O Evangelho segundo Jesus Cristo - SaramagoMarch 30, 2007 9:00 pm

Já sedento, cansado e todo esfarrapado, o pobre homem, que aqui não terá nome, encontrou o Profeta, este limpo, sadio, com aquela luminosidade clichê da sabedoria que se revela.

- Alto lá, meu caro!
- Putz, ainda bem! Tem água aí?
- Não, tenho sábias palavras sobre o Destino do Universo, e quero partilhar contigo toda a minha sabedoria.
- Legal. É líquido e refrescante, né?
- O que, caro discípulo?
- O Destino do Universo, oras.
- Não, faz-se por forma de palavras.
- Sopa de letrinhas? Tá calor, mas já é algo.
- Não, direi a ti coisas que nunca escutaste, narrarei fatos nunca antes vistos, darei a ti todo o conhecimento de uma vida!
- Nah, nem quero…
- Como?
- Não quero. Pô, tem de decorar, e eu estou numa situação desgraçada. Nem precisa ser muito sábio para perceber.
- Meu filho, da adversidade nasce…
- A água?
- O que?
- Da adversidade nasce a água?
- Não, da adversidade nasce a luz.
- Luz?
- Sim, jovem pupilo.
- Ta de sacanagem, né?
- Por que haveria de estar?
- Porra, puta sol escaldante e você vem me falar de luz? Vai sair mais luz de onde, aqui?

Este texto se encerra pois o autor está no maior bloqueio mental pelo qual já passou qualquer ser humano em toda a história. Blogueiro mental? Bloqueio mental? Hein? Hã?

*baba no teclado*

O Evangelho segundo Jesus Cristo - SaramagoMarch 29, 2007 5:06 pm

Kratos é um cara que vive sempre puto com os deuses. Se o Procon existisse à época, o Olimpo estaria ao lado da Telefônica e da TIM no ranking de reclamações. Não sabe do que eu estou falando? Não jogou God of War ainda? "Problema teu!", diria Kratos, antes de bater sua cabeça na coluna grega mais próxima.

Sem noção, é isso que ele é. Se no primeiro jogo o "Fantasma de Esparta" (espécie de Loira do Banheiro com as Blades of Chaos) já gosta de partir ao meio (juro, não é eufemismo) os inimigos, em God of War II, Kratos pega afeição a outro esporte olímpico (pescou? Pescou?), aquele de bater as pessoas em coisas: Teseu (ou Perseu, dupla sertaneja de Hades!) leva umas portadas, no melhor estilo Kill Bill. Zeus, só o Deus Supremo do Olimpo, leva uma colunada nas idéias para aprender que, com o Joselito de Esparta, não se brinca.

A história é assim: depois de derrotar Ares e ganhar o título de Deus da Guerra, Kratos começa a dar uma força para humanidade. Zeus, tão filho da puta quanto Javé do Jesus me Chicoteia, manda a office-girl, sua filha Athena, dar um recado para o espartano:

- Véi, pára com essa porra que papai tá puto!
- Quem?
- Papai, oras, Zeus!
- Nepotismo da porra! Fala pro puto do seu pai que eu não tô nem aí para ele! Eu sou o Deus da Guerra e Zona Leste é muita treta!

E lá vai nosso anti-herói dar fim a população de Rodes, cidadezinha metida a besta que tem uma estátua conhecida como "O Colosso de Rodes". Devia ser a Campinas da época, tché! Athena, filha do Hômi, dá vida ao Colosso e a bicharada da cidade entra em polvorosa avisa:

- Se trouxer vivo, não tem treta, meu pai mata. Meu pai é foda! Ele solta raios pelas mãos!

