O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 22, 2006 3:52 pm

Entra a vinheta do Plantão. Na mesa, dois copos, duas cervejas, dois cigarros. O papo era cinema, futebol, mulher, essas coisas. O apresentador informou, em tom de respeito a quem vai mais cedo:

- Está internado em estado grave o ator Jece Valdão, protagonista de inúmeros filmes e seriados de TV. Conhecido como o símbolo do cafajestismo antes de se converter e virar evangélico…

- Taí, o mundo perde o último dos cafajestes! E o maior!
- Que nada. Lembra do Almeida, aquele que comeu a Cissa, sendo que era compadre do casamento? Daí o Piva foi lá tirar satisfação e, depois de conversar com o cara, foi pra casa e encheu a mulher de bolacha…
- Pô, eu lembro. O Almeida falou que não tinha nada a ver, que ele tinha respeito pela Cissa, e ainda falou que se fosse mulher dele, ia apanhar para aprender a não espalhar boato.
- E tinha também o Mário, lembra. Aquele que pegava a irmã de todo mundo, engravidava e saía fora. Era conhecido como "fazedor de tios"…
- Eu sei, meu sobrinho é a cara dele.
- Porra!
- Não, é o primeiro, não o Pedrinho. Esse é sua cara.
- Pô, e o Lima, que dizia toda semana que o pai morreu para recolher a caixinha do velório. Cansei de ver ele tomando birita com o velho depois de passar a sacolinha.
- Grande filho duma santa!
- Pois é…
- Pô, teu pai também era o maior cafa.
- Pois é, e tua mãe também.
- Ah, minha mãe fugiu junto com ele por amor.
- Sei, sei. Amor ao dinheiro do meu velho.
- Que dinheiro? Teu pai perdia tudo no Bingo, aquele degenerado.
- É, e foi lá que ele conheceu tua mãe.
- Enfim, estamos fugindo do foco. Lembra do Kennedy, era outro cafajeste.
- Mas esse morreu, pô! Estamos falndo dos vivos.
- Ah é… mas ainda tem o Han Solo. Será que o Harrison Ford é cafa?
- Sei lá, eu não sou nerd…
- E tem o Hugh Grant, o Chirac, o Lula, o FHC, o Mainardi…
- Putz, é mesmo. O Jece é só mais um cafajeste.
- Que Deus o guarde.
- Tá loco? O Hômi não guarda cafajeste não…
- Mas ele se regenerou, virou evangélico!
- E daí? Uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Você acha que a Monique Evans vai pro céu?
- Já tá no meu faz tempo.
- Tanto cafajeste bom pra morrer e vai logo o Jece?
- É mesmo. Devia ir teu pai.
- Ou tua mãe.

E em algum outro canto da cidade as esposas dos interlocutores aproveitavam o tempo vago para comprovar que, ao contrário do que pensam, Jece não é o último dos cafajestes, muito menos o maior. Mesmo porque ainda temos Paulo César Pereio para desmentir tal afirmação.

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 17, 2006 7:55 pm

-Um copo d’água, por favor!

Ninguém acreditava naquilo. O cara entrou no bar, pose de maldito John Wayne, encarou todo mundo como se fosse, sei lá, Dirty Harry em pessoa e chega no balcão para pedir um copo d’água?

- Com gás ou sem? - perguntou o barman, se é que ele pode ser chamado dessa forma, dada a condição da espelunca.
- Com gás! - seguido de uma estrondosa batida na mesa.

Não podia ser verdade. No meio daquele bando de homicidas que fariam corar o Charles Mason, o cara pede água com gás?

- Ah, vê também um Fandangos de queijo!

O Pablo, peruano filho da puta de ruim, camarada do Fujimori que matou no mínimo três quando o ex-presidente mandou invadir um prédio e dar fim em todo mundo, levantou, indignado:

- Escuta, muchacho, que porra é esta?
- Água e Fandandos. Quer um?
- Tá loco, pancho! Zé, me serve um Nescau!

E sorvendo em um só gole o Nescau, Pablo sacou sua pistola d’água e, sem dó, deu três tiros no estrangeiro, que caiu morto no assoalho. Feliz com o desempenho de sua amiga inseparável, sacou do bolso um cigarrinho PAN, para descobrir depois que chocolates derretem quando levados ao fogo. Os homicidas nas outras mesas voltaram todos para seus milk-shakes, escutando o melhor da trilha sonora do Cocoricó. Pancho, ao sair do bar, foi levado no triciclo da polícia para a delegacia mais próxima, que tinha a mais incrível aquitetura já feita com blocos de Lego na história da humanidade.

