A volta de Dona Inspiração e seu marido, o Ego
- Voltei querido!
- Dona Inspiração! Senta ae, estava com uma puta saudade! Vamos falar sobre o que hoje?
- Não sei, estou com essa idéia aqui:
Ele tinha acordado num bom humor muito acima da média. Não que fosse um rabujento de carteirinha, mas tinha seus problemas com o estresse, como todo mundo os tem. Mas o incrível mesmo era ter acordado depois do fatídico dia anterior.
Destoando, e muito, do estado de espírito dele estava o dia, cinzento, nem quente nem frio, mas também nada morno. Sabia que algo estava para acontecer, mas não tinha a menor idéia do que. Por via das dúvidas, resolveu rir antes, pois o proverbial rir por último para ele não era lá muito garantido.
Ela acordou com dor de cabeça e com a crendice das orelhas vermelhas a todo vapor. Doíam até, se é que isso era possível, tamanha força de vontade vinda do outro lado, das linhas hostis, porém não inimigas.
O dia também era cinza, mas batia em cheio com o estado de espírito dela. Aliás, estado lastimável, diga-se.
Eles se encontraram, naquele cinzento dia de humores eqüidistantes. Encontro extremamente acidental, onde ele veio com piadas, ela com pedras. Ele com sorriso, ela rindo amarelo. Ele esquecido o dia de ontem, ela recordando a cada minuto. Ele veio de vingança, ela veio de clemência.
- Então, sobre ontem…
- Dia quente de manhã, frio à noite, uma droga.
- Eu sei, eu tinha visto na previsão do tempo.
- E antes eu pudesse prever o imprevisto.
- Isso mesmo, imprevisto. Houve um imprevisto.
- Jura?
- É… eu sei que você vai me pôr na cruz…
- Não, não… hoje não tem sol. É dia ruim para crucificação.
- Hum… mas então, vamos almoçar para apagar o ontem?
- Não dá…
- Para apagar?
- Não, para almoçar…
- Por que? Sem fome? Só me acompanha então…
- Não é isso…
- O que é, então?
- É uma pena, eu tenho um imprevisto…
Não era coisa do imprevisto, pelo contrário, era mais que previsível. Era a Lei do Retorno, Ciclo do Universo, Código de Hamurabi, Vendetta, chame do que quiser. Ela sabia que o dia dela seria cinza porque o dele assim o foi ontem. E ele sabia que o dia dela será azul, mas não hoje, não agora, quando ele, de faca e queijo na mão, dava uma de Jack, O Estripador servindo-se num banquete para ratos. Retalha, corta, marca e quem sabe até devora o prato preferido dos roedores. Não literalmente, é claro. Mas para ela, talvez viesse a doer como se fosse. Ou não, o que faria com que ele perdesse todo o efeito balsâmico do momento.
- A vingança - ele pensou - é um prato que se come frio. Porém, dois minutos no microondas são mais do que suficientes para esquentá-la.
