Do boteco para o papelAugust 18, 2006 4:34 pm

- Voltei querido!
- Dona Inspiração! Senta ae, estava com uma puta saudade! Vamos falar sobre o que hoje?
- Não sei, estou com essa idéia aqui:

Ele tinha acordado num bom humor muito acima da média. Não que fosse um rabujento de carteirinha, mas tinha seus problemas com o estresse, como todo mundo os tem. Mas o incrível mesmo era ter acordado depois do fatídico dia anterior.

Destoando, e muito, do estado de espírito dele estava o dia, cinzento, nem quente nem frio, mas também nada morno. Sabia que algo estava para acontecer, mas não tinha a menor idéia do que. Por via das dúvidas, resolveu rir antes, pois o proverbial rir por último para ele não era lá muito garantido.

Ela acordou com dor de cabeça e com a crendice das orelhas vermelhas a todo vapor. Doíam até, se é que isso era possível, tamanha força de vontade vinda do outro lado, das linhas hostis, porém não inimigas.

O dia também era cinza, mas batia em cheio com o estado de espírito dela. Aliás, estado lastimável, diga-se.

Eles se encontraram, naquele cinzento dia de humores eqüidistantes. Encontro extremamente acidental, onde ele veio com piadas, ela com pedras. Ele com sorriso, ela rindo amarelo. Ele esquecido o dia de ontem, ela recordando a cada minuto. Ele veio de vingança, ela veio de clemência.

- Então, sobre ontem…
- Dia quente de manhã, frio à noite, uma droga.
- Eu sei, eu tinha visto na previsão do tempo.
- E antes eu pudesse prever o imprevisto.
- Isso mesmo, imprevisto. Houve um imprevisto.
- Jura?
- É… eu sei que você vai me pôr na cruz…
- Não, não… hoje não tem sol. É dia ruim para crucificação.
- Hum… mas então, vamos almoçar para apagar o ontem?
- Não dá…
- Para apagar?
- Não, para almoçar…
- Por que? Sem fome? Só me acompanha então…
- Não é isso…
- O que é, então?
- É uma pena, eu tenho um imprevisto…

Não era coisa do imprevisto, pelo contrário, era mais que previsível. Era a Lei do Retorno, Ciclo do Universo, Código de Hamurabi, Vendetta, chame do que quiser. Ela sabia que o dia dela seria cinza porque o dele assim o foi ontem. E ele sabia que o dia dela será azul, mas não hoje, não agora, quando ele, de faca e queijo na mão, dava uma de Jack, O Estripador servindo-se num banquete para ratos. Retalha, corta, marca e quem sabe até devora o prato preferido dos roedores. Não literalmente, é claro. Mas para ela, talvez viesse a doer como se fosse. Ou não, o que faria com que ele perdesse todo o efeito balsâmico do momento.

- A vingança - ele pensou - é um prato que se come frio. Porém, dois minutos no microondas são mais do que suficientes para esquentá-la.

Do boteco para o papelAugust 17, 2006 4:00 pm

- Chegou, né?
- Pois é… chegou…
- O tempo tá mudando. Acho que vem frente fria. Deve ser da Argentina…
- É Dona Ansiedade, troca mesmo de assunto porque você está para ir embora.
- Estou?
- Opa! Andou fortinha até por esses dias, mas vai já já…
- Tá me enxotando, é isso?
- Mais ou menos. Você sabe que ainda vai ficar, até pelo menos a meia noite de hoje.
- E depois disso?
- Depois eu não sei. Agora vai embora que vem vindo outra aí e não quero vocês duas juntas…
- Outra? Quem?
- A Dona Fome…
- Bóra lá almoçar, Júlio…
- Seu cachorro!

E assim se encerra a incrível saga do almoço que não houve. Vai entender essas Donas, não é mesmo?

Do boteco para o papelAugust 15, 2006 8:36 pm

- Ei, ei, peraê. Onde você vai?

- Ah, vou dar uma volta, me deixa!

- Mas pô, estavámos indo tão bem!

- Eu sei, mas agora eu quero ir. Você anda se aproveitando muito de mim…

- Desculpa, mas é que você anda me dando idéias ótimas! Me fazendo ver coisas que eu não via antes.

- É, pois é, e nunca levei nenhum crédito por isso!

