Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 22, 2006 5:05 pm

Coincidência foi o Jorge e o Abreu, depois de vinte anos, se reencontrarem na porta da creche dos filhos. Saíram para beber, relembraram histórias, marcaram programas família, viram os filhos um do outro, concordaram que a Elisa era a mais gostosa da turma, mesmo vinte anos depois. Essas coisas da nostalgia.

Coincidência foi o Mário encontrar o diário do pai, um quase-famoso escritor, sendo vendido em uma livraria sebo à dois reais, dar uma limpada, uma lida, outra lida, uma revisada, chacoalhar o excesso de texto e, quando limpo o bastante, publicar e virar best-seller.

Coincidência foi a da Ana, que num dia de chuva achou seu guarda-chuvas predileto ao sair da estação do Metrô, na mão de um guarda. Mostrou a identidade, que batia com a ficha que tinha no guarda-chuva (era a paranóia, é claro), além de uma foto com o mesmo em Paris. Foi para casa sem se molhar.

Coincidência foi a Clara e o Alceu se odiarem por pelo menos três quartos de suas vidas e, anos depois, terem se reencontrado e dormido juntos, acordando casados. Ele tinha um filho de outro casamento, o Jorge. Ela, era mãe do Abreu. Os dois estudaram juntos, em tempos de cólera, o que dá uma dupla coincidência.

Agora não foi coincidência encontrar a ex-namorada no ônibus - toda feliz e sorridente, flertando com um dos passageiros - e dar um tiro no joelho dela. O nome disso é amor.

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 21, 2006 4:04 pm

Era o tipo de pessoa normal, seja lá qual o ranking, por meio de leis, atos, enfim, qualquer coisa que estabeleça isso. Um quadro clínico bom, alguns amigos, alguns amores, alguns ódios. O alemão talvez diria "humano, demasiado humano" para ele. Gostava daquela mesa de bar, daquela avenida, do palavrório alheio. Ia sozinho, mas não se sentia só, o que era estranho.

Um dia se intitulou como "observador da vida alheia". Achou um tanto sem graça, escolheu "Darwin de boteco". "Kinsey, sem o sexo", também seria uma boa, talvez por conta de ser um observador assíduo. No fim, tudo muito intelectual, ele pensou. Foda-se, é esse mesmo e ponto. "Esse qual? Esse ou aquele? Os dois, quando e onde convir. E há de convir? Se não der, use "xereta", "bochicheiro" e afins".

Confabulava com os seus pseudônimos na mesa do bar. Pensava numa tese e lá vinha ele mesmo com a antítese. Ele ou outro. E depois um outro, que buscava uma síntese para tudo. Voltava para a tese, antítese, síntese, sem nunca chegar a um denominador comum. Tinha um número aproximado cinco personalidades diferentes, com variações do mesmo tema. Ia desde de Darwin a Kinsey, passando por Marx, Vinicius, Capote: no fim eram a mesma coisa: malditos observadores, câmeras à mão, gravadores na lapela, esguios, quase invisíveis e indecentemente curiosos. Não era flagrado observando, e sempre olhava, com alternância de Kubrick para Brian de Palma; ora câmera aberta, ângulos faciais, ora dois quadros separados de uma mesma cena, câmeras angulares.

Um dia ela olhou para ele. O suspense, talvez horror. Foi pego com a objetiva em mãos. A cara, no melhor estilo James Stewart, neón piscando na testa que a janela era para lá de indiscreta. Um quê de prazer que só Grace Kelly poderia proporcionar. Claro que sem os malditos Givenchys e afins. Mas ela era outra loira gelada, era a Kim Novak. Tombava a cadeira como se fosse cair do prédio. Ou talvez a Janet Leigh, a faca pulando da mesa na jugular, colo, seios. Não, era Novak. Glacial, introspectiva, observadora.

- O cara da mesa 36 vai pedir ela em casamento…
- Nada, eles são irmãos, vai informar que a mãe faleceu. Ela, por sinal, não vê a mãe há uns 12 anos.

A conversa foi interrompida pelo choro na mesa 36. Dona Alice, dois filhos, dois netos, dois tiros à queima roupa.

- Como?
- Simples: ele disse irmã.
- Um bom ouvido e um olho clínico.
- Por que do casamento?
- A caixinha na mão direita.
- Renovação de votos.  Esposa morena, alta. Ele vem aqui às terças e quintas.
- E você?
- Quase todo dia. Você, até onde eu vi, só falta aos sábados e domingos. É de fora?
- Não, outros ambientes a serem vistos.
- Jornalista?
- Não, psicopata. E você? - ele brincou.
- Assassina em série. E vouyer nas horas vagas. - ela copiou.
- Mais um aqui e vira sindicato.
- Podemos chamar o cara da 53. Matou meia família, pai, mãe e um dos quatro filhos, porque eles não tinham fósforos.
- Meia família por causa de um cigarro?
- Não. Matou meia família com tiros. Se tivessem fósforos, ia o restante e a casa.

