Pensar? Eu lá sou o Platão, rapá!
Prometendo nunca mais acordar, e não deixar de beber, ele se viu do lado de uma mulher completamente desconhecida. Desconhecia, inclusive, se era mesmo mulher. Juntou as mãos em prece, rogando a Deus, ao Diabo, a todos os Santos, alvinegros ou não:
- Diz que é uma mulher, diz que é uma mulher!
Um tanto trêmulo, levantou com vagar o lençol e viu que ali adormecia um corpo feminino, daqueles bem bonitos, por sinal. "Mandei bem" foi a primeira coisa que veio à cabeça. Não se sabe de qual, mas veio. Em seguida, a cabeça pensante lembrou de um fator cabal:
- Diz que eu usei camisinha, diz que eu usei camisinha!
Pelo chão, uma caixa inteira de preservativos estava espalhada. No mesmo instante, uma das cabeças acenou, novamente, com o sinal de "mandei bem". Problema era que, como em toda trama, a coisa complicava a cada novo pensamento racional:
- Diz que eu tenho dinheiro, diz que eu tenho dinheiro!
Se fosse uma moça da vida, teria de recorrer ao Serviço de Proteção ao Crédito, visto que ia tomar uma calote, ele tendo dinheiro ou não. Por sorte ela, ao acordar, disse o nome dele seguido de um "já vai, meu bem".
- Diz que você lembra o nome dela, diz que você lembra o nome dela!
Ele não lembrou, e inventou uma desculpa. Tratamento de canal, pensou. "Não! A língua dela percorreu minha boca mais do que todos os dentistas por onde eu passei em toda minha vida. Transplante de rim, isso, pode ser!".
- Eu preciso ir. Mesmo…
- Tudo bem. Me liga depois.
- Claro que sim!
E saiu em disparada. Nunca tinha pedido tanto na vida, nem mesmo na época em que tinha inventado de ser mochileiro. E enquando corria, pedia sem pudor algum:
- Diz que anotou nome e número, diz que anotou nome e número.
Não anotou, mas não ligou muito para isso depois de cinco minutos. Tinha tido uma noite fantástica, mesmo se lembrando de pouca coisa. Aliás, lembrando de quase nada, visto que baixou no hospital, pouco tempo depois, para descobrir que um dos rins havia sido cirurgicamente extraído.
- Diz que não foi ela, diz que não foi ela.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, a mulher sem nome e sem telefone removia, cirugicamente, mais um rim que, tempos depois, pediria em vão para que não fosse ela. Burro, deveria era pedir que não fosse o dele. E ele, na espera de um novo rim, pedia:
- Diz que tem um rim pra mim, diz que tem um rim pra mim.
Não sem antes pensar no quão terrível ficava "rim" com "mim" na mesma frase. E praguejando contra a sobriedade que não deixava ele esquecer do "mim" e do "rim"

Boa noite, cinderela…
Comment by Lívia — October 19, 2006 @ 4:03 pm
Por isso não vou mais a baladas.
Comment by Bruno — October 19, 2006 @ 5:03 pm
Hahahahahahaha! Sinto que já ouví essa história antes.
)
Comment by Junior — October 19, 2006 @ 7:52 pm
Caraca, vc posta melhor do que eu conto.
hehehehehehe
Comment by Gabi — October 19, 2006 @ 9:19 pm
Mostra os peitinhos da Jéssica Alba pra ele, Júlio! Quem precisa de rim quando se tem os peitinhos da Jéssica Alba?
Comment by Zé — October 20, 2006 @ 10:06 am
meu, ninguém acredita, todo mundo ri, mas eu NÃO TENHO A PORRA DO RIM ESQUERDO…
na época que começaram essas histórias de roubo de rim, adivinha quem tinha 39487503 recomendações pra não tomar nada estranho antes de sair de casa?
é muito traumático não ter um rim qdo isso envolve a maior lenda urbana de um povo… juro que MORRO de cagaço que de um dia acordar na banheira cheia de gelo… pq aí, my darling, seria meu fim
* chora *
(eu quero DOIS rins como todo mundo, ou vou parar na vaga de deficiente!)
Comment by vanessa — October 20, 2006 @ 1:50 pm