Ela, por ele:

- Você não vai acreditar nisso! A Mariazinha me ligou perguntando se o esmalte rosa combinaria com aquele vestido lilás dela, horroroso!

Eu não acreditava naquilo. Estava lá há o quê, duas horas, e nada de levantar logo daquela maldita mesa. A música ao vivo do bar me dava azia. O público do lugar merecia uma bomba de sabe-se lá quantos quilotons em suas vazias cabeças. Eu, se pudesse, sacava uma .45 e acabava de vez com aquele sofrimento. Acabaria ganhando o Prêmio Nobel do Martírio, se tal existisse.

- Aham…
- Pois é. Pode uma coisa dessas?
- Não, não pode…

Não sei porque respondi aquilo. Aliás, eu não escutava nada além de blábláblá. Estava focado no par de coxas, usando da tática de fugir para o mais longe possível, o mais rápido.

- Sabia que você concordaria! E o pior, ela está pensando em usar aquele salto agulha cafona que ela comprou em uma ponta de estoque! Não posso deixar ela fazer isso, ela é minha amiga!

Ah, claro, muy amiga! E que diabos é um salto agulha? Meu Deus, isso não acaba nunca! Devia já chegar aqui despido, só com a minha meia preta no pé esquerdo. Se o tal do salto agulha (se veste com calça de linha para combinar?) já causou essa celeuma, uma meia preta causaria a Terceira Guerra Mundial. Por que temos de ser sociáveis? Por que?! Eu devia ter sido claro, "olha, eu só tô a fim de dar uma contigo, nada mais", mas não, eu sou o psicólogo das vazias, o maldito terapeuta das fãs de roupas roxas (fúcsias, desgraçado, fúcsias!), Mariah Carey e toda essa sorte de desgraças.

- E uma pessoa tão sem cultura, ela, tadinha. Acredita que nunca leu Paulo Coelho na vida?

Então eu levantei e fui embora.

Ele, por ela:

Meu Deus, ele é uma das coisas mais hediondas que eu já vi na vida. Não, espera, ele é a coisa mais hedionda que eu já vi na vida. Acho que eu já o vi em algum lugar. Já sei, no quinto círculo de Dante, se a memória não falha. Bom, hora de enxotá-lo daqui:

- Você não vai acreditar nisso! A Mariazinha me ligou perguntando se o esmalte rosa dela combinaria com aquele vestido lilás dela, horroroso!

Funcionou, ele se contorceu! Tomara que ele seja um daqueles machões estilo mecânico da Dutra. Só faltava essa, além de feio igual o capeta, ele vai e gosta de moda. Se ele insistir no assunto, eu pego minhas coisas, levanto e sento no colo do primeiro cara que eu ver sozinho nesse bar. Aliás, quem escolheu uma desgraça dessas?

- Pois é. Pode uma coisa dessas?
- Não, não pode…
- Sabia que você concordaria! E o pior, ela está pensando em usar aquele salto agulha cafona que ela comprou em uma ponta de estoque! Não posso deixar ela fazer isso, ela é minha amiga!

Pronto, tiro de misericórdia. Ele começa a sofrer espasmos. Aposto que se tivesse uma .45 agora, ele enfiaria o cano na boca e não pensaria duas vezes. Dá até vontade de dizer que o vermelho do sangue combinaria com a camisa dele, mas guarda esse humor negro delicioso senão ele gama e serão noites com isso. É, isso.

- E uma pessoa tão sem cultura, ela, tadinha. Acredita que nunca leu Paulo Coelho na vida?

Pronto, acabou. Ele levantou e foi embora. Meu Deus, que cara feio. Pior que isso só aquele maldito salto agulha. Puta merda.