Pouco foi dito sobre futebol neste blog, durante o ano de 2006, por razões não tão claras. Não, o Corinthians não merece o silêncio por conta de um ano pífio, pelo contrário. Cada vez que essas coisas acontecem, o nosso corinthianismo cresce mais e mais, sem dúvida. Pode-se, talvez, culpar os passeios que este resolveu dar por diversas áreas da literatura, sem resultado concreto. Brincou-se de clássico, de policial, de um monte de coisas. Fato é que a incapacidade de se escrever sobre futebol, apesar de gostar fervorosamente do esporte, pode ter sido o fator determinante. Enfim, a culpa não é do Timão.

Porém ontem, ao acompanhar as comemorações pelo título do Internacional de Porto Alegre, não pude deixar de me sentir um pouco contente pela constatação óbvia de que os times europeus, por mais que insistam em levar nossos craques como se fossem cana de açúcar para a Metrópole, jogam bem menos do que os "shows" apresentados na ESPN e afins contra os sul-americanos em geral, brasileiros em especial.

Impressiona como até os craques do continente se perdem quando jogam contra o pessoal daqui de baixo. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, é um gênio. A ele só falta uma coisa, que sobra em grandes craques da história como Pelé, Cruyff, Beckenbauer, Puskas e mais um tanto: falta-lhe objetividade. Alguém pode dizer que Garrincha não o tinha, e eu digo que Garrincha não existiu. Era uma criação do imaginário futebolês, uma mágica que nunca veremos igual e que todos os citados acima, incluindo o "um tanto", se somados, não chegam próximo do que fez o moço das pernas tortas. Enfim, retomando, Ronaldinho Gaúcho inexistiu ontem pelos vícios táticos da Europa que, em tempos de globalização futebolística, resolveu apelar para o individual esquecendo de seus grandes escretes táticos, aqueles que mais pareciam os exércitos de outrora, como a Holanda do Carrosel e a Alemanha do Kaiser que bateu a citada.

Ano passado deu-se a mesma coisa. O São Paulo, com plantel inferior ao do Liverpool, passeou em cima dos ingleses em um estilo de jogo que, historicamente, é deles: faz o gol e põe onze na cabeça da área, tal qual Stalingrado contra os nazistas. Mesmo Gerrard, um dos jogadores que melhor bate na bola nos tempos atuais, não conseguiu furar o ferrolho tricolor que, como se não bastasse, ainda dava seus pitacos lá na frente à cada vinte minutos. O Inter teve até mais brio do que o São Paulo, atacando um pouco mais. E tem um fator que eleva ainda mais o título: o fato de ser contra o Barça, o time mundial que mais deveria nos remeter ao futebol de casa. Não, eles continuam sendo europeus atuais, a criação maldita do futebol de um homem só, onde se contrata vários craques para que um deles resolva o jogo, onde o coletivo é lembrado por alguns passadores como Deco e o próprio Ronaldinho, que lançam o Eto’o velocista área adentro para um drible espetacular ou algo do tipo. Lindo de se ver, ótima cena em câmera lenta. Mas nenhum deles é tão companheiro de clube quanto Yarlei, que dribla, olha e, em uma demonstração de confiança no coletivo, passa para Adriano Gabiru, matando metade da Torcida Colorada do coração pelo passe e outra metade quando o gol sai. Sim. dá para morrer de alívio também.

O Inter fez ontem, assim como o São Paulo de outrora e o Santos de tempos remotos, aquilo que faz do futebol um esporte tão apaixonante quanto estranho: ele derrubou um gigante que usando de armas nossas e armas deles, não consegue derrubar a colônia. Mesmo porque isso é papel para o Ricardo Teixeira e para diretorias como a do Corinthians, esses sim Zidanes, Ronaldinhos, Kakás e Cannavarros no que diz a vencer os clubes e o futebol brasileiro.

Parabéns ao Internacional, que ontem tirou o título de melhor do mundo do Barcelona e dos são paulinos. E parabéns a torcida, que faz a festa em uma avenida chamada Goethe. Só o nome já vale a ida.