Dentro da floresta - David RemnickJanuary 10, 2007 11:59 am

O Eric me imcubiu de fazer uma lista com cinco coisas que eu odeio. Segundo ele, eu sou uma pessoa cheia de amor no coração, quase um pacifista, exceto pelo desprezo que sinto pela besta-mor, Fernando Henrique Cardoso, Putus Est. Ele tem até certa razão, visto que eu gosto de coisas que a maioria das pessoas odeia, como Zoolander e lavar louça. De qualquer forma, sim, há cinco coisas que eu abomino. Porque até mesmo Gandhi odiava uma cueca freada, não é mesmo?

I - Fernando Henrique Cardoso: ele, o sociólogo gabola, me embrulha o estômago. Sério. Quando eu era office-boy, costuma almoçar nas barracas de cachorro-quente do Centro da cidade, sem contar que sou fã do duvidoso yakissoba da Avenida Paulista. Estes, porém, nunca afetaram meu sistema digestivo com a força do ex-presidente e ex-croque do Brasil. Só aquele maldito sorriso de "fodi com vocês" me dá vontade de arrancar as bolas do infeliz e introduzi-las eu seu reto, por um período de oito anos, para que ele saiba o quão edificante é ser fodido por Fernando Henrique Cardoso. Algo que, creio, nem Dona Ruth saiba.

II - Björk: é um misto de medo e ódio. Sim, eu tenho um medo absurdo da Björk. Aquela voz dela, aquele jeito bizarro de alienígena. E como o medo é parente próximo do ódio, eu odeio a Björk. Não consigo assistir cinco minutos de exibição de qualquer coisa dela sem que sinta um frio na espinha e a vontade de pegar um machado e separar a cabeça do corpo, no melhor estilo "matando Jason". Aquilo não é humano, aposto.

III - Judeus sionistas: eu não queimo sinagogas e não empilho judeus em valas para entrar no Guiness com o recorde do maior cinzeiro do mundo. Porém tenho ódio dessa história toda de Terra Sagrada e blábláblás. Enquanto se fiam aquela porcaria do Torá, crianças palestinas atiram pedras em tanques da melhor qualidade, que só o melhor da tecnologia em armamentos do mundo pode conceber. Isso sem contar a pose de "coitados de nós, lembrem-se de Auschwitz". Lembramos todos os dias, seus merdas, quando vocês entram em Jenin atirando balas como se fossem mamonas.

IV - Pessoas não complicadas: é, isso mesmo. Eu adoro uma complicação. Ir, voltar, pensar de novo, ver outro ponto, discutir, quem sabe até sair no tapa. Não gosto de gente que resolve as coisas em cinco minutos, por mais certo que esteja. Pior ainda quando a resolução vem de uma imposição que não agrada a outra parte. Puta merda, vamos sentar, chama outra cerveja, você não viu isso pela ótica dos Visigodos. Que diabo!

V - Legenda branca e intelectuais resenhando filmes-pipoca: legenda branca é o cúmulo da estupidez. Filmes americanos, quase sempre, tem neve (Fargo, um puta filme, é quase todo branco). Hollywood é a Meca do filmes. Entenderam o recado ou desenho, porra? Quanto as resenhas, a Folha, recentemente, publicou uma resenha do Amir Labaki sobre Cassino Royale, falando em "clichês do gênero" (termo clichê, por sinal) e outras merdas. O Labaki é um dos realizadores do "É tudo verdade", mostra de documentários e tal. Pois então, que vá resenhar documentários, cazzo, e não venha pedir arte em um filme que precisa de três coisas: mulher, dry martini e ação.

Como o mundo é cíclico, vamos ampliar do diâmetro (epa) da coisa:

Lelê: como sempre, pelo texto. E porque o FHC pode aparecer por lá.
Junior: pode fazer um top 10, sem problemas.
Lívia: pode ser só sobre a auto-escola, sem problemas.
Gabi: porque ela abraça árvores. E ama judeus. Pode ser um top 3.
: o Junior vai dizer que DC fede. Fica a seu critério dizer se ele fede ou não.

