Era um fetiche doido, absurdamente doido, pela "morena do trabalho". Beirava aquele ridículo que todos nós temos, algumas vezes, de encenar situações: encontros no elevador, encontros no setor financeiro, uma pausa para o café onde ela o convida para dividir a cabine do banheiro no meio do expediente. Os fetiches eram diversos.

Um dos poucos que levavam a comida de casa para o trabalho, sentia-se de certa forma constrangido, uma vez que o status social dos prédios do Itaim era, justamente, o que você carrega na sua maleta. Comida e animais vivos eram encarados como uma versão selva de pedra daqueles bolivianos apinhados em ônibus com galinhas, carneiros, enfim, toda a sorte de fauna. Mas aquele almoço haveria de ser diferente.

No exíguo espaço de cerca três por três metros, cabiam duas pessoas, mais frigobar, forno microondas e forno elétrico. Ególatras não podiam almoçar acompanhados. Para a mocinha gordinha do almoxarifado, diziam as más línguas, a companhia era uma tarefa hercúlea. E naquele dia ele pensava que seria justamente isso: o ególatra ou a mocinha.

Eis que, ao abrir a porta, se depara com a sua morena. Ela almoçava e, puta merda, comia como se fosse um anjo, seja lá como os anjos comem. Aquela estrutura comum aos contos românticos apareceu como se fosse oxigênio. Sim, além de ser abundante, era indispensável. Entre uma gaguejada e outra, soltou o "boa tarde", "posso?", "com licença" que o momento pede e sentou ao lado dela. Era o princípio do fim.

Tinha perdido a mania de confirmar o que carregava na marmita. O motivo era a desconfiança que aquilo representava para sua mãe. Longe de ser uma mãe judia ou a célebre matrona italiana, não deixava de parecer tal qual um mafioso com seus códigos de honra. Olhar a marmita era profanar um dos sentimentos mais nobres que se estabelece entre duas pessoas, era ofender todas as gerações anteriores de mães que, com todo o zelo do mundo, preparavam o almoço de seus filhos como se fosse um banquete a ser oferecido aos deuses. Aquele bom e velho bife equivalia, sem dúvida alguma, ao sacríficio de mil touros em nome de Zeus ou qualquer um que fosse.

E quando sentou e abriu o pote com o mais suculento de todos os almoços, quase caiu de susto. Ali, espalhados sobre o arroz, seis coxas de frango, daquelas pequenas, o esperavam para serem devoradas. Ela já tinha visto, tarde demais. Era aquilo ou ir embora sem a chance de sua vida.

Há um acordo tácito, mundialmente famosoa apesar de oculto, na qual coxas de frango foram feitas para se comer sozinho ou com pessoas as quais você tenha o mínimo de intimidade. Coxas de frango das pequenas então (aliás, de onde diabos vem aquele frango anão?), são para ser degustadas em um quarto escuro. Isso porque é humanamente impossível comer aquilo sem o uso das mãos. E comer com as mãos na frente daquela mulher era o mesmo que assinar o acordo Ribbentrop-Molotov sem ler, como fez Stálin.

Munido de garfo e faca, ele virava e desvirava aquele punhado de ossos. Carne havia, mas ao alcance das mãos. Poderia ser um sinal para ela. "Tenho mãos agéis". Ou então, algo humanitário, "olha, não deixo carne para ser jogada fora, pobres crianças africanas". Mas não, não poderia arriscar. Vai que justo naquele dia ela pensa em convidá-lo para jantar com a família.

E assim foi o almoço, a eterna batalha contra o Frango Maligno pelo coração na nobre donzela. A cada investida de garfo e faca o frango, como se vivo estivesse, dava-lhe um olé e contra-atacava saindo pela borda da tampa do pote, da qual fazia uso como prato anexo. Era como um ataque pelos flancos, o maldito frango se portando como Alexandre Magno. Empenhado em fazer bonito, não podia nem ao menos falar sobre o tempo. Mesmo porque falar sobre o tempo em uma sala 3 x 3 é tão bizarro quanto comentar sobra a trilha sonora do elevador com aquele seu colega de trabalho meio surdo. Quando terminou a refrega, os ossos jaziam no vasto campo do guaradanapo branco. O fim de uma civilização e o começo de uma nova era. Ele, orgulhoso, mostra à sua Dulcinéia que dera cabo de seis agentes do mal. Ela, impassível, continuava a comer seu bife como se uma Milady, daquelas de cavalaria e tal, assim fosse.

Cabisbaixo, saiu do campo de batalha. "Tchau, boa tarde, bom almoço", "obrigada". Da próxima vez, não tinha dúvidas: comeria com as mãos! As duas! E ainda soltaria aquele arroto que é motivo de orgulho em banquetes das mil e uma noites.