Eu não queria me pronunciar sobre a morte do garoto João Hélio Fernandes, no Rio de Janeiro. Apesar da grande maioria dos textos começarem assim, eu juro que não estou copiando ninguém. Não queria mesmo, me é assunto indigesto, que já deu alguns problemas antes. Não é a primeira criança que morre em situação bárbara, nem - infelizmente - será a última. Não é a primeira vez que se "debate" sobre a redução da maioridade penal, nem será a última. Não é a primeira vez que se é hipócrita, nem será a última.

A última vez que falei sobre assassinato e maioridade penal foi quando do caso do Xampinha, menor que participou do estupro e assassinato da jovem Liana Friendebach e do namorado desta, Felipe Caffé. Pois à época, assim como hoje, as pessoas foram às ruas com tochas, foices e faixas pedindo que os "jovens delinqüentes" fossem enforcados em praça pública. Porque, é claro, eles estavam cansados e queriam paz.

O processo é simples: tranca-se o "jovem delinqüente" em uma cadeia por mais tempo. Lá, ao contrário dos quatro anos de faculdade, ele ganha direito a um MBA no mundo do crime. Porque mudar a lei é fácil. Mas mudar o sistema penintenciário, corrigir dando um norte para molecada que de lá sai, ah, isso é muito difícil. E além do mais, a sociedade quer paz, ora pois.

Afinal de contas, para que pensarmos no quanto o "jovem delinqüente" pastou para chegar até ali. Tudo bem, você pode me dizer que também teve uma infância dura e, nem por isso, arrastava crianças por sete quilômetros. Eu também não vivi um conto de fadas, mas já fiz coisas sórdidas, como matar um gato com um bloco de concreto. Não, isso não é uma comparação.

Detalhe é que temos lá o rapaz, preto, pobre, favelado. Se ele batesse na porta da família de João, seria enxotado, quando não preso pela polícia. Se ele vai à uma multinacional, buscar emprego, dão com a porta na cara dele. Se ele vai ao gabinete do Prefeito Gilberto Kassab, favorável à redução da maioridade penal, o mesmo o chama de "vagabundo" e "suma daqui". Então o rapaz vê que, com uma arma, ele subjuga todos esses que lhe negam qualquer alternativa. É de manuseio simples e tem poder avassalador. Basta enfiar na cintura e chega de "neguinho", chega de "favelado", chega de "pobre", chega de "vagabundo". É "por favor", "com licença", "sim, é claro que eu faço o que você mandar".

Vê a diferença. Se essa paz tão propagada pelas classes médias, do Leblon à Madalena, fosse exercida por meio da educação, do tipo "estuda, aí, lê o Machado, ele era negro igual à você e teve uma Academia só com o nome dele", a coisa seria diferente. Mostrar para o "jovem delinqüente" que é possível, sim, ele mudar o mundo dele por outros meios que não os utilizados até então, que é possível viver e não sobreviver, ensinar que amamos uns aos outros, independente de cor, raça, posição social. Porque a partir do momento que a sociedade respeitá-lo, deixando de achar que ele é o "neguinho", o "pivete", o "jovem delinqüente", ele a respeitará também, não mais apontando armas contra os vidros elétricos de seus carros.

Mas do que eu estou falando? É muito mais barato para o Estado e para a "sociedade" trancar mais cedo. Cortar o mal pela raiz, não é esse o dito? A questão é: dá mesmo para dividir apenas em "o bem" e "o mal"? E já que dá, de qual lado estamos? Pelo menos seis do sete quilômetros é culpa minha e sua. A conta é bem simples, não é?