Povo bicha da porra. Enfim, você fode com o Colosso, usando a Espada do Olimpo. Tô falando, uma viadagem só. Zeus, apelão bagaraleo, aparece, toma a espada e te mata. Tu tava prometido rapá, não tem idéia. É a lei da favela e o Olimpo, sendo um morro, não foge da regra. Só que, já que a boca de Zeus estava avançando na boca dos Titãs, Gaia, a mãe terra, te chama no terreiro para dar um alô:

- Zifim vai volta dos morto e Zifim vai matá Zeus porque Zifim é prometido.
- Porra de charuto fedido do caraleo.
- Zifim não troça. Zifim procura as Fiandeira do Destino e Zifim vai pedir um manto lindérrimo, um luuuuuuxo, pra vestir na próxima Rodes Fashion Week…
- Que? Afasta esse caboclo veado daí, porra!
- Er… hum… Zifim vai dar fim nas Fiandeiras e vai amarra o Destino pra vortá no tempo e mata Exú Zeus… hi hi hi…
- Precisa rir igual ao Silvio?

E lá vai você atrás das costureiras. Esgarçou sua saia rapá, pode andar assim não. O que? Não contei? Kratos, como todo espartano que se preze, usa saias. Os paga-paus de Zeus estão todos lá: Teseu, Perseu, Zezé de Camargo e Luciano, a irmã da Medusa, o primo do cunhado do genro de Hefesto. Parece aqueles casamentos de novela, com o núcleo reunido. Mas o melhor está no final. Você termina, acha o final uma merda (sabe como é, tá cheio de alguma-coisa-ina rodando na cabeça) e descobre que, veja só, haverá um God of War III.

Melhor que isso só se a Sony me der um Playstation 3. Porque esses japas desgraçados, provavelmente, vão lançar o jogo só nessa plataforma. Cadê os Zeus dos olhos puxados que não manda o Godzilla para acabar com eles?

O Evangelho segundo Jesus Cristo - SaramagoMarch 27, 2007 4:21 pm

Bem amigos do Canal Universitário, estamos aqui na Rua Paes de Barros para mostrar o clássico entre Júlio César e XXXXXX, estudantes de jornalismo da S. Judas. Vamos aos comentários de Casanova!

Boa noite telespectadores. Olha, o jogo promete viu. Júlio não é um conquistador nato como eu fui, mas compensa a técnica com uma raça impressionante.

Pois é amigos. Nossos repórteres já estão em campo para entrevistar os jogadores de hoje. Vamos lá, temos Júlio no microfone! Shakespeare, solta o Júlio aí!

- … vai ser uma partida complicada, mas tô aí, imbuído no esquema tático do professor e pronto pra chegar junto na caipira. Se Deus quiser, vamos aí com 100% em busca de mais uma título para essa torcida maravilhosa.

Taí Júlio, a grande figura da noite. Se tomar um fora, será mais um recorde na carreira desta jovem promessa do campo sentimental. E comeeeeeeeeeeeeeeça a partida. Leonor Macedo, meio campista genial do time do Júlio já dá um lindo passe:

- E aí, XXXXXX, porque você não fica com o Júlio?

Que toque de letra, minha geeeeeente! Humilha Leonor! Será que o Júlio vai saber aproveitar?

- Pois é, por que não, XXXXXX?

Não foi uma conclusão muito ténica, mas mesmo assim, estufou a rede, um a zero! Casanova, Casão, conta aí para a geeeeeeeeeeeeeente!

É, o Júlio não prima pela categoria, mas a zaga do time adversário é fraca e acho que ele no final ele vai acabar furando o bloqueio. (heh)

- Ai, não sei…

Que furada, torcida brasileira! XXXXXX quase mata a torcida! Haaaaaaaaaja coração!

- Não sabe?

Olha aí Camões, a hora do Júlio aproveitar era agora, e ele deixou passar.

Como pode uma coisa dessas, Casão! Segue a partida, XXXXXX, vai para o ataque, corre em direção a área, passa a bola para YYYYYY, sua melhor amiga na sala. YYYYYYY vem correndo, dribla um, dribla dois, vai cruzar:

- Então, XXXXXX, por que não sabe?

YYYYY corre por fora, armando o cruzamento.

- Ah, é porque eu tenho namorado…

Cruzou YYYYYY, XXXXXX arma a bicicleta e é gol! Gooooooooooooooooool, e que golaço!

É, Camões, eu sempre disse que a zaga do Júlio era deficiente. Ele consegue conduzir o jogo, mas na hora do vamos ver sempre acaba na mão. Ou se acaba na mão, talvez.

