Era o tipo de pessoa normal, seja lá qual o ranking, por meio de leis, atos, enfim, qualquer coisa que estabeleça isso. Um quadro clínico bom, alguns amigos, alguns amores, alguns ódios. O alemão talvez diria "humano, demasiado humano" para ele. Gostava daquela mesa de bar, daquela avenida, do palavrório alheio. Ia sozinho, mas não se sentia só, o que era estranho.
Um dia se intitulou como "observador da vida alheia". Achou um tanto sem graça, escolheu "Darwin de boteco". "Kinsey, sem o sexo", também seria uma boa, talvez por conta de ser um observador assíduo. No fim, tudo muito intelectual, ele pensou. Foda-se, é esse mesmo e ponto. "Esse qual? Esse ou aquele? Os dois, quando e onde convir. E há de convir? Se não der, use "xereta", "bochicheiro" e afins".
Confabulava com os seus pseudônimos na mesa do bar. Pensava numa tese e lá vinha ele mesmo com a antítese. Ele ou outro. E depois um outro, que buscava uma síntese para tudo. Voltava para a tese, antítese, síntese, sem nunca chegar a um denominador comum. Tinha um número aproximado cinco personalidades diferentes, com variações do mesmo tema. Ia desde de Darwin a Kinsey, passando por Marx, Vinicius, Capote: no fim eram a mesma coisa: malditos observadores, câmeras à mão, gravadores na lapela, esguios, quase invisíveis e indecentemente curiosos. Não era flagrado observando, e sempre olhava, com alternância de Kubrick para Brian de Palma; ora câmera aberta, ângulos faciais, ora dois quadros separados de uma mesma cena, câmeras angulares.
Um dia ela olhou para ele. O suspense, talvez horror. Foi pego com a objetiva em mãos. A cara, no melhor estilo James Stewart, neón piscando na testa que a janela era para lá de indiscreta. Um quê de prazer que só Grace Kelly poderia proporcionar. Claro que sem os malditos Givenchys e afins. Mas ela era outra loira gelada, era a Kim Novak. Tombava a cadeira como se fosse cair do prédio. Ou talvez a Janet Leigh, a faca pulando da mesa na jugular, colo, seios. Não, era Novak. Glacial, introspectiva, observadora.
- O cara da mesa 36 vai pedir ela em casamento…
- Nada, eles são irmãos, vai informar que a mãe faleceu. Ela, por sinal, não vê a mãe há uns 12 anos.
A conversa foi interrompida pelo choro na mesa 36. Dona Alice, dois filhos, dois netos, dois tiros à queima roupa.
- Como?
- Simples: ele disse irmã.
- Um bom ouvido e um olho clínico.
- Por que do casamento?
- A caixinha na mão direita.
- Renovação de votos. Esposa morena, alta. Ele vem aqui às terças e quintas.
- E você?
- Quase todo dia. Você, até onde eu vi, só falta aos sábados e domingos. É de fora?
- Não, outros ambientes a serem vistos.
- Jornalista?
- Não, psicopata. E você? - ele brincou.
- Assassina em série. E vouyer nas horas vagas. - ela copiou.
- Mais um aqui e vira sindicato.
- Podemos chamar o cara da 53. Matou meia família, pai, mãe e um dos quatro filhos, porque eles não tinham fósforos.
- Meia família por causa de um cigarro?
- Não. Matou meia família com tiros. Se tivessem fósforos, ia o restante e a casa.
Conversaram por longas horas e pararam em um hotel qualquer. Ele subiu, ela também, roupas foram tiradas. Ao fim de uma noite inteira, ele a olhou: calcinha, sutiã, seios perfeitos, boca sibilando "tchau". Arma na mão esquerda. Mão direita rosqueia o silenciador.
Dois tiros. Um acertou a testa, outro o peito. Profissional, sem dúvida, a ponto de, no dia seguinte, ir ver os irmãos dele chorarem sua morte. Valdo, o que morreu, deixou dois irmãos, dois sobrinhos, dois olhos e dois rins para o banco de órgãos. Dois pares de sapatos, dois cigarros no maço, dois fósforos, duas miligramas de vodca. Duas balas…