e governos de esquerda. Mas jura que poderia, com muito know-how, versar sobre com temas como "100 pontos para quem acertar o Vermelho" e "Como alvejar comunistas e fazer inveja ao PFL". Sempre diz isso quando está mais cheio de uísque do que o Rio Volga de água.

O Chefão - Mario PuzoOctober 31, 2006 1:44 pm

Júlio César

O Julinho era uma criança daquelas bem pentelhas. Tinha uma mania terrível de juntar todos os brinquedos, perfilados por patente militar, e partir para cima dos brinquedos de outras crianças, sempre gritando:

- Pela Glória de Roma!

Então a mãe corria, pegava-o pela orelha e, típica matrona italiana, ralhava com ele:

- Não sei sem a sua sandalinha, Julinho. E se chegar perto do Rubicão, você vai entrar na cinta!

Aquele menino, um dia, se vingaria do mundo; claro, até o tropicão feio nas escadas do Senado.

Maria Antonieta

Mariazinha era a moça mais prendada da nobreza. Cerzia como poucas e cozinhava de forma única. Graças às viagens de sua família não tinha prato francês, austríaco, inglês ou mouro que ela não soubesse fazer com um tempero ímpar. A Imperatriz Maria Teresa, preocupada com o destino serviçal da filha, resolveu apelar para o conselheiro real, que sempre sabia como resolver os problemas do Reino:

- Simples, minha senhora. Na França tem uma casa de brioches que é um horror. A Vigilância Sanitária desistiu de fechar depois da quinta vez, porque não dá mais nem para entrar. Três dos 18 fiscais que foram até o local saíram vivos. Assim sendo, podemos passar a receita do quitute para a pequena Antonieta e, em seguida, ela desiste dessa coisa de ser pobre.

E Mariazinha nunca mais cozinhou, depois do maldito dia em que toda a nobreza debochou dos seus brioches. Tempos depois, porém, ela haveria de encontrar utilidade para eles. A ponto, inclusive, de perder a cabeça.

Adolf Hitler

O Isaac, melhor amigo do Adolfinho, era o mais sagaz aluno da escola. Conhecia tudo sobre os clássicos, debatia política com os mais velhos e era considerado o melhor jogador de taco da história da Aústria. Quando Adolfinho andava com ele, sentia como se fosse dono do mundo, mesmo quando era motivo de risos das crianças do Beth Shalom, a escola pública de Viena, que sempre cantavam, naquele coro chatinho:

- Isaac é Caifás, Adolfinho é Jesus Cristo.

Isaac sabia que Adolfinho não era apenas o sidekick, o Robin, o Sancho Pança de sua história. Reconhecia o valor do amigo e sabia que seu futuro seria de muitas glórias em vôo solo. Só não sabia da amargura que ele guardava das outras crianças do Shalom, e do quanto isso aumentaria quando anunciou ao melhor amigo:

- Adolf, semana que vem vou para a Polônia, meus pais vão trabalhar por lá.

Inconformado, Hitler parou de falar com Isaac no mesmo instante. Só se dignou a vê-lo novamente uma semana depois, na estação de trem. Com lágrima nos olhos, prometeu:

- Um dia nos veremos de novo, na Polônia!

Tempos depois ele foi à Polônia. Mas não para ver Isaac, como bem sabemos.

O Chefão - Mario PuzoOctober 27, 2006 4:35 pm

Levantou da cama sem vontade alguma. Pensou em ir desgrenhado ao trabalho, dentes precisando urgentemente de escova e creme dental; imaginou a cara do chefe de "mas que merda é essa", a carta de demissão, o olhar desconfiado dos colegas no trabalho. Quando olhasse direito para o que ocorria, veria que tinha exagerado, indo de pijama.

Entrou no carro e o maldito não funcionava. Tentou uma, duas, três vezes. Desistiu e foi de metrô, prensado pela porta e pelos passageiros. Sentiu-se claustrofóbico, desceu duas estações antes e foi a pé, observando a "decadência da civilização moderna" e pensando em quão idiota e vago era o termo. Desistiu de olhar os pobres na rua, de dar esmolas, de ansear por um carro novo, pela loira, alta e linda, do outro lado da rua. Desistiu, naquele instante, da vida.