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 16, 2006 1:59 pm

- Aí tinha um judeu, um romano e um papagaio…
- Jão, já te disse, nada de piadas com judeus.
- Tá bom, Jota Cê.
- Fala patota!
- Matheus, meu velho, tudo certinho?
- Belezura! Se liga, Pedrão passou aí?
- Nada, faz tempo que não vejo, por quê?
- Pô, o cara negou três vezes que me deve umas cervejas.
- Ele sempre tem dessas, é foda.
- Aí Jota, e as novas?
- Ah, to com umas idéias aí. Esse lance de sair curando as pessoas e tal, isso poderia render algo maior para a humanidade, saca? Além do mais, tô boladão com a parada do meu velho.
- Que tem o Zé?
- Não, anda rolando um boato aí de que ele nem é meu velho. Coitado, pai é quem cria.
- Ta certo, e o seu Zé é maior figuraça. O Império Romano daria um braço para ter um pai como ele.
- Pois é…
- Mas aí Jota, explica o lance de fazer render os milagres. Vai filmar a parada toda e por no Youtube?
- Não Tomé, é algo maior, ando pensando em difundir uma nova filosofia de vida, baseada no amor ao próximo.
- Ah ta, um site de pornografia. Legal.
- Não Matheus, não é isso. O lance é converter nossos irmãos em Deus, manja, propagar o bem, uma corrente…
- Corrente! Puta merda, não manda pro judas@hotmail.com.
- Por que, Jão?
- O Escariodes fica puto com essas coisas. Outro dia mandei uma que falava sobre as mulheres dos Imperadores, engraçado pra caceta, e ele mandou que eu fizesse um PowerPoint da minha mãe.
- Sem noção…
- Total. Mas e ae, Jota, se não é vídeo do Youtube, corrente de email, nem site pornô, qualé da parada?
- To pensando em uma nova ferramenta, algo revolucionário, algo que mudará para sempre a História da humanidade, que converterá todos em um só credo de paz, amor, esperança, fé, união, mas sem que isso sejam apenas palavras…
- Vai, desembucha.
- Tô pensando em montar um site. Not a blog, manja, a fuckin website.
- Show!
- Só é!
- Fechou, sexta-feira reunião de pauta lá em casa. Cada um leva pão e vinho.
- Fala galera!
- Grande Judão, falávamos de você agora mesmo! Seguinte, sexta tem reunião lá em casa. Leva pão e vinho.
- Reunião sexta? Eu vou, mas tô meio duro, beleza?
- Nem esquenta. Tô ligado que até lá você arruma trinta dinheiros…

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 13, 2006 1:39 pm

1ª parte.
2ª parte.

- Sabe o que eu mais gosto em igrejas? – Perguntou a Fé, enquanto o Hóspede prestava atenção no decote.
- Dos santos? Das imagens? Da reza? Das reuniões com os alcoólatras?
- Não, da sensação de poder que ela nos dá. Eu poderia agora mesmo trepar contigo neste banco, sob o olhar de súplica do filho d’Ele. Eu sou a Fé.

A idéia o animou, mas ele tinha um trabalho a fazer. Com a arma apontada para a Fé e a mente pendendo mais para os dois mil reais do que para o par de seios, ele não pensaria duas vezes em explodir os miolos dela ali mesmo, na Casa de Deus.

- Sejamos práticos, querida. Diz onde está minha grana e eu deixo você converter mais algumas ovelhas. Se recusar, vai ser seus amigos serafins, querubins e joaquins bem mais cedo.
- Guarde a arma, querido, e conversamos melhor. Muito bem, o seu maior problema é confiar nas pessoas erradas. Aquela moça, por exemplo, a do Motel, te enganou. O Visitante idem. Todo mundo te passa para trás…
- Diga algo que não é novo para mim ou hoje haverá sangue. Não o de Cristo, mas fazer o quê, não sou perfeito.
- Escuta bem, valentão. Segue a moça do Motel e fica de olho no marido dela, que você deve conhecer de um bom tempo.
- Não sei quem é o corno…
- Como não? Ele vive aprontando contigo. É o famoso Destino.

Ele levantou, impassível com as palavras da Fé. Por dentro, remoia-se de ódio pelo seu maior inimigo desde o início dos tempos, aquele que sempre lhe pregava as piores peças. Sentiu um azedo subir do estômago pela garganta e quase vomitou de raiva; saiu andando e, após uns cinco passos, olhou para a Fé.

