Gone, baby, gone - Dennis LehaneNovember 30, 2006 12:51 pm

Quando o "Vecchia Signora" aportou em Santos, milhares de imigrantes italianos vinham buscar a sorte grande no mundo blogueiro do Brasil, mais precisamente de São Paulo.

E dentre estes filhos amamentados pela loba, tal qual Rômulo e Remo, estava a doce Ana Gabriela Bianco, eh, mais conhecida como Gabi.

Siciliana de nascimento, Gabi começou no mundo blogueiro exportando azeite Genco, homenagem a um famoso blogueiro siciliano, dono do blog "Genco na mozarella, eh!". Como os negócios da "famiglia" andavam um tanto difíceis, Gabi fundou a Casa da Gabi, entrando assim no seleto hall dos blogueiros tupiniquins que deram certo.

E desse seleto hall pulou para o Big Blogger Brasil, reality show onde blogueiros ficam confinados em uma casa fazendo… er… hum… enfim, ficam confinados em uma casa. E Gabi, desobedecendo toda a tradição siciliana, chegou à final do programa sem matar ninguém.

Agora, por intermédio da democracia, a final do reality show será decidida no voto. Então você entra aqui, nesse link, e vota na Gabi para que ela ganhe mais áreas de influência. Na condição de caporegime dela, eu aconselho. Ou então você vai acordar com a cabeça daquele seu poodle de estimação no colo. Só a cabeça, capisce?

Gone, baby, gone - Dennis LehaneNovember 29, 2006 3:36 pm

Sentado na cadeira da escola, pés sobre a mesa, estava a pensar em uma morte trágica e triste para Brasilina, a professora de Ciências. Aqueles passinhos dela para trás e para frente enquanto explicava o Reino dos Moneras me dava nos nervos. O Luís chegou e, esbaforido, disse que precisava de ajuda.

Luís era o japonês da sala. Sobrenome, só os xoguns sabem. O maldito sabia tanto de matemática que eu suspeitava que ele tinha inventado a disciplina. Veio direto à minha mesa, sem dar sequer um alô, "konitiwa" como dizem os samurecos:

- Julião, preciso de uma ajuda.

Acendi um cigarro Pan. O japa tinha problemas.

Poucas vezes na história da humanidade um japonês havia tirado zero em uma prova. E quando isso acontecia, as katanas faziam a vez da assinatura das mães nos testes que atestavam a inépcia daquele para com a tradição de seu povo. Os malditos japas dominam todo e qualquer tipo de teste, exceto aqueles em que se mede algumas distâncias, segundo reza a lenda. E Luís estava lá, arma um punho, pronto para desferir o golpe final:

- A vida não tem mais sentido. Eu sou uma vergonha para a raça!
- Ow, ow, senta aí véi. Toma, um gole de ki-suco. Tem um sanduíche de mortadela aí na lancheira, se quiser. Negócio é o seguinte, nós podemos forjar a assinatura. Podemos matar a Brasilina. Podemos fazer o diabo! Mas você não pode ficar de fora do futebol amanhã!

Uma dor de cabeça irritante fazia doer até minha têmpora. Coloquei dois drops na boca, mas um gole do bom e velho scotch ki-suco de morango para descer e melhorar o bate macumba no cérebro.

- Tá, e o que faremos? - perguntou o japa.
- Simples: qual o nome da tua mãe?
- Tsetoaka Tanomuri Katanabeoratu…
- Porra, tua mãe é croata?
- Quê?
- Nada. Se liga, vamos falsificar a parada. Você consegue?
- Não, e você?
- Tá brincando? Eu mal sei escrever meu nome, quem dirá o dela!
- Falsificador de merda!

Aí era demais. Eu, notório por conseguir imitar com perfeição a professora Graça, por saber antes do que qualquer um as questões da prova de Português e Estudos Sociais, por falsificar a assinatura da Dona Neide, a diretora, não poderia deixar barato.

- Aí japa, repete o nome da véia.
- Tsetoaka Tanomuri Katanaboriatu…
- Pô, tá errado!
- Ih, é…
- Bah, falsifica esse cocô você mesmo.

