Dália Negra - James EllroyOctober 20, 2006 4:52 pm

O cunhado foi o último a chegar, às oito e meia da noite. O pai esclarecia à filha os pontos a serem abordados. A mãe fazia o mesmo com o filho, enquanto retocava a maquiagem. Na sala de estar adjacente à de jantar, o sobrinho dava os pormenores do evento:

- Os candidatos já estão à postos com suas equipes para o início da transmissão. A titia vem para demover dos eleitores a imagem de má gestora. O titio prepara, junto com a sua equipe, réplicas sobre o dinheiro achado na gaveta de meias, que seria usado na compra de um falso dossiê que implica a titia com o leiteiro. Vamos à sala de estar onde nosso enviado especial, o primo, colhe as últimas informações. Primo.
- Boa noite primo. Titia já está pronta para o debate, aguardando apenas o titio. Boa noite titia.
- Boa noite sobrinho.
- Titia, como a senhora pretende rebater as acusações quando ao caso do leiteiro?
- Veja bem sobrinho. Tenho provas substânciais de que o dinheiro encontrado na gaveta de meias é de origem obscura. A última declaração do Imposto de Renda do candidato deixa claro que ele não tem dinheiro suficiente para a compra do dossiê falso.
- Obrigado. É com você, primo.

- Vamos agora falar com a nossa correspondente prima, que está com o titio nesse momento. Prima.
- Boa noite primo. Titio, o senhor pretende comprovar hoje a noite a origem do dinheiro encontrado na gaveta das meias?
- Boa noite sobrinha, boa noite brasileiros. Em primeiro lugar eu quero deixar claro que não sabia de nada. Esse dinheiro, supostamente dado como ilícito, não vem do meu salário, muito menos de qualquer outro bem que seja de minha posse. Eu não sou o Ministério Público, não sou delegado de porta de cadeia, muito menos o leiteiro. Eu não sei o que se passa com a vida da sua tia.
- Obrigado titio. Voltamos aos nossos estúdios. Primo.

- Muito obrigado aos nossos correspondentes e vamos agora à sala de estar onde será realizado o primeiro debate com os candidatos.

E o debate transcorreu com acusações, comparações à relações anteriores, uso de ironia, números errados, termos esdrúxulos. A esposa tentava a todo custo desvincular qualquer ligação dela com o leiteiro. O marido negava, peremptoriamente, que o dinheiro vinha do jogo do bicho, da caderneta de poupança, do menu de mulheres que ele oferecia aos amigos do escritório ou da venda do Dogde Dart conservado como novo. Falaram sobre a educação das crianças, o trato com a família, o progresso dos Oliveiras e como lidar com os vizinhos árabes, japoneses e italianos. Depois de duas exaustivas horas, o fim do debate veio com aplausos de ambos os lados.

Mas ninguém decidiu quem dormiria no sofá aquela noite. Se a "promíscua", se o "proxeneta"

Dália Negra - James EllroyOctober 19, 2006 2:09 pm

Prometendo nunca mais acordar, e não deixar de beber, ele se viu do lado de uma mulher completamente desconhecida. Desconhecia, inclusive, se era mesmo mulher. Juntou as mãos em prece, rogando a Deus, ao Diabo, a todos os Santos, alvinegros ou não:

- Diz que é uma mulher, diz que é uma mulher!

Um tanto trêmulo, levantou com vagar o lençol e viu que ali adormecia um corpo feminino, daqueles bem bonitos, por sinal. "Mandei bem" foi a primeira coisa que veio à cabeça. Não se sabe de qual, mas veio. Em seguida, a cabeça pensante lembrou de um fator cabal:

- Diz que eu usei camisinha, diz que eu usei camisinha!

Pelo chão, uma caixa inteira de preservativos estava espalhada. No mesmo instante, uma das cabeças acenou, novamente, com o sinal de "mandei bem". Problema era que, como em toda trama, a coisa complicava a cada novo pensamento racional:

- Diz que eu tenho dinheiro, diz que eu tenho dinheiro!

Se fosse uma moça da vida, teria de recorrer ao Serviço de Proteção ao Crédito, visto que ia tomar uma calote, ele tendo dinheiro ou não. Por sorte ela, ao acordar, disse o nome dele seguido de um "já vai, meu bem".

- Diz que você lembra o nome dela, diz que você lembra o nome dela!

Ele não lembrou, e inventou uma desculpa. Tratamento de canal, pensou. "Não! A língua dela percorreu minha boca mais do que todos os dentistas por onde eu passei em toda minha vida. Transplante de rim, isso, pode ser!".

- Eu preciso ir. Mesmo…
- Tudo bem. Me liga depois.
- Claro que sim!

