Tinha aquele ar professoral que algumas vezes dava raiva, mas "exalava sabedoria", como costumava dizer dos outros e, no que o cheiro subia, ia tomando conta de tudo e de todos. Dava até para ver a "fumaça", como nos desenhos com tortas de morango esperando o vento frio na janela.

- Sabe, você precisa dar um rumo para as coisas. Schoppenhauer dizia que…

E isso, o fulano "dizia que…". Sempre havia uma frase de plantão, como se tivesse uma cola por perto. Para cada situação, havia um referencial. Niestzche, Shakespeare, Machado, Seu Adão, da loja de pipas. A bibliografia era imensa.

- Eu sei que tenho que dar um rumo, mas isso é quase impossível porque…

Havia o "porque". Sempre tinha de ter um. Era avesso aos eventos que aparentemente não tinham explicação alguma. Para ele tudo tinha uma causa, uma razão. Se não houvesse, não havia porque debater. Gostava muito do "não discuto o sexo dos anjos", mesmo sendo o maior descrente que a humanidade já teve.

- Ah, mas com um ponto de vista deste, ficará estacionado ad eternum…

E o latim. Qualquer coisa era em latim. Quando não sabia, inventava. E o fazia tão bem que as pessoas realmente acreditavam que Pilatos, César, Tito, alguém havia dito.

- Bom, pelo menos espero que tenha vagas, caso fique estacionado…

A infâmia era sempre o último recurso para fugir de um assunto. Quando se via acuado pela fera das perguntas sem respostas, ou das réplicas sem tréplicas.

- Se não tiver, não pare em fila dupla…

Da concordância nasce a luz. Ou brota mais uma garrafa de cerveja na mesa. É condição sine qua non. Mesmo que bebendo quase sempre sozinho. Ou com seu alter ego, ou o que o valha.