Conversaram por longas horas e pararam em um hotel qualquer. Ele subiu, ela também, roupas foram tiradas. Ao fim de uma noite inteira, ele a olhou: calcinha, sutiã, seios perfeitos, boca sibilando "tchau". Arma na mão esquerda. Mão direita rosqueia o silenciador.

Dois tiros. Um acertou a testa, outro o peito. Profissional, sem dúvida, a ponto de, no dia seguinte, ir ver os irmãos dele chorarem sua morte. Valdo, o que morreu, deixou dois irmãos, dois sobrinhos, dois olhos e dois rins para o banco de órgãos. Dois pares de sapatos, dois cigarros no maço, dois fósforos, duas miligramas de vodca. Duas balas…

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 20, 2006 4:54 pm

- Rapaz, tu lembra do Almeida?
- Opa, grande Almeida! Jogava na meia-esquerda, cracaço!
- E o Jeremias?
- Hahahahah, o Jerê rapaz! Dia desses eu o vi na rua, casou e tudo o mais!
- Tinha também o… o…
- O Claudião! Grande figura! Sinuqueiro de primeira! Nunca vi matar tanta bola em toda minha vida!
- E o Adamastor, hein?
- Pois é, outro figuraça… uma morte muito sentida…
- Pois é… e nossa turma era bem legal, né?
- Demais da conta!
- Mas ainda bem que agora você apareceu, rapaz…
- Pô, brigado Pereira. Também fico feliz em revê-lo!
- Ah, não é por isso não. É porque eu não lembro demais porra nenhuma! Aliás, quem é o Pereira?
- Hahahaha, seu sacana…
- É sério, não lembro do Pereira.
- Como não, rapaz… é seu nome!
- Meu? Onde eu tô? Quem é você?
- Pô Pereira, eu sou o Brito, amigo do Almeida, do Jerê, do Adamastor!
- Ah sim! Pô Britão, mal ae…
- Tá bom Pereira, sem problemas…
- Mesmo?
- Mesmo!
- Então pára de tremer, cáspita!

Todo dia o Brito tinha de contar a mesma história, além de sempre pagar a conta do bar. Já o Pereira, não agüentava mais aquele intruso. Mesmo porque, ele sempre derramava a maldita cerveja.

Los Angeles Cidade Proibida - James Ellroy 1:41 pm

O leitor Rogério Castilho mandou essa:

Outra é uma das melhores páginas que a Internet já nos deu nesse mundo, a Desciclopédia, enviada pelo Junior para fazer com que este mije de tanto rir logo de manhã. O artigo sobre os emos da inveja de tão bom! Como vocês poderão perceber hoje, pelo visto, eu não trabalho.

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 18, 2006 5:32 pm

A Dona Maria tinha 60 anos e quatro filhos. Veio do Nordeste ainda jovem, batalhou horrores e conseguiu criar toda a criançada à base de feijão com farinha de mandioca. Já teve uma Brasília, um Corcel II e um Del Rey. Viajava uma vez por mês para a terra natal, "para mode de ver as crianças". Não declarava o Imposto de Renda há dois anos, gostava de tomar Serra Malte e abominava filmes legendados.

O Agenor tinha trinta e sete. O avô tinha morrido em Monte Castelo e o pai queria ter ido para o Vietnã. Ele, se pudesse, iria para a Guerra do Golfo, a primeira. Já tinha matado alguns pássaros e atirado na perna de um ladrão que tentou levar embora seu carro. Gostava de Wagner e de ditaduras. Dizia que o Brasil é um país frouxo, que o Lula era um "analfabeto" e que os comunistas ainda iam acabar com o mundo. Tinha crises nervosas terríveis.

A Marilia era estudante de letras, 22 anos, cabelos loiros, olhos castanhos. Namorava, lia Dostoiévski, gostava do Kubrick. Pensava em um dia refundar a VPR e chamar a ministra Dilma Roussef. Achava o Capitão Lamarca uma grande pessoa e o Che uma figura extraordinária. Tinha um busto do Lênin no quarto e só conseguia fazer amor com o namorado quando escondia o líder comunista dentro do armário. Sentia ojeriza ao totalitarismo dos pais e queria mudar para Havana o quanto antes. Gostava de cigarros nacionais e do Bob Dylan.