E foi assim que, cinco minutos depois, Brasilina entrou na sala e, passinho para trás, passinho para frente, bafejava as orelhas de Luís enquanto esse, língua para fora da boca tamanha concentração, desonrava o nome ilegível da família.

Depois disso o japa sumiu. E Brasilina, até onde eu sei, nunca quebrou as pernas. Mas aquele tique nervoso, e o Reino dos Moneras, sempre me deu nos nervos.

Gone, baby, gone - Dennis LehaneNovember 28, 2006 4:06 pm

Uma brisa leve acalmava o mormaço do verão. Na rua de baixo, a molecada aguardava ansiosamente. Do alto da ladeira, Zezinho, o líder da rua de cima, discursava para seu exército:

- Lembrem-se que, antes de tudo, nossa vida e nosso futuro estão nesta batalha. Se vamos voltar vivos, só os deuses podem nos dizer. Porém, morrendo ou não, o importante é honrar nossos ancestrais, nossas crenças, nossa pátria. Não podemos nunca ser subjugados, ou nossas lancheiras perecerão em todas as escolas do mundo frente à tirania dos alunos da sétima série!

Os jovens guerreiros bradaram o nome de Zezinho, líder inconteste. Era o dono da bola, tinha a melhor BMX Superstar que as crianças da rua já tinham visto e montava carrinhos de rolimã como nenhum outro.

Pela rua de baixo, o Pedrinho não fazia por menos:

- Devemos acabar com esta raça. Eles roubam nossas bolas de futebol! Eles roubam as bonecas de nossas irmãs! Eles cortam nossas pipas! O Eixo não pode viver subjugado pela raça inferior! Só assim faremos com que o Reich perdure por mil anos, com mil gols!

Reich era o nome da equipe de linha da rua de baixo, sabe-se lá por quê. Pedrinho era seu capitão, camisa 10. E era o melhor jogador de bolinhas de gude que o mundo já tinha visto.

A brisa cessou e o sol escaldante elevou ainda mais a já alta temperatura do campo de batalha. Zezinho ergueu a mão direita e, quando a abaixou, bradou para seus oficiais e soldados:

- Pela doceria da Dona Dirceeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!

O astro-rei, até então absoluto no céu, foi eclipsado por milhares de mamonas. A primeira fila do exército da rua de baixo, precavida, usou as tábuas da marcenaria do Seu Manolo como escudo. Quando a chuva de tiros terminou, foi a vez da segunda linha do Exército de Pedrinho tomar seu lugar em direção ao topo da ladeira.

- Pela loja de pipas do Seu Adão, ataaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaacar!!!!!!!!!!!!!!

Os guerreiros da rua de cima entraram em parafuso. Zezinho, pondo em prática a tática número dois, ataca pelos flancos. Munidos de paus, espadas de plástico do Jiraya e armas d’água, as ruas se enfrentam em uma batalha até então nunca vista na história da humanidade. Uma corneta soa, como que anunciando o fim dos tempos. Zezinho olha para a sombra que o encobre, e ordena a seus moleques:

- Bater em retirada, bater em retirada!

Era a arma secreta da rua de baixo, Afonso. Tinha dez anos e dois metros de altura por três de largura. Os garotos da rua de cima diziam que Afonso era uma experiência genética bem sucedida, o maior cabeceador do Reich em toda a sua história. Pedrinho, já prevendo os louros da vitória, ordena à sua arma mortal:

- Pegue os outros. O Zezinho, eu mesmo cuido.

E, arma de feijão em punho, subiu a ladeira em direção ao líder adversário. Zezinho, honrando o discurso inicial, desceu a rua com seu elástico e sua munição de pedaços de papel sulfite enrolados com durex. Cada um dos dois pula aqueles que jazem, dos dois lados, desviam de corpos, de tiros, alvejam oponentes, tendo como único alvo o ódio mútuo. Frente a frente, ambos miram, a Morte exalando sobre os dois seu hálito:

- Já era Zezinho. Vaza da ladeira!
- Nem moleque.

Pedrinho esticava ao máximo a bexiga presa ao cano de PVC, gatilho de sua arma de feijões. Zezinho puxa o elástico para trás a ponto de arrebentá-lo, a alça de mira no meio da testa do oponente.