- Ah, mas isso acontece com todo mundo. Nós só lembramos de você quando você vai embora.

- Viu, vocês sempre são uns ingratos!

- Inspiração, volta aqui!

- Não, fica você com a Ansiedade!

- Mas ela está fraquinha, tadinha…

- Problema é seu, eu tô indo!

*Bate a porta*

- Tá chegando hein?

- O quê?

- Sei lá, eu sou só uma Ansiedade fraca. Só consigo amedontrar com "tá chegando, hein"…

- Tá, me dá um post?

- Não, quem faz isso é a Inspiração… aliás, já te disse que…

- Eu sei, eu sei… "tá chegando"…

- Isso! Ainda bem que você me poupa trabalho!

Do boteco para o papelAugust 11, 2006 7:27 pm

A quem salvar? A sua obra, escrita por horas, dias, anos, ou a uma obra por você considerada divina?

Se você fosse Camões, deixaria a mulher naufragar, abraçar Netuno e mais diversas analogias, para ir atrás dos seus escritos? Ou, pelo contrário, deixaria os Lusíadas para lá e salvaria a amada do triste fim?

Os vestibulandos podem vir a dizer que os Lusíadas merece ir para o mais fundo dos oceanos, de tão maldito livro. Concordo em partes: acho que trata-se de ótimas histórias escritas de forma errada. Eu não entendo poesia e talvez nunca venha a entendê-las. Em prosa, aquilo é um absurdo de bom.

Os literatos talvez diriam que trata-se da obra mais influente em língua portuguesa. Mais do que escritos em algumas folhas, Os Lusíadas é a história de Portugal.

Os apaixonados, amantes e afins diriam que a obra é efêmera, pode muito bem ser reescrita, mas que a amada é imortal, tal qual aquele filme que tem o Beethoven.

Os suícidas diriam que, entre a cruz e a espada, preferem a forca.

Eu não sei, eu relativizo as coisas. Se Camões amasse a mulher a ponto de tranformá-la em odes, poemas e afins, deveria tê-la salvado. Os Lusíadas e Portugal poderiam ser reescritos, e quem sabe até com uma melhora significativa, como o uso da prosa (sim, estou militando em causa própria). Em contrapartida, se fosse um daqueles amores de incidente (comuns hoje e, creio não, não lá muito usuais à época), Camões queria era a história e, possivelmente, o amor de outras mulheres. Foi a mão de Dom Sebastião afundando a nau oceano abaixo.

Eu provavelmente salvaria. É difícil acreditar que Camões tivesse a menor consciência do que é o livro. É difícil crer que Camões não a amasse a ponto de sacrificar sua obra. Talvez sejam os deuses da Literatura, Camus, Orwell e Machado, que infligiram à Camões uma dor insuportável para que ele escrevesse com o amor que lhe tinha partido. Como diz o Rubem Alves, "pessoas tristes criam grandes obras". Ou algo do gênero, mas essa é a linha.

Mas hoje em dia nós temos o blog. Camões ficaria com as duas coisas: os escritos e a mulher. Quer dizer, quem tem blog não tem amada. No fim essa ferramenta é o mesmo que o barco no qual naufragou a mulher de Camões.

Eu, oras, eu vou segurando meus Lusíadas para todo o sempre. Oito Lusíadas, por enquanto.

Do boteco para o papelAugust 10, 2006 8:52 pm

- Taí, saudade era um troço que eu não deveria ter…

- Ah, é claro que deveria!

- Não deveria nada. Tá certo que, tudo somado, dá mais saudade do que qualquer outra coisa, mas eu não deveria…

- Por que?

- Porque não, porque essa é minha vontade, oras…

- Não é não…

- Claro que é!

- Se fosse, você nem puxava no assunto. Taí doido de vontade de construir um DeLorean para voltar no tempo, mas não pode, bestão que só você é.

- Viu, essa é a diferença!

- Que diferença?

- Voltar no tempo é uma coisa. Sentir saudade é outra.

- Claro que não!

- É sim… vê só: saudade você sente de tudo, mesmo dos momentos ruins. Já voltando no tempo você com certeza sofrerá um conflito ético sem tamanho, querendo consertar tudo, talvez para ter mais saudade.

- Você é bizarro, sabia?

- Sou?

- É, você racionaliza tudo. Você pode voltar no tempo somente por sentir saudade.