Leonor dá uma bronca em Júlio, tentando incentivar o time:

- Vai cabeça, caraleo!

Júlio conduz a bola, aos 45 minutos do segundo tempo, tentando no último lance passar pelo meio da retranca XXXXXXana:

- Ué, mas isso não é problema.

Chegou junto da marcação de XXXXX, já tá armando o chute, olha lá:

- É sim, eu não traio meu namorado!

Tiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiira dali a zaga XXXXXXXana. A bola sobra no ataque, XXXXXX tá sozinha de frente para o goleiro do Júlio, tem tudo para marcar:

- Nem rola de ficar com você…

E é gooooooooooooooooooooooooool! Ééééééééé, é da XXXXXXX! *Entra efeito sonoro, XXXXXXil-il-il-il!*. Que goooooooooooooolaço minha gente! Fintou o goleiro deixando sem pai, mãe, avó e cachorro! No momento em que o árbitro encerra a partida, XXXXXX 2, Júlio apenas 1. Casão!

É, foi uma boa partida. Mesmo com o reforço da Leonor, não dava para o Júlio competir com um namorado.

Pois é Casão, pois é amigos. Fiquem agora com as emoções da minissérie Pirituba e em seguida a cobertura completa dessa partida no Jornal Pauta Aberta, aqui do Canal Universitário. Uma boa noite a todos, menos para o Júlio, é claro. *câmera pega riso irônico do narrador, caolho filho da puta*

Dias depois, XXXXXX foi barrada no anti-doping. A FIFA, Federação Internacional dos Fodidos no Amor, descobriu que o namorado era invenção, graças à comunidade "Solteiras SP", no Orkut. A diretoria do Júlio FC pensou em recorrer, mas ia ficar muito feio tomar mais um fora da moça da roça. Se o Kurt Cobain tinha um amigo imaginário, que mal há em se ter um namorado da mesma categoria.

O Evangelho segundo Jesus Cristo - SaramagoMarch 21, 2007 6:55 pm

… eu chiar por aqui, mas hoje mando um grande, um imenso, um mega ultra hiper blaster super "vá à merda" à Universidade São Judas Tadeu, a financeira que trata da dívida abissal que tenho com a instituição, ao maldito pedaço de papel também conhecido como diploma, aos dez anos de carteira assinada com algo parecido com um salário, à minha incompetência em não conseguir sustentar quatro anos de faculdade, ao ensino brasileiro que diz "foda-se mané" para qualquer um que queira aprender qualquer ofício não sendo filho dos Ermírios, Dinizes e afins. Todos os supracitados que se fodam, cada um a sua maneira.

E voltamos com a nossa programação anormal.

O Evangelho segundo Jesus Cristo - Saramago 2:58 pm

Não será crítica, muito menos defesa, porque eu não quero cometer "leviandades", como bem diz nosso caro parlamentar, Leonardo Picciani.

Gostaria, no dia de hoje, de morar perto ou ter acesso à uma usina de cana de açúcar. Tá, você pode dizer que eu ia explorar o drama alheio, que eu sou jornalista e não passo é um vampiro do sofrimento de outrem. Eu respondo que não sei e que não tenho diploma e nós tomamos mais um gole de cachaça, para não sair do assunto: cana.

Pois bem, o grande mandatário avisou, os usineiros são "heróis". Lembrei daquela frase, uma que eu sempre erro. Eu nunca sei se é feliz a nação que não tem heróis ou se é o contrário, se a nação com heróis é que é feliz. Vai que os heróis são uns infelizes. Uns levianos, não é Picciani? É meu dilema Tostines.

Mas eu queria mesmo era mostrar como os nossos heróis tratam os reles humanos. A Folha, sempre oportuna (isso mesmo, você leu oportunista. Eu escrevi oportunista, certo?), mostra hoje o tratamento dado aos trabalhadores das usinas de cana de açúcar. Isso vai chocar a maioria da população. É, esses trabalhadores, descendentes de outros trabalhadores que descenderam de outros trabalhadores, deixarão chocados o leitor de hoje. Eles vêm desde à época em que havia holandeses no Recife, quando a história dos sambas-enredo rolava ao vivo e a cores. Mas isso é grave hoje.

