Chico Mendes, crime e castigo - Zuenir VenturaJanuary 26, 2007 6:50 pm

Eu não sei vocês, mas eu tenho alguns problemas com o ato de comprar coisas. É, o tema é muito amplo e tal, mas tenho alguns exemplos. 

Promoções. Eu sempre sou seduzido pelo canto de sereia das promoções. Se eu fosse um terrorista árabe, para não fugir do chavão, teria uma cena como essa:

- Olha aí, olha aí, reator nuclear é só um real, olha aí!
- Mas e ae, é do bom?
- Meu amigo, tem até o selo Ahmadinejad de qualidade!
- Faz cinco por quatro reais?
- Tá na mão colega!

E pronto, comprei. É fato, certos produtos nunca estarão em promoção. Reator nuclear, quindim, cinto de segurança, pára-quedas. Produtos essenciais para alguma coisa, para um momento crítico. Baixo teor de açúcar, quindim. Atentado terrorista, reator ou CD do Calipso. Não pode ter promoção de coisas como essas.

Outro problema grave é comprar camisinha. Tá, pode não ser para você, mas para mim é um mar de elucubrações e piadas. Exemplo: como perguntar onde está uma camisinha quando você vai naquelas farmácias Mega Store que são maiores que a finada biblioteca de Alexandria?

- Oi, onde ficam os preservativos?

A atendente ou o atendente logo te olham com aquela cara de "preservativo? Vai comer quem, a Marquesa de Santos?". Sim, porque usar a palavra camisinha é algo muito pessoal, como se você fosse íntimo da pessoa. Exige uma frase amiga, do tipo:

- Seguinte ô…. (dá uma olhada no crachá) Everaldo, vou dar uma hoje e preciso de umas camisinhas, tá ligado? Então, onde eu acho a parada?

Preservativo, por sua vez, vem dos romances do José de Alencar. Ou do Eça de Queiroz.

Mas aí veio a Internet e as compras online. Tudo se compra de forma online. Carro, computador, sabonete, mulher. Até pizza se compra online! Você pode comprar um método de conexão para estar online, ou seja, online você compra online! Porém, quem garante que não há um blogueiro sádico do outro lado do "balcão" que, no dia seguinte, postará uma foto sua seguida de um texto espirituoso, dizendo:

"… esse aí (link para o profile da pessoa no orkut), da foto, comprou ontem três vibradores. Seria ele o alien de três cus, tão falado em um dos episódios do Arquivo X?".

E mal sabe o infeliz que você só comprou aquilo para sacanear sua chefe, sua professora do primário e sua mãe, porque você sofre de um humor doentio, ou algo do gênero. É por essas e outras que mercados como o da 25 de Março fazem sucesso. Os imigrantes coreanos não entendem lhufas do que você quer. Você não entende lhufas do que eles explicam. Apenas compra e paga, na Babel do capital. Mas aqui entra o problema das promoções. Afinal de contas, reator nuclear e camisinha de barraca não "tem bo procedênça, né?".

Se os comunistas pregassem isso, o mundo seria vermelhinho. Só que os produtos, fornecidos pelo Estado, seriam uma merda. Marx tinha razão, a luta das classes é um motor. E nele você só passa vergonha tendo de dividir com a Edilene e com duas velhinhas na fila do caixa que a noite vai ser boa. Ou o dia, porque a questão depende de fatores como, por exemplo, ter ou não Viagra na cestinha.

Chico Mendes, crime e castigo - Zuenir VenturaJanuary 24, 2007 1:46 pm

Duas da tarde, em casa.

- Pô tio, o cara é maior nerd e…
- Pera lá, David. Você passou ontem quatro horas jogando RPG! Você também é nerd!
- Nada a vê, ô! Só porque eu fiquei jogando RPG sou nerd?
- David, quatro horas! É muita nerdice isso!
- Que ô, tá lôco…
- Aliás, seu tio também é nerd viu?
- Você? Tá bom…

Aqui vale uma pausa: meu sobrinho não me acha nerd. Ou o moleque é cego ou eu sou um herói para ele, e heróis são imaculados. Principalmente para um nerd.

- David, eu assisto O Império Contra-ataca pelo menos uma vez por mês! Eu quase decorei toda a fala da cena de luta entre Vader e Luke! Diabos, eu tô jogando God of War desde as dez da manhã e mal parei para almoçar!
- E daí? Desde quando jogar videogame é nerdice?
- Porra, eu tenho uma camiseta do Star Wars! Eu gasto meu dinheiro com livros, DVDs, jogos para videogame. Eu só trepo por sorte, rapá! Ou por condolência das mulheres, sei lá.
- Nada a vê, ó. Eu não sou nerd, curto um rap, jogo bola…
- Eu também jogo, mas eu gasto tempo com Guitar Hero quando deveria, sei lá, estar no sambão, azarando a mulherada, essa coisa toda. Tá um puta sol lá fora, a piscina tá lotada de mulher e eu tô aqui, nerdando. Ainda não vi a luz do sol hoje. E se for olhar, eu derreto. Jogando o dado ou não…
- Ah, acho que não tem nada a ver…
- Tá bom, tá bom. Eu vou lá ver o Império Contra-ataca…
- Não vai mais jogar videogame.
- Nem, vou dar um tempo.
- Beleza! Então vou jogar.

E assim nasce um monstro.

PS: outro diálogo, de hoje de manhã, com a querida Monicake.

- Ela balança a cabecinha e harmoniza o ambiente. Será que se você balançar a "cabecinha" (uma querida, mesmo!) também harmonizará o ambiente?  
- Opa! Se eu balançar a cabeça em Israel, acabo com o povo judeu e palestino, harmonizando o ambiente em cinco segundos…

Eu sou a solução para o mundo, certo?