- Peeeeeeeeeeeeeeeeedro, almoço!
- Zeeeeeeeeeeeeeeeeeeeezinho, almoço!

E todas as crianças desapareceram da rua em um piscar de olhos. Mas prometeram que, da próxima vez, a guerra ficaria para as três horas da tarde. Mal sabiam eles que o o lanche da tarde atrapalharia tudo.

Gone, baby, gone - Dennis LehaneNovember 24, 2006 8:54 pm

Devíamos comparar as coisas da vida baseados na ervilha e na lentilha. Senão vejamos, as desgraçadas são como irmãs. Qualquer supermercado tem uma próxima à outra, mas em uma distância segura para não dar em fratricídio ou para que os idiotas em matéria de cozinha, onde este lidera com garbo, levem gato por lebre (ou lebre por gato, eu nunca entendi direito).

A ervilha é tal Caim (ou Abel, nunca lembro). É ruim, é má, é terrível. Precisa estar acompanhada de algo muito bom; exemplo, Monica Belucci com ervilhas. Fica uma beleza, ensopada ou não. Já a lentilha, obviamente, é Abel (ou Caim, vá dar nomes assim lá na Galiléia!): desce até com ervilhas. Poderia citar Rutinha e Raquel, mas não lembro quem era boa ou má na referida novela. Chamemos de Glória Pires.

Temos então a dicotomia ervilhas e lentilhas. Na Guerra Fria, por exemplo, o mundo poderia ser dividido da seguinte forma: os EUA são as ervilhas, a URSS as ervilhas e a França, as lentilhas. De lá saíram, durante o período mais chuchu da história da humanidade, Juliete Binoche, Catherine Deneuve, Bridgit Bardot, Sophia Loren, Isabel Adjani. Lentilhas, com certeza.

Ou a Segunda Grande Guerra. Tínhamos o Eixo, ervilhas de nascimento e ainda com aqueles problemas de cromossomo que víamos nas aulas de ciências. Tínhamos os Aliados, considerados lentilhas mas como muita ressalva. Digamos que eram ervilhas esquizofrênicas que aspiravam ser, um dia, lentilhas do mundo. E o Brasil, levava nabo.

Tempos depois, na ditadura milica brasileira, tínhamos nossas ervilhas e lentilhas. O nobre e bravo Exército Brasileiro representava a primeira. A segunda cabia aos tardios filmes da Sala Especial. Se tivessem aportado no país assim que Cabral por cá chegou, não seríamos uma ópera bufa lusitana, se é que isso é lá possível.

Mas há também a possibilidade de, se feitas como lentilhas, as ervilhas sejam tão maravilhosas quanto. Sem contar que, se enlatarmos as lentilhas, talvez elas fiquem com aquela aparência estranha de suas irmãs distantes. No fim, é tudo a mesma coisa. Só depende de como se faz. A não ser, é claro, que venha com a Monica Belucci. Daí você nem presta atenção em um texto desses. Quem dirá lê uma joça dessas.

PS: Valeu Gabi!

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 22, 2006 3:52 pm

Entra a vinheta do Plantão. Na mesa, dois copos, duas cervejas, dois cigarros. O papo era cinema, futebol, mulher, essas coisas. O apresentador informou, em tom de respeito a quem vai mais cedo:

- Está internado em estado grave o ator Jece Valdão, protagonista de inúmeros filmes e seriados de TV. Conhecido como o símbolo do cafajestismo antes de se converter e virar evangélico…