O Pedro, 18 anos, já tinha visto Velozes e Furiosos dez vezes. Achava o Schwarzenegger um grande ator dramático e lia a Veja para "se inteirar do que acontece no mundo". Estudava Educação Física e jogava de meia esquerda no Unidos do Jaguaré. Namorava a Bianca e pagava a Jaciara de vez em sempre. Tinha dois irmãos, um deles adotivo.

O Mário, 13 anos, vendia balas no farol e morava embaixo do Viaduto General Olímpio da Silveira. Filho de mãe solteira, pouco foi à escola. Gostava de jogar bola na quadra do metrô Marechal Deodoro, nas horas vagas, e de tentar ler os jornais com o pouco que aprendeu na porta das bancas. Seu maior sonho era ir em um rodízio de pizza para "comer até cansar". Vendia uma caixa, na média, de Halls por dia.

O Seu Joaquim tinha 47 anos e dois filhos. Caiu no sono perto do farol e o ônibus só parou quando destruiu dois carros e pegou mais dois pedestres na rua. Único sobrevivente do trágico acidente, a única coisa que ele dizia, quando do depoimento à polícia, era:

- Participe do orkut para ampliar o diâmetro do seu círculo social.

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 15, 2006 4:47 pm

Se tinha uma pessoa que não precisava ser interrogada, essa pessoa era a Víuva Negra. Afinal de contas, era a síntese da Blogagi, que nasceu justamente de uma reunião realizada tempos atrás na casa dela, filho de pais desconhecidos.

Não se sabia ao certo o por quê de Viúva Negra, visto que não era casada. Os íntimos diziam que era o humor. Perdia o amigo em um acidente de carro, mas não perdia a piada sobre o tamanho da cabeça, principal causa da tragédia. Por ser metódico demais, Barollo resolveu arriscar, convocando a Viúva para umas perguntas de rotina. Entrou na sala apoiando o paletó no ombro, chapéu panamá na cabeça. "Cubano? Chamo ele de Fidelito?" pensou a Viúva, que acabara de colocar o cigarro no cinzeiro, filtro rubro, tal qual as unhas, tal qual a cara do detetive.

- Onde você estava na noite de 18 de Setembro?
- Numa cama imensa…

Conforme Barollo havia cogitado, a Lôra mentiu.

- Fazendo o quê?
- Coisas de blogueiros…

Mais uma mentira.

- Você sabe por que eu te chamei, né?
- Claro, para saber como eu consegui 470 vitórias consecutivas no Mario Kart!
- SÉRIO? TÁ BRINCANDO!

Era o começo do fim de Barollo, que mordeu a isca feito um pato. Muito burro, patos não mordem iscas.

- Sério… - disse a Viúva, segurando de forma lasciva o cigarro com o filtro vermelho.
- E como você fez isso? COMO? COMO?

Barollo esmurrava a mesa, em um estado de epifania. A Viúva colhia os louros da vitória.

- Um dia eu te conto…
- Quando?
- Quando você lembrar o por que da minha convocação até aqui…

Era o golpe final. Barollo esqueceu completamente o que a Viúva fazia ali. Sua mente ia de Mário para Luigi, de Luigi para Mário. Nunca havia pensado tanto em encanadores em toda a sua vida, mesmo na época em que trabalhava no sindicato.

- Er… hum… bem… alguém morreu, acho eu…
- Antes ele do que eu! - disse a Viúva, justificando o apelido ao deixar a sala.

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 14, 2006 2:31 pm

O nariz do detetive sangrava. Do outro lado da mesa, a mão do interrogado, vermelha, denunciava que a cor vinha de sangue alheio. Essa mesma mão manchou o isqueiro prateado do detetive, que esboçou protesto:

- Mas que mer…
- Shhhhhhhhhh!

Vem um flashback. Uma mão pequena, pequena, média, média, grande, imensa. O rosto virando uma massa disforme, graças ao impacto. "Porque o puto do Newton não diz que dói tanto!", pensou o detetive. Era tarde, e a tese se defez. Ação sem reação. "Chupa, Newton!"

- O que você quer, afinal de contas?
- Estou interrogando todos para…
- Interrogando?

O estralar de dedos e costas não negava. Só faltou uma loira gostosa de biquini curto para indicar, com a placa, que vinha segundo round.

- Conversando com todos os membros do Blogagi. Como você sabe, ele foi assassinado.
- E?
- E? Você é um membro da Blogagi!

A mesma mão vermelha voou em direção ao colarinho. "Eu mato o imbecil que não algemou até a nuca desta besta!".

- Escuta aqui, seu merdinha! Enquanto você lia DC, e DC fede, com seus amiguinhos da Comic Con, eu fazia massa de pão com vagabundos que vinham com perguntinhas imbecis! Então eu não vou perder a porra do meu tempo conversando com um detetive de merda igual você!