Dentro da floresta - David RemnickJanuary 9, 2007 12:03 pm

Periga que o furunfar de Daniela Cicarelli e Renato Malzoni seja eleita a trepada do século. Sim, mais do que O Todo Poderoso e a Virgem, mais do que senhor e senhora Hitler, mais até do que o pseudo-furunfar entre Madalena e Jesus, segundo crença de alguns (porque há controvérsias, sempre, quando um bom moço pega uma moça boa).

Graças ao sexo livre em praias espanholas e o Oscar de melhor longa (ou seria curta?) metragem para Stanley Kubrick, com suas tomadas certeiras, o site de vídeos Youtube está fora do ar. É, Cica deu uma em público, Kubrick filmou, a coisa parou no Youtube e milhões de pessoas apreciaram a derrière para lá de bonitinha da Dona Cica. Agora, que não mais temos o Youtube, podemos ainda ver a bundinha de bebê da moça no Minhocão (pode inserir a piada, sem problemas. Opa, inserir?) ou na edição de número esquecido da revista VIP.

Sim, Daniela continua mostrando suas partes mais gostosinhas e interessantes em outras áreas. E nas horas vagas apresenta aquele programa para lá de ruim na não menos ruim MTV. Exposição? Bobagem, exposição ela teve no Youtube, é claro!

E o Renato, como está nessa? Teve gente que elogiou a envergadura do moço, teve gente que disse que já viu maior. Ele, provavelmente, vai culpar as águas frias da Espanha, mas nunca dará crédito à Catuaba ou ao Viagra. Deve ser Viagra, rico não precisa de bebidas medicinais, vai direto aos laboratórios. Uma coisa ele não pode negar: de moço do Merril Linch, conhecido por sei lá quantas dúzias de economistas, ele passou ao famoso cara que comeu a Cica, aquela que entrou com ação contra o Youtube, uma das ferramentas de um termo bem idiota criado talvez por mim, talvez por milhares de pessoas desse mundão da Internet: a revolução visual.

A Cica, espartana, acabou com as nossas àgoras. Adeus, Amish Paradise. Adeus, Chad Vader. Droga, como vou saber agora se um jogo de Playstation 2 é legal? E como vou ver os vídeos da Blogagi? Qual será o próximo passo? Bloquear o orkut? Acabar sistematicamente com os blogs? A Grande Timoneira e sua Revolução Cultural/Sexual deu o primeiro passo rumo à educação moral e cívica da nação! Amanhã ela mostra, repito, sua deliciosa e pequena bunda na Playboy e fecha sites que publicarem as fotos. Inclusive o da Playboy. Eu vou parar na Praça da Sé, em frente aos tanques de Cicarelli, igual ao chinês em Tiananmen, vou protestar contra a afronta! Arroz, feijão, Youtube e macarrão! Às armas, às armas!

E o Saddam? Pôxa, Saddam também foi prejudicado e mesmo assim não "mandou fechar" o Youtube. Ok, era meio difícil, mas ele era o Saddam! Nem o tombo de Fidel, e olha que ele é "ditador perpétuo", teve essa repercursão. A Cica entrou para a História. Se um dia ela mandar o povo comer brioches, eu já tomei a frente e apelidei sua carne no ponto de brioche. Se o Renato pode, o povo pode, já que vão dizer que a ação dela é digna dos sovietes da Revolução Russa. Toda Cicarelli ao povo!

Agora imagine como serão as mesas de bar? Falaremos de que vídeos? Dos gols do Fantástico? Daquela matéria do Jornal Nacional? Ou então do fabuloso Beija Sapo, o programa doutrinador da Cicarelli no que diz aos bons costumes apregoados por ela com o bloqueio do Youtube. Ela continuará mostrando seu brioche lindo. Mas agora teremos de dar audiência àquela merda de canal de televisão chamado MTV, que em tempos áureos tocava Pearl Jam, Dire Straits, Duran Duran, Black Sabbath, Green Jelly, Weird Al Yankovic e hoje é lugar de emo-qualquer-coisa, gangsta rap, rap, Los Hermanos, essas desgraças todas que a Grande Ditadura Proletária e Bundudinha de Cicarelli nos proporciona.