Eu provavelmente faria o mesmo, mas não com os fins da Folha de S. Paulo (sim, estou sendo leviano, e daí?). É a eterna dicotomia do bem contra o mal. Ele fala dos mocinhos, eu dos bandidos. Ele mostra o arco-irís, eu mostro que o buraco é mais embaixo. Passando o Palocci, dois quilômetros mais fundo.

Entrevistaria, por exemplo, o atacante Aloísio, do São Paulo. Ele jogava bola no time de uma usina, que acabou fechando, talvez por falta de heróis. Acabou indo para o CRB, depois para o Flamengo. Chegou no Rio com a dentição mais bizarra do mundo, além de outros problemas decorrentes da pobreza e do trabalho semi-escravo, já conhecido, porém divulgado à cada solstício. Hoje, jogando no São Paulo, é notório pela força física olímpica, como bem sabem zagueiros do Brasil e do mundo. Mas não é o herói da usina. É o herói da grande área, com certas ressalvas. Eu não quero ser leviano, oras.

Dá para citar a frase de forma errada de novo? Que tal "infeliz do país que escolhe errado os seus heróis.". Se for usar em algum lugar, não dê crédito. Esse negócio de ser leviano pega.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckMarch 14, 2007 4:22 pm

Na copa, os dois se encontraram às escondidas. Já se conheciam de antes, do tempo do almoxarifado, mas por linhas tortas do destino - e um salário-miséria dele - acharam melhor deixar cada um ir para o seu lado. Como tempos de crise agregam, lá estavam os dois novamente. Ele, chefe de setor. Ela, secretária e esposa do presidente da empresa.

Ela mal acreditava que ele tinha conseguido. Aquele homem de futuro incerto virou um estupendo chefe, um homem enérgico e brando, rigoroso sem ser déspota. Era o grande libertador do setor. Em tempos outros, mais românticos, havia sido o grande libertário de seu coração.

Ele mal acreditava que ela continuava tão linda.

Ali, naquela copa, dividindo um café, eles se reencontraram sem ninguém saber, nem eles mesmos. O marido húngaro era uma ótima pessoa, um patrão tão exemplar quanto era o seu gerente. Ele continuava solteiro, como sempre fora, talvez só esperando por ela.

- Tire outra cópia, Sam…

E assim que o jovem contínuo saiu com o documento, o tão esperado beijo viria. Mas não veio.

- Vá, apenas vá. Pegue logo o fretado. Seja feliz.
- Desculpe, eu…
- Vá, é perigoso aqui.

E ela se foi. Se tivesse ficado, não há a mais remota idéia de como seria. O copeiro, confidente de tudo que aconteceu desde sempre, olhou com o semblante caridoso. Ele retribuiu:

- Esse é o começo de uma grande amizade.

THE END.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckMarch 9, 2007 12:42 pm

O presidente chegou com todo seu staff. Trouxe seguranças, repórteres, a esposa, milhares de toalhas brancas, uma canga para a primeira-dama, um patinho de borracha, repelentes contra mosquitos, moscas tsé-tsé (essas mosquinhas comunistas!), dinossauros e macacos (é sabido, eles andam soltos nas ruas) balde e pás de brinquedo para o lazer na praia, frango, farofa e água.

Mais de mil pessoas estavam envolvidas no aparato da visita. O Serviço Secreto (que de secreto não tem nada: homens de preto com fones de ouvidos e Land Rovers que mais parecem carros abre-alas da Viradouro), batedores para combater os macacos (eles andam soltos!) e soldados kamikazes para entrar na linha de fogo em caso de um ataque das terríveis zarabatanas. Tinha aprendido com portugueses e espanhóis o quão terrível era este aparato bélico em especial, a grande nuke weapon daquele país perdido nos Trópicos.

A comida também era típica. Do Texas. Desde que o Arby’s fechou, nenhum americano metido à John Wayne arrisca comer por estas bandas. Aquele sanduichão de rosbife com molho barbecue e tudo o mais, não existe no país. Tem feijoada, mas como pos isso, um presidente comendo da culinária de escravos?