E saiu em disparada. Nunca tinha pedido tanto na vida, nem mesmo na época em que tinha inventado de ser mochileiro. E enquando corria, pedia sem pudor algum:

- Diz que anotou nome e número, diz que anotou nome e número.

Não anotou, mas não ligou muito para isso depois de cinco minutos. Tinha tido uma noite fantástica, mesmo se lembrando de pouca coisa. Aliás, lembrando de quase nada, visto que baixou no hospital, pouco tempo depois, para descobrir que um dos rins havia sido cirurgicamente extraído.

- Diz que não foi ela, diz que não foi ela.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, a mulher sem nome e sem telefone removia, cirugicamente, mais um rim que, tempos depois, pediria em vão para que não fosse ela. Burro, deveria era pedir que não fosse o dele. E ele, na espera de um novo rim, pedia:

- Diz que tem um rim pra mim, diz que tem um rim pra mim.

Não sem antes pensar no quão terrível ficava "rim" com "mim" na mesma frase. E praguejando contra a sobriedade que não deixava ele esquecer do "mim" e do "rim"

Dália Negra - James EllroyOctober 18, 2006 6:28 pm

- Então, veja só, ultimamente eu ando achando que só preciso de você e de uma barra de chocolate, sabia?
- Hum… Um de cada vez ou tudo junto?
- Tudo junto. Eu, você e uma barra de chocolate…
- Cê sabe que chocolate não existe só em barra, né?
- Eu sei que, contigo, o que menos importa é como vem o chocolate, e o que mais me importa é como você vem. Como e quando…

Ele sorriu, pensando: "que seja o quanto antes".

- Ah, mas pro que eu tinha pensado importa e muito como vem o chocolate, sabe?
- E no que você tinha pensado?
- Em mudar de sólido pra líquido. Ou cremoso, pra ser mais exata…

Para bom entendedor, chocolate é cama.

- E eu queria falar algo sobre o quanto é melhor chocolate derretido para um corpo curvilíneo como o seu, mas tenho vergonha… Então digo que eu não tenho resposta para isso, mas tenho pensamentos infinitos sobre o mesmo tema…
- Eu também tenho, mas um deles é urgente: quem lava o lençol depois?

Post Scriptum para lá de importante: a adorável e querida Lívia lançou ontem o Livinrooom. Não pense que é um lançamento qualquer, como se fosse um Sputinik da vida. Não, é coisa de mudar a história da humanidade, meu povo. Só que aproveitem, leiam esta semana. Porque na próxima semana o Imperador, este mesmo que vos escreve - e que tal qual o Pelé, às vezes fala na terceira pessoa - vai aparecer por lá. Ele jura que, quando isso acontecer, ele vai avisar por aqui, para que vocês não venham dizer depois que não sabiam de nada. Viu, Lula?

Dália Negra - James EllroyOctober 17, 2006 5:06 pm

O Osmar tinha o que se denominava como "texto maldito". Não, nada ligado a livros de magia negra, bruxaria, Sabrinas e afins, mesmo porque se tratava de escritos ótimos (e vai do problema de cada um ler Paulo Coelho ou não). O texto de Osmar era "maldito" porque só tinha meia dúzia de leitores e, dentre os seis, tinha ela.

Claro, estamos cansados de ouvir que não é o leitor que faz boa literatura, e sim o texto. Agora perguntem para Cervantes, se isso fosse lá possível, quantos leitores ele tinha? E o Saramago? Já sei, os Verissímos! São escritos tão bons quanto o do Osmar, muito lidos e nada "malditos". "Eu sou Dostoiévski. Mas troca Petersburgo pela Lapa", era o que ele dizia.

Mefisto, certa vez, apareceu para Osmar; estranho, ele não era nada parecido com o descrito por Goethe, mas dizia que os escritos "malditos" eram sucesso de crítica e público em todos os círculos literários do Reino de Hades. "Você é Dostoiévski. E o melhor, com sucesso em Petersburgo" foi a piada infame que o Demônio fez para o "maldito" escritor. Assim como Fausto, era só vender a alma que o público estaria para lá de garantido, tal qual o amor de Margarida por herr doctor.

Como todo "maldito" que se preze, não havia possibilidade de venda ou barganha em busca de leitores. Ele queria ser como Camões, queria ser eterno; claro que sem a parte de perder a mulher pela obra. Além do mais, tinha lido Fausto e não estava afim de ver tudo ir para o limbo, texto, amada, vida. Mesmo porque, no fim das contas, a "maldição" por intermédio de palavras era para ela e, se toda a China lesse a obra e admirasse, não teria o valor que um simples "isso está maravilhoso, estupendo" que ela soltava de quando em vez, ao bater olho nos textos que nada mais espelhavam do que o olhar "maldito" que ele tinha sobre a musa.

