Filme - Lilian RossOctober 6, 2006 8:47 pm

Então lá estava ela, cabelo pintado de ruivo, cerca de 1,70 m, pernas cruzadas, joelho à mostra, junto com um pedaço suculento de coxa. O vestido era azul, preto, marrom, vermelho, encolhia e aumentava, subia e descia. Variava conforme visão, ora turva, ora não. Inebriado, mesmo mais sóbrio do que a Madre Teresa. Era isso, era eu.

Aí vem a grande dúvida: por que aquilo tudo não é meu? Eu, que tenho sintomas por ela, que fico doente, que fico bom, são, insano, casto, pecador, caça, caçador; Fábio Jr., meu Deus, estou citando Fábio Jr., onde eu estou com a cabeça? Enfim, por que não é meu? "Porque é de outrem", diz alguém da platéia. E a livre concorrência? "Não cobiçarás a mulher do próximo". Ide a puta que o pariu, junto com o conselho e o próximo.

Pergunta um respondida, vem a número dois: como ir até lá? É um workshop sobre economia afegã. Eu vou lá dizer o quê, que não suporto a Al Qaeda? Que acho o Osama um puto? Que repudio a opressão à mulher no Islã? Bah, eu deveria mesmo era chamar para tomar uma cervejinha depois, abrir esse vestido de uma forma humanamente impossível e ver no que dá.

Duas respostas, falta uma terceira: abordagem. "Abordagem? Vai fazer o que, bater a carteira? Levar o toca-cds?". Ok, ok, dizer o que? "Oi?", "Tudo bem?", "Posso?" e tomar o lugar do lado como se fosse Berlim? Isso é o de menos, minha tirada humanamente impossível de vestido me garante. Certo é antes preciso sustentar o assunto, dar base, fazê-la rir, enlouquecer tal qual o maldito fecho éclair do vestido me enlouquece. Brega, muito brega, me veio Kleiton e Kledir! Não tem problema, eu hei de chegar ao "maldito fecho éclair". Assim mesmo, insistindo na referência:

- Oi…
- Oi…

Revirou os olhos, ar de tédio. Talvez um abajur cor de carne e um lençol azul resolvam.

- Tem um chopp ali, do outro lado da rua, que é uma coisa.
- E?
- E daí que eu pensei que…
- Que bom!
- Que bom? Você topa?
- Não, que bom que você pensa.

Hora da blitzkrieg. Atacar de forma fulminante um único alvo, não deixando pedra sobre pedra.

- Sabe, quando eu tirar esse vestido de forma humanamente impossível, te darei o céu, meu bem.
- Querido, mesmo que você fosse o maior costureiro do Universo, não tocaria em um fio deste vestido.
- Então nada de choppinho?
- Nada.
- É pena.
- Por que?
- Duas passagens para a Riviera Francesa e eu vou ter de ir sozinho.
- Choppinho e França?
- Querida, eu vou tirar você desse lugar…

E assim, do choppinho, foram para a casa dele e depois para Ubatuba. Riviera Francesa que nada, a forma humanamente impossível de tirar o vestido garantiu tudo. Isto, além dos conhecimentos ocultos do cancioneiro brega nacional, faziam o sangue dela ferver pelo dele.

Filme - Lilian RossOctober 5, 2006 1:58 pm

- Pô, vai escrever hoje não?
- Não sei… não tenho nada na cabeça.
- Desse tamanho e não tem nada?
- Pois é.
- Mas tem tanta coisa acontecendo. Segundo turno das eleições, a Frossard dando uma alfinetada no Alckmin, o caso do avião da Gol, o escândalo dos Republicanos…
- Mas eu não quero escrever sobre isso, pô.
- Escreve sobre sexo, ué?
- Bôua!
- …
- …?
- Pô, eu tenho um blog novo
- Mais um? Tá explicado…

Filme - Lilian RossOctober 3, 2006 9:40 pm

- Dois mais dois são cinco…
- São quatro!
- São cinco!
- Quatro, cazzo. Olha só: eu, você, o leiteiro e o padeiro!
- O cara da luz dentro do armário. Cinco!
- Não, é zero.

E com cinco tiros, ele resolveu a questão matemática. Sem deixar resto, como pedia a professora no primário.

Filme - Lilian RossOctober 2, 2006 2:49 pm

Me chame de burro, de idiota, de Lula, de Alckmin, enfim, do que você bem entender.