- Gracinha, só mais uma coisa.
- O quê?
- Seguindo um sábio conselho, eu não vou mais confiar em ninguém.

E dois tiros atingiram a escultural Fé, certeiros a ponto de fazê-la cair aos pés de uma estátua do Apóstolo Tomé, aquele que um dia não a teve. O Hóspede riu com a ironia e, saindo da Igreja, acendeu um cigarro. Era hoje que o Destino havia de pagar sua dívida. Ou, assim como a Fé, ele sucumbiria àquela .45, que nesse momento era quem o guiava pelos verdejantes vales da sujeira da Lapa.

(Continua)

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 10, 2006 4:58 pm

Estava tudo pronto, conforme o script. No alto daquele telhado, eu estava com o meu rifle. Lá embaixo, cercado por uma multidão que, logo, logo, será dispersa, estava ele, o proeminente líder das massas. Tinha acabado de chegar de trem com alguns amigos. Cambaleava um pouco, deve ter tomado algumas cervejinhas. Esses caras nunca aprendem.

Conferi a mira telescópica. O vento daria um desvio de um centímetro, para esquerda. Meu pai sempre dizia que desvio à esquerda era sinal de mau agouro. Mas ele casou com a minha mãe, então não deve ser levado muito a sério. Principalmente por causa do meu avô. Saudades da família.

Empunhei o rifle, estava já morrendo de tédio. O combinado era atirar quando ele descesse de cima do trem. Isso, o bigodudo. Quantas vezes eu escutei que não deveria esquecer, era o bigodudo. E não tinha como errar, o bigode do cara era maior do que a tal da Revolução que ele dizia ser um dos líderes. Acho que vou matar uma pomba para distrair. Talvez eu a dê como comida para os pobres e, um dia, vire alvo de outro colega de profissão.

Devia ter trazido alguém comigo. Normalmente não podemos fazer isso, porque testemunha é algo difícil de lidar. Certa vez um cara, matador famoso, levou a esposa. Na primeira, tudo bem. Na segunda a mulher, fetichista, queria dar uma no telhado, enquanto esperavam. Era italiana, sabe como esse povo é. Treparam na porra do telhado e, quando viram, o Rei e a Rainha tinham ido embora. Ele inventou uma desculpa esfarrapada de que a arma emperrou e conseguiu outro trabalho. Levou a mulher de novo e dessa vez, ok, xeque-mate. Dois anos depois, a mulher entregou o carcamano. Ele tinha levado uma siciliana para o telhado.

Porra, o celular? Quem liga numa hora dessas? Puta merda…

- Alô?
- Boa tarde senhor, meu nome é Vanessa e eu sou do Programa de Fidelidade TIM.
- Sim…
- O senhor gostaria de estar conhecendo nossa promoção?
- Não!

Não é de foder? Acho que vou jogar o celular para o alto e atirar nele. Melhor que matar uma pomba. Pronto, vai descer do trem. Não, o filho da puta tropeçou de bêbado, que merda.

Deu fome. Devia ter trazido um lanchinho. Se bem que também não é recomendado, os caras do Sindicato são um saco. O Alemão, que era um baita matador, só fazia o serviço cercado de caixas de Donuts. Problema é que o chocolate deu um revés no relógio intestinal do figura, causando fusos-horários que ele desconhecia. Quando voltou do banheiro, o presidente daquela Republiqueta de Bananas tinha ido embora, para se encher de cocaína no Palácio Presidencial. A sorte do Alemão – é, além de bom, ele tinha sorte – foi que o pó fez o trabalho dele.

Puta merda, o cara não desce. Será que ninguém pode subir e passar o rodo nesse merda. Como esses caras gostam de falar bobagem, enquanto esse bando fica escutando sem entender porra nenhuma, gritando “Viva a Revolução, Viva a Revolução!”. Droga, porque não me chamaram para matar o John Lennon. Ou pelo menos o Kennedy, que estava de carro. Era chegar, atirar e ir embora. Até o Ali Acga tinha coisa melhor do que eu, e olha que nem profissional ele era!

