Vencedor do maior prêmio de jornalismo do país há dez anos, Miguel caiu em desgraça quando descobriram que fraudara uma matéria, a cobertura de um daqueles "julgamentos do século" que acontecem a cada ano, pelo menos. O caso do pai acusado de matar a esposa, a filha e o cachorro renderia ao jornalista outro prêmio, não fosse o fato de que o suposto finado cachorro estava em cativeiro na casa de Miguel e o pai era tão inocente quanto qualquer querubim. Era mais um dos casos em que o repórter vira notícia. Até os fatos de hoje, Miguel mais bebia e fumava e saia com mulheres estranhas do que respirava. Não duraria mais um ano.

José Ferreira Santos era um homem simples. Veio do interior para a capital em busca da sorte grande, como tantos outros. Acabou como lixeiro de um grande grupo de investimentos e, entre uma recohida de outra das mais de mil latas do complexo empresarial, achou um daqueles chamados "documentos comprometedores". Era também um dos únicos a saber do tórrido caso de amor entre o Presidente da compania e o Diretor Financeiro, graças a uma das horas-extras nunca remuneradas. Por sorte estranhou o tal documento. O primo, bacharel em Direito, ajudaria na leitura dos tais papeís encontrados.

Osmar Aparecido Santos, primo de José, não queria que houvesse menção de seus laços familiares. Acaba de passar no concurso para Promotor Público e precisava do seu "peixe-grande", mas nunca imaginara que o pescaria em um dos inúmeros (e acusadores de seu passado pobre) churrascos na laje que o primo realizava na periferia da cidade. Quando poderia imaginar que daquele rio de latas de lixo seu primo, recompensado mensalmente com módicos 300 paus, pescaria tão fabulosa truta. 300 paus, sem benefícios. E sem hora-extra!

O Presidente da compania era casado e pai de dois filhos, o que não impedia de amar incondicionalmente o Gerente Financeiro, e não por causa dos resultados deste último. Já tivera outros casos, mas nada tão intenso, com tamanho "superávit", como gostava de dizer. Tinha fama de ser duro, intransigente, centralizador. Era o macho-alfa das reuniões de balanço, amendontrando todos os funcionários do RH, Contas a Pagar e afins, mas sempre exaltando os resultados de Alceu, seu gerente de Finanças. Herdara a empresa da família, cujo avô, fundador da compania, tinha laços estreitos com a Igreja na figura do Bispo Manuel Avagarda que, reza (ops) a lenda, era sucessor de Torquemada nos modos, seja à mesa ou não. Bom pai, bom marido, empresário excepcional, queria mesmo era ser Catarina. E não era em homenagem à esposa, mas sim à czarina.

Alceu Franco, economista, vinha desde os dez anos de idade tal qual o rocket man. De presidente do Grêmio Escolar à Gerente Financeiro da compania, passara pelas mãos dos maiores sábios em economia do país, gênios do mal em sua maioria. Sabia como falsificar um balancete assim como Barba Negra sabia saquear, mesmo com a possibilidade do pirata ter em mente motivos muito mais nobres. O céu não era o limite. E para chegar à cobiçada presidência, faria o que necessário fosse. Inclusive o citado superávit.

A Morte não era cadavérica, como nos acostumaram a vê-la. Nem assumia tal forma na hora final, de modo a aterrorizar o incauto que se via de passagem para qualquer outro lugar. Era apenas mais uma funcionária do "outro mundo". Ou melhor, funcionário; terno preto, camisa branca, gravata mais escura que o breu. Acumulara trabalho de outros dois colegas. Um se foi por estafa. Outro, teve uma crise de estresse. A Morte foi buscá-los, apesar de todo o conflito trabalhista que isso poderia gerar e de todo o burburinho que rolaria no sindicato. Estava prestes a ter um colapso e só queria ter mais alguns benefícios, como vale-refeição, por exemplo. Seria um ano difícil.