Ali, na cabina, não sabia qual número digitar. Em 2002, estava em frenesi, vivendo uma epifania. Era Lula, era "o povo no poder". Eu comprei a idéia e, nada de "mais espere" no melhor estilo Polishop, não tinha nenhuma promoção. Quatro anos depois do governo "mais do mesmo", acrescido de denúncias mil, infâmias absurdas e messianismo tacanho, eu não sabia quais dois números eu deveria digitar. Aproveitando que o Febeapá foi engrossado, nunca na história desse país alguém ficou tão fulo da vida quanto eu. Nunca na história desse país alguém ficou tão sem argumento quanto eu. Nunca na história desse país alguém mandou a mesma pessoa tomar no cu tantas vezes, em silêncio, reservado no Santo Ofício de um dia ter votado no Barbudo, quanto eu. Nunca na história desse país alguém disse tanto "mas que caraleo, Lula", como eu disse. Eu, eu, eu, eu, EU!

Eu poderia protestar, ir contra o Lula. Tinha o Alckmin que, pelo amor de Deus, Marx, Basílio ou qualquer outro santo, alvinegro ou não, é o lacaio mais bizarro do FHC que eu já vi. Tinha a Helô, mulher, caçadora de "marajás", esquerdona a torto e a esquerda; puta merda, como me lembrou a campanha do Collor, a inovação que vem do Nordeste. Me faz lembra dos areais e coisa e tal da Tieta, sabe-se lá por quê. Tinha o Cristovão, homem de biografia íntegra, preocupado com um dos pilares de uma Nação, a educação do povo; partidário do PDT de Paulinho da Força e, bate na madeira para citar o nome, Leonel Brizola, sempre precedido pelo famoso "Putaquemepariucomrodinhas, você tá falando do Brizola?!". Luciano Bivar "Hectabombe", nem por brincadeira. Eymael, terror dos jingles políticos, menos ainda.

Aí você pode dizer "Ei Júlio, mas é o Rui Pimenta". Não, não voto em protesto. Perdi o gosto. De 2002, lembro do meu choro na posse, lembro do final de Entreatos, o faxineiro do hotel de luxo em Sampa dizendo para o Lula "agora você vai ajudar a gente". Puta merda, ele deveria ter nos ajudado, ajudado o Brasil. Por mais que seja um adorador de palanque, um ególatra, o "nunca na história desse país", diabos, custava nada fazer o mínimo, aumentar o mínimo, maximizá-lo!

Puta que me pariu, é o mesmo país que mandou o Collor para o Senado. O mesmo povo que votou no Maluf, no Clodovil, no Valdemar Costa Neto. Até o Genô voltou! Joga pedra no Genô, Chico!

Em um lugar normal, essas pessoas não seriam quiçá síndicas de prédios. Em um lugar normal, eu teria candidato à presidência. Mas não aqui, não nessa eleição. No dia de ontem, eu queria jogar aquela maldita urna pela janela. Menos mal que tinha a foto do Suplicy por lá.

E assim, nesse país bizarro, eu votei 99. Nulo. "Nulo" Leal Maia, porque, se é para foder de vez, votemos n’O Bem Dotado Homem de Itu*, de modo que ele satisfaça, ou não (vai do teu gosto, leitora ou leitor), esse país de dimensões continentais.

* Um clássico da Sala Especial, que passava no SBT. Conseguir isso em VHS é um feito homérico. Em DVD, um feito quixotesco. Na vida real, um feito dantesco!

Filme - Lilian RossSeptember 29, 2006 2:44 pm

Depois do Günther Grass assumir na autobiografia Descascando a cebola (por sinal, um título que só pode ser sacanagem) que era da juventude hitlerista, que fez parte da Waffen SS e patati e patatá e depois do Gabriel Garcia-Marquez escrever aquela bomba chamada Cem anos de solidão, entre outro exemplos, agora é a vez do Hemingway entrar na galeria dos escritores com potenciais homicidas premiados com o Nobel de Literatura.

Se você não entendeu porra nenhuma até agora, eu explico: o tiozão, famoso pelos relatos no front durante a Segunda Guerra e por livros como O velho e o mar (e haja paciência, torcida brasileira!) e Por quem os sinos dobram (nome do caraleo de bonito de livro, rapá), mandava umas cartinhas amáveis (coloque muita ironia aqui, por favor) aos amigos, onde dizia que gostava de matar os "chucrutes" e tal. Em uma delas, chega ao orgasmo por ter dado cabo de 122 alemães. Se fosse no Medal Of Honor, era recorde!