- Taí, o mundo perde o último dos cafajestes! E o maior!
- Que nada. Lembra do Almeida, aquele que comeu a Cissa, sendo que era compadre do casamento? Daí o Piva foi lá tirar satisfação e, depois de conversar com o cara, foi pra casa e encheu a mulher de bolacha…
- Pô, eu lembro. O Almeida falou que não tinha nada a ver, que ele tinha respeito pela Cissa, e ainda falou que se fosse mulher dele, ia apanhar para aprender a não espalhar boato.
- E tinha também o Mário, lembra. Aquele que pegava a irmã de todo mundo, engravidava e saía fora. Era conhecido como "fazedor de tios"…
- Eu sei, meu sobrinho é a cara dele.
- Porra!
- Não, é o primeiro, não o Pedrinho. Esse é sua cara.
- Pô, e o Lima, que dizia toda semana que o pai morreu para recolher a caixinha do velório. Cansei de ver ele tomando birita com o velho depois de passar a sacolinha.
- Grande filho duma santa!
- Pois é…
- Pô, teu pai também era o maior cafa.
- Pois é, e tua mãe também.
- Ah, minha mãe fugiu junto com ele por amor.
- Sei, sei. Amor ao dinheiro do meu velho.
- Que dinheiro? Teu pai perdia tudo no Bingo, aquele degenerado.
- É, e foi lá que ele conheceu tua mãe.
- Enfim, estamos fugindo do foco. Lembra do Kennedy, era outro cafajeste.
- Mas esse morreu, pô! Estamos falndo dos vivos.
- Ah é… mas ainda tem o Han Solo. Será que o Harrison Ford é cafa?
- Sei lá, eu não sou nerd…
- E tem o Hugh Grant, o Chirac, o Lula, o FHC, o Mainardi…
- Putz, é mesmo. O Jece é só mais um cafajeste.
- Que Deus o guarde.
- Tá loco? O Hômi não guarda cafajeste não…
- Mas ele se regenerou, virou evangélico!
- E daí? Uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Você acha que a Monique Evans vai pro céu?
- Já tá no meu faz tempo.
- Tanto cafajeste bom pra morrer e vai logo o Jece?
- É mesmo. Devia ir teu pai.
- Ou tua mãe.

E em algum outro canto da cidade as esposas dos interlocutores aproveitavam o tempo vago para comprovar que, ao contrário do que pensam, Jece não é o último dos cafajestes, muito menos o maior. Mesmo porque ainda temos Paulo César Pereio para desmentir tal afirmação.

E Parabéns...November 21, 2006 3:41 pm

Há coisa de o quê, menos de um ano atrás, eu estava no banheiro de um bar. Inventaram um jogo, tinham baralho, tinha cachaça. Eu tinha um pedaço de torta do Pão de Açúcar no estômago e nada na cabeça. Acredite, não ter nada numa cabeçorra dessas é o mesmo que comprar toda a Amazônia, mandar aterrar e fazer um Centro de Estudos da Blogsfera, a ser inaugurado por Lula e FHC, mãozinhas dadas e tal.

Pois bem, nesse dia do banheiro, poucas, porém valentes, pessoas desbravariam o recinto em busca dos meus restos mortais. Das três que foram, duas tinham entrada cativa, seja por serem alcóolatras, tal qual eu, seja por carregarem o membro masculino (por menor que seja, segundo me contam na Avenida Paulista). A última, a mais impossível dadas todas as possibilidades, entra de inopino, afaga meus suados e ralos cabelos e pergunta:

- Chulio, tá tudo bem?

Desde então, estava, está e sempre estará, navegando pelos tempos verbais. Lilhoca, nossa querida advogada, rompeu todo e qualquer laço que poderia nos separar. Sejam minhas piadas infames sobre um caso antigo sela, seja o fato dela ter mentido lindamente que sabia imitar o Darth Vader. Desde a entrada triunfal no banheiro masculino, que eu não pude acompanhar por forças maiores e alcoólicas, até as pizzadas, os papos no boteco, os filmes e fotos bizarros que queimarão para sempre nosso filme, as piadas de humor crioulo politicamente corretas e o fato dela ter dormitado ao lado do palhaço do fast food, ali, naquele banheiro, nasceu uma amizade que nem o tempo abala. Afinal de contas não é todo dia que você vê um planeta orbitando uma privada e resolve, mesmo assim, continuar conversando com o corpo celeste. Melhor, a cabeça celeste.

