O Chefão - Mario PuzoOctober 31, 2006 1:44 pm

Júlio César

O Julinho era uma criança daquelas bem pentelhas. Tinha uma mania terrível de juntar todos os brinquedos, perfilados por patente militar, e partir para cima dos brinquedos de outras crianças, sempre gritando:

- Pela Glória de Roma!

Então a mãe corria, pegava-o pela orelha e, típica matrona italiana, ralhava com ele:

- Não sei sem a sua sandalinha, Julinho. E se chegar perto do Rubicão, você vai entrar na cinta!

Aquele menino, um dia, se vingaria do mundo; claro, até o tropicão feio nas escadas do Senado.

Maria Antonieta

Mariazinha era a moça mais prendada da nobreza. Cerzia como poucas e cozinhava de forma única. Graças às viagens de sua família não tinha prato francês, austríaco, inglês ou mouro que ela não soubesse fazer com um tempero ímpar. A Imperatriz Maria Teresa, preocupada com o destino serviçal da filha, resolveu apelar para o conselheiro real, que sempre sabia como resolver os problemas do Reino:

- Simples, minha senhora. Na França tem uma casa de brioches que é um horror. A Vigilância Sanitária desistiu de fechar depois da quinta vez, porque não dá mais nem para entrar. Três dos 18 fiscais que foram até o local saíram vivos. Assim sendo, podemos passar a receita do quitute para a pequena Antonieta e, em seguida, ela desiste dessa coisa de ser pobre.

E Mariazinha nunca mais cozinhou, depois do maldito dia em que toda a nobreza debochou dos seus brioches. Tempos depois, porém, ela haveria de encontrar utilidade para eles. A ponto, inclusive, de perder a cabeça.

Adolf Hitler

O Isaac, melhor amigo do Adolfinho, era o mais sagaz aluno da escola. Conhecia tudo sobre os clássicos, debatia política com os mais velhos e era considerado o melhor jogador de taco da história da Aústria. Quando Adolfinho andava com ele, sentia como se fosse dono do mundo, mesmo quando era motivo de risos das crianças do Beth Shalom, a escola pública de Viena, que sempre cantavam, naquele coro chatinho:

- Isaac é Caifás, Adolfinho é Jesus Cristo.

Isaac sabia que Adolfinho não era apenas o sidekick, o Robin, o Sancho Pança de sua história. Reconhecia o valor do amigo e sabia que seu futuro seria de muitas glórias em vôo solo. Só não sabia da amargura que ele guardava das outras crianças do Shalom, e do quanto isso aumentaria quando anunciou ao melhor amigo:

- Adolf, semana que vem vou para a Polônia, meus pais vão trabalhar por lá.

Inconformado, Hitler parou de falar com Isaac no mesmo instante. Só se dignou a vê-lo novamente uma semana depois, na estação de trem. Com lágrima nos olhos, prometeu:

- Um dia nos veremos de novo, na Polônia!

Tempos depois ele foi à Polônia. Mas não para ver Isaac, como bem sabemos.

O Chefão - Mario PuzoOctober 27, 2006 4:35 pm

Levantou da cama sem vontade alguma. Pensou em ir desgrenhado ao trabalho, dentes precisando urgentemente de escova e creme dental; imaginou a cara do chefe de "mas que merda é essa", a carta de demissão, o olhar desconfiado dos colegas no trabalho. Quando olhasse direito para o que ocorria, veria que tinha exagerado, indo de pijama.

Entrou no carro e o maldito não funcionava. Tentou uma, duas, três vezes. Desistiu e foi de metrô, prensado pela porta e pelos passageiros. Sentiu-se claustrofóbico, desceu duas estações antes e foi a pé, observando a "decadência da civilização moderna" e pensando em quão idiota e vago era o termo. Desistiu de olhar os pobres na rua, de dar esmolas, de ansear por um carro novo, pela loira, alta e linda, do outro lado da rua. Desistiu, naquele instante, da vida.

Chegou pontualmente atrasado. O chefe, cabelo escovinha, colete bege, gravata bizarra, olhava com ar de reprovação e desdém, aquele típico "por essas, e outras merdas, que eu sou seu chefe". Era um bosta, só fazia chegar no horário e lamber à exaustão o Comitê, aquele bando de vagabundos que, uma vez por mês, se reunia com os funcionários para decidirem, juntos, "o futuro da organização". Interrompiam seus dry-martinis, seus bourbons, essa merda toda, para dizer ao pobre do Zé, três conduções para chegar em casa, que ele era um dos responsáveis pelo superávit de milhões da empresa. E o Zé, coitado, seis reais mais pobre no fim do dia, não tinha menor idéia do que era superávit.

