O publisher da revista, iluminado por belos e límpidos lustres - dignos do "essa porra vai cair na minha cabeça", dito certa vez pelo pai do Ronaldo Nazário, vulgo Fenômeno, no Castelo de Chantilly - agradecia às presenças ilustres:

- O Presidente, o Governador, o Presidente da Câmara, o Prefeito, o Ministro…

Na linha de frente, mais autoridades. Presidentes de autarquias, coordenadores de campanha, senadores da República, defuntos econômicos. Na segunda linha, empresários; aquele dos calçados, o rei do aço, o barão do aço, os construtores, os banqueiros, comércio, varejo, moscas varejeiras. Estava formado o front de guerra. O publisher, no púlpito, anunciou:

- O país é dividido em uma minoria que controla os bens de consumo, de comunicação, o dinheiro que o país produz, e a maioria pobre que não têm acesso à isso. É preciso mudar essa condição, é preciso que trabalhemos para o futuro do país. E para tal, somente esse presidente aqui é capaz. Lembro como se fosse ontem a greve dos engraxates contra a ditadura dos tênis All Star, onde este homem ascendeu. Eu fui o primeiro a entrevistá-lo, ainda em pêlos negros, não como o estadista de hoje.

A platéia aplaudia, enquanto o publisher cambaleava sob efeito de alguma coisa que não a lucidez. Sobre plácidas cabeças, um teto abobadado de madeira cobria o amplo salão de uma torrencial chuva. A acústica do lugar isolava o dilúvio e outras coisas que separam aqueles que dormem na rua dos que dormiam durante a estranha e presa fala do prefeito, que aparentava ter a língua maior que a própria boca. A noite seria longa para os "dois países" supracitados.

Subiram os premiados, pessoas admiradas. Recebe o prêmio, cumprimenta a autoridade, desce. O imigrante alemão foi chamado para, em nome de todos, falar sobre o ambiente econômico do país pós-eleições. No púlpito, deu números, falou de spread, taxa de juros, inflação. Quando foi falar do povo, o sotaque de colono veio à tona:

- Devemos serrrr assistencialistas até cerrrrto ponta. Não podemos tirrar a dinidade do povo. O trrrabalho salvar!

Lembrou um pouco àquela frase de Dachau, o campão onde conterrâneos do empresário faziam experiências curriculares, como bem sabemos. Arbeit macht Frei (O trabalho liberta). Palmas para ele, que não disse "um só palavra" sobre como "liberrrrrtar" o "outrrrrro ladô" do "nação".

Então veio o presidente, para delírio da massa. Massa? Enfim, no palco, ele era um gênio, ele fazia rir, ele falava coisas constrangedoras aparentemente sem constranger. Ele era o Rei que, cercado pelo séquito, sentia-se como que iluminado, tal qual o Rei Sol. Periga, conforme a analogia, perder a cabeça, se já não a perdeu.

- Eu não quero dividir o país, eu quero somar. Na minha trajetória, eu vi muita coisa acontecer no mundo, no país. Ao mesmo tempo, em se tratando de ineditismo, nunca na história desse país houve um governo tão inédito quanto o meu, que não tem vergonha de chamar banqueiro de companheiro. Eu chamo! Chamo de companheiro o dono o Irajú, o dono do Tedesco! Nao tenho vergonha de dizer, senhores e senhoras presentes, que nunca falei mal de banqueiro na vida! Inclusive, eu apoiei os banqueiros na minha última corrida presidencial. Todo mundo falava mal, mas eu ia a favor. Quando, no passado, eu não apoiava os banqueiros, ninguém votava em mim. Agora, meus adversários fazem o mesmo, e todo mundo vota! É estranho isso…

E a platéia, com um riso gostoso, aplaudiu o Presidente, que disse não se alongar mais por conta do tempo escasso de mandatário da Nação. Ninguém também estava muito afim de longas palavras sobre abismo social e como os empresários poderiam melhorar isso. O cocktail estava pronto, regado a scotch, canapés, frutas silvestres, essa coisa toda. Seria uma noite longa para aqueles que se importam, e muito, com o futuro do país. E graças a Deus, Alá, Abrahão, eles se reúnem uma vez por ano. O que seria de nós se, mais do que serem premiados, eles não falassem sobre nosso futuro?