Ave Cica, Ave derrière de Cica! Nós que não mais veremos vídeos à saudamos!

Dentro da floresta - David RemnickJanuary 8, 2007 4:02 pm

Era uma carta simples, o de sempre, aquele envelope pardo com um papel dentro. Endereço correto, nome correto, sem remetente. Dentro, um papel branco, uma folha sulfite. "Você está na lista. Em uma semana entraremos em contato.", era o escrito no papel. "Que lista?".

Dizem que várias coisas separam os homens dos animais. O homem por exemplo é o único animal que bebe álcool, seja para socializar, suprir um vício ou mesmo porque está um calor dos diabos em uma sexta-feira. O homem é capaz de cálculos complexos, se bem que alguns não conseguem realizar problemas matemáticos que para a cadela Laika soariam tão burras quanto o capitalismo. O homem é capaz de diversas ações, inteligentes ou não. Mas, acima de dúvida, o que nos separa dos animais é o fato de sermos extremamente curiosos. Toda a raça humana, sem exceção.

Tudo bem, você diz que um macaco é curioso. Mas um macaco não liga para a jaula do lado, no meio da noite, para perguntar quê diabos era aquele segredo que todo mundo sabe, menos ele. Um leão também, nunca ligaria para a sombra de árvore mais próxima. Talvez avançaria na jugular do confidente, para arrancar o segredo. Práticos, sem dúvida.

Enfim, a lista. Que diabos, lista do que? Uma festa? Devedores do Imposto de Renda? Logo agora, depois de tantos anos sonegando? Não, uma lista de mortos, talvez? Quem sabe uma lista de vencedores de um concurso onde o prêmio é um cruzeiro pelo Caribe com lindas suecas? Ou posso ser descendente de uma linhagem ligada à Cristo? Talvez Dan Brown tenha roubado a história de minha família também?

E assim foi pelo resto da semana. A lista. Qualquer evento que envolvia mais de uma pessoa ou que tinha a mais infíma ligação com seu dia-a-dia, para ele fazia parte da lista. Quando o Exército Israelense matou 25 palestinos em Jenin, ele buscou em meio mundo os nomes. Quando um homem-bomba palestino mandou para os ares um café em Tel Aviv, ele soube o nome de dez dos 15 mortos, e acreditou que os judeus foram mortos por fazer parte da lista. "Eu Samuel, sou o próximo", pensou.

Aos poucos, a idéia de uma lista da morte virou sua maior obsessão. Abria os obituários de jornais, ligava para cemitérios, para o Insituto Médico Legal. Ia à igrejas, sinagogas, mesquitas, centros espíritas, bingos e toda a sorte de fé. Começou a se entregar de vez à vida, bebendo demais, fumando demais, dando a mão à primeira mulher que lhe estendesse qualquer coisa, afinal de contas a semana estava quase no fim.

Um dia antes do prazo final da carta, perdeu a mãe, que morreu em um acidente de carro. Bom, o carro passa bem, mas a pobre mãe foi atropelada. Ali estava, o sinal: seu clã, família, o diabo, seria "sistematicamente assassinado por um carro, daqueles sem piloto, que escreve cartas e as põe no correio! É isso, não tinha endereço mesmo! Como dar o endereço de um carro? Olha, moro na marginal, espera, acabei de subir a ponte dos Remédios. Era isso!". Estava exultante, havia descoberto o segredo.

Na manhã seguinte a esposa, que havia abandonado o lar após a última paranóia do marido, voltou para buscar algumas coisas e o encontrou pendurado por uma corda na porta da cozinha. Visivelmente abalada ela ligou para a polícia, que concluiu suícido. Um dos peritos achou, aos pés da vítima, um envelope pardo e, dentro deste, um bilhete escrito em papel branco que nada tinha de revelador:

"PARABÉNS! O Grupo Rodrigues Freitas congratula o mais novo integrante da lista de moradores deste bairro que receberão, interamente grátis, nosso incrível imã de geladeira. Agora, com nosso telefone pendurado em um dos mais importantes aparelhos de sua casa, você pode se lembrar que nosso grupo possui o que há de melhor para sua família em saúde, segurança e…".

O restante do anúncio foi rasgado e estava desaparecido.

