O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckFebruary 27, 2007 3:58 pm

Mano Willian Deividison Shakespeare e o Romeu e Julieta.

Julieta:
Meu velho não adianta nosso lado,
Fica igual gambé no encalço,
Na calada, na surdina,
Nem fodendo libera sua filha.

Mano Romeu:
Mina, muita treta nossa história,
Pior que as prova de geografia,
Seu Capuleto é fichinha,
Perto do véio Montéquio cheio de ira.

Julieta:
Mó goela mano Romeu,
Acho melhor a gente mocozar a bagaça,
Senão nossas família embaça,
E acaba tudo no Cidade Alerta, em desgraça.

Mano Romeu:
Mas aí mina, eu tenho um plano,
Melhor do que assalto a banco,
Nóis fica de assalto na quebrada,
E quando os véio chegá, dedo mole na parada!

Julieta:
Que fita, mano!
Sobe os pano, faz teu nome!

Mano Romeu:
Já é, neguinha!
É nóis na fita!

Seu Capuleto:
Mas que caraleo é isso,
Cêis tudo na surdina, só no sapatinho,
Tudo doido pra senta o dedo,
Mas aqui na quebrada véi, é tudo sem medo!

Seu Montéquio:
Truta forte, nóis era,
Mas depois dessa fita da molecada,
Pra quebrada nóis vai de armada,
Resolver a fita, dá um fim nessa parada!

Julieta:
Doce mano Romeu,
Acaba com as fita dos mano,
Faz pagar pela mancada um por um,
Depois foge do 121!

Mano Romeu:
Mó embaço mina, já tô com o Audi nas costa,
E o assalto ao carro forte,
Que por causa do Iago deu merda,
E até causou a morte.

Seu Montéquio:
Larga essa arma, mano Romeu,
Pirituba vai chorar sem dó,
Depois do tiro, fodeu,
Como fica a entrega do pó?

Julieta:
Doce Mano Romeu,
Não permita que acabe nessa treta,
Tira essa arma da boca,
E bóra no boteco tomá umas breja,

Mano Romeu:
Mina Julieta, já era princesa,
Os véio não qué a vontade de Deus,
A gente se vê na quebrada de cima,
Junto com o Sangue No Zóio e o Lima.

Julieta:
Ó vida filha da puta!
Que senta o dedo no meu truta!
Me dá o Bilhete Único daí de cima,
Pois vou com Romeu, amor da minha vida!

Seu Capuleto e Montéquio, em coro:
Muita treta é a vida na favela,
E o amor, que os leva de nossos lares,
Ontem, crianças firmeza, sem goela,
Hoje, superstar do Notícias Populares…

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckFebruary 26, 2007 4:03 pm

- Você é destro ou canhoto?
- Canhoto.
- Pois então, eu sou destro. Não tem como dizer que este texto é a quatro mãos.
- Como não?
- Eu escrevo com a direita, você com a esquerda. Logo…
- Mas vamos digitar o texto. Logo…
- Mas eu não digito com a mão esquerda.
- Eu sei digitar com os pés. Conta?
- Acho que não. Você come com os pés?
- Quando meus braços estão cansados, sim.
- Então o correto é dizer quatro patas?
- Não, porque a partir do momento que escrevemos, nos distinguimos dos animais.
- E a partir do momento que brigamos por este pedaço de carne, somos animais.
- Isso é só um pedaço de carne. Podemos lidar civilizadamente com a situação.
- Não podemos. Somos pessoas que escrevem e comem com o pé.
- Somos não, eu sou.
- Então está aberta a temporada de caça à você?
- Não, eu sou um ser em extinção!
- É, por que?
- Porque eu escrevo e como com o pé. Nenhum animal faz isso. Assim como nenhum animal era tão feio quanto o pássaro dodô. Era isso, não era?
- O ornitorrinco é.
- Mas não é extinto.
- Tem razão.
- Bom, definido isto, como será o texto?
- O texto será animal, meu caro.
- Odeio seus trocadilhos.
- Ok, será sobre animais em extinção.
- Uma autobiografia?
- O quê sou eu? Um animal manco?
- Três patas e muitas idéias.
- Somadas a uma pata sem idéia alguma.
- Pata não, pato!
- Já virou música, vira texto.
- Não, chega de João Gilberto por hoje.
- Tá, vou acasalar.
- Com o pé?
- Também, sei lá.
- Se precisar de quatro mãos, tenho duas!
- Não, isso o torna um animal em extinção.
- O fato de ter duas mãos.
- Não, o fato de querer acasalar com a minha mulher.

