As piadas vão surgir ao montes. Aquelas do tipo "Saddam enforcou o feriado de Ano Novo", e coisas muito parecidas. Serão infames, é lógico. Também teremos textos agradecendo a morte de um sádico, ou então falando da macheza de Saddam, que quis ser enforcado sem máscara. "É muito out em Paris, combinar meu modelito com essa máscara horrenda, credo!" é a minha versão para a coisa.

2006 foi o ano do fim dos genocidas. O Slobodan Milosevic, que vá para o Inferno, deu fim a vida. Ou não deu, vai saber. Alguém tão odioso tem diversos motivos para o primeiro e diversos inimigos para o segundo. Era o carniceiro dos Balcãs, ou algum outro nome próximo disso que todo facínora ganha. Não tinha como durar até 2007. Aliás, já havia durado muito tempo.

Outro que se foi é o Pinochet, depois de muita mandinga que unia gente bem diferente como eu, você e o José Serra. Ah, e claro, metade do Chile. Ariel Sharon, então, conseguia a proeza de ser odiado até pela meia dúzia de judeus lúcidos (o Chomsky e o Allen, por exemplo) que não compactuam da cegueira dominante no Estado de Israel e não votariam no gorducho sedento por sangue.

Tem também o Tio Fidel, mas deste eu não falo. Gosto do Fidel, porque não sou cubano. Alguns que lá moram, por suas razões, abominam o Comandante. Para nós, daqui de fora, a Revolução é mais bonita, mais plástica. E tem as camisetas do Che, que caem bem com qualquer roupa. Aposto que o Saddam, se pudesse, usaria uma camiseta do Grande Guerrilheiro no dia do enforcamento, apesar de duvidar que o staff americano permitisse uma coisa dessas. Era capaz do espírito de Brejnev subir lá no Kremlim e a Guerra Fria voltar com força total. Bom nesse caso é que os filmes de espionagem teriam razão de ser para o grande público e não somente para meia-dúzia de aficcionados, essa meia dúzia judaica ou não.

Teve mais gente que morreu. O Reagan foi esse ano também, se a memória não estiver no cadafalso, como Saddam. E o Ford também foi. Não o Bigode, esse morreu enforcado faz tempo. Quase tanto quanto o Tiradentes. Aliás, nos dias de hoje, matar por enforcamento é uma espécie de volta a nossos instintos primitivos, como diria o carrasco do Zé Dirça. Hoje, onde se mata agente secreto com doses daquela substância cara e de nome estranho, como fez Vladimir Putin, ver um homem em pé no cadafalso, corda no pescoço, nos soa estranho. Podemos até dizer que é bárbaro, que nem Saddam merecia. Mas é claro, não somos curdos, assim como não somos alguns cubanos, não a sei dizer se a maioria.

Enfim, deveríamos retomar as tradições. O cara é um famoso genocida, foi condenado à morte, vai para a forca. Simples, rápido. Não é como na China, onde você ainda tem de pagar a bala. Se bem que se o governo for enforcar todos os amarelos dissidentes ou não, eles vão parar de produzir aço e filmes wuxia bem legais para fabricar cordas, durante todo o sempre, como a moça do tear de fios de ouro.

Então lá foi Saddam. Em pé, esperava que o jogo acabasse. O carrasco chegou, e logo avisou:

- Vai ser em inglês.

Então disseram que era uma palavra com sete letras. "A", disse Saddam, e o pescoço foi colocado na corda. "E", tentou, conseguindo as primeiras letras: _ _ E E _ _ _. "G", tentou, vendo seu corpo mais próximo do bigode. "D", seguido de um muchocho do carrasco, tinha acertado: _ _ E E D _ _. "T", e lá foi um braço. "L", e foi mais um. "F" salvou sua perna direita do cadafalso: F _ E E D _ _. "W" fez com que uma perna fosse. "O", vindo com medo do excesso de vogais da língua, deu em F _ E E D O _. Mas o fatídico "B" de Bush, dito pelo ditador, pôs um sorriso no rosto do carrasco, que abriu a portinhola e fez a alegria de americanos e tristeza de xiitas. Ou sunitas, eu nunca sei. Se um dia for para a forca, que não caia essa questão.

E Saddam foi enforcado por não saber o que é liberdade. Tanto em palavras quanto nos atos e até nos autos. E essa é talvez a piada mais infame que você vai ouvir sobre o assunto. Se bem que, dada a desastrosa e absurda campanha dos Estados Unidos no Iraque, eu não duvido muito que eles tenham feito isso. É só não esquecermos as sandices de Abu Ghraib onde soldados, por pouco, não faziam palavras cruzadas com o sangue de iraquianos. Coisa que, por sinal, tem de sobra.