Olhar "maldito" esse que durou até o fatídico dia em que ela não o leu. E não leu outro, e depois outro. Ele queimava dedos, coração, alma digitando coisas sem sentido. Ela esfriava alma, coração, textos não dizendo nada, nem mesmo algo sem nexo algum. Sem ninguém para ler e sem ter o que escrever, resolveu que era hora de se tornar um best-seller ou ser mais um Nobel nos círculos dantescos, vendendo sua alma ao Diabo para ter o reconhecimento da amada. Esta, por sua vez, voltou a ler os escritos "malditos", sempre com o queixume da grande maioria das mulheres, em especial as apreciadoras dos clássicos:

- Beatriz é que era uma mulher de sorte. As homenagens do Dante sempre serão as mais belas.

E assim foi até o dia em que Osmar roubou papel e caneta do florentino, com total apoio de Virgílio, que não agüentava mais aquela comédia nada divina. Desde então, Osmar foi o bendito entre os "malditos". E ela passou a ser conhecida como a Beatriz do Sétimo Círculo por Hemingway, Dostoiévski (o original) e Hunter Thompson.

Dália Negra - James EllroyOctober 16, 2006 4:17 pm

Era estranho alguém mais gostar de imperioso. E ela disse que gostava. Hecatombe então, criaria uma Supernova. Aliás, Supernova entra na lista dele que, concomitante, achava o máximo dizer concomitante. E é imperioso dizer que aquilo não era normal. Não que não fosse bom, era ótimo, mas não era normal; duas pessoas separadas por uma fronteira não poderiam ser assim, um tanto iguais, não só na lingüistica.

Afinal de contas, fronteiras separam os diferentes. Fronteiras até criam guerras! E eis que, mais que de repente, aquela fronteira não existia e os dois falavam, e pensavam, em uníssono. Que, aliás, era outra palavra que ele adorava, mas não sabia qual a opinião dela.

Mas sempre "haveria de haver", como talvez diria o Dadá Maravilha, a tal da fronteira. Por mais que dissessem, mineiros e paulistas, que era café com leite, eles não ocupavam o mesmo copo. Havia sempre a fileira de pratos a separá-los. Era um oxímoro: tão próximos e tão distantes. Aliás, o oxímoro veio dela, não dele. Dele viria paradoxo.

Mesmo com alguns poréns, a história da fronteira perdia a razão de ser; apagava-se tudo que havia sido escrito e dito sobre linhas divisórias, onde eles não davam a importância que o mundo dava para pedaços de terra. Para eles, a Polônia era só a Polônia, com Alemanha ou sem Alemanha.

Era estranho, também, o fato de que eles, mesmo conhecidos há pouco, já pareciam ter algo que remetia anos pregressos e tal. Não que ele fosse crente desse lance de vidas passadas, mas ela sabia demais para quem não era da CIA ou da KGB. E ele sabia demais para quem nunca viu de perto o Golbery. Talvez soubessem muito porque estavam descobrindo muito e, a cada uma dessas descobertas, novas vinham à tona. E outras. E outras.

Sem contar que ele, muito tímido, ainda teria muitas fronteiras e palavras pela frente. E ela, talvez sem eufemismos, não haveria como dizer o que tinha achado, afinal. Porque no fim das contas, para os dois, o princípio havia sido um par de palavras, jogadas numa frase. Por sorte, as dele tinham sujeito e predicado e ela havia gostado. Por sorte, as dela haviam sido incisivas, únicas, memoráveis. Por sorte, a conexão não caiu. A bem da verdade é que eram limítrofes. Fossem Brasil e China, fossem Japão e Chile. Aliás, limítrofe é uma ótima, não?

Dália Negra - James EllroyOctober 11, 2006 1:48 pm

- Paiê, o que é literatura?
- É a produção artística de determinada sociedade por meio de palavras, filho.
- E quais os nomes dos três Reis Magos?
- Baltazar, Gaspar e Melchior, ou Belchior, filho.
- E é verdade que o George Lucas se inspirou no nome do cachorro para dar o nome do Indiana Jones?
- Sim filho. E o mesmo cachorro, Indiana, serviu de inspiração para o Chewbacca.
- Pai…
- Oi…
- O que é sexo?
- Pergunta para sua mãe que eu tô ocupado.

Então o filho corre para a cozinha, onde a mãe preparava o jantar.