Dentro da floresta - David RemnickJanuary 5, 2007 4:20 pm

É estranho pensar nesse negócio de metas para o ano vindouro quando as minhas são as mais estapafúrdias possíveis. Eu estabeleci, por exemplo, que em 2007 leio Os Irmãos Karamazov. Não, você não leu errado. Nada de resolução do conflito árabe-israelense, corte de calorias, redução do consumo de cerveja, melhor aproveitamento da minha grana, saúde, paz, amor. Esse ano eu leio o livro do Dostoiévski, nem que ele me custe o ano todo. Quer dizer, nem tanto.

Outra meta é ler gente de quem eu escuto falar mas não vejo leitor indicando. William Faulkner, Phillip Roth, Milan Kundera. Eu nem sei direito do que eles versam (o Roth eu tenho uma breve idéia, judaísmo), mas eu vou ler, fazer de 2007 um ano literalmente diferente. Mas não no sentido ipsis literis da coisa. Ih, compliquei com o trocadilho bizarro.

Outra coisa: resenhar todos os filmes vistos no cinema. Conversava com o Junior dia desses e após a pergunta "quais os melhores filmes do ano?" eu me embaralhei. Eu tenho memória boa para nomes e datas, mas péssima para coisas recentes. Assim sendo, nada melhor do que unir o inútil ao desagradável e resenhar tudo para depois consultar arquivos.

Além disso, eu preciso voltar a estudar. A vida de vagabundo está me dando nos nervos, em alguns momentos. Saudades dos trabalhos de faculdade, de alguma obrigação, não sei ao certo. Se não for um curso universitário novo, pelo menos o inglês vai nesse ano. Aliás, desse ano o inglês não pode passar.

Por último, mas não menos importante, esse ano eu monto um harém e disponibilizo vídeos lésbicos na internet. Todo mundo pede dinheiro, além de outras coisas. Eu só estou pedindo a felicidade de internautas chegados a se acabar na mão, a preços módicos de US$ 5 por vídeo. Afinal de contas, eu preciso estudar e ler Faulkner.

Dentro da floresta - David RemnickJanuary 4, 2007 7:23 pm

- Sabe, eu percorri o Inferno, o Purgatório e o Céu por você!
- E daí? Quando eu te peço uma coisa simples, você não faz!
- Puta merda! Qualquer mulher daria o mundo por alguém como eu!
- É, mas eu não sou qualquer mulher!
- É, não dá nem para comparar…
- Custava? Era só recolher um par de meias! Eu me mato nessa casa e você chega e joga tudo no chão!
- Eu trabalho o dia todo, não fico indo no cabelereiro para fofocar!
- Ah, eu não faço nada!? Vê se sou eu que fico no balcão do boteco bebendo com aquele vagabundo do Virgílio!
- Tá louca? Vai falar mal do Virgílio? Ele é um dos maiores poetas da História!
- Um vagabundo, é o que ele é! Poeta, poeta. Desde quando fazer duas rimas em balcão de bar é poesia!
- Quer saber, eu vou sair. Chega das suas paranóias!
- Ah é, vai sair? Então tá, se quiser me achar, eu tô na casa da minha mãe!
- Vai, vai. E não precisa dar o endereço do Inferno, porque eu não vou lá de novo por tua causa, viu Beatriz!
- Tá bom Dante, tá bom. Se for pro Inferno fica, tá! Vai lá com o teu vagabundo preferido. Poeta, poeta! Um bêbado, é o que é!

Se Dante fosse uma pessoa comum, dos dias de hoje, só haveria um tomo para A Divina Comédia.

Dentro da floresta - David RemnickJanuary 2, 2007 6:12 pm

As piadas vão surgir ao montes. Aquelas do tipo "Saddam enforcou o feriado de Ano Novo", e coisas muito parecidas. Serão infames, é lógico. Também teremos textos agradecendo a morte de um sádico, ou então falando da macheza de Saddam, que quis ser enforcado sem máscara. "É muito out em Paris, combinar meu modelito com essa máscara horrenda, credo!" é a minha versão para a coisa.