"Que vontade de fumar um cigarro!". Foi tudo que veio na mente do detetive no momento. O isqueiro prata, sujo de sangue, causou asco. Pensou em parar de fumar no mesmo instante.

- Tá bom, tá bom… sejamos práticos pois isso tá virando palhaçada. Apanhar cansa!
- Tá… o que você quer saber?
- Quem matou o Blogagi!
- Eieiei, mais baixo… eu acho que foi o Eric. Ou o Théo. Eu sempre confundo, os dois são a mesma pessoa.
- Algum motivo especial?
- Tá querendo apanhar?
- Ok, ok, não saia da cidade por um tempo. E lembre-se de que…

O detetive titubeou.

- Lembrar de?
- Lembre-se de que você é uma peça importante na investigação, por conta de suas suspeitas.

Nota mental: nunca, nunca, interrogue alguém mal-humorado.

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 13, 2006 5:45 pm

A sala estava quente. A fumaça acumulada por quinze cigarros, transformando o cinzeiro numa chacina de filtros, alcatrão e nicotina, fazia com que o detetive não enxergasse a outra ponta da mesa. Ou talvez isso era uma grande desculpa que ele usava para disfarçar que o que realmente embaçava a visão eram as pernas da interrogada. Esta, por sua vez, suava loira e alta no ambiente insalubre.

- Onde você estava na noite de 18 de Setembro?
- O de sempre. Casa e uma cama imensa.

A têmpora do detetive deu sinais de que um colapso era iminente.

- Algum álibi?
- Não, era imensa e ocupada por uma só pessoa, eu…

Outros órgãos deram sinal de que um colapso era fato.

- Sei, sei… a velha tática da cama imensa e sozinha.
- Ah tá. Eu, inocente, preciso cantar um policialzinho de merda que não consegue interrogar quando vê um par de pernas, para poder me safar do assassinato de um blog.

E inocentemente o vestido verde, com um decote capaz de trazer paz a qualquer guerra, quase se abriu por força do olhar dele. Ela, também inocentemente, mostrou que pernas falam muito mais do que palavras. Ele era um merda, ela tinha razão. Perdeu a fala de repente. Afrouxou a gravata, lembrou de quando atirava contra os alemães na Segunda Guerra e imaginou que arma potente seria aquele decote e aquela saia na mão dos Aliados.

- Ok, ok, não saia da cidade por um tempo. Lembre-se que estamos de olho em você.
- Tudo bem. Lembre-se que minha cama é imensa e que está calor…
- Éééé… só mais uma pergunta…
- Qual?
- A que horas você costuma tomar banho?

E cada vez mais o oficial Barollo via-se num infinita teia de intrigas. E via-se também numa certa cama imensa.

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 12, 2006 4:30 pm

A luz forte incidia diretamente nos meus olhos e condenava que a ressaca estava brava. O cavanhaque do detetive, no estilo revolucionário dos anos 50, e o cachimbo davam um ar de museu de cera da Madame Toussaud à sala de interrogatórios. O trago me lembrou que, com mais uma daquelas, poderíamos dar adeus à todas as Vias. Lácteas ou não.

- Júlio, as dúvidas pairam sobre você…
- Impossível, por diversas razões.
- Quais?
- Primeiro que um cara que se orgulha de ter 14 blogs, que conta os mortos e tudo o mais não faria uma coisa dessas. Segundo, o Blogagi era um dos únicos blogs respeitáveis do qual eu fiz parte até hoje. Terceiro, eu…
- Você?
- Eu nunca, nunca, mataria um blog!

A cadeira voou para o canto da sala. O murro na mesa fez com que café, cinzeiro e donuts fossem ao chão, assim como a minha pressão. A cena de Fidel Castro esmurrando Fulgêncio Batista me veio na mesma hora…

- Júlio, pela última vez: QUEM DELETOU O BLOGAGI?
- Eu… eu… eu…
- QUEM?! Fala "eu" mais uma vez! Fala! Fala que eu dou um tiro no dedão do seu pé, se você disser "eu" mais uma vez!
- E…
*click*
- Então… olha, eu tenho um Pentium 100, com 8 Mega de memória e conexão discada. É mais ou menos como se eu tentasse matar o Kennedy com um estilingue! Além disso, eu…
*click*
- É, nunca faria uma coisa dessas com o Blogagi. Meus melhores textos estão lá…
- Ok, ok. Por enquanto você está dispensado! Não saia da cidade por uns dias. E lembre-se que todos os seus passos serão vigiados.
- Oficial Barollo, só uma coisa…
- O quê?
- Me arruma uma fralda?

Não percam a incrível saga em busca do assassino do Blogagi, um jovem blog vítima de uma conspiração internacional. Breve no Youtube.