E daí que Buenos Aires vai parar? O Brasil é uma nação amiga, tem até for all no Largo da Batata, mas que se dane Buenos Aires! Não é mesmo, Liza Minelli?

E aqueles aborígenes protestando nas ruas? Fora isso, fora aquilo! Fora my ass, pô. Todo lugar que o presidente vai é assim mesmo. É preciso zelar pela vida do comandante-em-chefe, assegurar que nenhum louco com um tacape na mão ataque o presidente daquele país tão evoluído. É como uma santidade vindo nos visitar. Saudemos, chegou o Deus do Vulcão! Bóra sacrificar algumas virgens! Difícil vai ser achar, mas bóra sacrificar!

E lá está o presidente, tomando todos os cuidados. Pena que o idiota tropeçou em um dos seus cães, e acabou perfurando o pulmão com a faca do jantar americano (Dona Bárbara sempre avisou, "não corre com uma faca na mão, meu filho!"). Pelo menos não teremos problemas diplomáticos. A faca era americana.

Post Scirptum importante: é só eu, ou você também imagina que antes do Barbudo trocar uma idéia com o Cabeçudo, vai rolar aquele samba do Zeca Baleiro na parada? Aquele lá, lembra, só que com alguma alterações e comentários de Casagrande e Falcão:

Venha provar meu brunch
saiba que eu tenho approach
na visita do Bush
eu ando de ferryboat

eu tenho savoir-faire
meu temperamento é light
minha casa é hi-tec (pois é!)
toda hora rola um insight (hahahahahahahahaha!)
já fui fã do jethro tull
hoje me amarro no Slash
minha vida agora é cool (e a nossa também ¬¬)
meu passado é que foi trash (o passado ou o presente?)

Venha provar meu brunch
saiba que eu tenho approach
na visita do Bush
eu ando de ferryboat

fica ligada no link (http://oimperador.blogsome.com)
que eu vou confessar my love
depois do décimo drink (só dez?)
só um bom e velho engov (Fraco!)
eu tirei o meu green card
e fui pra Miami Beach (junto com o Collor?)
posso não ser pop star (mas se acha, não?)
mas já sou um noveau riche (Romaneè Conti na veia!)

Venha provar meu brunch
saiba que eu tenho approach
na visita do Bush
eu ando de ferryboat

eu tenho sex-appeal (Dona Marisa que o diga)
saca só meu background
veloz como Damon Hill (barbeiro)
tenaz como Fittipaldi (barbeiro e mala)
nao dispenso um happy end (nem eu!)
quero jogar no dream team (com o Delfim?)
de dia um macho man (ui!)
e de noite um drag queen (ui! ui! ui!)

Venha provar meu brunch
saiba que eu tenho approach
na visita do Bush
eu ando de ferryboat

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckMarch 8, 2007 4:15 pm

Eu conheço mulher pra caramba. Não posso dizer que já tive muitas mulheres, igual aquela música ruim do Martinho. Tá certo que, das poucas que eu tive, tem as confusas, as donzelas e até as meretrizes. Tem do tipo atrevida, do tipo acanhada e do tipo vivida e tal. Mas como a música é ruim, não vale ficar numerando por aqui usando a obra do cara lá de Vila Isabel.

Já no campo amizade, camaradagem, coleguismo, essa coisa toda, eu sempre me dei melhor com a mulherada do que com os homens. Não porque eu talvez tenha algum problema, do tipo gostar mais de Barbie do que de Comandos em Ação e tal. Acho que as mulheres me suportam mais do que os homens, elas tem mais paciência do que nós, os meninos, os machos-alfa e tal. Aguentam minhas infâmias, meu humor de frases feitas, minha pouca auto-estima. Provavelmente agem por instinto materno, como mulheres que são.