- Se eu racionalizo, você só vive de lançar hipóteses absurdas para justificar as coisas que você sente, você quer, essa bobagem toda.

- Eu acho que você devia se soltar mais, sabe, talvez sentir mais saudade.

- Bah, eu vou é cuidar de nós dois, isso sim. Se segura que lá vem vindo uma dor de cabeça causada por uma bela ressaca.

- Ai ai…

- O quê?

- Ele bebeu para tentar acalmar a saudade…

- Não, ele bebeu porque estava no copo. Simples.

Do boteco para o papelAugust 8, 2006 5:53 pm

Quando o Alvaro acordou naquela quarta-feira, tudo seguia a rotina diária. Fez uma xícara de café, pois não precisava mais do que isso. Escovou os dentes, enxaguou o rosto, calçou o chinelo, acendeu um cigarro e foi à banca de jornal. Assim tinha sido na segunda e na terça.

Na banca, o aceno de sempre ao Seu João, a Folha de S. Paulo de sempre, o abanar negativo de cabeça com o Governo, tal qual sempre, e uma corrida na seção de obituários do jornal, como era de costume.

O Alvaro não notara que o Seu João sequer o tinha reconhecido, porque era o de praxe também. A única coisa incomum daquele dia estava na página 5 do caderno de Cotidiano da Folha. Mais precisamente meia página abaixo, sem lá muito destaque salvo pelo nome que, até então, era motivo de piada pela semelhança com o Alcoólicos Anônimos:

Alvaro Araújo, aos 32, solteiro. Cemitério de Vila Alpina.

Era o primeiro da lista de mortos daquela edição, que sempre vinha em  ordem alfabética. Como o jornal fecha normalmente lá pelas dez horas antes de ir para a prensa, ele havia morrido ontem. Mas mortos não compram jornal, fumam um cigarro ou escovam os dentes. Para botar a coisa a limpo, Alvaro acendeu mais um Marlboro. A idéia bizarra de já estar morto e não sofrer dos males do fumo lhe veio no mesmo instante, em uníssono com um riso.

"É a Folha, e eles sempre erram", foi a primeira coisa que pensou. Depois lhe veio o fato de que poderia ser um honônimo, com os mesmos 32 anos e a mesma solteirice. O que não deixaria de ser tão estranho quanto encontrar o nome no obituário, por sinal.

Ao entrar no bar e cumprimentar o Manoel, a mesa de sempre estava reservada, com dois lugares, sendo que só um era usado, pois Alvaro estava por lá sempre sozinho, com um bloco de notas e alguns textos, ora no papel, ora na cabeça. Até que ela entrou, puxou a cadeira, pediu uma cerveja e sentou.

- Oi…

- Oi…

- Leu o jornal de hoje?

- Um pouco. Está sempre tudo muito igual.

- Menos os óbitos, que sempre mudam.

- É estranho, o de hoje veio mais diferente do que nunca.

- Eu sei, eu coloquei seu nome lá.

- Então foi você? Mas como o jornal aceitou o anúncio sem o atestado de óbito?

- Está atestado. Ah, desculpe minha má educação, eu sou A Morte.

- Claro, e eu sou Clark Gable, mas acredito que você já tenha reconhecido por causa do bigode…

Para uma manhã como sempre, estava um tanto diferente e corrida aquela de quarta-feira.

- É sério…

- Sei, sei… A Morte é linda, loira, e eu casaria com ela fácil…

- Faz parte do projeto. É para não assustar muito quando se vê. Assustamos antes, com aquela história cafona da foice e tudo o mais.

- Eu também prefiro assim… mas vem cá, porque eu morri?

- Ah, é uma longa história, mas tem a ver com seu jeito de vida patético e estático.

- Estático?

- É, a mesma coisa de sempre. Café, escovar os dentes, lavar o rosto, bebida antes do trabalho, depois do trabalho, cigarro. Você estagnou Alvaro, e vimos que era melhor deixar outra pessoa ocupar seu lugar.

- Claro, eu também acho… mas e o Céu, ou o Inferno, ou o Limbro, aquela coisa toda?

- Não sei… despesa de custo demais para alguém que está tão acostumado à rotina.

- Então?

- Então acho que vai ser assim para sempre…

- Ok, mas o que você vai fazer essa noite?

