Escrita maldita para malditos escritores
O Osmar tinha o que se denominava como "texto maldito". Não, nada ligado a livros de magia negra, bruxaria, Sabrinas e afins, mesmo porque se tratava de escritos ótimos (e vai do problema de cada um ler Paulo Coelho ou não). O texto de Osmar era "maldito" porque só tinha meia dúzia de leitores e, dentre os seis, tinha ela.
Claro, estamos cansados de ouvir que não é o leitor que faz boa literatura, e sim o texto. Agora perguntem para Cervantes, se isso fosse lá possível, quantos leitores ele tinha? E o Saramago? Já sei, os Verissímos! São escritos tão bons quanto o do Osmar, muito lidos e nada "malditos". "Eu sou Dostoiévski. Mas troca Petersburgo pela Lapa", era o que ele dizia.
Mefisto, certa vez, apareceu para Osmar; estranho, ele não era nada parecido com o descrito por Goethe, mas dizia que os escritos "malditos" eram sucesso de crítica e público em todos os círculos literários do Reino de Hades. "Você é Dostoiévski. E o melhor, com sucesso em Petersburgo" foi a piada infame que o Demônio fez para o "maldito" escritor. Assim como Fausto, era só vender a alma que o público estaria para lá de garantido, tal qual o amor de Margarida por herr doctor.
Como todo "maldito" que se preze, não havia possibilidade de venda ou barganha em busca de leitores. Ele queria ser como Camões, queria ser eterno; claro que sem a parte de perder a mulher pela obra. Além do mais, tinha lido Fausto e não estava afim de ver tudo ir para o limbo, texto, amada, vida. Mesmo porque, no fim das contas, a "maldição" por intermédio de palavras era para ela e, se toda a China lesse a obra e admirasse, não teria o valor que um simples "isso está maravilhoso, estupendo" que ela soltava de quando em vez, ao bater olho nos textos que nada mais espelhavam do que o olhar "maldito" que ele tinha sobre a musa.
Olhar "maldito" esse que durou até o fatídico dia em que ela não o leu. E não leu outro, e depois outro. Ele queimava dedos, coração, alma digitando coisas sem sentido. Ela esfriava alma, coração, textos não dizendo nada, nem mesmo algo sem nexo algum. Sem ninguém para ler e sem ter o que escrever, resolveu que era hora de se tornar um best-seller ou ser mais um Nobel nos círculos dantescos, vendendo sua alma ao Diabo para ter o reconhecimento da amada. Esta, por sua vez, voltou a ler os escritos "malditos", sempre com o queixume da grande maioria das mulheres, em especial as apreciadoras dos clássicos:
- Beatriz é que era uma mulher de sorte. As homenagens do Dante sempre serão as mais belas.
E assim foi até o dia em que Osmar roubou papel e caneta do florentino, com total apoio de Virgílio, que não agüentava mais aquela comédia nada divina. Desde então, Osmar foi o bendito entre os "malditos". E ela passou a ser conhecida como a Beatriz do Sétimo Círculo por Hemingway, Dostoiévski (o original) e Hunter Thompson.

Bobo do Osmar, se fiar em opinião de mulher…ahahahahha…muito bom, Júlio, beijo!
Comment by Lívia — October 17, 2006 @ 5:44 pm
Eu venderia minha alma por um Nintendo Wii com todos os jogos.
Sou muito mais infame que esse Osmar ai.
Comment by Zé — October 17, 2006 @ 10:43 pm