Ganhei quinze minutos. Tem gente que com isso faria fama. Outros, que já a tem, deitariam na cama. Eu venho escrever um texto. Poderia, até, ir tomar uma cerveja, mas o expediente não acabou e o cheiro poderia subir, ser notado. Vai que tem algum religioso fervoroso por aqui.

Esses quinze minutos poderiam ser gastos na Livraria Cultura. A coleção de pockets books da Cia das Letras tem coisas novas. Se meu Playstation estivesse aqui, seriam duas, até três músicas de Guitar Hero. Depende de quantas vezes eu precisaria reiniciar a canção por causa do meu perfeccionismo besta.

Acabei descendo para ver a rua. Dez minutos gastos. Sem contar a espera do elevador. Quando se tem pouco tempo, não deveríamos ter de esperar. Poxa, já há pouco, e esse pouco deve ser gasto em algo útil. Sei lá, escrever um conto, plantar uma muda, fazer um filho prematuro. No fim, quinze minutos, diferente daqueles em que se faz fama, não dão para nada. Esperar o café sair da máquina, esperar o elevador, descer, olhar, respirar, sentir o pulso da cidade, lembrar que o sol está eclipsado pelo prédio, cogitar comprar um pacote de cookies na máquina de doces, olhar a barriga e desistir. "Ou isso ou a cerveja". Mesmo porque, os dois não combinam.

Em quinze minutos eu já fiz algumas merdas. Para outras, dediquei todo meu dia. E há ainda outras que hei de dedicar uma vida toda. Se levarmos em conta as estimativas na África, quem sabe até umas três vidas somadas. Mas nunca, em momento algum, algo tão ruim e sem sentido quanto essas palavras brotou de forma tão rápida, em míseros quinze minutos. No fim, o que parece muito é, na verdade, muito pouco. E este é o clichê mais profundo que você vai ler neste espaço. Se é que já não leu em outro lugar, durante seus quinze minutos de folga, de ócio, de qualquer coisa que dependa apenas de quinze minutos.

Droga, eu queria pelo menos meia-hora.