Mas eu sei que ainda tem mais por vir. Nos seu quarto de século recém completado, Lilhoca há ainda de fazer muito por nossa alegria, como faz todo dia. Nos trará orgulho quando passar na prova da Ordem e for Ministra do STF, usando aquele coque que a Ellen Gracie usa e fazendo com que blogueiros de urls megalomaníacas paguem um pau absurdo para A Ministra. Ou quando for eleita a franja indie mais foda do Hemisfério Sul, indo buscar o título no Hemisfério Norte. Ou quando vencer o Campeonato Mundial de Mario Kart com três voltas de vantagem sobre o segundo colocado, Takeshi Morotawa, um moleque de doze anos que era o maior mother fucker ever no jogo até então. Ou quando plantar sua árvore, escrever seu livro e dar um duplo twist carpado nos braços do Cristo Redentor. Enfim, Lilhoca, nossa advogada, será sempre motivo de orgulho. Porque todo dia, seja por uma mensagem engraçada, seja por uma confissão que haveria de virar texto bem escrito, seja pelo fato de pegar gente esquisita só para virar história em mesa de bar, nos brinda com a sua alegria e seu humor afro-brasileirão.

E por essas, e muitas outras, que eu agradeço o velho dela por ter largado o Atari por uns instantes. O que seria de nós sem Lilhoca?

Parabéns Ovelhinha. E sê feliz, pois tu merece bagaraleo!

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 17, 2006 7:55 pm

-Um copo d’água, por favor!

Ninguém acreditava naquilo. O cara entrou no bar, pose de maldito John Wayne, encarou todo mundo como se fosse, sei lá, Dirty Harry em pessoa e chega no balcão para pedir um copo d’água?

- Com gás ou sem? - perguntou o barman, se é que ele pode ser chamado dessa forma, dada a condição da espelunca.
- Com gás! - seguido de uma estrondosa batida na mesa.

Não podia ser verdade. No meio daquele bando de homicidas que fariam corar o Charles Mason, o cara pede água com gás?

- Ah, vê também um Fandangos de queijo!

O Pablo, peruano filho da puta de ruim, camarada do Fujimori que matou no mínimo três quando o ex-presidente mandou invadir um prédio e dar fim em todo mundo, levantou, indignado:

- Escuta, muchacho, que porra é esta?
- Água e Fandandos. Quer um?
- Tá loco, pancho! Zé, me serve um Nescau!

E sorvendo em um só gole o Nescau, Pablo sacou sua pistola d’água e, sem dó, deu três tiros no estrangeiro, que caiu morto no assoalho. Feliz com o desempenho de sua amiga inseparável, sacou do bolso um cigarrinho PAN, para descobrir depois que chocolates derretem quando levados ao fogo. Os homicidas nas outras mesas voltaram todos para seus milk-shakes, escutando o melhor da trilha sonora do Cocoricó. Pancho, ao sair do bar, foi levado no triciclo da polícia para a delegacia mais próxima, que tinha a mais incrível aquitetura já feita com blocos de Lego na história da humanidade.

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 16, 2006 1:59 pm

- Aí tinha um judeu, um romano e um papagaio…
- Jão, já te disse, nada de piadas com judeus.
- Tá bom, Jota Cê.
- Fala patota!
- Matheus, meu velho, tudo certinho?
- Belezura! Se liga, Pedrão passou aí?
- Nada, faz tempo que não vejo, por quê?
- Pô, o cara negou três vezes que me deve umas cervejas.
- Ele sempre tem dessas, é foda.
- Aí Jota, e as novas?
- Ah, to com umas idéias aí. Esse lance de sair curando as pessoas e tal, isso poderia render algo maior para a humanidade, saca? Além do mais, tô boladão com a parada do meu velho.
- Que tem o Zé?
- Não, anda rolando um boato aí de que ele nem é meu velho. Coitado, pai é quem cria.
- Ta certo, e o seu Zé é maior figuraça. O Império Romano daria um braço para ter um pai como ele.
- Pois é…
- Mas aí Jota, explica o lance de fazer render os milagres. Vai filmar a parada toda e por no Youtube?
- Não Tomé, é algo maior, ando pensando em difundir uma nova filosofia de vida, baseada no amor ao próximo.
- Ah ta, um site de pornografia. Legal.
- Não Matheus, não é isso. O lance é converter nossos irmãos em Deus, manja, propagar o bem, uma corrente…
- Corrente! Puta merda, não manda pro judas@hotmail.com.
- Por que, Jão?
- O Escariodes fica puto com essas coisas. Outro dia mandei uma que falava sobre as mulheres dos Imperadores, engraçado pra caceta, e ele mandou que eu fizesse um PowerPoint da minha mãe.
- Sem noção…
- Total. Mas e ae, Jota, se não é vídeo do Youtube, corrente de email, nem site pornô, qualé da parada?
- To pensando em uma nova ferramenta, algo revolucionário, algo que mudará para sempre a História da humanidade, que converterá todos em um só credo de paz, amor, esperança, fé, união, mas sem que isso sejam apenas palavras…
- Vai, desembucha.
- Tô pensando em montar um site. Not a blog, manja, a fuckin website.
- Show!
- Só é!
- Fechou, sexta-feira reunião de pauta lá em casa. Cada um leva pão e vinho.
- Fala galera!
- Grande Judão, falávamos de você agora mesmo! Seguinte, sexta tem reunião lá em casa. Leva pão e vinho.
- Reunião sexta? Eu vou, mas tô meio duro, beleza?
- Nem esquenta. Tô ligado que até lá você arruma trinta dinheiros…