Lembro que minha primeira grande amiga mulher foi a Mirella, minha vizinha de infância. A Mirella era testemunha de Jeová (e se fosse hoje, eu faria piadas com tribunal e tal) e tinha uma mãe implacável. As coisas se resolviam sempre na chibata. Mesmo assim, conseguia ser adorável com todo mundo, em especial comigo. Mirella e eu conservamos a amizade até quando eu mudei da Casa Verde, bairro onde morava. Fui à casa dela algumas vezes, tivemos uma época de "ódio mútuo", o que denunciava que estavamos um a fim do outro (adolescentes têm códigos bizarros) e hoje não mais tenho notícias.

Depois da Mirella, tive outras amizades, algumas superficiais, outras com interesses que a minha imaginação púbere ansiava e minha timidez infantil rechaçava, e a maioria sincera, porém sem aquela cumplicidade fraternal de Mirella. Isso até aparecer a Lelê.

A Lelê tinha me encontrado na sarjeta, no segundo ano da faculdade. Graças à uma daquelas donzelas supraplagiadas de Martinho da Vila, eu estava na mais completa merda. Nada tinha sentido, a comida não tinha sabor, essa merda toda que acontece quando uma bigorna ACME cai na sua vida. Daí a Lelê chegou com aquele jeito carinhoso dela:

- Pô Julião, manda essa vaca se foder!

E ela foi mesmo. Se foi útil para algo, posso dizer que serviu para sacramentar uma amizade que, de uma forma ou de outra, nunca deixaria de acontecer. Não fosse ela, seria o Corinthians. Não fosse o Corinthians, seria o Duran Duran. Não fosse o Duran Duran, seria mais uma porrada de coisas.

Claro que há outras mulheres importantes. Tem Dona Helena, minha mãe, aquela que aguentou e não deu para adoção, como seria o lógico. Tem Dona Rose, que adotou, o que é ilógico. Tem minha irmã, Lilhoca, Gabi, Lívia, Helozita, Claudinha, Carolzinha, Alê, Maria, Luisinha, Vitória, a vindoura Júlia, as meninas da faculdade (exceto umas duas ou três, talvez), Celeste, Cintia, Paloma, Luana, Gisele, Roberta, Silvana, Silvia, figuras de infância e colegial no Tolosa, Madonna, Mônica Belucci, Maira Rocha, Isabele Adjani, e mais um monte porque a lista é longa.

Mas está incompleta, como quase tudo assim era até antes de chegar uma mocinha do Rio. Eu nem sei por que fui na Outs, o templo indie e tal. Aliás, nem sei o que é ser indie, e só conheço Franz Ferdinand por causa do Guitar Hero. Mas sei que fui e, diferente de tudo que eu já havia visto, ouvido e tocado, lá estava Mõnica, com seu chiadinho gostoso de se ouvir, falando e falando e falando e eu não cansando de escutar, pensando o "que será que ela achou de mim?", se eu era muito bobo, muito feio, muito pouco pra ela, até que paramos de nos falar, até que o mundo todo parou de falar, como ou sem All Star. Sim, hoje, lembrando daquele dia, sinto que o mundo todo parou, de tão único que foi aquilo tudo. Do abraço, do beijo, do "nos vemos depois" daquela noite, nasceu um amor que parece não ter fim, que parece não caber em nós dois e se transfere para o mundo todo. Nós somos capazes de acabar com a crise do Oriente Médio. Só não rola Imagine na cama porque não sei tocar violão e porque a Mô é infinitamente mais linda que a Yoko.

E hoje cá estou eu de novo, salvo por uma mulher que, desta vez, mais do que me entender, me preenche, me faz ouvir sinos e poeminhas mimimimimimi cada vez que nos vemos. É como se fosse uma coisa só, mas é tudo ao mesmo tempo. Com ela e por ela eu sou capaz de rodar o mundo, de dar um braço e de dar a vida. E quando penso que ela já levou tudo, tem sempre uma coisa nova para ser conquistada, algo que eu não sabi que eu tinha e que ela descobriu sozinha, me deixando mais babão (a ponto de gritar "eu te amo" para todo mundo ouvir, igual à música do Roupa Nova) e mais alegre (a ponto de sorrir para uma janela de MSN) do que eu jamais imaginaria que poderia estar.