Olhou a figura patética à sua frente; a maldita gravata com losangos, e dentro desses losangos, ursos pandas com flores. Pensou em desatar a rir, em desarrumar os cabelos, em apertar as bochechas do chefe dizendo "não te esqueço no Dia das Crianças, tá?". Gargalhou por dentro com a cena, mas se conteve e apenas acenou com a cabeça.

- Já sei, o trânsito, né?
- Pode ser…
- Ok. Me manda o relatório até o final do dia. O Doutor Olavo vem hoje.

O imbecil havia notado, aquele era um dia de merda. Ou talvez a figura dele refletida na janela deu-lhe a idéia do estado de espírito. "Meu dia é um almofadinha lixo com gravatas de urso panda", pensou, enquanto olhava a pilha de papéis que haveriam de ser relatados para o Doutor Olavo até as seis, sete da noite.

O Doutor Olavo era a figura do capitão do mato do século novo. Não tinha família, religião, mulher gostosa ou cervejinha que fizesse ele liberar seus "negros" mais cedo. Chibatando seus escravos com a língua ferina, falava em horas extras, abono, férias e demais benesses do mundo do trabalho tanto quanto o maldito Ghandi sonhava em fazer guerra comendo um suculento bife. Rasgava a CLT com os dentes, o infeliz.

Terminou o relatório, após as mais longas três horas de toda a humanidade. A cada dois parágrafos, inseria um erro cabeludo de português, quando não um palavrão, igualmente cabeludo. O negócio com a empresa de transportes, por exemplo, tinha ido "à puta que o pariu". Sabia, de antemão, que o führer Olavo ia ler aquilo no mesmo dia em que daria aumento de cem por cento para todo o escritório. Era o seu dia: produzir algo que seria engavetado e esquecido, mesmo sendo "do caralho", conforme constava nos escritos. Saiu mais cedo, sufocado que estava. Via milhares de pandas com flores nas patas, salvando espécies em extinção. O mundo era mesmo uma grande merda naquele dia.

Chegou em casa, garrafa de Smirnoff no criado mudo, junto com Crime e Castigo em russo. Deitou, afrouxou a gravata, apalpou o 38, sonhou com o chefe sendo esmurrado por ferozes pandas de soco-inglês nas patas, viu o Doutor Olavo sendo açoitado pelo escritório inteiro, em uma das reuniões que definiam "o futuro da organização". Envolto na epifania, pegou a arma e a levou à boca, ouvindo um sonoro click.

- Porra!

Click, click, click. Conferiu, estava carregada. Click de novo. Mais uma vez. Tudo normal, não tinha emperrado, nada disso. Estranhamente, ela não atirava. Nada de projétil saindo do cano, nada de miolos na parede do quarto, nada de cama suja de sangue. "Meu dia é uma porra de uma bala que não acaba com essa merda", pensou.

E logo depois sorriu, imaginando o projétil teimoso saindo da arma e esmigalhando mão e chicote do Doutor Olavo. Parou para gargalhar com a frase "a minha felicidade está ao alcance de uma maldita bala!". Nada de pandas, senhores de engenho, mundo patético. O dia dele era só uma frase de efeito qualquer.

Um conto de duas cidades - C. DickensOctober 26, 2006 1:45 pm

O Agenor era católico apostólico romano. Rezava todo santo dia, agradecia Santo Expedito pela graça alcançada. Batia na esposa de vez em nunca. Na oficial, com certidão, igreja e tudo o mais. Já a amante ele tratava a pão de ló.

Pedro, vulgo Pedrinho, último dos três filhos da Dona Maria, incendiava casas por prazer, matava gatos por esporte e vendia ingressos para que os amigos olhavassem sua irmã tomando banho. Aos 25 se formou em direito, abriu um escritório e foi para Brasília, onde perdeu a carteira da Ordem dos Advogados após investigações da Polícia Federal na Operação Casca de Ferida. Hoje, aos 47, trabalha como cafetão.

Lucélia, 23, usava drogas "leves" e tinha um restaurante que só servia refeições macrobióticas. Acreditava no poder da luz, dos astros, na energia de Gaia e em alienígenas. Foi para São Tomé das Letras, após receber uma mensagem de pouso dos seres de Marte, para ver os visitantes e comprar "umas coisinhas". Acabou seqüestrada e há dois anos vive em cativeiro, quase esquecida do que é o Sol, comendo arroz, feijão, farinha e batatas pelo menos três vezes por semana.

Sara, 28, morou três meses em um kibbutz, antes de voltar para o Brasil. Ia à sinagoga duas vezes por dia e passava sempre pelo bairro árabe, onde era hostilizada. Ensinada pelo pai, um ex-recruta do Mossad, executou Hassan-Al-Ali com golpes de Krav-Magá. Gostava de ir a escola de tiro e comia presunto escondida da família.