Mas são uns merdas também. Tem tanto nego com história boa que ninguém conta. O Portuga, putz, que figura, o maldito lisboeta que prendeu o bigode no rifle. E tinha também o Rabino, judeu tão unha de fome que, às vezes, deixava de matar para economizar bala.  O Paraíba também, um figura e…

Caralho, ele está indo embora! Porra, putaquemepariuderodinhaslaser! Volta puto, fala mais alguma merda, agradece a Xuxa! Merda! A porra do carro, é blindado! Olha, o puto, está indo embora! Porque ninguém atira nesse merda!? Porra, tenho que parar de divagar! Onde será que deixei meus remédios? Será que eu trouxe? Droga, está na gaveta de meias! Ou será no porta-luva? Será que o tintureiro levou meu terno? Quando eu olho para o abismo, o abismo olha para mim? Olha, uma pomba! Clic, clic, clic. Merda, as balas ficaram na caixa de remédios!

Play Station: o final desse post, e única parte decentemente escrita dele, é obra e graça de duas figuras: Eric Gancho e Lívia, a futura Chefa. A eles, meus mais sinceros cumprimentos e votos de Feliz Natal, Próspero Ano Novo e um ótimo dia do Servidor Público. Obrigado.

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 9, 2006 3:34 pm

- Não!

Espera, espera. Respira fundo. Olha para os lados, estrala os dedos. Ok, eu não lembro direito o que houve, o por quê daquele circo todo, daquela arma apontada para a minha cabeça. Havia dois caras no bar, desses tipos grandões, com cara de segurança. Obviamente não eram, uma espelunca daquela não precisa de tal. Ou melhor, até precisa, mas para cada um dos presentes, não para a espelunca em si.

O fato é que os dois chegaram à mesa. Tinham aqueles fones de agente do FBI e usavam óculos escuros, isso às onze da noite. Juro, vi eles me chamando de Mr. Anderson, uma versão tupiniquim e bem capenga do Matrix. Vestiam ternos da Colombo, e eu os vi descendo do Morro Grande, no ponto de ônibus em frente ao bar. Será que eu sei kung-fu?

Os dois estavam em pé, em frente a uma cadeira. Se eu souber mesmo de artes marciais, posso chutar a cadeira em um enquanto esmurro o outro. Não, nem pense nisso. Passei a mão na lateral da jaqueta, eles olharam e, seguido de uma piscadela, o maior (se é que isso era possível) diz:

- Não tente, tudo vai ficar bem…

Droga, eu só queria um cigarro. Porque eu não os deixo em cima da mesa, como uma pessoa normal?

O menor, três vezes a maldita Muralha da China, falou logo depois:

- O Somoza quer te ver.

Somoza? Que Somoza? O cara do Panamá, República Dominicana, sabe lá Deus que lugar do maldito Caribe? Eu lá tenho cara de Sandinista?! Nunca gostei muito dos “istas” não. Sinal de Fé, pura bobagem. Por Deus!

- Que Somoza? Não, não, eu não queria…

Tarde demais, devia lembrar quem era o Somoza. Eu estudei História, mas sempre odiei o Caribe como um todo, o Somoza em particular. Era isso, era o ódio ao Somoza. Eu virei um maldito Sandinista. Enfim, vale dizer que é sempre bom, para recobrar a memória, um bom soco na boca do estômago, ainda mais quando Pé Grande em pessoa executa o serviço. Fosfosol uma ova!

- Tá bom, tá bom, eu vou ver o Somoza. Devo ir de fraque.

Droga, tenho que parar de ser infame.

Eu não sei como, mas couberam os três em um Fiat 147. Larguei uma espelunca por outra, e esta última estava superlotada. Aqueles dois caras mereciam o maldito Prêmio Nobel de Como Ocupar Espaço em um Carro. No rádio, Smoth Operator da Sade, e os dois armários cantando em falsete. Eu preciso parar de beber, o quanto antes.

Um galpão, em uma rua deserta. Guardei uma moeda para o barqueiro, tão certo da morte quanto do fato daqueles dois serem casados há anos. Só quem completa Bodas de Ouro canta Sade em falsete tão bem. Um lindo casal bicha, será que com filhos? Paramos em frente e eu finalmente respirei. Enfiei a mão no bolso e o marido falou:

- Não tão rápido, Billy the Kid.

Esse porra deve ser do Ministério da Saúde, só pode. Desisti de fumar, em consideração aos meus pulmões, rins, baço e demais partes que seriam destroçadas pela Gloria Gaynor anabolizada. Passamos por um corredor escuro, com goteiras, ratos e algumas seringas pelo chão. Mickey Mouse chapado de heroína. No final, uma porta, luz em torno do batente. O George Michael abre, deixo a Gloria passar. Queria ter sido padrinho do matrimônio.