A estas, que cada dia nos dão alegrias, ou dão tristezas para depois nos devolver a felicidade em dobro, eu dedico todos os dias, não só hoje. Hoje eu dedico ao Eric e ao Junior que, por serem são-paulinos, não podem ficar fora de uma piada sobre o dia.

Parabéns meninas, mulheres, senhoras. Sem vocês, eu provavelmente não estaria aqui.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckMarch 7, 2007 5:24 pm

Pobre garota, sentada na rua, chorando ao lado do seu estimado cachorro, sem saber para onde ir, para onde levar aquele par de sapatos vermelhos e brilhantes. Balbuciava, coitada, para seu mirrado cachorro, palavras de consolo:

- Não estamos mais na periferia, Rex.

Uma senhora muito prestimosa, vendo o quão triste estava a garotinha, resolve ajuda-la:

- Menina, pega o Terminal Pirituba e desce na Raimundo!
- Mas eu não sei qual é, e não tenho dinheiro…
- Analfabeta, é o amarelo! E tenta passar por baixo!

E lá foi a pobre garotinha, Dorotenilde, filha de Dorotéio com Ivanilde, seguindo o coletivo amarelo. Por recusa do motorista em deixá-la passar por baixo, foi a pé atrás do ônibus, até encontrar, apavorado, um jovem de cabelos brancos à beira da avenida:

- O que houve, moço?
- O que houve o quê? Você é minha mulher? Vai pro motel comigo?

Pobre Leão, estava atônito. A garotinha sabia que o motivo disso era a maldade de homens atrozes, mais conhecidos como Gustavo e Marinho, e só uma pessoa poderia resolver o problema:

- Vamos comigo seguindo o coletivo amarelo, moço.
- PRA QUÊ?
- No final da linha, há a coragem…
- Ela joga de quarto zagueiro?

E lá foram Leão e a garotinha, em direção ao arco-irís. Um pouco a frente, uma jovem completamente perdida perguntava para qualquer um passasse à sua frente:

- Oi, escuta. Dois mais dois são cinco, não são? Ei, me responde.

O pobre Leão escondeu-se atrás da garotinha, com medo de que fosse Betão, mais uma vez. Dorotenilde não se fez de rogada e ajudou a pobre Luciana.

- São quatro, moça.
- Não, são cinco, eu sei disso. Mesmo sem cérebro, sei que são cinco!
- Você não tem cérebro?
- Não. O pouco que eu tinha o Keith Richards fumou.

E Luciana juntou-se a trupe que seguia o coletivo de cor amarela. Trupe essa que, mais tarde encontraria Júlio, sentado na porta de um bar:

- Eu virei um éééééééééééébrioooooooooooooooooooo!
- Moço, tudo bem?
- Comigo ótimo gashtina. Probléééma é meu figo…
- Seu o quê?
- Vígado!
- O quê?
- Aquele órgão dos líquidos, cazzo!
- Ah, fígado! Você não tem fígado?
- Não sei. Visão de raio-x é que eu não tenho.

E este humorista nato também se juntou à comitiva que buscava coragem, cérebro e um coração, muito parecida com aquela outra. Quando o coletivo amarelo parou em seu ponto final, lá estava o famoso fiscal de Oz, com sua prancheta dourada e sua indefectível camisa azul.

- Vejo que o caminho foi longo para vocês. Porque não vieram de ônibus?
- Não tínhamos dinheiro, senhor.
- Ah, mas eu sou o fiscal de Oz. Eu permitiria que vocês viessem sem pagar. Você é a moça dos sapatos vermelhos, oras.
- Mas que vilho da puta!
- O que?
- Nada não, senhor. Senhor, eu e meus amigos viemos pedir algumas coisas. Eu, por exemplo, preciso de um Bilhete Único para voltar para casa. Já Leão, coitado, precisa de coragem para encarar os torcedores. Luciana, então, nem consegue mais contar quanto o Mick manda para Lucas. E o Júlio, pobrezinho, precisa de um coração.
- Cooooooração? Que?
- Você não precisa de um coração, meu jovem?
- Não, nem. Tem figo?
- O que?
- Vígado?
- Como?
- Aquela porra de órgão dos líquidos, cazzo!
- Ah, fígado! Você não tem fígado?

