O meu irmão, sempre que vê uma matéria sobre crise nos aeroportos, atraso de vôos e o escambau, acha isso o máximo. Segundo ele, rico não sofre, portanto pau na lomba deles se avião atrasa ou não. ele quer mais é que o jet-set se aventure pela Dutra.
Ok, há alguns furos na teoria dele. Desde quando o Constantino Junior entrou na aviação, eu imagino o dia em que poderei ir para o Rio pagando a passagem de avião com Bilhete Único. É capaz ainda de ter direito a quatro integrações em duas horas, como é fato com quem toma ônibus em Sampa. O homem virou uma espécie de Samuel Klein do céu: deixa Francisco e os filhos irem do Oiapoque ao Chuí por cinquenta mangos. Sem contar que você ganha Maxi Goiabinha na faixa, e no ônibus você tem de pagar, quando dá sorte de encontrar algum ambulante dentro.
Voltando a referência ao meu irmão, eis que este que vos fala, que sempre repete "o Inferno chegou na Vila Madalena" em alusão à penúria dos ricos nos aeroportos, fodeu-se bonito graças à São Pedro nesta última sexta-feira, quando foi buscar sua pequena amada em Congonhas. "Ah, mas foi buscar de carro. Se atrasou, tirou uma pestana por lá". Leia de novo que eu sou addicted no Bilhete Único, por favor.
Na sexta a besta-mor foi trabalhar sem blusa. O outono aqui em Sampa é tal qual música do Vivaldi. Você sai no inverno, almoça no verão, desce para fumar um cigarrinho no outono, volta a trabalhar na primavera e vai dormir no inverno. Isso, igual ao filme do Kar-Wai. É um carai mesmo. E lá estava esse ser esperto, oito horas da noite, tomando uma bela de uma Serra Malte no bar, já imaginando que a Mônica chegaria as onze e a noite seria toda nossa. "Vôo atrasa, mas nem tanto. Rico não é conformista", pensei.
Duas cervejas depois, lá estou no saguão. Sono e frio começam a bater. As duas cervejas também. Encosto a cabeça na mala que carregava (e uma enxurrada de piadas sobre o tamanho da mala surge) e espero pacientemente. Adormeço. Acordo meio zureta, com cachaça nas idéias. Até aí, o saguão era quente, e alguém com camisa manga curta era capaz de sobreviver ali por dias. Pena que um alguém de camisa, o único daquela porra, é uma chaminé e precisava fumar um cigarro.
Lá pelas dez, resolvi tomar um café e uma Coca. Podia ter também tomado pó de guaraná, Red Bull e mais qualquer outra coisa alucinógena. Seriam os primeiros dos cinco que tomei. Parecia a Doris atrás do gato no final da noite/começo do dia. A Mô me informa:
- O vôo vai demorar lindo. Acho que umas três horas. Vai pra casa.
- Não amor, eu espero o tempo que for necessário. E mais quinze minutos.
Onze horas, fumar outro cigarro. Outra Coca. Saio e o vento da Sibéria castiga os comunistas dissidentes. Juro, eu vi um quadro do Stálin e alguém falando que eu era um desertor. O Inferno era gelado e o capeta usava capacete da OAS. Pelo menos lá não cai.
Deu meia noite e, tal qual a Cinderella, eu ia virar abóbora. Nada com feitiços, é a maldita cadeira do aeroporto. Se você passar mais de duas horas sentado naquela desgraça, vai acabar virando uma abóbora. Ou vai torcer para ser uma. Enfim, consegui cochilar até meia noite e quarenta. Acordei pensando que já tinha passado do ponto de ônibus e me perguntei porque diabos estava no saguão de Congonhas. Começava a delirar.
Lá pelas duas eu vagava pelo aeroporto tal qual alma penada. Tinha lido 70 páginas de Matadouro 5, do Kurt Vonnegut, e escutado Notorius pela 28ª vez. As três e meia da manhã ela chegou, vinda de Guarulhos. Teve o dobro da minha noite terrível, e ainda apareceu no Jornal do SBT. Eu esperaria três dias e mais tempo, se fosse necessário. De lá, fomos dormir as sete da manhã. Ela, pelo fuso-horário do vôo Tóquio - Sampa. Eu, por ter tomado dois litros de Coca e meio de café. Até que é legal ver o Itaim pegando fogo.

Eu acho engraçado quando a classe média protesta no aeroporto! Mas fiquei com peninha de vocês dois!
Comment by Lelê — May 2, 2007 @ 6:41 pm
Feliz foi vc q veio pra cá de ônibus,
e eu que fiquei esperando em casa.
Dessa vez devemos culpar São Pedro,
o velhote tinha q arrastar os móveis
e jogar água na área bem na sexta feira?
Comment by Monicake — May 2, 2007 @ 9:09 pm
Até post de ódio no aeroporto vira mimimi.
Seus doentes.
Comment by Gabi — May 2, 2007 @ 11:14 pm
Esses namoros-ponte-aérea são foda. Moro no rio e meu namorado em sampa e passamos pelo mesmo problema desde a queda do avião da gol. No natal eu fiquei umas 4h esperando o avião da tam e no carnaval o T. ficou umas 5 esperando a gol. Só com mto mimimi pra aguentar.
Comment by B. — May 3, 2007 @ 2:05 am
Como é bom namorar na linha Norte-Sul do metrô. ^^
Comment by Eric — May 3, 2007 @ 4:06 am
Eu aprendi a chegar em Taboão!1oneone
Será q dá pra ir de avião pra lá? (hum)
Comment by Lilhá — May 3, 2007 @ 2:43 pm
E eu em casa tão feliz que tava chovendo e finalmente fazendo frio. Tô até me sentindo culpada agora…
hehehe
Comment by Raphaela — May 3, 2007 @ 3:40 pm