- Esmolinha para um pobre faminto?

O João havia perdido tudo. Uns diziam que foi por causa da ex-mulher. Outros, que foi o jogo. E tinha gente ainda que culpava o álcool. Quando os três tipos de pessoas se reuniam, João sofrera as Dez Pragas do Egito.

- Senta aí rapaz!
- Tudo bom João?
- Um pouco de fome, mas tudo bem.

O Murilo era um dos camelôs do centro da cidade. Como a barraca dele andava de mal a pior, com o artesanato perdendo feio para as novas tecnologias, ele "ganhava um pouco de tempo", como costumava a dizer, conversando com o João.

- Toma aí, tenho uns pães de queijo aqui.
- Valeu. Esmolinha para um pobre faminto?
- Vi o Dogville ontem rapaz. Bom pacas!
- Também achei, bem minimalista, mas com muito a dizer. Eu sou fã do pessoal do Dogma.
- Eu também, apesar de não gostar da Björk.
- Eu queria ir ver os três mexicanos, mas o ponto aqui tá muito fraco.
- Putz, o Cuarón é foda!
- E o Iñarratu, à merda aquele cara! Esmolinha para um pobre faminto?
- Cara, e se você parasse de pedir dinheiro por conta da fome? Você usa toda sua grana com cinema e livros mesmo?
- Ah, mas aí não comove. Outro dia eu pedi dinheiro para comprar o novo do Saramago, e uma senhora disse que eu ia tomar "O livro de ouro da cachaça".
- O pessoal parte do princípio de Oscar Wilde, onde o assistencialismo emburrece. Talvez deveríamos criar o assistencialismo cultural.
- E aqui na Paulista ninguém quer nem saber. O cara do teatro, coitado, vai de mal a pior.

Alfredo era um dos muitos rapazes conhecidos como "você gosta de teatro?", mais rechaçado do que os hare krishnas, apesar do guarda roupa ortodoxo e nada laranja.

- Pois é. Paulistano é tudo inculto mesmo!
- Ou o teatro de São Paulo é uma merda?
- Merda e caro, por sinal.
- Se bem que eu vi uma adaptação do Mercador de Veneza muito boa!
- Viu? Onde?
- Pela frestra do Teatro Abril. Mas nunca enxergava o Antônio, porém o ator que fez o Shylock valia o ingresso não pago.

Uma senhora passou e jogou dois reais. João olhou para o chapéu, a avisou o amigo Antônio, antes de despedir-se:

- Bom, vou lá ver do 2046, o Kar-Wai.
- Caceta, não viu ainda?
- Não vi, me deu fome.

E um tanto desequilibrado, foi andando em direção a algum cinema que não importasse com seus trapos. Mesmo sabendo que o resto do mundo não tinha o senso crítico dele.