Ele pensou seriamente em repetir a piada do raio-x.

- Não. Nem fígado nem uma Serra Malte.

E o fiscal de Oz realizou apenas o pedido daquele jovem bêbado. Afinal de contas, faltavam cinco minutos para as seis e a cervejinha depois do trabalho era a coisa mais urgente.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckMarch 1, 2007 4:32 pm

Ela, por ele:

- Você não vai acreditar nisso! A Mariazinha me ligou perguntando se o esmalte rosa combinaria com aquele vestido lilás dela, horroroso!

Eu não acreditava naquilo. Estava lá há o quê, duas horas, e nada de levantar logo daquela maldita mesa. A música ao vivo do bar me dava azia. O público do lugar merecia uma bomba de sabe-se lá quantos quilotons em suas vazias cabeças. Eu, se pudesse, sacava uma .45 e acabava de vez com aquele sofrimento. Acabaria ganhando o Prêmio Nobel do Martírio, se tal existisse.

- Aham…
- Pois é. Pode uma coisa dessas?
- Não, não pode…

Não sei porque respondi aquilo. Aliás, eu não escutava nada além de blábláblá. Estava focado no par de coxas, usando da tática de fugir para o mais longe possível, o mais rápido.

- Sabia que você concordaria! E o pior, ela está pensando em usar aquele salto agulha cafona que ela comprou em uma ponta de estoque! Não posso deixar ela fazer isso, ela é minha amiga!

Ah, claro, muy amiga! E que diabos é um salto agulha? Meu Deus, isso não acaba nunca! Devia já chegar aqui despido, só com a minha meia preta no pé esquerdo. Se o tal do salto agulha (se veste com calça de linha para combinar?) já causou essa celeuma, uma meia preta causaria a Terceira Guerra Mundial. Por que temos de ser sociáveis? Por que?! Eu devia ter sido claro, "olha, eu só tô a fim de dar uma contigo, nada mais", mas não, eu sou o psicólogo das vazias, o maldito terapeuta das fãs de roupas roxas (fúcsias, desgraçado, fúcsias!), Mariah Carey e toda essa sorte de desgraças.

- E uma pessoa tão sem cultura, ela, tadinha. Acredita que nunca leu Paulo Coelho na vida?

Então eu levantei e fui embora.

Ele, por ela:

Meu Deus, ele é uma das coisas mais hediondas que eu já vi na vida. Não, espera, ele é a coisa mais hedionda que eu já vi na vida. Acho que eu já o vi em algum lugar. Já sei, no quinto círculo de Dante, se a memória não falha. Bom, hora de enxotá-lo daqui:

- Você não vai acreditar nisso! A Mariazinha me ligou perguntando se o esmalte rosa dela combinaria com aquele vestido lilás dela, horroroso!

Funcionou, ele se contorceu! Tomara que ele seja um daqueles machões estilo mecânico da Dutra. Só faltava essa, além de feio igual o capeta, ele vai e gosta de moda. Se ele insistir no assunto, eu pego minhas coisas, levanto e sento no colo do primeiro cara que eu ver sozinho nesse bar. Aliás, quem escolheu uma desgraça dessas?

- Pois é. Pode uma coisa dessas?
- Não, não pode…
- Sabia que você concordaria! E o pior, ela está pensando em usar aquele salto agulha cafona que ela comprou em uma ponta de estoque! Não posso deixar ela fazer isso, ela é minha amiga!

Pronto, tiro de misericórdia. Ele começa a sofrer espasmos. Aposto que se tivesse uma .45 agora, ele enfiaria o cano na boca e não pensaria duas vezes. Dá até vontade de dizer que o vermelho do sangue combinaria com a camisa dele, mas guarda esse humor negro delicioso senão ele gama e serão noites com isso. É, isso.

- E uma pessoa tão sem cultura, ela, tadinha. Acredita que nunca leu Paulo Coelho na vida?

Pronto, acabou. Ele levantou e foi embora. Meu Deus, que cara feio. Pior que isso só aquele maldito salto agulha. Puta merda.