O Chan wook-Park é um dos diretores mais interessantes que eu vi surgir no cinema. Apesar daquele jeitão de filme oriental - o cara é coreano, então fica óbvio - ele tem como trunfo as melhores colocações que eu já vi no cinema sobre o tema vingança.
Por si só, o tema pode levar alguém ao céu ou ao inferno. Os filmes sobre a Máfia tratavam bem a coisa, mas no campo mais estético. Você partilha do sentimento dos Corleones não só pela forma única com a qual a família comete a vendetta, mas também pelo italian way of life da turma do macarrão. Em Cassino, do Martin Scorcese, há o modus operandi de Nicky Santoro (Joe Pesci), mas o que mais te prende a película é o Império construído pelo personagem do De Niro e o modo de funcionamento da jogatina em Vegas. Em contrapartida, temos a série Díficil de Matar, que só encanta aos adoradores daquilo que é chamado de trash.
Mas o diretor coreano, famoso nestas bandas por Old Boy e, mais recentemente, por Lady Vingança, diz coisas interessantes sobre vingança em seus filmes. Mais especificamente em Old Boy (corram na Americanas, o filme custa só R$ 12,99 e vai te deixar embasbacado por um bom tempo). Na história, um homem é sequestrado e mantido em cárcere privado por 15 anos. Sempre tem seu cabelo cortado, sua roupa trocada e suas tentativas de suícidio frustradas. Passados os quinze anos, soltam o cara e a única coisa que lhe vem a mente é:
- Hum, vou comer um Big Mac! - Certo?
Não, cazzo. O nosso herói, Oh Dae-sun, quer simplesmente achar o seu algoz e, antes de matá-lo com requintes de crueldade, perguntar:
- Onde é o McDonalds mais próximo? - Certo?
Não, porra, perguntar por que diabos deixaram ele trancado por 15 anos. Para isso, inicia a sua busca por vingança, mal sabendo que tem cada passo vigiado e auxiliado pelo seu sequestrador. Isso mesmo, a vingança é mais do sequestrador do que de Oh Dae-sun. E o melhor, é por um motivo tão imbecil que Oh Dae-sun mal se lembrava do ocorrido.
Partindo dessa premissa, da vingança banal e daquela com razões humanas suficientes, Chan wook-Park constrói uma pequena obra-prima com cenas memoráveis (a inicial, dele segurando um suicida em um terraço pela gravata já vale o ingresso) e nos coloca a pulga atrás da orelha:
- Tem fritas? - Agora é isso, né?
Não, pô, como se mede uma vingança e por que nós temos essa gana de infrigir dor e sofrimento aqueles que nos fizeram sofrer. A frase chave do filme, "ria, e o mundo irá sorrir com você. Chore, e chorará sozinho" é quase que a expiação dos pecados de Oh Dae-sun e do seu sequestrador. Diferente da fábula um tanto facista de Jogos Mortais, Old Boy é quase que um tratado sobre os seres humanos. Essa raça filha de uma santa que adora vingança e McDonalds.
Para ver: com estômago forte e sem vontade de se vingar de alguém.
Vale: duas entradas. Uma para a cena inicial, outra para o resto do filme.
Nota: de zero a dez, dez e meio. De cem a duzentos, 212. De cinco a dez polvos vivos, Oh Dae-sun come os dez sem pestanejar.

Tem de creme?
Comment by Eric — May 18, 2007 @ 4:41 pm