E dito isto, rasgou-lhe dos pés à cabeça e fez um ótimo guisado com o último da espécie.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckFebruary 23, 2007 12:01 pm

Passando Parati, mais trinta quilômetros, surge a placa informando que você está próximo de Tarituba, um local esquecido pelos cigarros de menta, mas lembrado pelo fermento biólógico Fleischman e por quase toda a sorte de animais do mundo.

Tarituba é famosa por ser o berço da segunda versão da novela Mulheres de Areia, aquela com a música do Pepeu que tinha um lance de "sexy Iemanjá" e tal. Os dados foram fornecidos pela namorada, quase uma das fundadoras do local. Andando pelas ruas da cidade (duas, que podem ser consideradas uma, se levarmos em conta o formato em L), você passa pela casa da Raquel (que era a má no folhetim) e Rutinha (por sua vez, a boazinha da história) e, um pouco mais a frente, encontra Tonho da Lua em pessoa, sem os chifres do Marcos Frota. Como a vida não imita a arte e vide verso, Tarituba não lembra uma praia daquelas do Ceará, cheias de dunas que nos remetem à músicas da Elba, mas sim uma praia de paulistas: um pouco de sujeira, uma farofa cá outra acolá e lodo no fundo, segundo relatos de quem não tem amor à vida.

E eu não consegui avançar além disso. O texto está aqui há dois dias e não anda. Houve a greve dos pasteleiros de camarão na cidade, provocando uma revolta sem fim na casa paulistana/carioca/mineira de Tarituba. Houve uma ida ao mar, bem longe, só por causa da dona da pensão. Houve a construção de um castelo, que ruiu por ser obra de paulistas. Talvez sejam coisas inenarráveis, talvez seja incompetência minha. Certo é que não há como contar tudo sem ser injusto. Nunca havia pensado em deixar a selva de pedra e viver de caça, pesca, troca de espelhos com a civilização e noites mimimimimi te amo. Pois naqueles cinco dias eu trocaria fácil, mas tinha de ser com ela. E com pastel de camarão, porque ninguém é de ferro.

* O original é "Entre Caraguá e Ubatuba. A infâmia é minha mesmo.

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckFebruary 16, 2007 3:31 pm

Quando a sexta cerveja chegou, já tinha a companhia de uma caipirinha, duas doses de uísque e uma dose de uma legítima cachaça mineira.

- Chefe! Chefe! Traz mais uma aqui!

E lá vinha a sétima, enquanto o nada era contemplado e sobre nada se pensava. Eis que, súbito, bateu-lhe a mirabolante idéia.

- Sabe meu caro, eu me casaria com você!

O pobre Raimundo, no terceiro turno como garçom, três bares em três dias, não agüentava mais ouvir o número três. Mas a idéia de um dois, um casal, também não lhe agradava.

- Hahahahahahaha, eu não sei se seria uma boa idéia. Meu pai, lá no Norte, ia arrancar o bucho de nós dois.
- Não rapá, tô falando sério. Tu me traz cerveja sem que eu tenha de pedir. Conversa comigo e entende o que eu falo, mesmo quando eu estou para lá de Pirituba. Se eu chamo Jesus de Genésio, você não corrige, e ainda por cima não critica a zaga do Timão mesmo quando o Marquinhos tá lá. Rapaz, você é a esposa perfeita!
- Pera lá, cabra safado, esposa um cacete! Além do que, eu não sou chegado nesses negócios de veadagem não!
- Mas quem falou em veadagem rapá!?
- Ué, esse lance de mulher. Tá louco que eu vou dormir contigo de noite.
- E quem te disse que casado dorme junto?
- Mas mesmo assim, esse negócio de mulher é estranho…
- Você quer o quê? Você me serve, limpa minha camisa quando eu vomito no banheiro do bar, comenta comigo como foi o dia aqui. Rapá, tu é melhor que muita esposa aí, tá sabendo!

