Levantou da cama sem vontade alguma. Pensou em ir desgrenhado ao trabalho, dentes precisando urgentemente de escova e creme dental; imaginou a cara do chefe de "mas que merda é essa", a carta de demissão, o olhar desconfiado dos colegas no trabalho. Quando olhasse direito para o que ocorria, veria que tinha exagerado, indo de pijama.

Entrou no carro e o maldito não funcionava. Tentou uma, duas, três vezes. Desistiu e foi de metrô, prensado pela porta e pelos passageiros. Sentiu-se claustrofóbico, desceu duas estações antes e foi a pé, observando a "decadência da civilização moderna" e pensando em quão idiota e vago era o termo. Desistiu de olhar os pobres na rua, de dar esmolas, de ansear por um carro novo, pela loira, alta e linda, do outro lado da rua. Desistiu, naquele instante, da vida.

Chegou pontualmente atrasado. O chefe, cabelo escovinha, colete bege, gravata bizarra, olhava com ar de reprovação e desdém, aquele típico "por essas, e outras merdas, que eu sou seu chefe". Era um bosta, só fazia chegar no horário e lamber à exaustão o Comitê, aquele bando de vagabundos que, uma vez por mês, se reunia com os funcionários para decidirem, juntos, "o futuro da organização". Interrompiam seus dry-martinis, seus bourbons, essa merda toda, para dizer ao pobre do Zé, três conduções para chegar em casa, que ele era um dos responsáveis pelo superávit de milhões da empresa. E o Zé, coitado, seis reais mais pobre no fim do dia, não tinha menor idéia do que era superávit.

Olhou a figura patética à sua frente; a maldita gravata com losangos, e dentro desses losangos, ursos pandas com flores. Pensou em desatar a rir, em desarrumar os cabelos, em apertar as bochechas do chefe dizendo "não te esqueço no Dia das Crianças, tá?". Gargalhou por dentro com a cena, mas se conteve e apenas acenou com a cabeça.

- Já sei, o trânsito, né?
- Pode ser…
- Ok. Me manda o relatório até o final do dia. O Doutor Olavo vem hoje.

O imbecil havia notado, aquele era um dia de merda. Ou talvez a figura dele refletida na janela deu-lhe a idéia do estado de espírito. "Meu dia é um almofadinha lixo com gravatas de urso panda", pensou, enquanto olhava a pilha de papéis que haveriam de ser relatados para o Doutor Olavo até as seis, sete da noite.

O Doutor Olavo era a figura do capitão do mato do século novo. Não tinha família, religião, mulher gostosa ou cervejinha que fizesse ele liberar seus "negros" mais cedo. Chibatando seus escravos com a língua ferina, falava em horas extras, abono, férias e demais benesses do mundo do trabalho tanto quanto o maldito Ghandi sonhava em fazer guerra comendo um suculento bife. Rasgava a CLT com os dentes, o infeliz.

Terminou o relatório, após as mais longas três horas de toda a humanidade. A cada dois parágrafos, inseria um erro cabeludo de português, quando não um palavrão, igualmente cabeludo. O negócio com a empresa de transportes, por exemplo, tinha ido "à puta que o pariu". Sabia, de antemão, que o führer Olavo ia ler aquilo no mesmo dia em que daria aumento de cem por cento para todo o escritório. Era o seu dia: produzir algo que seria engavetado e esquecido, mesmo sendo "do caralho", conforme constava nos escritos. Saiu mais cedo, sufocado que estava. Via milhares de pandas com flores nas patas, salvando espécies em extinção. O mundo era mesmo uma grande merda naquele dia.

Chegou em casa, garrafa de Smirnoff no criado mudo, junto com Crime e Castigo em russo. Deitou, afrouxou a gravata, apalpou o 38, sonhou com o chefe sendo esmurrado por ferozes pandas de soco-inglês nas patas, viu o Doutor Olavo sendo açoitado pelo escritório inteiro, em uma das reuniões que definiam "o futuro da organização". Envolto na epifania, pegou a arma e a levou à boca, ouvindo um sonoro click.

- Porra!

Click, click, click. Conferiu, estava carregada. Click de novo. Mais uma vez. Tudo normal, não tinha emperrado, nada disso. Estranhamente, ela não atirava. Nada de projétil saindo do cano, nada de miolos na parede do quarto, nada de cama suja de sangue. "Meu dia é uma porra de uma bala que não acaba com essa merda", pensou.

E logo depois sorriu, imaginando o projétil teimoso saindo da arma e esmigalhando mão e chicote do Doutor Olavo. Parou para gargalhar com a frase "a minha felicidade está ao alcance de uma maldita bala!". Nada de pandas, senhores de engenho, mundo patético. O dia dele era só uma frase de efeito qualquer.