O tal do Somoza está sentado e tem a cara do Mussolini. Fico meio perdido, lembrando da Dona Agnes, a professora de História, e no zero que ela me daria. Recobro o foco a tempo de falar com Somoza:

- E ae, certinho?
- Mais ou menos, uma hérnia foda por aqui, e você?
- Ah, o de sempre, pileque, o maior casal gay do mundo me seqüestrando, essas coisas comuns.

Os armários soltaram as mãos e vieram para cima de mim. Coloquei a mão no bolso da jaqueta e o Casal 20 parou. Puxei um cigarro, acendi, traguei, tossi; o tal do Somoza falou:

- Conhece o Mário?

A imagem era perfeita. Mário, boné vermelho, bigode quase do tamanho dos guarda-costas do Somoza, carcamano maldito, aquele que pegava a Princesa Peach e, nas horas vagas, o próprio Toad, que quase sempre virava chá.

- Não!
- Droga, eu nunca consigo fazer essa piada.
- Putz… mas e você, conhece o Abreu?
- Que Abreu?

Lembrei porque tinha uma arma apontada para a minha cabeça.

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 8, 2006 4:09 pm

Com sede na Rua Boa Vista, em um escritório do Centro de São Paulo, a Ordem dos Cavaleiros Estagiários foi fundada em 1328, quando o lendário Cavaleiro Sir Xerocador Junior III resolveu trabalhar muito recebendo pouco dinheiro em troca. A afronta de tal organização trouxe receio ao trono do Rei Patrão IX que, ao mesmo tempo em que adorava a idéia, via nela um altruísmo perigoso para seus planos de expandir por toda a Europa algumas filiais do seu reinado de terror, com base principalmente na burocracia e na completa aniquilação do culto a São Vale Refeição, protetor do almoço dos trabalhadores. Era, sem dúvida alguma, um grande filho de uma Santa, o Rei Patrão.

 

A Igreja Católica Apostólica Escrituraria, à época, também não concordava com o ideário dos Estagiários. O Papa Gerente IV, num arroubo de loucura, chegou a declarar que a Ordem havia sido enviada, via malote, pelas hordas infernais do Sindicato, de modo a corromper o mundo trabalhista de então. Demonizados por patrões e alguns empregados, os Estagiários passaram a correr o mundo em busca da Empresa, utopia que dizem ter nascido de uma revelação dada pela Santa Hora do Almoço à Sir Junior, quando este ainda era um eremita que distribuía currículos por toda a Europa.

 

O grande palco da busca pelo empreendimento perfeito se deu no desconhecido Oriente. Em 1450, plenamente estabelecidos no Velho Continente, os Estagiários viram que, por ordem divina, deveriam catequizar os bárbaros Camelôs, como eram conhecidos os trabalhadores da distante região. Mascates por natureza, os Camelôs desconheciam completamente o grande livro da Consolidação das Leis Trabalhistas, base teológica dos Estagiários. Para eles, bastava uma pechincha e uma porta. Sendo assim, em 1452, a terra sem leis trabalhistas virou palco de uma das maiores batalhas por um emprego em toda a história da humanidade: as famigeradas Guerras do Cartão de Ponto, batalhas onde até o Rei Patrão XIII, o Infame, participou pessoalmente, em companhia dos Estagiários, para vencer o perigo dos Trabalhadores Autônomos, representados pela figura dos Camelôs. Mais de cem anos se passaram até que Sir Abridor de Cartas Sênior XI conseguisse vencer todo o Exército Mascate de Salad-Cigarros-do-Paraguai-al-Din, o temido líder do exército oriental, e seu braço direito Law Colchão King Size Chong, o maior vendedor quinquilharias à R$ 1,99 que a Mongólia já viu.

 

Após as Guerras do Cartão de Ponto, a Igreja não mais viu serventia para os bravos trabalhadores que, por um salário de miséria e por horas trabalhadas suficientes para desentortar todos os clipes do mundo, lutaram em nome de Santo Holerite. Tratados como parias pela sociedade em geral, os Estagiários caíram no ostracismo, relegados hoje a auxiliar àqueles que um dia os trataram com tamanha injustiça. Mas o Espírito de Xerocador Junior permanece vivo nos corações e mentes desses maltratados pela História que, entre um clipes desentortado e uma cópia em mimeógrafo, entoam salmos de louvor à tão bela e trágica história, ainda a sonhar com o dia em que a Empresa deixará de ser utopia para se estabelecer no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista.