Pobre garota, sentada na rua, chorando ao lado do seu estimado cachorro, sem saber para onde ir, para onde levar aquele par de sapatos vermelhos e brilhantes. Balbuciava, coitada, para seu mirrado cachorro, palavras de consolo:

- Não estamos mais na periferia, Rex.

Uma senhora muito prestimosa, vendo o quão triste estava a garotinha, resolve ajuda-la:

- Menina, pega o Terminal Pirituba e desce na Raimundo!
- Mas eu não sei qual é, e não tenho dinheiro…
- Analfabeta, é o amarelo! E tenta passar por baixo!

E lá foi a pobre garotinha, Dorotenilde, filha de Dorotéio com Ivanilde, seguindo o coletivo amarelo. Por recusa do motorista em deixá-la passar por baixo, foi a pé atrás do ônibus, até encontrar, apavorado, um jovem de cabelos brancos à beira da avenida:

- O que houve, moço?
- O que houve o quê? Você é minha mulher? Vai pro motel comigo?

Pobre Leão, estava atônito. A garotinha sabia que o motivo disso era a maldade de homens atrozes, mais conhecidos como Gustavo e Marinho, e só uma pessoa poderia resolver o problema:

- Vamos comigo seguindo o coletivo amarelo, moço.
- PRA QUÊ?
- No final da linha, há a coragem…
- Ela joga de quarto zagueiro?

E lá foram Leão e a garotinha, em direção ao arco-irís. Um pouco a frente, uma jovem completamente perdida perguntava para qualquer um passasse à sua frente:

- Oi, escuta. Dois mais dois são cinco, não são? Ei, me responde.

O pobre Leão escondeu-se atrás da garotinha, com medo de que fosse Betão, mais uma vez. Dorotenilde não se fez de rogada e ajudou a pobre Luciana.

- São quatro, moça.
- Não, são cinco, eu sei disso. Mesmo sem cérebro, sei que são cinco!
- Você não tem cérebro?
- Não. O pouco que eu tinha o Keith Richards fumou.

E Luciana juntou-se a trupe que seguia o coletivo de cor amarela. Trupe essa que, mais tarde encontraria Júlio, sentado na porta de um bar:

- Eu virei um éééééééééééébrioooooooooooooooooooo!
- Moço, tudo bem?
- Comigo ótimo gashtina. Probléééma é meu figo…
- Seu o quê?
- Vígado!
- O quê?
- Aquele órgão dos líquidos, cazzo!
- Ah, fígado! Você não tem fígado?
- Não sei. Visão de raio-x é que eu não tenho.

E este humorista nato também se juntou à comitiva que buscava coragem, cérebro e um coração, muito parecida com aquela outra. Quando o coletivo amarelo parou em seu ponto final, lá estava o famoso fiscal de Oz, com sua prancheta dourada e sua indefectível camisa azul.

- Vejo que o caminho foi longo para vocês. Porque não vieram de ônibus?
- Não tínhamos dinheiro, senhor.
- Ah, mas eu sou o fiscal de Oz. Eu permitiria que vocês viessem sem pagar. Você é a moça dos sapatos vermelhos, oras.
- Mas que vilho da puta!
- O que?
- Nada não, senhor. Senhor, eu e meus amigos viemos pedir algumas coisas. Eu, por exemplo, preciso de um Bilhete Único para voltar para casa. Já Leão, coitado, precisa de coragem para encarar os torcedores. Luciana, então, nem consegue mais contar quanto o Mick manda para Lucas. E o Júlio, pobrezinho, precisa de um coração.
- Cooooooração? Que?
- Você não precisa de um coração, meu jovem?
- Não, nem. Tem figo?
- O que?
- Vígado?
- Como?
- Aquela porra de órgão dos líquidos, cazzo!
- Ah, fígado! Você não tem fígado?

Ele pensou seriamente em repetir a piada do raio-x.

- Não. Nem fígado nem uma Serra Malte.

E o fiscal de Oz realizou apenas o pedido daquele jovem bêbado. Afinal de contas, faltavam cinco minutos para as seis e a cervejinha depois do trabalho era a coisa mais urgente.