2006 foi o ano do fim dos genocidas. O Slobodan Milosevic, que vá para o Inferno, deu fim a vida. Ou não deu, vai saber. Alguém tão odioso tem diversos motivos para o primeiro e diversos inimigos para o segundo. Era o carniceiro dos Balcãs, ou algum outro nome próximo disso que todo facínora ganha. Não tinha como durar até 2007. Aliás, já havia durado muito tempo.

Outro que se foi é o Pinochet, depois de muita mandinga que unia gente bem diferente como eu, você e o José Serra. Ah, e claro, metade do Chile. Ariel Sharon, então, conseguia a proeza de ser odiado até pela meia dúzia de judeus lúcidos (o Chomsky e o Allen, por exemplo) que não compactuam da cegueira dominante no Estado de Israel e não votariam no gorducho sedento por sangue.

Tem também o Tio Fidel, mas deste eu não falo. Gosto do Fidel, porque não sou cubano. Alguns que lá moram, por suas razões, abominam o Comandante. Para nós, daqui de fora, a Revolução é mais bonita, mais plástica. E tem as camisetas do Che, que caem bem com qualquer roupa. Aposto que o Saddam, se pudesse, usaria uma camiseta do Grande Guerrilheiro no dia do enforcamento, apesar de duvidar que o staff americano permitisse uma coisa dessas. Era capaz do espírito de Brejnev subir lá no Kremlim e a Guerra Fria voltar com força total. Bom nesse caso é que os filmes de espionagem teriam razão de ser para o grande público e não somente para meia-dúzia de aficcionados, essa meia dúzia judaica ou não.

Teve mais gente que morreu. O Reagan foi esse ano também, se a memória não estiver no cadafalso, como Saddam. E o Ford também foi. Não o Bigode, esse morreu enforcado faz tempo. Quase tanto quanto o Tiradentes. Aliás, nos dias de hoje, matar por enforcamento é uma espécie de volta a nossos instintos primitivos, como diria o carrasco do Zé Dirça. Hoje, onde se mata agente secreto com doses daquela substância cara e de nome estranho, como fez Vladimir Putin, ver um homem em pé no cadafalso, corda no pescoço, nos soa estranho. Podemos até dizer que é bárbaro, que nem Saddam merecia. Mas é claro, não somos curdos, assim como não somos alguns cubanos, não a sei dizer se a maioria.

Enfim, deveríamos retomar as tradições. O cara é um famoso genocida, foi condenado à morte, vai para a forca. Simples, rápido. Não é como na China, onde você ainda tem de pagar a bala. Se bem que se o governo for enforcar todos os amarelos dissidentes ou não, eles vão parar de produzir aço e filmes wuxia bem legais para fabricar cordas, durante todo o sempre, como a moça do tear de fios de ouro.

Então lá foi Saddam. Em pé, esperava que o jogo acabasse. O carrasco chegou, e logo avisou:

- Vai ser em inglês.

Então disseram que era uma palavra com sete letras. "A", disse Saddam, e o pescoço foi colocado na corda. "E", tentou, conseguindo as primeiras letras: _ _ E E _ _ _. "G", tentou, vendo seu corpo mais próximo do bigode. "D", seguido de um muchocho do carrasco, tinha acertado: _ _ E E D _ _. "T", e lá foi um braço. "L", e foi mais um. "F" salvou sua perna direita do cadafalso: F _ E E D _ _. "W" fez com que uma perna fosse. "O", vindo com medo do excesso de vogais da língua, deu em F _ E E D O _. Mas o fatídico "B" de Bush, dito pelo ditador, pôs um sorriso no rosto do carrasco, que abriu a portinhola e fez a alegria de americanos e tristeza de xiitas. Ou sunitas, eu nunca sei. Se um dia for para a forca, que não caia essa questão.

E Saddam foi enforcado por não saber o que é liberdade. Tanto em palavras quanto nos atos e até nos autos. E essa é talvez a piada mais infame que você vai ouvir sobre o assunto. Se bem que, dada a desastrosa e absurda campanha dos Estados Unidos no Iraque, eu não duvido muito que eles tenham feito isso. É só não esquecermos as sandices de Abu Ghraib onde soldados, por pouco, não faziam palavras cruzadas com o sangue de iraquianos. Coisa que, por sinal, tem de sobra.

