- Não!
Espera, espera. Respira fundo. Olha para os lados, estrala os dedos. Ok, eu não lembro direito o que houve, o por quê daquele circo todo, daquela arma apontada para a minha cabeça. Havia dois caras no bar, desses tipos grandões, com cara de segurança. Obviamente não eram, uma espelunca daquela não precisa de tal. Ou melhor, até precisa, mas para cada um dos presentes, não para a espelunca em si.
O fato é que os dois chegaram à mesa. Tinham aqueles fones de agente do FBI e usavam óculos escuros, isso às onze da noite. Juro, vi eles me chamando de Mr. Anderson, uma versão tupiniquim e bem capenga do Matrix. Vestiam ternos da Colombo, e eu os vi descendo do Morro Grande, no ponto de ônibus em frente ao bar. Será que eu sei kung-fu?
Os dois estavam em pé, em frente a uma cadeira. Se eu souber mesmo de artes marciais, posso chutar a cadeira em um enquanto esmurro o outro. Não, nem pense nisso. Passei a mão na lateral da jaqueta, eles olharam e, seguido de uma piscadela, o maior (se é que isso era possível) diz:
- Não tente, tudo vai ficar bem…
Droga, eu só queria um cigarro. Porque eu não os deixo em cima da mesa, como uma pessoa normal?
O menor, três vezes a maldita Muralha da China, falou logo depois:
- O Somoza quer te ver.
Somoza? Que Somoza? O cara do Panamá, República Dominicana, sabe lá Deus que lugar do maldito Caribe? Eu lá tenho cara de Sandinista?! Nunca gostei muito dos “istas” não. Sinal de Fé, pura bobagem. Por Deus!
- Que Somoza? Não, não, eu não queria…
Tarde demais, devia lembrar quem era o Somoza. Eu estudei História, mas sempre odiei o Caribe como um todo, o Somoza em particular. Era isso, era o ódio ao Somoza. Eu virei um maldito Sandinista. Enfim, vale dizer que é sempre bom, para recobrar a memória, um bom soco na boca do estômago, ainda mais quando Pé Grande em pessoa executa o serviço. Fosfosol uma ova!
- Tá bom, tá bom, eu vou ver o Somoza. Devo ir de fraque.
Droga, tenho que parar de ser infame.
Eu não sei como, mas couberam os três em um Fiat 147. Larguei uma espelunca por outra, e esta última estava superlotada. Aqueles dois caras mereciam o maldito Prêmio Nobel de Como Ocupar Espaço em um Carro. No rádio, Smoth Operator da Sade, e os dois armários cantando em falsete. Eu preciso parar de beber, o quanto antes.
Um galpão, em uma rua deserta. Guardei uma moeda para o barqueiro, tão certo da morte quanto do fato daqueles dois serem casados há anos. Só quem completa Bodas de Ouro canta Sade em falsete tão bem. Um lindo casal bicha, será que com filhos? Paramos em frente e eu finalmente respirei. Enfiei a mão no bolso e o marido falou:
- Não tão rápido, Billy the Kid.
Esse porra deve ser do Ministério da Saúde, só pode. Desisti de fumar, em consideração aos meus pulmões, rins, baço e demais partes que seriam destroçadas pela Gloria Gaynor anabolizada. Passamos por um corredor escuro, com goteiras, ratos e algumas seringas pelo chão. Mickey Mouse chapado de heroína. No final, uma porta, luz em torno do batente. O George Michael abre, deixo a Gloria passar. Queria ter sido padrinho do matrimônio.
O tal do Somoza está sentado e tem a cara do Mussolini. Fico meio perdido, lembrando da Dona Agnes, a professora de História, e no zero que ela me daria. Recobro o foco a tempo de falar com Somoza:
- E ae, certinho?
- Mais ou menos, uma hérnia foda por aqui, e você?
- Ah, o de sempre, pileque, o maior casal gay do mundo me seqüestrando, essas coisas comuns.
Os armários soltaram as mãos e vieram para cima de mim. Coloquei a mão no bolso da jaqueta e o Casal 20 parou. Puxei um cigarro, acendi, traguei, tossi; o tal do Somoza falou:
- Conhece o Mário?
A imagem era perfeita. Mário, boné vermelho, bigode quase do tamanho dos guarda-costas do Somoza, carcamano maldito, aquele que pegava a Princesa Peach e, nas horas vagas, o próprio Toad, que quase sempre virava chá.
- Não!
- Droga, eu nunca consigo fazer essa piada.
- Putz… mas e você, conhece o Abreu?
- Que Abreu?
Lembrei porque tinha uma arma apontada para a minha cabeça.

Tá comendo o Toad também, véi? Um post mais foda que o outro!
Comment by Eric — November 9, 2006 @ 3:41 pm
Véi, dos dessa safra, esse sem dúvida é o MELHOR!!! Final FÓDA!!!
Comment by Junior — November 9, 2006 @ 7:05 pm
Bah Julião, devo ser sincero e dizer q quando a gente olh o tamanho do texto desanima. Mas aí vc pensa: porras, é um texto do Julião e como sempre não tem ruim!
Rolei de rir no final. Meus colegas aqui até olharam estranho.
Ah, e spam subliminar, i’m back to the business! =P
Comment by Tiago — November 10, 2006 @ 1:15 pm
Gargalhei sonoramente com esse final. Tenho que parar de ler tu blog no trabalho, nunca se sabe o que vai acontecer.
Comment by Bruno — November 10, 2006 @ 2:39 pm