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 13, 2006 1:39 pm

1ª parte.
2ª parte.

- Sabe o que eu mais gosto em igrejas? – Perguntou a Fé, enquanto o Hóspede prestava atenção no decote.
- Dos santos? Das imagens? Da reza? Das reuniões com os alcoólatras?
- Não, da sensação de poder que ela nos dá. Eu poderia agora mesmo trepar contigo neste banco, sob o olhar de súplica do filho d’Ele. Eu sou a Fé.

A idéia o animou, mas ele tinha um trabalho a fazer. Com a arma apontada para a Fé e a mente pendendo mais para os dois mil reais do que para o par de seios, ele não pensaria duas vezes em explodir os miolos dela ali mesmo, na Casa de Deus.

- Sejamos práticos, querida. Diz onde está minha grana e eu deixo você converter mais algumas ovelhas. Se recusar, vai ser seus amigos serafins, querubins e joaquins bem mais cedo.
- Guarde a arma, querido, e conversamos melhor. Muito bem, o seu maior problema é confiar nas pessoas erradas. Aquela moça, por exemplo, a do Motel, te enganou. O Visitante idem. Todo mundo te passa para trás…
- Diga algo que não é novo para mim ou hoje haverá sangue. Não o de Cristo, mas fazer o quê, não sou perfeito.
- Escuta bem, valentão. Segue a moça do Motel e fica de olho no marido dela, que você deve conhecer de um bom tempo.
- Não sei quem é o corno…
- Como não? Ele vive aprontando contigo. É o famoso Destino.

Ele levantou, impassível com as palavras da Fé. Por dentro, remoia-se de ódio pelo seu maior inimigo desde o início dos tempos, aquele que sempre lhe pregava as piores peças. Sentiu um azedo subir do estômago pela garganta e quase vomitou de raiva; saiu andando e, após uns cinco passos, olhou para a Fé.

- Gracinha, só mais uma coisa.
- O quê?
- Seguindo um sábio conselho, eu não vou mais confiar em ninguém.

E dois tiros atingiram a escultural Fé, certeiros a ponto de fazê-la cair aos pés de uma estátua do Apóstolo Tomé, aquele que um dia não a teve. O Hóspede riu com a ironia e, saindo da Igreja, acendeu um cigarro. Era hoje que o Destino havia de pagar sua dívida. Ou, assim como a Fé, ele sucumbiria àquela .45, que nesse momento era quem o guiava pelos verdejantes vales da sujeira da Lapa.

(Continua)

O alfaiate do Panamá - John Le CarréNovember 10, 2006 4:58 pm

Estava tudo pronto, conforme o script. No alto daquele telhado, eu estava com o meu rifle. Lá embaixo, cercado por uma multidão que, logo, logo, será dispersa, estava ele, o proeminente líder das massas. Tinha acabado de chegar de trem com alguns amigos. Cambaleava um pouco, deve ter tomado algumas cervejinhas. Esses caras nunca aprendem.