Raimundo desistiu. Horas depois, boteco quase a fechar, Raimundo decide encarar o destino e ir até a mesa do "maridão". Os outros garçons, para pregar uma troça no coitado, resolveram não atender o homem. O bar só fecharia por obra e graça de Raimundo. Mesmo que isso lhe custasse a macheza do sertão.

- Chefia! Chefia! Fecha a minha!
- Tá aqui doutor!
- Porra? Trezentos e quarenta paus!
- Ué, você não começou com esse negócio de esposa? Pois então, 50 % é de gorjeta. E domingo mamãe vai almoçar lá em casa.
- 50% de gorjeta? Porra!
- Ah, alguém tem que arrumar o microondas, a geladeira e comprar o material escolar das crianças.
- Quer saber, chefia, eu quero o divórcio!
- Tem outro vagabundo na jogada né, cabra safado!?
- Tem nada. O problema sou eu.

E cambaleando, subiu mais umas duas ruas até outro bar. Sentou na cadeira mais próxima e, contemplando o nada, chamou o garçom:

- Chefe! Chefe! Uma Serramalte! Eu ando tão solitário desde que o outro garçom me deixou…

O inverno da nossa desesperança - John SteinbeckFebruary 15, 2007 3:28 pm

Tinha aquele ar professoral que algumas vezes dava raiva, mas "exalava sabedoria", como costumava dizer dos outros e, no que o cheiro subia, ia tomando conta de tudo e de todos. Dava até para ver a "fumaça", como nos desenhos com tortas de morango esperando o vento frio na janela.

- Sabe, você precisa dar um rumo para as coisas. Schoppenhauer dizia que…

E isso, o fulano "dizia que…". Sempre havia uma frase de plantão, como se tivesse uma cola por perto. Para cada situação, havia um referencial. Niestzche, Shakespeare, Machado, Seu Adão, da loja de pipas. A bibliografia era imensa.

- Eu sei que tenho que dar um rumo, mas isso é quase impossível porque…

Havia o "porque". Sempre tinha de ter um. Era avesso aos eventos que aparentemente não tinham explicação alguma. Para ele tudo tinha uma causa, uma razão. Se não houvesse, não havia porque debater. Gostava muito do "não discuto o sexo dos anjos", mesmo sendo o maior descrente que a humanidade já teve.

- Ah, mas com um ponto de vista deste, ficará estacionado ad eternum…

E o latim. Qualquer coisa era em latim. Quando não sabia, inventava. E o fazia tão bem que as pessoas realmente acreditavam que Pilatos, César, Tito, alguém havia dito.

- Bom, pelo menos espero que tenha vagas, caso fique estacionado…

A infâmia era sempre o último recurso para fugir de um assunto. Quando se via acuado pela fera das perguntas sem respostas, ou das réplicas sem tréplicas.

- Se não tiver, não pare em fila dupla…

Da concordância nasce a luz. Ou brota mais uma garrafa de cerveja na mesa. É condição sine qua non. Mesmo que bebendo quase sempre sozinho. Ou com seu alter ego, ou o que o valha.

Quando nosso boteco fecha as portas - Lawrence BlockFebruary 14, 2007 1:10 pm

Eu não queria me pronunciar sobre a morte do garoto João Hélio Fernandes, no Rio de Janeiro. Apesar da grande maioria dos textos começarem assim, eu juro que não estou copiando ninguém. Não queria mesmo, me é assunto indigesto, que já deu alguns problemas antes. Não é a primeira criança que morre em situação bárbara, nem - infelizmente - será a última. Não é a primeira vez que se "debate" sobre a redução da maioridade penal, nem será a última. Não é a primeira vez que se é hipócrita, nem será a última.

A última vez que falei sobre assassinato e maioridade penal foi quando do caso do Xampinha, menor que participou do estupro e assassinato da jovem Liana Friendebach e do namorado desta, Felipe Caffé. Pois à época, assim como hoje, as pessoas foram às ruas com tochas, foices e faixas pedindo que os "jovens delinqüentes" fossem enforcados em praça pública. Porque, é claro, eles estavam cansados e queriam paz.

O processo é simples: tranca-se o "jovem delinqüente" em uma cadeia por mais tempo. Lá, ao contrário dos quatro anos de faculdade, ele ganha direito a um MBA no mundo do crime. Porque mudar a lei é fácil. Mas mudar o sistema penintenciário, corrigir dando um norte para molecada que de lá sai, ah, isso é muito difícil. E além do mais, a sociedade quer paz, ora pois.

Afinal de contas, para que pensarmos no quanto o "jovem delinqüente" pastou para chegar até ali. Tudo bem, você pode me dizer que também teve uma infância dura e, nem por isso, arrastava crianças por sete quilômetros. Eu também não vivi um conto de fadas, mas já fiz coisas sórdidas, como matar um gato com um bloco de concreto. Não, isso não é uma comparação.

Detalhe é que temos lá o rapaz, preto, pobre, favelado. Se ele batesse na porta da família de João, seria enxotado, quando não preso pela polícia. Se ele vai à uma multinacional, buscar emprego, dão com a porta na cara dele. Se ele vai ao gabinete do Prefeito Gilberto Kassab, favorável à redução da maioridade penal, o mesmo o chama de "vagabundo" e "suma daqui". Então o rapaz vê que, com uma arma, ele subjuga todos esses que lhe negam qualquer alternativa. É de manuseio simples e tem poder avassalador. Basta enfiar na cintura e chega de "neguinho", chega de "favelado", chega de "pobre", chega de "vagabundo". É "por favor", "com licença", "sim, é claro que eu faço o que você mandar".

Vê a diferença. Se essa paz tão propagada pelas classes médias, do Leblon à Madalena, fosse exercida por meio da educação, do tipo "estuda, aí, lê o Machado, ele era negro igual à você e teve uma Academia só com o nome dele", a coisa seria diferente. Mostrar para o "jovem delinqüente" que é possível, sim, ele mudar o mundo dele por outros meios que não os utilizados até então, que é possível viver e não sobreviver, ensinar que amamos uns aos outros, independente de cor, raça, posição social. Porque a partir do momento que a sociedade respeitá-lo, deixando de achar que ele é o "neguinho", o "pivete", o "jovem delinqüente", ele a respeitará também, não mais apontando armas contra os vidros elétricos de seus carros.

Mas do que eu estou falando? É muito mais barato para o Estado e para a "sociedade" trancar mais cedo. Cortar o mal pela raiz, não é esse o dito? A questão é: dá mesmo para dividir apenas em "o bem" e "o mal"? E já que dá, de qual lado estamos? Pelo menos seis do sete quilômetros é culpa minha e sua. A conta é bem simples, não é?

Quando nosso boteco fecha as portas - Lawrence BlockFebruary 13, 2007 5:53 pm

Pois então, o "texto" abaixo está mais errado do que apoiar o Chinaglia. Isso é óbvio, afinal de contas são duas semanas de aula para um cara que mal sabe escrever em português.

Há de se destacar, porém, o papel da "girlfriend" citada no texto. A namorada de "Uptown girl" (uma das piadas mais infames do mundo, fazendo referência à uma das coisas mais lindas do Universo, quase uma Guerra Fria de tão eqüidistante), com uma paciência quase mitológica, se pôs a corrigir toda essa ofensa à língua inglesa (coisa que, por sinal, deve aumentar o número de visitantes franceses a este blog) publicada neste espaço. Para dar dimensão à coisa, um texto de três parágrafos têm mais correções do que um livro do tamanho do Ulisses.

Em suma, tudo isso é apenas para agradecer e dizer que a moça é muito boa de língua. Mas não tem nada de aula particular não, seus vagabundos (obrigado, Kassab).

