Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Acho que até pára-choque de caminhão a frase virou. E o João não esquecia a dele por nada nesse mundo.
Lembra muito bem que suava, enquanto virava de cá, virava de lá. Tentava por cima, por baixo, pelos lados. Ia por tudo quanto é canto, meio, via. E o pior é que todo mundo observava, para desespero do iniciante. Os gemidos de dor, o prazer por conseguir peripécias antes impensáveis. Ou melhor, algumas já habitavam sua mente há tempos, mas isso é outra história.
E lá estava João, torcendo, se retorcendo, elevando força e jeito à enésima potência. E todo mundo olhando, alguns até querendo esboçar um "vai João", mas não podiam, para não atrapalhar o ato. O nervosismo, comum aos iniciantes, se abatia sobre o jovem, que não sabia se ria, se chorava, naquela gama de prazeres que só a primeira vez nos traz. Sentia todas as coisas do mundo naquele momento e era como se o mundo, ao mesmo tempo, não existisse além daquele cômodo, daquela cadeira. Sim, cadeira.
Depois de duas horas de gemidos e alívios, João finalmente conseguiu. Era admitido como office-boy do escritório Cunha, Almeida, Saraiva, Peixoto e Irmãos Galvão após, finalmente, desentortar três clipes. Sem tirar.

Mais um texto da coleção “Escritório, esse desconhecido”.
Vai ser best seller em época de amigo secreto, escuta o que eu te falo.
Comment by Eric — December 28, 2006 @ 7:15 pm
Julião, quando sai o primeiro volume do “Analista da Zona Leste”? Ou qq outra zona em q vc more.
Comment by Tiago — December 29, 2006 @ 9:48 am
Gostei do nome do escritório. Transpira conhecimento e competência.
Comment by Zé — December 29, 2006 @ 1:01 pm