- Eu ainda não sei. Talvez ceifar alguém. Você, como sempre, virá ao bar, vai encher a cara, voltar para casa e, amanhã, recomeçar tudo de novo.

E assim foi, cada dia igual ao outro a ponto de se confundirem, com o Alvaro perdendo-se na multidão e sendo esquecido. Inclusive pela Morte, que não publicou sequer um mísero anúncio de Missa de Sétimo Dia.

Do boteco para o papelAugust 7, 2006 12:45 pm

Este texto foi escrito à quatro mãos, em parceria com a Gabi. Não que sejamos casados, pois temos discernimento suficiente. E porque ela tem cólicas e eu não tenho ponstans.

- Já passou a cólica.

- Mas eu trouxe o Potsdam!

- Ponstan, sua besta. E a sacolinha meio rasgada, ainda por cima.

- Mas ela é rosa, a cor que você mais gosta. Só falta a Hello… Hello o quê mesmo?

- Porra, você nem sabe o nome da personagem da minha coleção de pelúcias!

- Parmalat?

*respira fundo*

- Essa é a marca do leite que você esqueceu de trazer ontem. Junto com o meu Ponstan, aliás.

- Parmalat? Mas e o Corinthians?

- Você só fala de Corinthians. Só porque a Ponte vai mal. Se bem que seu time tá na lanterna…

- Na lanterna, porém, mesmo com a precariedade de luz, cozinha melhor que a sua mãe…

- Minha mãe?! Minha mãe!? Se é para falar de mãe, vamos falar da sua. A sua, aquela que aparece aqui em casa sem avisar e critica o sofá, as cortinas e até a receita de polpettone que você pede para eu fazer toda semana! E seu pai então, que só sabe sentar no meu e beber a minha cerveja?

- Eu só peço o polpettone para te agradar… porque você sabe, no fim das contas, eu te quero bem porque eu te adoro e venço minha alergia a queijo, se é que vai queijo. Quanto ao papai, sei lá, ele é homem, e homem só bebe sua cerveja mesmo. Começamos assim, lembra?

- Eu sei lá, eu estava bêbada. Ou devia estar, para sequer considerar a hipótese de casar com você. Onde é que eu estava com a cabeça, meu Deus!?

- Onde você estava com a cabeça eu não sei. Eu tenho uma cabeça grande demais para dar conta. Mas o que vale dizer é que meu pai não bebe toda a sua cerveja, porque eu pago metade das cervejas desta casa…

- Desde quando? Me mostra a última conta que você pagou… aliás, que história é essa de "Liyn Gong" no extrato do nosso cartão de crédito? Isso é casa de massagens!

- Não, não é casa de massagens. Mesmo porque há tempos eu não sei o que é prazer, como eu sabia o que era quando ia em casas de massagens, quando eu tinha oito blogs…

- Você e esses seus oito blogs. Aliás, se você não ficasse tanto tempo escrevendo na Internet, você teria mais tempo para nós.

- E se você não fosse tão fria quanto meu blog de poesias, um dos oito por sinal…

- Bah, esquece isso. Vem fazer uma massagem nas minhas costas que eu tô com cólica.

- Eu já estou com o Ponstan aqui, além da banheira cheia…

- Te amo, fofucho.

- Quer massagem de língua? (heh)

- Eu estou com cólica, sua besta!

- Eu trouxe Ponstan…

- Pena que a sacolinha esteja rasgada…

Do boteco para o papelAugust 4, 2006 4:28 pm

- Três no fundo!

- Sabe, a vida é como aquela bola oito…

- Por que? A coisa tá preta?

- Não, não, porque ela está ali, na berlinda, mas a qualquer hora alguém, ou algo sei lá, pode tirar ela dali…

- Tá querendo pegar quem?

- Ninguém, é só uma alegoria, por que?

- Porque para mim, pareceu que você estava falando de mulher. Meio veadinho, vá lá, mas de mulher.

- Como assim?

- É, sua vida tá meio que uma draga, a coisa tá preta, pela oito mesmo, daí vem alguém, no caso uma mulher, ou algo, no caso um amor, e te salva. Não é uma alegoria boa, pois aquela bola, para ser salva, precisa do erro…

- Mas pera lá, é só uma bola oito…

- Mas foi você quem começou com esse troço de "a vida é como aquela bola oito".

- Sim, mas a leitura não é essa…

- Então é qual?