Obrigado querida. E bóla fazer intensivão no Carnaval, né?

Quando nosso boteco fecha as portas - Lawrence Block 3:46 pm

Yesterday, at night, Lelê and I - backing from the english school - keeping a long conversation in the language of Shakespeare, Faulkner and others (OTHERS! OTHERS!) fucking good writers. In this conversation, we talk about a lot of things, like how ugly is her neighborhood and how good is our speaking, especially the two new phrases learned in the english lessons:

- Does it fit?
- It’s a biiiiiiiiiig mistake!

Also, in that night, I explained to Lelê my theory of music parts and how these can make our conversation better. And that’s not a biiiiiiiiiig mistake. In fact, I can tell some examples, like these: my girlfriend lives in Rio. In the map of Brazil, Rio is above São Paulo, my address. So, I can use the name of and old song called "Uptown girl". Got it? Got it?

We have other (OTHERS! OTHERS!) example. To Lelê, if I say that: "she’s buiyng a Starway to Heaven." she can answer: "I don’t now. Does it fit?". I mean, maybe Lelê can answer like that. But it’s fact, probably i’m made a biiiiiiiig mistake. Or maybe "Lelê, one day I wish upon a star." and she can answer: "That’s a biiiiiiiiiiig mistake!".

You see. With two phrases, we can conquer the english bastards and rule the world. Or eat a burguer and drink a beer. I don’t now. Maybe this is a biiiiiiiiiiig mistake.

O cavaleiro inexistente - Italo CalvinoFebruary 8, 2007 4:23 pm

É mais do que claro que eu gosto de blogs. Não só de fazê-los, como o Luz, Câmera, Post, que por sinal tem resenha do Rocky Balboa sem spoiler (apesar da vontade de contar o final), mas também de lê-los. E tem três, atualmente, que eu não troco por um album de figurinhas da Copa de 50 ou um livro do Saramago.

O primeiro é o da Lelê, que é número um desde que o mundo é mundo. Se um dia eu ficar famoso por conta de escritos, posso dizer sem dúvida alguma que a primeira obra que eu li foi os escritos de Leonor. Que por sinal há muito tempo já deveriam ter sido compilados e lançados no impresso. Quando isso acontecer, o tal do Bloomsday do Joyce vai ser fichinha. Ali o que mais me chama atenção é a narrativa: o contar histórias da Lelê engloba um todo, por mais pessoais que sejam. É como uma mesa de bar com palavras. Dá vontade de pedir uma cerveja a cada história ali escrita. Tem seus momentos sérios e tem as narrativas surreais, porém compreensíveis. É, sem dúvida alguma, um marco.

Outro que me dá aquela sensação de orgulho por ler é o da Lilhoca. Ela nos faz acreditar que os caras do Monthy Phyton não morreram ou passaram a fazer filmes bobos como o John Cleese (não incluam o sempre ótimo Um Peixe Chamado Wanda no bolo, por favor) depois da fama. Parece que eles estão ali, todo dia, escrevendo novos trechos da vida de Brian. Ou quem sabe o sentido da vida. Não, talvez seja Douglas Adams retomando o melhor dos cinco livros de sua trilogia, o Guia do Mochileiro das Galáxias. Enfim, é nonsense de primeira, daqueles que a gente não precisa beber demais para entender. Mas precisa estar alto para participar.

Mas isso já foi dito infinitas vezes por aqui, em palavras mais simples ou, as vezes, mais maravilhadas. O próximo, porém, é um tanto novo para o leitor desta joça, mas é uma das coisas mais impagáveis que esse troço chamado Internet pode proporcionar: trata-se do Meia Lua + Soco, blog de sobre videogames do Pedro.

