Eu conheço mulher pra caramba. Não posso dizer que já tive muitas mulheres, igual aquela música ruim do Martinho. Tá certo que, das poucas que eu tive, tem as confusas, as donzelas e até as meretrizes. Tem do tipo atrevida, do tipo acanhada e do tipo vivida e tal. Mas como a música é ruim, não vale ficar numerando por aqui usando a obra do cara lá de Vila Isabel.
Já no campo amizade, camaradagem, coleguismo, essa coisa toda, eu sempre me dei melhor com a mulherada do que com os homens. Não porque eu talvez tenha algum problema, do tipo gostar mais de Barbie do que de Comandos em Ação e tal. Acho que as mulheres me suportam mais do que os homens, elas tem mais paciência do que nós, os meninos, os machos-alfa e tal. Aguentam minhas infâmias, meu humor de frases feitas, minha pouca auto-estima. Provavelmente agem por instinto materno, como mulheres que são.
Lembro que minha primeira grande amiga mulher foi a Mirella, minha vizinha de infância. A Mirella era testemunha de Jeová (e se fosse hoje, eu faria piadas com tribunal e tal) e tinha uma mãe implacável. As coisas se resolviam sempre na chibata. Mesmo assim, conseguia ser adorável com todo mundo, em especial comigo. Mirella e eu conservamos a amizade até quando eu mudei da Casa Verde, bairro onde morava. Fui à casa dela algumas vezes, tivemos uma época de "ódio mútuo", o que denunciava que estavamos um a fim do outro (adolescentes têm códigos bizarros) e hoje não mais tenho notícias.
Depois da Mirella, tive outras amizades, algumas superficiais, outras com interesses que a minha imaginação púbere ansiava e minha timidez infantil rechaçava, e a maioria sincera, porém sem aquela cumplicidade fraternal de Mirella. Isso até aparecer a Lelê.
A Lelê tinha me encontrado na sarjeta, no segundo ano da faculdade. Graças à uma daquelas donzelas supraplagiadas de Martinho da Vila, eu estava na mais completa merda. Nada tinha sentido, a comida não tinha sabor, essa merda toda que acontece quando uma bigorna ACME cai na sua vida. Daí a Lelê chegou com aquele jeito carinhoso dela:
- Pô Julião, manda essa vaca se foder!
E ela foi mesmo. Se foi útil para algo, posso dizer que serviu para sacramentar uma amizade que, de uma forma ou de outra, nunca deixaria de acontecer. Não fosse ela, seria o Corinthians. Não fosse o Corinthians, seria o Duran Duran. Não fosse o Duran Duran, seria mais uma porrada de coisas.
Claro que há outras mulheres importantes. Tem Dona Helena, minha mãe, aquela que aguentou e não deu para adoção, como seria o lógico. Tem Dona Rose, que adotou, o que é ilógico. Tem minha irmã, Lilhoca, Gabi, Lívia, Helozita, Claudinha, Carolzinha, Alê, Maria, Luisinha, Vitória, a vindoura Júlia, as meninas da faculdade (exceto umas duas ou três, talvez), Celeste, Cintia, Paloma, Luana, Gisele, Roberta, Silvana, Silvia, figuras de infância e colegial no Tolosa, Madonna, Mônica Belucci, Maira Rocha, Isabele Adjani, e mais um monte porque a lista é longa.
Mas está incompleta, como quase tudo assim era até antes de chegar uma mocinha do Rio. Eu nem sei por que fui na Outs, o templo indie e tal. Aliás, nem sei o que é ser indie, e só conheço Franz Ferdinand por causa do Guitar Hero. Mas sei que fui e, diferente de tudo que eu já havia visto, ouvido e tocado, lá estava Mõnica, com seu chiadinho gostoso de se ouvir, falando e falando e falando e eu não cansando de escutar, pensando o "que será que ela achou de mim?", se eu era muito bobo, muito feio, muito pouco pra ela, até que paramos de nos falar, até que o mundo todo parou de falar, como ou sem All Star. Sim, hoje, lembrando daquele dia, sinto que o mundo todo parou, de tão único que foi aquilo tudo. Do abraço, do beijo, do "nos vemos depois" daquela noite, nasceu um amor que parece não ter fim, que parece não caber em nós dois e se transfere para o mundo todo. Nós somos capazes de acabar com a crise do Oriente Médio. Só não rola Imagine na cama porque não sei tocar violão e porque a Mô é infinitamente mais linda que a Yoko.
E hoje cá estou eu de novo, salvo por uma mulher que, desta vez, mais do que me entender, me preenche, me faz ouvir sinos e poeminhas mimimimimimi cada vez que nos vemos. É como se fosse uma coisa só, mas é tudo ao mesmo tempo. Com ela e por ela eu sou capaz de rodar o mundo, de dar um braço e de dar a vida. E quando penso que ela já levou tudo, tem sempre uma coisa nova para ser conquistada, algo que eu não sabi que eu tinha e que ela descobriu sozinha, me deixando mais babão (a ponto de gritar "eu te amo" para todo mundo ouvir, igual à música do Roupa Nova) e mais alegre (a ponto de sorrir para uma janela de MSN) do que eu jamais imaginaria que poderia estar.
A estas, que cada dia nos dão alegrias, ou dão tristezas para depois nos devolver a felicidade em dobro, eu dedico todos os dias, não só hoje. Hoje eu dedico ao Eric e ao Junior que, por serem são-paulinos, não podem ficar fora de uma piada sobre o dia.
Parabéns meninas, mulheres, senhoras. Sem vocês, eu provavelmente não estaria aqui.