Provavelmente o próximo aniversário da Lelê será na Paulista, com disputa acirrada por grandes multinacionais, além de pequenas e médias empresas, na busca incessante por um patrocínio, seja pela Brahma, seja pela Erdinger. Mas já fica avisado que o Milton Neves não entra.

É sempre um evento descomunal. Teve um no Atlanta, certa vez, que reuniu comunistas, liberais, corinthianos, palmeirenses, homem, mulher, gregos, troianos, humanos e quiçá até desumanos. Nesse dia eu pensei que o ápice da surpresa tinha chegado, que dali não haveria mais como ficar boquiaberto com um aniversário da Lelê. Então veio o sambão de sexta-feira.

Pedrão, que também comemorava mais um ano de vida, é daqueles marxistas com barba e tudo o mais que ser vermelhinho pede. O Figueiredo, se visse uma foto dele, diria "isso é um adorador do Diabo"; já Carlos Lacerda suspiraria de saudades do Partidão. Então a Lelê me avisou:

- Julião, vai ter sambão na sexta com o Clube do Dendê, uns amigos do Pedrão.
- Marxismo e samba?
- Olha quem fala, o cara que lê Marx no McDonalds.

E o Partidão alto rolou solto noite afora, sem deixar o samba morrer, muito menos acabar. Tinhamos Marx, Fukuyama, Rosa Luxemburgo, Che, Trótsky. Não, o Trótsky não sambou pois doía a cabeça. A Praça Vermelha caiu no ziriguidum, Fidel sambando e tombando com o copo de rum na mão, Mao e Smith fazendo o cavaco chorar. Liberais, apolíticos, xiitas, sunitas e juro que, no alto da embriaguez, vi o Kofi Annan num canto chorando de inveja a união entre os povos tão diversos por meio de tãn-tãns, pandeiros e afins.

E da sexta o samba foi para o sábado, onde poucas horas de sono antecederam a segunda comemoração, desta vez churrasco com Cartola, Luiz Melodia, Buena Vista, futebol, cerveja, criançada correndo, marmanjada voltando a ser criança, sendo que alguns nunca deixaram de ser. E a Lelê lá, rindo conosco, falando com todos, multiplicando-se e sendo única. Porque ser amigo da Lelê é algo único, daqueles que todo o dinheiro do capitalismo não compra e que a ideologia comunista que adere aos sambódromos não declara como improdutivo. Como bem disse Marx, certa vez, "deustchland Lelê kaiser führer, eintratch ich wolfgang wolfsburg", que vem a ser "com a Lelê é assim, comunista faz samba, capitalista rebola e o pagode vai até o sol raiar". Sabia muito esse rapaz, antes do Capital.

Parabéns mana, pela décima oitava vez, e trata de ser feliz porque ninguém nesse mundo merece tanto isso quanto você!