Estava tudo pronto, conforme o script. No alto daquele telhado, eu estava com o meu rifle. Lá embaixo, cercado por uma multidão que, logo, logo, será dispersa, estava ele, o proeminente líder das massas. Tinha acabado de chegar de trem com alguns amigos. Cambaleava um pouco, deve ter tomado algumas cervejinhas. Esses caras nunca aprendem.
Conferi a mira telescópica. O vento daria um desvio de um centímetro, para esquerda. Meu pai sempre dizia que desvio à esquerda era sinal de mau agouro. Mas ele casou com a minha mãe, então não deve ser levado muito a sério. Principalmente por causa do meu avô. Saudades da família.
Empunhei o rifle, estava já morrendo de tédio. O combinado era atirar quando ele descesse de cima do trem. Isso, o bigodudo. Quantas vezes eu escutei que não deveria esquecer, era o bigodudo. E não tinha como errar, o bigode do cara era maior do que a tal da Revolução que ele dizia ser um dos líderes. Acho que vou matar uma pomba para distrair. Talvez eu a dê como comida para os pobres e, um dia, vire alvo de outro colega de profissão.
Devia ter trazido alguém comigo. Normalmente não podemos fazer isso, porque testemunha é algo difícil de lidar. Certa vez um cara, matador famoso, levou a esposa. Na primeira, tudo bem. Na segunda a mulher, fetichista, queria dar uma no telhado, enquanto esperavam. Era italiana, sabe como esse povo é. Treparam na porra do telhado e, quando viram, o Rei e a Rainha tinham ido embora. Ele inventou uma desculpa esfarrapada de que a arma emperrou e conseguiu outro trabalho. Levou a mulher de novo e dessa vez, ok, xeque-mate. Dois anos depois, a mulher entregou o carcamano. Ele tinha levado uma siciliana para o telhado.
Porra, o celular? Quem liga numa hora dessas? Puta merda…
- Alô?
- Boa tarde senhor, meu nome é Vanessa e eu sou do Programa de Fidelidade TIM.
- Sim…
- O senhor gostaria de estar conhecendo nossa promoção?
- Não!
Não é de foder? Acho que vou jogar o celular para o alto e atirar nele. Melhor que matar uma pomba. Pronto, vai descer do trem. Não, o filho da puta tropeçou de bêbado, que merda.
Deu fome. Devia ter trazido um lanchinho. Se bem que também não é recomendado, os caras do Sindicato são um saco. O Alemão, que era um baita matador, só fazia o serviço cercado de caixas de Donuts. Problema é que o chocolate deu um revés no relógio intestinal do figura, causando fusos-horários que ele desconhecia. Quando voltou do banheiro, o presidente daquela Republiqueta de Bananas tinha ido embora, para se encher de cocaína no Palácio Presidencial. A sorte do Alemão – é, além de bom, ele tinha sorte – foi que o pó fez o trabalho dele.
Puta merda, o cara não desce. Será que ninguém pode subir e passar o rodo nesse merda. Como esses caras gostam de falar bobagem, enquanto esse bando fica escutando sem entender porra nenhuma, gritando “Viva a Revolução, Viva a Revolução!”. Droga, porque não me chamaram para matar o John Lennon. Ou pelo menos o Kennedy, que estava de carro. Era chegar, atirar e ir embora. Até o Ali Acga tinha coisa melhor do que eu, e olha que nem profissional ele era!
Mas são uns merdas também. Tem tanto nego com história boa que ninguém conta. O Portuga, putz, que figura, o maldito lisboeta que prendeu o bigode no rifle. E tinha também o Rabino, judeu tão unha de fome que, às vezes, deixava de matar para economizar bala. O Paraíba também, um figura e…
Caralho, ele está indo embora! Porra, putaquemepariuderodinhaslaser! Volta puto, fala mais alguma merda, agradece a Xuxa! Merda! A porra do carro, é blindado! Olha, o puto, está indo embora! Porque ninguém atira nesse merda!? Porra, tenho que parar de divagar! Onde será que deixei meus remédios? Será que eu trouxe? Droga, está na gaveta de meias! Ou será no porta-luva? Será que o tintureiro levou meu terno? Quando eu olho para o abismo, o abismo olha para mim? Olha, uma pomba! Clic, clic, clic. Merda, as balas ficaram na caixa de remédios!
Play Station: o final desse post, e única parte decentemente escrita dele, é obra e graça de duas figuras: Eric Gancho e Lívia, a futura Chefa. A eles, meus mais sinceros cumprimentos e votos de Feliz Natal, Próspero Ano Novo e um ótimo dia do Servidor Público. Obrigado.

Vou te internar…
Comment by Junior — November 10, 2006 @ 6:00 pm
Cadê o crédito do final pra mim?
Théo! auhauhhuahuahua
Comment by Eric — November 10, 2006 @ 6:49 pm
Comentando da casa da Gabi.
Comment by Zé — November 11, 2006 @ 1:00 am
Cadê o crédito no final pra mim?
Porras, não fiz nada, mas também quero. =P
Comment by Tiago — November 11, 2006 @ 11:09 pm
HAHAHAHAHAHAHA!
Cara, tou rindo há horas, desde que comecei a ler seus últimos posts…
Comment by O Tatu — November 13, 2006 @ 12:57 am
Me admira que um cara desses ainda fosse contratado pra matar alguém.
Comment by Bruno — November 13, 2006 @ 12:28 pm
Que droga de assassino é esse que revela o nome da Chefe???????????????
Comment by Lívia — November 13, 2006 @ 4:27 pm