Júlio César
O Julinho era uma criança daquelas bem pentelhas. Tinha uma mania terrível de juntar todos os brinquedos, perfilados por patente militar, e partir para cima dos brinquedos de outras crianças, sempre gritando:
- Pela Glória de Roma!
Então a mãe corria, pegava-o pela orelha e, típica matrona italiana, ralhava com ele:
- Não sei sem a sua sandalinha, Julinho. E se chegar perto do Rubicão, você vai entrar na cinta!
Aquele menino, um dia, se vingaria do mundo; claro, até o tropicão feio nas escadas do Senado.
Maria Antonieta
Mariazinha era a moça mais prendada da nobreza. Cerzia como poucas e cozinhava de forma única. Graças às viagens de sua família não tinha prato francês, austríaco, inglês ou mouro que ela não soubesse fazer com um tempero ímpar. A Imperatriz Maria Teresa, preocupada com o destino serviçal da filha, resolveu apelar para o conselheiro real, que sempre sabia como resolver os problemas do Reino:
- Simples, minha senhora. Na França tem uma casa de brioches que é um horror. A Vigilância Sanitária desistiu de fechar depois da quinta vez, porque não dá mais nem para entrar. Três dos 18 fiscais que foram até o local saíram vivos. Assim sendo, podemos passar a receita do quitute para a pequena Antonieta e, em seguida, ela desiste dessa coisa de ser pobre.
E Mariazinha nunca mais cozinhou, depois do maldito dia em que toda a nobreza debochou dos seus brioches. Tempos depois, porém, ela haveria de encontrar utilidade para eles. A ponto, inclusive, de perder a cabeça.
Adolf Hitler
O Isaac, melhor amigo do Adolfinho, era o mais sagaz aluno da escola. Conhecia tudo sobre os clássicos, debatia política com os mais velhos e era considerado o melhor jogador de taco da história da Aústria. Quando Adolfinho andava com ele, sentia como se fosse dono do mundo, mesmo quando era motivo de risos das crianças do Beth Shalom, a escola pública de Viena, que sempre cantavam, naquele coro chatinho:
- Isaac é Caifás, Adolfinho é Jesus Cristo.
Isaac sabia que Adolfinho não era apenas o sidekick, o Robin, o Sancho Pança de sua história. Reconhecia o valor do amigo e sabia que seu futuro seria de muitas glórias em vôo solo. Só não sabia da amargura que ele guardava das outras crianças do Shalom, e do quanto isso aumentaria quando anunciou ao melhor amigo:
- Adolf, semana que vem vou para a Polônia, meus pais vão trabalhar por lá.
Inconformado, Hitler parou de falar com Isaac no mesmo instante. Só se dignou a vê-lo novamente uma semana depois, na estação de trem. Com lágrima nos olhos, prometeu:
- Um dia nos veremos de novo, na Polônia!
Tempos depois ele foi à Polônia. Mas não para ver Isaac, como bem sabemos.
