Gisele.

Gisele foi meu primeiro casamento. Eu tinha, sei lá, treze anos. Ela acho que 14, 15, com uma beleza de mulher (e não de menina como as concorrentes mais próximas) que era fascinante para aquela cambada de moleques que não tinham a menor idéia do que era sequer Amélia. Quando ela entrava na sala da sétima série, o mundo tremia para todos, desde o fortão que sempre jogava no time titular e comia de graça na cantina até o obscuro nerd que só não usava óculos por um milagre da natureza. Este era mais conhecido como Júlio.

Uma das poucas coisas na qual a vida faz questão de imitar a arte é dar momentos memoráveis para os nerds, principalmente na escola. Não que à época eu levasse o título à ferro e fogo. Eu jogava bola, deixava uma ou outra lição de lado e aprontava minhas estripulias para entrar na patota dos que falavam palavrão e, em se tratando de colégio público, talvez até filhos já tivessem. Conseguia, mas assim que o sentido aranha dos maiorais apitava e não havia nenhum nerd por perto, eu me fodia bonito entre tapas, corredor polonês e outras brincadeiras importadas de Auschwitz quando Adolf desfilava por lá. Era o preço a se pagar para andar com a Máfia. Até Nicola Brasi sofreu para ter Corleone por perto.

Até que apareceu aquela chance típica de colégio americano: o papel principal na peça a ser encenada na Semana da Gincana, ou um diabo desses. Era a chance, a única. Como bom outsider que sempre fui, me encarreguei, junto com outros amigos babões, do roteiro. Bem simples, por sinal: o ex-presidente Fernando Collor de Melo seria assassinado durante um comício.

Acontece que, talvez pela carga dramática do tema, provavelmente pela preguiça e pelo bom senso de não participar do mico do século, muita gente recusou o papel principal. Como redator, diretor, camareiro e o escambau, não poderia deixar que trocassem o tema para, sei lá, Cavaleiros do Zodíaco em Marte. Era hora de agir com pulso firme, mostrando quem é que manda, quem tem atitude:

- Eu faço o papel do Collor!

Tinha gente que quase se mijava de rir. Mas o destino, ah, esse roteirista maldito de comédias românticas estudantis, haveria de pregar suas peças.

Dia seguinte, dia da peça. Acorda, escova os dentes, veste o terno e vai para a escola. Todos, sim, todos, riem como se você fosse a mais nova anomalia do Circo Vostok, o que não deixa de ser verdade. O mundo não enxerga sua arte, sua luta para transformar jovens alienados em futuros líderes de uma revolução qualquer. Não, você é o estranho, o freak, aquele que vai levar tapas na cabeça ao subir as escadas, que vai ter seu estojo da NBA revirado. E na sua cabeça, apenas um pensamento:

- Fodeu, Gisele…

Sim, ela. Ruiva, pernas magras, seios incipientes. Não tinha os peitões de outra menina que me fugiu o nome, mas também não era uma das tábuas que costumava ver no recreio (é, recreio, e aí?). Era o peito perfeito para tudo que eu tinha até então. E os óculos, aquele fascínio de nerd pelos óculos dela, pelo tirar dos óculos. Era a Madonna, a dos quadros, até a cor dos cabelos era igual, a pele branca que parecia brilhar, como se deste mundo não fosse. E não era mesmo.

Enquanto eu ficava pensando em mil maneiras de prepará-la, com ou sem Neston, Gisele, ela, impossível, se enlaçou em meu braço, coberto por aquele paletó onde caberia dois Júlios e, sem cerimônia, anunciou para a sala de aula toda:

- Meu noivo…

E cantarolou a marcha nupcial. Diabos, como pode isso? Ela, Gisele, ali, sem o tapete vermelho, sem o padre, nem sequer aliança porque eu já tinha gastado o pouco de dinheiro que tinha em um lanche! Eu via a Abadia de Westminster, via a Praça de São Pedro, eu via qualquer merda de capela enfurnada no meio do Brasil, do mundo, do Universo Paralelo. Caraleo, era Athena de braço enlaçado comigo, trêmulo, rubro, em estado de epifania. Chupem, seus merdas, é a Gisele!

E tão rápido quanto ela fez isso, ela se desvencilhou. O namorado havia chegado na sala. Ainda pensei no risco de apanhar, mas o cara sabia que o perigo era nulo. Afinal de contas, nunca Gisele sequer cogitaria enlaçar seu lindo braço branco no daquele infeliz que tinha apenas uma camiseta da escola e vivia a correr feito uma besta no pátio, chutando uma lata de alumínio massada e gritando "Gol".

Há um tempo descobri que ela anda meio estranha, para não dizer feia, segundo me contaram. Dizem que em quase nada lembra àquela menina, ou melhor mulher, da sétima série. É normal, todos mudam. Eu, por exemplo, não tenho mais uma única camiseta para ir à escola ou o que o valha. E já tive o privilégio de poder comer comida japonesa no intervalo da faculdade. Sem contar que agora uso óculos, um dos apetrechos que adornavam aquela face branca e sardenta de Gisele. E que aproveitaria melhor aquele momento para dizer, em alto e bom som:

- Eu sou foda rapá! Eu caso e vocês pegam.

Porque espírito de porco eu nunca deixei de ser. E acho que nunca vou deixar.