Aí você me diz: legal Júlio, você leu o Estadão hoje, se mostra informado e tal, mas explica, PUTAQUEMEPARIUDERODINHASLASERCANHÃODEIÓNEDOISTUBOSDEHIDROGÊNIO, o que eu tenho com isso?

Bom, você escreve. Logo, você produz literatura, certo? Tá, você pode ser um dos meus, que não produz nada. Nobel então, só a livraria. Mas, de qualquer forma, nós, enquanto [piada on] escritores [piada off], temos de expiar os pecados de ontem. Sessão Descarrego na ABI, com direito a cházinho servido pelo Sarney. E lá vou eu aproveitar o espaço para dizer que, um dia, eu encenei o Collor no teatro da escola. Aproveito também para dizer que, um dia, eu votei no Alckmin. Assim como eu votei no Lula. Posso ainda contar que, certa vez, eu dormi na porta do Metrô Santa Cecília por causa de uma mulher que não valia uma bala do Hemingway ou do Grass. Ou dizer que quase comecei a vida liteária com Paulo Coelho. O quê isso importa? Nada, assim como os relatos do dos escritores. Mas, numa boa, eu preferia ter matado 122 alemães a ter votado no Lula e no Alckmin. Acho que eu ficaria muito bem no uniforme da Waffen SS, em comparação com Diário de um mago nas minhas mãos. Que merda, eu poderia ser o loser do Sartre, que não foi receber o prêmio porque o Camus ganhou e mimimimimimi.

Depois todo mundo diz que blogueiro é loser. Porra, a única coisa que nos diferencia dos vencedores do Prêmio Nobel é que temos urls. E pontuamos, ao contrário do Saramago.

PS: Nada contra o Saramago, que eu acho foda. Nada lido do Günther Grass. Nada paciente com Hemingway. Tudo contra Cem anos de solidão. E joguem as pedras, caraleo!

Filme - Lilian RossSeptember 28, 2006 12:35 pm

Eu fui intimado uma vez, pela Gabi (e ela tem o chute do Van Damme, quando este fazia filmes com o John Woo), a fazer o treco aí embaixo. Negócio é simples: tenho de dizer seis coisas sobre mim. Eu poderia muito bem escrever cerveja em todas, mas daí ficaria sem graça e eu seria chamado de álcoolatra.

Além disso soube que, quem não responde ao chamado, recebe a visita do coelho do Donnie Darko, aquele que tem uma bala enfiada no meio da fuça. Pensando bem, não seria mal ter uma vida nos moldes de Donnie Darko, afinal de contas o filmaço tem uma trilha sonora foda com Tears for Fears, Duran Duran e, vejam só, Echo and the Bunnymen (pescou, pescou?).

Lá vai:

1 - Eu leio muito. Mas muito mesmo. O Junior, certa vez, perguntou por quê diabos eu sempre compareço em qualquer lugar (velório, bar (sic) mitzvah, missa de sétimo dia, festa do cabide, suruba) com um livro. Todo mundo sabe, Sampa é a capital mundial do trânsito (e não me venham falar das capitais do Oriente Médio, onde ninguém respeita ninguém numa suruba respeitável. Temos de convir que eles recém-descobriram o automóvel), logo quem anda de ônibus todo dia, precisa de entreterimento. Daí Lilian Ross, Tom Wolfe, Capote, Shakespeare, James Elroy, Lawrence Block, enfim, um povaréu de escritores, me ajudam. Se eu fosse melhor alfabetizado, o efeito poderia ser mais positivo ainda, mas enfim, cada um com os problemas que lhe pertencem. Também adoro abandonar um livro e voltar, tempos depois. A Peste do Camus, por exemplo, está para ser continuado há alguns meses e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Saramago, há de ser terminado. Em 2037, se eu viver até lá.

2 - Eu tenho três medos: ratos, altura e Björk. Alguns são coligados (exemplo: ratos e Björk, que são da mesma espécie), outros influem em diversas atividades físicas; nadar, por exemplo, é um martírio, uma vez que meu cérebro bizarro faz a equação onde muita água + corpo do Júlio = boiar = ficar com os pés fora do chão = estar em um lugar muito alto. Eu sei, é absurdo, mas enfim, se até a Regina Duarte tem medo, porque eu também não posso ter os meus, ô pá? Se serve de consolo, eu não tenho medo do nariz do Eric.