- Sei lá… é só uma bola oito…

Algumas cervejas e bolas na caçapa depois.

- Oito, no meio…

- Péra lá, vai matar a oito?

- Claro, é a da vez…

- Mas e o lance de vida, e tudo o mais?

- Sei lá, é a da vez e eu vou matar…

- Mas se você matar, significa que foi um acerto, e que minha vida é um erro até agora, que ela precisa cair na caçapa…

- Platão, na boa, pára de secar meu jogo e enche o copo, vai?

Do boteco para o papelAugust 3, 2006 2:18 pm

- Tô com cólica… faz alguma coisa?

- Hum… me dá o nome do remédio, eu apareço por aí já já…

- Ponstan, a dosagem mais alta que tiver na farmácia. Manda dois… ou três…

- Ponstan? Isso lá é nome?

- Foda-se o nome, vai logo!

- Tá, tá… já volto. Se doer muito, esmurra o cachorro…

E ele correu para a farmácia, repetindo "Ponstan, Ponstan", para não esquecer. Chegou no balcão, olhou o bonito sorriso da atendente, seguido do angelical "bom dia".

- Eu queria um… é… qual o nome mesmo?

Claro, ele havia esquecido completamente.

- Só um minuto…

Ligou já esperando as trovoadas. Sabem como é, mulher com cólica.

- Alô?

- Eu não acredito que você está ligando para perguntar o nome do remédio!

Estava ficando cada vez mais previsível.

- É, qual é mesmo o nome?

- É Ponstan! Ponstan! PONSTAN!

- Ah, igual Potsdam, aquela cidade alemã, do Conselho, um troço desses. Lembra, é da Segunda Guerra…

- Se essa porra não chegar em cinco minutos, você vai acompanhar a Terceira, Quarta e Quinta Guerras!

- Ok, ok… tô aí em cinco minutos… quer ficar na linha conversando enquanto isso?

- Arrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrgh!

Da batida de telefone para a casa foram seis minutos. Tempo suficiente para que paramédicos, bombeiros, a CIA, o Mossad e um exorcista ocupassem o prédio. Por sorte, ninguém reclamou dos urros.

- Está aqui, como você pediu…

Pela cara, ele jurava que ela conseguiria falar de trás para frente sem problemas.

Dois dias depois era a vez dele. Não uma cólica, é claro, mas uma dor de cabeça terrível:

- Tô com dor de cabeça, acho que é enxaqueca, me ajuda?

- Hum, me dá a marca da cerveja?

- Serra Malte.

Cinco minutos, e três garrafas depois, a enxaqueca tinha passado.

Do boteco para o papelAugust 1, 2006 2:21 pm

O copo de cachaça olhava para ele. E, mais impressionante, falava com ele.

- Ei, mais um gole! Vai, não seja fraco…

Ele olhava para o copo. Mais estranho ainda, sentiu que precisava conversar, responder, sorver até o último gole dela:

- Não posso querida, amanhã eu trabalho…

- Vai, é só um golinho, amor. Vai deixar o garçom me jogar fora?

Desde a última reunião do AA, ele não bebia. Isso foi há duas, três horas. Um dia antes, tinha conversado com um copo de tequila.

- Você fala igual minha ex-mulher. Eu achei que tinha trocado ela por coisa melhor…

- Pelo menos eu não te convido para ir na casa da minha mãe todo domingo.

- Mas eu sairia no lucro, sua mãe mora num alambique.

- Ia beber dela, seu safado?

- Depende, se for tão boa quanto você…

Aquilo era um elogio, mas ela, obviamente, não entendeu.

- Seu, seu…

E o copo começou a balançar na mesa, inexplicavelmente, indo em direção a ponta. Antes mesmo que ele percebesse, espatifava no chão. A cachaça corria em direção à rua, tal qual sangue. Ele, impassível, olhava e dizia ceticamente:

- Ainda bem que essa louca me deixou. Nunca vi, se matar só por causa de um golinho na mãe. Quer saber, eu vou é para a caça. Garçom!

- Pois não senhor?

- Que idade tem aquela marca de uísque?

- 12 anos senhor…

- Hum, uma ninfeta. Traz a garrafa!

- Psiu, olha aqui gatinho, que tal dar um trago? - perguntou a caixa de Marlboro, com o olhar lânguido.