- Sabe o que eu mais gosto em igrejas? – Perguntou a Fé, enquanto o Hóspede prestava atenção no decote.
- Dos santos? Das imagens? Da reza? Das reuniões com os alcoólatras?
- Não, da sensação de poder que ela nos dá. Eu poderia agora mesmo trepar contigo neste banco, sob o olhar de súplica do filho d’Ele. Eu sou a Fé.
A idéia o animou, mas ele tinha um trabalho a fazer. Com a arma apontada para a Fé e a mente pendendo mais para os dois mil reais do que para o par de seios, ele não pensaria duas vezes em explodir os miolos dela ali mesmo, na Casa de Deus.
- Sejamos práticos, querida. Diz onde está minha grana e eu deixo você converter mais algumas ovelhas. Se recusar, vai ser seus amigos serafins, querubins e joaquins bem mais cedo.
- Guarde a arma, querido, e conversamos melhor. Muito bem, o seu maior problema é confiar nas pessoas erradas. Aquela moça, por exemplo, a do Motel, te enganou. O Visitante idem. Todo mundo te passa para trás…
- Diga algo que não é novo para mim ou hoje haverá sangue. Não o de Cristo, mas fazer o quê, não sou perfeito.
- Escuta bem, valentão. Segue a moça do Motel e fica de olho no marido dela, que você deve conhecer de um bom tempo.
- Não sei quem é o corno…
- Como não? Ele vive aprontando contigo. É o famoso Destino.
Ele levantou, impassível com as palavras da Fé. Por dentro, remoia-se de ódio pelo seu maior inimigo desde o início dos tempos, aquele que sempre lhe pregava as piores peças. Sentiu um azedo subir do estômago pela garganta e quase vomitou de raiva; saiu andando e, após uns cinco passos, olhou para a Fé.
- Gracinha, só mais uma coisa.
- O quê?
- Seguindo um sábio conselho, eu não vou mais confiar em ninguém.
E dois tiros atingiram a escultural Fé, certeiros a ponto de fazê-la cair aos pés de uma estátua do Apóstolo Tomé, aquele que um dia não a teve. O Hóspede riu com a ironia e, saindo da Igreja, acendeu um cigarro. Era hoje que o Destino havia de pagar sua dívida. Ou, assim como a Fé, ele sucumbiria àquela .45, que nesse momento era quem o guiava pelos verdejantes vales da sujeira da Lapa.
(Continua)

Demorou pô! Quase dá vontade de mandar avisar quando estiver pronto :-/
Comment by Junior — November 13, 2006 @ 4:01 pm
- “Não, da sensação de poder que ela nos dá. Eu poderia agora mesmo trepar contigo neste banco, sob o olhar de súplica do filho d’Ele. Eu sou a Fé”.
É o Júnior esse cara?
Comment by Zé — November 13, 2006 @ 9:38 pm