3 - O lugar de Sampa, e talvez do mundo, que eu mais gosto é a Avenida Paulista. Seja pelos bares, seja para sentar no Fran’s para ler, seja para pegar um cinema, ou mesmo para caminhar pela Avenida, para mim não há lugar como lá em canto nenhum da Paulicéia. Os bares, em especial o Opção, o Asterix, o Puppy e o Charme, oferecem cerveja barata, diversão garantida e, com a mesa certa, idéias malucas com gente foda. Sem contar o yakissoba da Paulista, que só é yakissoba da Paulista quando a Lelê e eu fazemos terapia de amigos degustando da iguaria única.

4 - A culinária é minha forma mais alienígena de vida. Sim, de vez em quando eu como coisas maravilhosas, como o fricassé da Dona Rose, o rango da mamãe, a costelinha que o Junior assa nos churrascos na laje, a lasanha da Gabi e as pizzas que a Lilhoca compra no Tatuapé, por exemplo. Mas eu também chuto o balde com comidas de procedência duvidosa, mas de gosto único. A receita mais adorada nesse menu de Marte é o indefectível yakissoba da Paulista. A receita é simples: pegue um chinês sujo, dê-lhe um carrinho tosco, faça com que ele saiba poucas palavras em português (dô e cinquenta, trê e ciquenta, no tem Côca). Misture com isso uma alface bizarra, carne de algum animal desconhecido pela humanidade, um macarrão excelente, óleo, cebola, molho shoyo, fuligem de ônibus e, se quiser pagar um pouquinho mais caro (ponto de ônibus quase em frente ao McDonalds, perto do Bristol, entre a Augusta e a Frei Caneca), poeira de obra. Leve tudo ao fogo (menos o chinês) e sivra com hashii. Leve a Lelê junto e peça a presença de um rato nas imediações da Alameda das Flores. É diversão garantida.

5 - Eu gosto de cerveja. Não, eu gosto muito de cerveja. Eu acredito que a paz mundial ainda virá por intermédio da cevada. Eu bebo cerveja com os amigos, bebo cerveja sozinho, no calor, no frio, na chuva, no sereno. As preferidas são Serra Malte (Opção, sete da noite, sexta-feira; calor de 28 graus, mais ou menos. A garrafa vem tão gelada que dá vontade de tomar aquilo e morrer), Bohemia e Original. Das caras, encorpadas, essa coisa toda, eu gosto da Erdinger, bagaraleo. E aprendi que uma garrafa long neck de Schmidt pode fazer você ir mais cedo para casa (12, de teor alcoólico, e o Junior corrige se estiver errado). Mas não dispenso também as Brahmas da vida e, num ato de desespero, vai até Bavária.

6 - Eu me apego fácil, vicio fácil e ligo muito para alguns bens materiais. Minha coleção de filmes de livros são uma das minhas maiores paixões, assim como as pessoas que, no mais simples dos atos, fazem eu me mijar de rir ou ficar com aquela cara de emo e apanhar por causa disso. E por causa do CD do My Chemical Romance, seja ao vivo, por MSN, na mesa de bar, sessão descarrego, enfim. Também fumo bagaraleo, e talvez pare um dia. Isso é, se os aparelhos não atrapalharem.

Seis pessoas para responder isso? Lelê (porque o texto da Lelê não pode ficar fora dessa), Alê (é o demônio, imaginem), Pedro (figuraça, passou um dos melhores jogos do Planeta, ontem), Ronnie Von (pô, o cara é o maior vencedor do Qual é a Música, manja dessas coisas), Tiago (porque eu quero ver ele falar mal do "A Vila" para mandar um comentário nos moldes de "não te mando tomar no cu porque és gaúcho, tchê") e  Nahim (para ter o tira-teima final do Qual é a Música, e acabar de vez com a dúvida).

Filme - Lilian RossSeptember 27, 2006 10:01 pm

- Sabe, outra vez pensei em fazer uma serenata para ela…
- Putz!
- Pô, isso é bonitinho!
- É, é fofo!
- Fofo é meu pau fantasiado de Papai Noel!
- Mas aí eu desisti, eu nunca tive dotes musicais. Então pensei em um poema!
- Putz!
- Óunnnnnnnnnn!
- Que lindo!
- Mostra ele?
- Lindo é acordar de manhã e ver que eu deixei 50 mangos no criado mudo!
- Não tenho, nunca saiu no papel, tive vergonha. Então pensei em mandar flores…
- Puuuuuuuuutz!
- Você é o homem perfeito, sabia?
- É, é um fofo!
- Perfeito é dar cinco sem tirar, coisa que eu faço enquanto troco o motor da Scania!
- Mas aí eu resolvi mandar um caixa de chocolates para ela, e mandei!
- Putaquemepariuderodinhas!
- Pára, ele foi romântico!
- É, ele foi um fofo!
- Bah, pergunta para ele o que aconteceu depois…
- É, o que aconteceu depois?
- Conta fofo!
- Bom, er… bem.. depois ela saiu com o Almeida…
- Pô, Almeida!
- Almeida! Que falta de fofura!
- Queridas, não tenho culpa se é verdade o que eu disse: fofo é meu pau fantasiado de Papai Noel, além dos 50 mangos no criado mudo, dando cinco sem tirar!