Chegou pontualmente atrasado. O chefe, cabelo escovinha, colete bege, gravata bizarra, olhava com ar de reprovação e desdém, aquele típico "por essas, e outras merdas, que eu sou seu chefe". Era um bosta, só fazia chegar no horário e lamber à exaustão o Comitê, aquele bando de vagabundos que, uma vez por mês, se reunia com os funcionários para decidirem, juntos, "o futuro da organização". Interrompiam seus dry-martinis, seus bourbons, essa merda toda, para dizer ao pobre do Zé, três conduções para chegar em casa, que ele era um dos responsáveis pelo superávit de milhões da empresa. E o Zé, coitado, seis reais mais pobre no fim do dia, não tinha menor idéia do que era superávit.

Olhou a figura patética à sua frente; a maldita gravata com losangos, e dentro desses losangos, ursos pandas com flores. Pensou em desatar a rir, em desarrumar os cabelos, em apertar as bochechas do chefe dizendo "não te esqueço no Dia das Crianças, tá?". Gargalhou por dentro com a cena, mas se conteve e apenas acenou com a cabeça.

- Já sei, o trânsito, né?
- Pode ser…
- Ok. Me manda o relatório até o final do dia. O Doutor Olavo vem hoje.

O imbecil havia notado, aquele era um dia de merda. Ou talvez a figura dele refletida na janela deu-lhe a idéia do estado de espírito. "Meu dia é um almofadinha lixo com gravatas de urso panda", pensou, enquanto olhava a pilha de papéis que haveriam de ser relatados para o Doutor Olavo até as seis, sete da noite.

O Doutor Olavo era a figura do capitão do mato do século novo. Não tinha família, religião, mulher gostosa ou cervejinha que fizesse ele liberar seus "negros" mais cedo. Chibatando seus escravos com a língua ferina, falava em horas extras, abono, férias e demais benesses do mundo do trabalho tanto quanto o maldito Ghandi sonhava em fazer guerra comendo um suculento bife. Rasgava a CLT com os dentes, o infeliz.

Terminou o relatório, após as mais longas três horas de toda a humanidade. A cada dois parágrafos, inseria um erro cabeludo de português, quando não um palavrão, igualmente cabeludo. O negócio com a empresa de transportes, por exemplo, tinha ido "à puta que o pariu". Sabia, de antemão, que o führer Olavo ia ler aquilo no mesmo dia em que daria aumento de cem por cento para todo o escritório. Era o seu dia: produzir algo que seria engavetado e esquecido, mesmo sendo "do caralho", conforme constava nos escritos. Saiu mais cedo, sufocado que estava. Via milhares de pandas com flores nas patas, salvando espécies em extinção. O mundo era mesmo uma grande merda naquele dia.

Chegou em casa, garrafa de Smirnoff no criado mudo, junto com Crime e Castigo em russo. Deitou, afrouxou a gravata, apalpou o 38, sonhou com o chefe sendo esmurrado por ferozes pandas de soco-inglês nas patas, viu o Doutor Olavo sendo açoitado pelo escritório inteiro, em uma das reuniões que definiam "o futuro da organização". Envolto na epifania, pegou a arma e a levou à boca, ouvindo um sonoro click.

- Porra!

Click, click, click. Conferiu, estava carregada. Click de novo. Mais uma vez. Tudo normal, não tinha emperrado, nada disso. Estranhamente, ela não atirava. Nada de projétil saindo do cano, nada de miolos na parede do quarto, nada de cama suja de sangue. "Meu dia é uma porra de uma bala que não acaba com essa merda", pensou.

E logo depois sorriu, imaginando o projétil teimoso saindo da arma e esmigalhando mão e chicote do Doutor Olavo. Parou para gargalhar com a frase "a minha felicidade está ao alcance de uma maldita bala!". Nada de pandas, senhores de engenho, mundo patético. O dia dele era só uma frase de efeito qualquer.