Conferi a mira telescópica. O vento daria um desvio de um centímetro, para esquerda. Meu pai sempre dizia que desvio à esquerda era sinal de mau agouro. Mas ele casou com a minha mãe, então não deve ser levado muito a sério. Principalmente por causa do meu avô. Saudades da família.

Empunhei o rifle, estava já morrendo de tédio. O combinado era atirar quando ele descesse de cima do trem. Isso, o bigodudo. Quantas vezes eu escutei que não deveria esquecer, era o bigodudo. E não tinha como errar, o bigode do cara era maior do que a tal da Revolução que ele dizia ser um dos líderes. Acho que vou matar uma pomba para distrair. Talvez eu a dê como comida para os pobres e, um dia, vire alvo de outro colega de profissão.

Devia ter trazido alguém comigo. Normalmente não podemos fazer isso, porque testemunha é algo difícil de lidar. Certa vez um cara, matador famoso, levou a esposa. Na primeira, tudo bem. Na segunda a mulher, fetichista, queria dar uma no telhado, enquanto esperavam. Era italiana, sabe como esse povo é. Treparam na porra do telhado e, quando viram, o Rei e a Rainha tinham ido embora. Ele inventou uma desculpa esfarrapada de que a arma emperrou e conseguiu outro trabalho. Levou a mulher de novo e dessa vez, ok, xeque-mate. Dois anos depois, a mulher entregou o carcamano. Ele tinha levado uma siciliana para o telhado.

Porra, o celular? Quem liga numa hora dessas? Puta merda…

- Alô?
- Boa tarde senhor, meu nome é Vanessa e eu sou do Programa de Fidelidade TIM.
- Sim…
- O senhor gostaria de estar conhecendo nossa promoção?
- Não!

Não é de foder? Acho que vou jogar o celular para o alto e atirar nele. Melhor que matar uma pomba. Pronto, vai descer do trem. Não, o filho da puta tropeçou de bêbado, que merda.

Deu fome. Devia ter trazido um lanchinho. Se bem que também não é recomendado, os caras do Sindicato são um saco. O Alemão, que era um baita matador, só fazia o serviço cercado de caixas de Donuts. Problema é que o chocolate deu um revés no relógio intestinal do figura, causando fusos-horários que ele desconhecia. Quando voltou do banheiro, o presidente daquela Republiqueta de Bananas tinha ido embora, para se encher de cocaína no Palácio Presidencial. A sorte do Alemão – é, além de bom, ele tinha sorte – foi que o pó fez o trabalho dele.

Puta merda, o cara não desce. Será que ninguém pode subir e passar o rodo nesse merda. Como esses caras gostam de falar bobagem, enquanto esse bando fica escutando sem entender porra nenhuma, gritando “Viva a Revolução, Viva a Revolução!”. Droga, porque não me chamaram para matar o John Lennon. Ou pelo menos o Kennedy, que estava de carro. Era chegar, atirar e ir embora. Até o Ali Acga tinha coisa melhor do que eu, e olha que nem profissional ele era!

Mas são uns merdas também. Tem tanto nego com história boa que ninguém conta. O Portuga, putz, que figura, o maldito lisboeta que prendeu o bigode no rifle. E tinha também o Rabino, judeu tão unha de fome que, às vezes, deixava de matar para economizar bala.  O Paraíba também, um figura e…

Caralho, ele está indo embora! Porra, putaquemepariuderodinhaslaser! Volta puto, fala mais alguma merda, agradece a Xuxa! Merda! A porra do carro, é blindado! Olha, o puto, está indo embora! Porque ninguém atira nesse merda!? Porra, tenho que parar de divagar! Onde será que deixei meus remédios? Será que eu trouxe? Droga, está na gaveta de meias! Ou será no porta-luva? Será que o tintureiro levou meu terno? Quando eu olho para o abismo, o abismo olha para mim? Olha, uma pomba! Clic, clic, clic. Merda, as balas ficaram na caixa de remédios!

Play Station: o final desse post, e única parte decentemente escrita dele, é obra e graça de duas figuras: Eric Gancho e Lívia, a futura Chefa. A eles, meus mais sinceros cumprimentos e votos de Feliz Natal, Próspero Ano Novo e um ótimo dia do Servidor Público. Obrigado.