Ela só queria a verdade. Ele queria uma mentirazinha boa o suficiente para poder dormir. Mas todo o mundo sabe que marcas de batom são tão destrutivas quanto os testes nucleares da Coréia do Norte.

- Então, quem é ela?
- Já disse, não tem nada de ela…
- E o batom na gola da camisa?

A verdade, ela pensava. A mentira, ele dizia. De tanto explicar, já se enrolava todo, chamando Jesus de Genésio.

- …e então, isso é o fim da história.
- Quer que eu acredite nessa história furada?!
- Mas é a verdade…
- Arrrrrrrrrrgh!
- Tá bom, a verdade é que eu estou cansado e quero dormir. Amanhã conversamos sobre isso.
- Ah é? Então eu te conto a verdade. Te conto com todos os detalhes como eu e o Almeida trepamos loucamente hoje!
- Boa, essa foi boa. Agora vira para o lado e dorme.
- Não, é sério. Em todas as posições, em todos os sentidos. Norte, Sul, Leste e Oeste, sem parar. Acabei esquecendo até de buscar nosso filho na escola.
- Tá bom, tá bom. Amanhã eu pergunto para o Almeida como é que foi…
- Isso, pergunta! Pergunta mesmo o que ele achou de ter me comido sem pudor nenhum em cima da nossa cama, da nossa mesa, no quarto das crianças. Até forramos o chão com o maldito pôster da Ferroviária para que fosse nosso, digamos, "leito de amor"…
- Tudo bem, tudo bem. Eu tenho outro guardado no sótão.

Minutos depois ele roncava, em uníssono com o choro baixo dela. Aquilo tudo com o Almeida a consumia e ela sabia que um dia seu casamento viria por água abaixo. Para ajudar, agora vinha essa história do batom. "A verdade, apenas a verdade, e acabamos com tudo isso", ela pensou, a noite toda, sem pregar os olhos. No outro dia, o acordar dele foi leve, em contraste com as pesadissímas olheiras dela.

- Então, sobre ontem, não dava para te contar na hora, mas lembra da Alice, a minha chefe?
- Claro que lembro… - disse, beirando a fúria.
- Ontem ficamos num serão até tarde e…
- Vai contar mesmo? Com detalhes?
- Não, escuta só. Estavámos lá no escritório, e de repente ela começou a agir de forma estranha. Quando eu vi, ela estava sem roupa, em cima da mesa, vindo para cima de mim…
- VAI CONTAR MESMO? QUER QUE EU REPITA A HISTÓRIA DE ONTEM?
- Espera, deixa eu terminar. Daí eu saí, fui numa delegacia mais próxima e dei queixa de assédio. O Dr. Osmar disse que, se der tudo certo, levaremos uma bolada e aquela nossa viagem de férias para Cancún está garantinda, amor.

O desmontar foi rápido. De todas as verdades do mundo, aquela parecia a mais verdadeiramente possível, visto que o dinheiro haveria de aparecer, ou o processo tomar conta dos jornais. Tinha ainda o circuito interno de câmeras. Ela só queria agora uma mentira plausível. Ele, a verdade absoluta.

- Eu te amo, sabia?
- Eu também, querida. E desculpa por não ter te contado ontem.
- Desculpa eu, por ter te incomodado.
- Imagina. Estava tão cansado com essa história que se você me contasse que deu pro Almeida eu não ouviria.

E assim ela engoliu a seco a verdade, enquanto ele degustava a mentira com café e torradas.