- Mãe!
- Oi querido…
- O que é sexo?
- Pergunta pro seu pai… espera, espera, melhor não. Vai no Google que ele te diz, a mamãe está um pouco ocupada.

O infante então correu em direção ao computador, consumido pela dúvida de algo tão oculto que não poderia ser explicado nem pelas pessoas mais inteligentes que ele conhecera até então. Só mesmo um Deus poderia dar-lhe todas as respostas, e Este encontrava-se à apenas uns toques no teclado e um clique no mouse.

"Sexo", digitou o pequeno, clicando na opção pesquisar em português e esperando  - como se estivesse prestes a ser revelado o elixir da vida eterna - que aparecesse, como ocorreu, uma imensa páginas de links com variações do tema. O primeiro link, que ele logo clicou, dizia:

In Vino Veritas :: Na falta de criatividade, não seja criativo :: October :: 2006
- Escreve sobre sexo, ué? - Bôua! - … - …? - Pô, eu tenho um blog novo… - Mais um? Tá explicado…

Anos depois a família Soares Silva findou, apesar do pequeno Caio ter escrito muitas coisas sobre literatura, cinema e religião. Em blogs diferentes, por sinal.

Dália Negra - James EllroyOctober 10, 2006 5:05 pm

Ela só queria a verdade. Ele queria uma mentirazinha boa o suficiente para poder dormir. Mas todo o mundo sabe que marcas de batom são tão destrutivas quanto os testes nucleares da Coréia do Norte.

- Então, quem é ela?
- Já disse, não tem nada de ela…
- E o batom na gola da camisa?

A verdade, ela pensava. A mentira, ele dizia. De tanto explicar, já se enrolava todo, chamando Jesus de Genésio.

- …e então, isso é o fim da história.
- Quer que eu acredite nessa história furada?!
- Mas é a verdade…
- Arrrrrrrrrrgh!
- Tá bom, a verdade é que eu estou cansado e quero dormir. Amanhã conversamos sobre isso.
- Ah é? Então eu te conto a verdade. Te conto com todos os detalhes como eu e o Almeida trepamos loucamente hoje!
- Boa, essa foi boa. Agora vira para o lado e dorme.
- Não, é sério. Em todas as posições, em todos os sentidos. Norte, Sul, Leste e Oeste, sem parar. Acabei esquecendo até de buscar nosso filho na escola.
- Tá bom, tá bom. Amanhã eu pergunto para o Almeida como é que foi…
- Isso, pergunta! Pergunta mesmo o que ele achou de ter me comido sem pudor nenhum em cima da nossa cama, da nossa mesa, no quarto das crianças. Até forramos o chão com o maldito pôster da Ferroviária para que fosse nosso, digamos, "leito de amor"…
- Tudo bem, tudo bem. Eu tenho outro guardado no sótão.

Minutos depois ele roncava, em uníssono com o choro baixo dela. Aquilo tudo com o Almeida a consumia e ela sabia que um dia seu casamento viria por água abaixo. Para ajudar, agora vinha essa história do batom. "A verdade, apenas a verdade, e acabamos com tudo isso", ela pensou, a noite toda, sem pregar os olhos. No outro dia, o acordar dele foi leve, em contraste com as pesadissímas olheiras dela.

- Então, sobre ontem, não dava para te contar na hora, mas lembra da Alice, a minha chefe?
- Claro que lembro… - disse, beirando a fúria.
- Ontem ficamos num serão até tarde e…
- Vai contar mesmo? Com detalhes?
- Não, escuta só. Estavámos lá no escritório, e de repente ela começou a agir de forma estranha. Quando eu vi, ela estava sem roupa, em cima da mesa, vindo para cima de mim…
- VAI CONTAR MESMO? QUER QUE EU REPITA A HISTÓRIA DE ONTEM?
- Espera, deixa eu terminar. Daí eu saí, fui numa delegacia mais próxima e dei queixa de assédio. O Dr. Osmar disse que, se der tudo certo, levaremos uma bolada e aquela nossa viagem de férias para Cancún está garantinda, amor.

O desmontar foi rápido. De todas as verdades do mundo, aquela parecia a mais verdadeiramente possível, visto que o dinheiro haveria de aparecer, ou o processo tomar conta dos jornais. Tinha ainda o circuito interno de câmeras. Ela só queria agora uma mentira plausível. Ele, a verdade absoluta.

- Eu te amo, sabia?
- Eu também, querida. E desculpa por não ter te contado ontem.
- Desculpa eu, por ter te incomodado.
- Imagina. Estava tão cansado com essa história que se você me contasse que deu pro Almeida eu não ouviria.

E assim ela engoliu a seco a verdade, enquanto ele degustava a mentira com café e torradas.