O Pedro juntou dinheiro de tudo quanto era jeito. Vendou os livros, os filmes, a casa, o carro. Perdeu esposa, o filho, parou de fumar, de beber, de jogar. Pediu grana emprestada para o pai, a mãe, o tio e, pasmem, até o cunhado. Quando contou toda a soma, pegou o avião e rumou para a Praça Vermelha, em Moscou.

O avião pousou e ele não pode acrediatr que estava na Rússia. Não sabia o que ia comer, mas pombas, aquilo já foi um país comunista! Deve ter algum lugar para gente desprovida, sempre fica um ranço. Se até o Brasil tinha, a Grande Mãe haveria de ter também.

Pegou a condução, em direção ao mausóleu de Lênin. Eufórico, imaginava o que dizer para o Grande Líder da Revolução Socialista de 1917. Imaginava a cara de inveja do Abreu, do Lima e do Vladimir. Caraleos, o Vladimir! Com um nome desse, ele ia morrer de inveja.

Comprou uma dessas máquinas fotográficas descartáveis que os turistas usam e foi em direção ao túmulo do líder soviético. Já tinha ensaiado o discurso, tinha até chorado no ensaio! Não podia acreditar naquilo tudo. Apertou a maleta que carregava junto ao peito, para espantar o frio. Chegou ainda no horário de visitas e aguardava impacientemente na fila.

Quando da sua vez, dois guardas estavam prostrados próximos ao túmulo. Ele sorrateiramente enfiou a mão na mala, tirando um 38 já gasto. Aprontou a câmera, encostou a arma em uma das mais famosas carecas do mundo e disparou, fazendo voar serragem para tudo quanto é lado.

- Mooooooooooooooooooorre vermelhinho!

Depois do incidente internacional, pouco sabíamos sobre o Pedro. O governo brasileiro não queria ele de volta. O pessoal da Rússia queria matá-lo, exceção feita ao presidente do país, que não agüentava mais o defunto no armário, quase que literalmente. Pedro ficou durante anos realizando trabalhos forçados na Sibéria, achando que isso tinha caído junto com o Regime. Era out em Paris ser exilado na Rússia.

Anos depois o governo russo se encheu e mandou o Pedrão de volta. O Vladimir esperou no aeroporto para dar-lhe um murro de Berlim. Assim, bem infame mesmo. Acabou que o Pedro entrou em um partido de esquerda e virou líder dele no Congresso. Até o dia em que ele foi flagrado rompendo o painel de votações, sendo que já havia rompido algumas estagiárias da Casa. Acabou cassado e hoje dá palestras sobre democracia e governos de esquerda. Mas jura que poderia, com muito know-how, versar sobre com temas como "100 pontos para quem acertar o Vermelho" e "Como alvejar comunistas e fazer inveja ao PFL". Sempre diz isso quando está mais cheio de uísque do que o Rio Volga de água.