Calma, eu falo de blog de videogame e os camponeses já vem com tochas, foices e o Torquemada. O que vale ser dito é que, em áureos tempos de cabelos ao vento, eu era leitor assíduo de duas revistas: Super Game Power e Ação Games. Para quem nunca as leu, eram compostas por lançamentos, resenhas mal escritas de alguns jogos, cartas engraçadinhas com respostas mais engraçadinhas ainda e os famigerados "detonados", onde o pessoal das supracitadas revistas destrinchavam cada parte de determinado game para novatos como eu, que terminavam o jogo e mentiam, descaradamente:

- Tá lôco, eu não salvo jogo com revista não!

Pois bem, os "detonados" eram a parte mais sem graça da revista. Afinal de contas, se você não tivesse jogado determinado título, qual é a lógica de ficar olhando aquela narrativa sonsa com fotos pequenas demais? Claro, era literatura atrativa, com trechos como "Vá até o portão principal da cidade, usei a blue key que você encontrou no museu, abra e corra assim que Nemesis vir atrás de você". Em suma, uma merda.

Então fui brindado com o Meia Lua + Soco. Só o nome já te faz clicar no link. Todos, eu disse todos, já escutaram três frases na vida, na maioria das vezes juntas: "Vá pra puta que o pariu!", "Tomar no cu!" e "Dá meia lua mais soco!". Não há como escapar disso. Eu, você, seu avô que lutou na Segunda Guerra, aquele tio que diz ser descendente do Gengis Khan para a psicóloga, todos já escutamos isso. Logo, nome melhor não poderia ter.

Além disso, o Meia Lua + Soco tem jogos detonados. Um, em especial, me veio com alguns anos de atraso, mas ao ler parecia que eu ainda tinha meu Super Nes funcionando e ainda gastava minhas tardes e noites se acabando de jogar videogame. É, mais do que um simples detonado, a análise morfológica, sintática e morfosintática do The Adventures of Batman & Robin, jogaço do Super Nes, cujo detonado conta com este trecho antológico:

"Bom, o Coringa foge de você, vai pra montanha russa, sobe num dos carrinhos do brinquedo e vai embora. Como o Batman é o Homem Sem Med… ehr… não. Esse é o Demolidor de novo. Como o Batman é QUASE um homem sem medo, praticamente um destemido (na verdade, um temerário), vai atrás e também entra em um dos carrinhos.

Porque, lógico, é muito mais fácil perseguir um maníaco homicida carregando dezenas de bombas numa montanha russa do que esperar o vagão onde ele está dar a volta completa no percurso para apanhá-lo quando voltar ao ponto de partida. Sendo Bruce Wayne um sujeito de intelecto extremamente avançado, deve saber o que faz, então não vamos discutir com ele.".

Eu garanto que se a Super Game Power publicasse coisas assim, eu faria plantão em bancas de jornais. Fato é que, desde sempre, a maioria dos blogs que eu leio são melhores que as revistas que eu compro.

Quando nosso boteco fecha as portas - Lawrence BlockFebruary 7, 2007 5:01 pm

- E ae cara, beleza?
- Putz, acordar cedo pra trabalhar é uma merda!
- Pois é. Na próxima encarnação eu quero é ser vagabundo…
- Pode crer. A uma hora dessas eu ia acordar pra ir na academia e… nah, não ia não.
- Cara, eu estaria bebendo numa hora dessas!
- Pode crer. Estaria chegando da balada agora, e ia dormir.
- Que dormir nada, cara! Vamos supor que viveremos mais, sei lá, cinquenta anos…
- Pô, você tá sendo otimista bagaraleo!
- Nada, daqui dez anos inventam o fígado de plástico. Pois bem, cinquenta anos. Mais o quê, vinte anos para a passagem para um novo corpo? Porque temos de levar em conta que não é chegar lá, falar com os hômi e já descer em outro corpo.
- Certo.
- Então, até lá já inventaram pílulas para não dormir, cara…
- Ou então baterias!
- Isso, baterias é melhor!
- Mas cara, do jeito que eu sou azarado, é capaz de eu voltar mulher. E daquelas bem vagabundas, que curtem uma taroba de negão e tal.
- E, ainda por cima, nascer no meio da África. Cara, tem certeza que a gente não bebeu nada não?
- Olha, eu já estou com dúvida sobre.
- Provavelmente bebemos…