Dentro da floresta - David RemnickDecember 29, 2006 2:18 pm

- Pois é, a cortina tá fechando.
- Mas o espetáculo foi legal. Teve coisas novas, teve coisas antigas reforçadas, teve o último ato do fígado.
- Cara, o último ato do fígado. Que cena dramática!
- Pois é. O Samuel Beckett teria um treco.
- Eu nunca li.
- Nem eu, tô fazendo charme.
- Ah tá.
- Mas o William morreria por uma cena daquelas.
- Ele morreu por uma cena dessas, rapá.
- E o protagonista só falou merda no espetáculo todo, né?
- Falou e escreveu, durante toda a exibição.
- Cara, mas ele tem uns insights legais, de vez em nunca.
- Tem nada, tudo que ele produz é lixo, lixo, lixo!
- Pára, você está parecendo aqueles críticos francesinhos da Cahiers du Cinema. Manja, estilo, não é Goddard, não é bom. Ainda copiam slogan da Bayer, os plagiers.
- "Plagiers"?
- Plagiadores, no meu francês…
- Seu francês?
- Ah, longa história. Mas enfim, no final, um baita espetáculo. Os atores coadjuvantes estavam ótimos, como sempre.
- Não, eles são os principais. E o principal é coadjuvante.
- Pô, eu não notei.
- Eu percebi, ninguém entende direito o que eu produzo.
- Vai ver porque é tudo uma merda.
- É, mas os principais são bons, vai. E semana que vem tem premíere do meu novo espetáculo, o 2007.
- Seqüência do 2006?
- Mais ou menos. É provável que tenha coisas novas.
- Mas o principal continua?
- Cada vez mais dizendo e escrevendo merda…

Ano que vem tem mais, meus caros. Eu aqui, no meu velho e querido blog. Vocês em todo o Brasil, porque…

Chega, isso é muito infame até para mim. Feliz 2007 para todos. Obrigado.

Dentro da floresta - David RemnickDecember 28, 2006 7:09 pm

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Acho que até pára-choque de caminhão a frase virou. E o João não esquecia a dele por nada nesse mundo.

Lembra muito bem que suava, enquanto virava de cá, virava de lá. Tentava por cima, por baixo, pelos lados. Ia por tudo quanto é canto, meio, via. E o pior é que todo mundo observava, para desespero do iniciante. Os gemidos de dor, o prazer por conseguir peripécias antes impensáveis. Ou melhor, algumas já habitavam sua mente há tempos, mas isso é outra história.

E lá estava João, torcendo, se retorcendo, elevando força e jeito à enésima potência. E todo mundo olhando, alguns até querendo esboçar um "vai João", mas não podiam, para não atrapalhar o ato. O nervosismo, comum aos iniciantes, se abatia sobre o jovem, que não sabia se ria, se chorava, naquela gama de prazeres que só a primeira vez nos traz. Sentia todas as coisas do mundo naquele momento e era como se o mundo, ao mesmo tempo, não existisse além daquele cômodo, daquela cadeira. Sim, cadeira.

Depois de duas horas de gemidos e alívios, João finalmente conseguiu. Era admitido como office-boy do escritório Cunha, Almeida, Saraiva, Peixoto e Irmãos Galvão após, finalmente, desentortar três clipes. Sem tirar.

Dentro da floresta - David RemnickDecember 27, 2006 2:16 pm

Relendo os arquivos do Subversiva, coisa que faço pelo menos quatro vezes por ano, achei um post interativo da Lelê sobre os dez melhores livros que ela já tinha lido, bem como a minha resposta para tal enquete. Isso foi no final de 2003, segundo ano de faculdade, se a memória não morreu, e a minha lista era essa:

1 - A revolução dos bichos - George Orwell
2 - Senhor dos Anéis (Trilogia) - JRR Tolkien
3 - A ditadura envergonhada/escancarada - Elio Gaspari
4 - Fausto - J. Wolfgang Goethe
5 - Jornalismo canalha - José Arbex
6 - Chatô - Fernando Morais
7 - Memórias Póstuma de Brás Cubas - Machado de Assis
8 - O Cortiço - Aluisio Azevedo
9 - Os 10 dias que abalaram o mundo - John Reed
10 - Otelo - William Shakespeare