Filme - Lilian RossSeptember 25, 2006 5:04 pm

Era só escrever algumas coisas. Nada demais, mesmo porque não tinha daquilo que chamam de "texto apaixonante", ou qualquer coisa do tipo. Um único estilo, o ruim. Cartas anônimas tornariam-se públicas na mesma hora, fosse ele o autor.

Então começou, com a imbecilidade de todo começo, ao menos para ele:

"Oi…"

"Oi…"? Que merda. Oi pede resposta imediata. Um "oi" sem outro "oi" vira vácuo, coisa ignorada. Rasgou o papel, como se pudesse rasgar a barreira que o impedia de fazer uma entrada decente. Ele não queria abrir o texto. Ele queria era que o texto se abrisse.

"Uma citação", pensou. Citações sempre funcionam, sejam elas de Dante ou de um daqueles spams que recebemos por email, falando de dádivas divinas e de crianças ora seqüestradas, ora com câncer.

- O amor é fogo que arde sem se ver…

Legião? Que Diabos! Ok, é Camões*, mas mesmo assim, sempre lembra Legião. Não dá, citação amorosa para ele era a do "tiro no joelho", que ele havia lido em um dos milhares blogs anônimos espalhados ciberespaço afora. Mal sabia se a história do tiro era real mesmo ou plágio?! Pensou em um poema, de autoria própria:

"De todos os males recorrentes,
No tocante ao viver e ao morrer,
Que todos tratam por diferente,
Tão iguais quanto eu ou você."

"Eu, se recebesse uma merda dessas, queimava", gritou-lhe a consciência. Citar um poeta de verdade, então, nem pensar. Mal sabia quem era o Neruda, coitado. A última coisa que leu com rimas dizia "batatinha quando nasce, esparrama pelo chão, mamãe de AR-15, papai de três oitão".

Não, não, é fechar os olhos, escrever sem ler e ver o pau comer:

"De todo perdido, até para começar. Mal sabendo mesmo como vai terminar e, na dúvida, não arriscando. Para quê, no fim das contas você vai se encher, vai me fazer perder o chão. Vai ser como o cara que percorreu Inferno, Céu e Purgatório, só que, quando eu chegar lá, vou descobrir que você já foi, há tempos, e que está bem. Quer saber, talvez é assim mesmo que deva começar. Tudo errado para dar tudo certo. Porque, se for começar certo, uma hora vai dar errado. E, sem dúvida, é melhor mostrar o mal, tirar, para depois ver o bem, repor. Ok, é linha tênue, o bem e mal. O quê, não acha? É, eu sempre vejo tudo como uma linha bem fina, lá no alto. E porra, como eu tenho medo de altura. Eu sei, tenho medo de muitas outras coisas. Eu mal consigo começar uma carta. Mas olha só, vou abrir uma exceção agora. Só não me peça para andar na linha tênue. Principalmente se ela for muito alta…"

Era isso! Sentiu um momento de iluminação, uma epifania. Era o melhor texto do mundo, e era dele. Era incisivo, era simples, era claro, era…

Era uma merda, era enrolado, sem nexo. Tinha vontade de nunca mais ver aquilo pela frente. Vontade de ter nascido analfabeto, cego, maneta. Vontade de voltar na história e acabar com os malditos egípcios, ou qualquer outro que teve a brilhante idéia de se escrever. O mundo não é uma droga por causa das guerras, da Peste, da fome. É essa merda por causa das palavras, das malditas letras, de suas conjunções, verbos, predicados, sujeitos e sujeitas. Principalmente a sujeita que ia receber a carta, antes dela ser amassada e jogada no lixo, para fazer companhia a outras 45 páginas, a maioria em branco.

Três dias depois, sem comer e sem dormir, ele desistiu. Acabou por morrer com uma caneta enfiada goela abaixo. Seu último pedido, um "que as palavras saíam da boca para o papel", se realizou porque ela teve acesso ao conteúdo dos escritos e chorou:

- Tinha um texto ruim, mas era uma grande alma.

Morreu sem razão. Mas tinha razão, no fim das contas.