Relendo os arquivos do Subversiva, coisa que faço pelo menos quatro vezes por ano, achei um post interativo da Lelê sobre os dez melhores livros que ela já tinha lido, bem como a minha resposta para tal enquete. Isso foi no final de 2003, segundo ano de faculdade, se a memória não morreu, e a minha lista era essa:

1 - A revolução dos bichos - George Orwell
2 - Senhor dos Anéis (Trilogia) - JRR Tolkien
3 - A ditadura envergonhada/escancarada - Elio Gaspari
4 - Fausto - J. Wolfgang Goethe
5 - Jornalismo canalha - José Arbex
6 - Chatô - Fernando Morais
7 - Memórias Póstuma de Brás Cubas - Machado de Assis
8 - O Cortiço - Aluisio Azevedo
9 - Os 10 dias que abalaram o mundo - John Reed
10 - Otelo - William Shakespeare

Estranho como, com o passar dos anos, a lista de livros muda da água para o vinho. Não que eu considere a lista antiga ruim, muito pelo contrário. São livros que deram norte para o que eu escrevo hoje, bem como a nova lista, que viraram a mesa do que se lê neste espaço. O tom da primeira lista não nega que eu tinha uma influência clássica e, para a grande maioria, enfadonha. Em uma lista atual, o ritmo do texto, dadas as influências, salta alguns séculos no DeLorean literário. Dali, por exemplo, eu tiraria O Cortiço, mesmo considerando-o o mais próximo daquela perfeição que as obras de Machado de Assis alcançaram na literatura nacional. Chatô, por exemplo, seria substituido na lista dos livros jornalísticos pelo recém-lido O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchel. Não que a narrativa de Fernando Morais seja ruim, pelo contrário. É que o livro de Mitchel é uma ode aos personagens cotidianos. Sabe, o cobrador de ônibus que você dá bom dia mas não sabe que ele, por exemplo, já chegou a lutar boxe com o Eder Jofre? Pois então, isso é Joe Gould. E seu segredo é uma das melhores histórias contadas no jornalismo mundial.

Não, pensando bem, não tiraria nada. Me aperta o coração excluir qualquer uma das obras citadas. Elas foram meu começo e, de cada uma, tenho uma lembrança marcante. O tapa na cara que é o livro de George Orwell (na minha opinião, mais esclarecedor que o 1984), a meticulosa descrição tolkeniana, que aguça o campo visual do leitor a ponto de conseguirmos ver o filme antes de Peter Jackson dar vida à obra, a acidez de Gaspari e sua doce ironia sobre a esquerda e a direita tupiniquim nos anos de ditadura, ou Fausto, uma história de amor com um pitaco de tragédia e uma veia cômica maravilhosa. Memórias Póstumas não pode faltar, foi meu primeiro livro, aos 18 anos. O ponto de partida, aquele que me fez olhar no espelho e perguntar por que eu fui tão idiota de demorei tanto para ler. Otelo, com o personagem Iago, o homem que me dava raiva pela admiração que causava, mesmo sendo um monstro. Arbex abrindo as portas do mundo, Venezuela em especial, indo na contramão da Rede Globo e do Estadão e John Reed mostrando a reportagem mais minuciosa de front que eu já li, uma vez que ele tinha entrada franca no Partidão durante a Revolução Russa.

Hoje eu posso fazer um top 20, ou até trinta. Seria mais ou menos assim:

11 - O segredo de Joe Gould - Joseph Mitchell
12 - Los Angeles, Cidade Proibida - James Ellroy
13 - As Intermitências da Morte - José Saramago
14 - O Leopardo - Lampeduza
15 - A Fogueira das Vaidades - Tom Wolfe
16 - Crime e Castigo - Dostoiévski
17 - Paciente 67 - Dennis Lehane
18 - Hiroshima - John Hershey
19 - Obrigado por fumar - Christopher Buckley
20 - Ensaio sobre a cegueira - José Saramago
21 - McBeth - William Shakespeare
22 - A milésima segunda noite na Avenida Paulista - Joel Silveira
23 - A queda - Albert Camus
24 - Filme - Lillian Ross
25 - Fama e anonimato - Gay Talese
26 - Incidente em Antares - Érico Verissímo
27 - O Analista de Bagé - Luis Fernando Verissímo
28 - Ninguém escreve ao Coronel - Gabriel Garcia Marquez
29 - Dália Negra - James Ellroy
30 - Uma longa fila de homens mortos - Lawrence Block

Me fez pensar na lista daqui a quatro anos. Esses trinta, não saem. Dentro da Floresta, do David Remnick, será o trigésimo primeiro, é quase certo. E, quem sabe um dia, eu vou ter capacidade suficiente para colocar Assim falou Zaratrusta, do Niestzche, no bolo. Eu deveria era ter nascido melhor leitor, isso sim.