Estranho como, com o passar dos anos, a lista de livros muda da água para o vinho. Não que eu considere a lista antiga ruim, muito pelo contrário. São livros que deram norte para o que eu escrevo hoje, bem como a nova lista, que viraram a mesa do que se lê neste espaço. O tom da primeira lista não nega que eu tinha uma influência clássica e, para a grande maioria, enfadonha. Em uma lista atual, o ritmo do texto, dadas as influências, salta alguns séculos no DeLorean literário. Dali, por exemplo, eu tiraria O Cortiço, mesmo considerando-o o mais próximo daquela perfeição que as obras de Machado de Assis alcançaram na literatura nacional. Chatô, por exemplo, seria substituido na lista dos livros jornalísticos pelo recém-lido O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchel. Não que a narrativa de Fernando Morais seja ruim, pelo contrário. É que o livro de Mitchel é uma ode aos personagens cotidianos. Sabe, o cobrador de ônibus que você dá bom dia mas não sabe que ele, por exemplo, já chegou a lutar boxe com o Eder Jofre? Pois então, isso é Joe Gould. E seu segredo é uma das melhores histórias contadas no jornalismo mundial.

Não, pensando bem, não tiraria nada. Me aperta o coração excluir qualquer uma das obras citadas. Elas foram meu começo e, de cada uma, tenho uma lembrança marcante. O tapa na cara que é o livro de George Orwell (na minha opinião, mais esclarecedor que o 1984), a meticulosa descrição tolkeniana, que aguça o campo visual do leitor a ponto de conseguirmos ver o filme antes de Peter Jackson dar vida à obra, a acidez de Gaspari e sua doce ironia sobre a esquerda e a direita tupiniquim nos anos de ditadura, ou Fausto, uma história de amor com um pitaco de tragédia e uma veia cômica maravilhosa. Memórias Póstumas não pode faltar, foi meu primeiro livro, aos 18 anos. O ponto de partida, aquele que me fez olhar no espelho e perguntar por que eu fui tão idiota de demorei tanto para ler. Otelo, com o personagem Iago, o homem que me dava raiva pela admiração que causava, mesmo sendo um monstro. Arbex abrindo as portas do mundo, Venezuela em especial, indo na contramão da Rede Globo e do Estadão e John Reed mostrando a reportagem mais minuciosa de front que eu já li, uma vez que ele tinha entrada franca no Partidão durante a Revolução Russa.

Hoje eu posso fazer um top 20, ou até trinta. Seria mais ou menos assim:

11 - O segredo de Joe Gould - Joseph Mitchell
12 - Los Angeles, Cidade Proibida - James Ellroy
13 - As Intermitências da Morte - José Saramago
14 - O Leopardo - Lampeduza
15 - A Fogueira das Vaidades - Tom Wolfe
16 - Crime e Castigo - Dostoiévski
17 - Paciente 67 - Dennis Lehane
18 - Hiroshima - John Hershey
19 - Obrigado por fumar - Christopher Buckley
20 - Ensaio sobre a cegueira - José Saramago
21 - McBeth - William Shakespeare
22 - A milésima segunda noite na Avenida Paulista - Joel Silveira
23 - A queda - Albert Camus
24 - Filme - Lillian Ross
25 - Fama e anonimato - Gay Talese
26 - Incidente em Antares - Érico Verissímo
27 - O Analista de Bagé - Luis Fernando Verissímo
28 - Ninguém escreve ao Coronel - Gabriel Garcia Marquez
29 - Dália Negra - James Ellroy
30 - Uma longa fila de homens mortos - Lawrence Block

Me fez pensar na lista daqui a quatro anos. Esses trinta, não saem. Dentro da Floresta, do David Remnick, será o trigésimo primeiro, é quase certo. E, quem sabe um dia, eu vou ter capacidade suficiente para colocar Assim falou Zaratrusta, do Niestzche, no bolo. Eu deveria era ter nascido melhor leitor, isso sim.