Hassan-Al-Ali, 47, filho de libaneses, discordava preceitos árabes e nunca foi à Meca. Gostava de samba e costumava freqüentar os ensaios do Vai-Vai. Foi encontrado morto perto de casa, segurando um exemplar de O Estrangeiro, do Camus. À polícia, o pai, Mohammad Khaled, declarou que ele era uma vergonha para o Islã e que, tal qual um dos personagem do livro, teve o destino que merecia.

Carlinhos, 11 anos, era doente terminal.

Um conto de duas cidades - C. DickensOctober 24, 2006 10:19 pm

- Pô, sabe, eu ando meio estressadão.
- Ae, tenho uma parada ótima, você cheira e fica novinho em folha…
- Não, não curto esse lance de químicos não.
- Ah, é natureba? Então, tem uma parada que você fuma e fica numa nice, manja…
- Pô, eu sou asmático, não rola.
- E um chazinho da hora pra acalmar, produto gringo e tal…
- Nada, chá me dá piriri, qualquer um que seja.
- Então, tem um que vai na veia que é foda. Relaxa tudo em segundos…
- Nem, tenho um puta cagaço de agulha.
- Ah tá. E um comprimidinho, serve? Coisa suave, menor que muito tarja preta por aí…
- Pô, eu tenho alergia a remédio, mas vou topar!
- Beleza, eu tô sem agora, mas você acha em qualquer "farmácia", tá ligado?
- Certo… qual é o nome?
- Do que?
- Do remédio!
- Que remédio?
- Do remédio que você me indicou!
- Sei lá, cara…
- Como assim?! Você indica e não sabe?
- Porra, deu brancão aí. Mal aí…
- Bah, à merda. Eu vou é tomar uma breja pra ficar novo em folha…
- Pô, nunca usei, funciona?!
- Se tiver algum problema com copos, pode até tomar no gargalo.

Um conto de duas cidades - C. Dickens 5:23 pm

Semana passada eu havia avisado: aproveitem para ler o ótimo Livinrooom, criação da amada, idolatrada salve, salve Lívia, enquanto eu não o corrompesse com meus erros de potuguês, de concordância e de nascença. Pois bem se você não aproveitou, ainda resta uma chance: leia todos os textos do site e, por último, este aqui.

Eu aposto o Fort Knoxx que, logo após ler o primeiro páragrafo, você vai mandar email reclamando a presença nefasta deste por lá.

Grato.

O Imperador. Destruindo sites ótimos desde 415 A.C.

Um conto de duas cidades - C. Dickens 2:52 pm

- Pô Will, preciso trocar uma idéia contigo! Chega ae!
- Se queres comigo parlamentar, temos de antes combinar, que muito não posso me demorar, pois o tempo, escasso está.
- Tá bom, tá bom. Negócio é o seguinte: tô com um problemaço aí, com uma mulher do pagode rapá. Troquei até uma idéia com o Dom, mas ele queria me bater, dizendo que eu peguei uma tal de Dulcinéia…
- Deves ter dito que era formosa, morena de ancas largas, bela mexicana, muy hermosa, há de ser louvada.
- Tá, tá, sem rima, só escuta. Então, como não deu para falar com o Dom, procurei o Mano Dante, mas aquele lá diz que eu tinha que ir até o Inferno pela mulher. Pô, ela mora no Ermelino, e eu nem posso pensar em chegar lá…
- O Inferno é para…
- Porra, não rima, escuta! Aí veio o Faustão, trocou maior lero comigo, cheio de patati e patatá. Veio me falar de uma seita aí, prende amor, faz trabalho, essas coisas. Eu nem sou desse lance da macumba, minha mãe é evangélica, rapá! Mas se liga, o nome do malaco que aprontavas as paradas era um tal de Mefisto, Menisco, sei lá. Conhece o figura?
- Se sucumbir…
- Porra, deixa pra lá. Seguinte Will, o pai da mulher não vai com a minha cara. Sabe, o cara é poderoso na região, e diz que meu pai andou aprontando umas com a mulher dele. Na boa, cada um cada um né, mas aí, tô afinzaço da morena. Que você acha que eu devo fazer, mano?
- Casa com ela e depois vocês se matam.
- Tá, tá, falou.

Deixou Will falando sozinho e foi ter com o Ellroy. Depois de contar toda a história, o mestre disse:

- Espere a calada a noite. A garoa do inverno, a lama tomando calçadas, casas, vidas. Sentado na soleira da porta, você aguarda, soco inglês na mão, .45 na cintura. O velho entra, um soco no joelho; ele tomba, .45 no meio da testa. O maior dos filhos da puta está ali, pronto para morrer.
- Pô James, vou ter de matar o velho?
- É, pela Dália.

Ele desistiu. Saiu da biblioteca, foi até o Ermelino Matarazzo, no extremo leste de Sampa, a fim de falar com o patriarca e resolver tudo de uma vez. Chegou e viu o velho lendo Crime e Castigo. Saiu fugido com um machado zunindo porta afora, enquanto escutava ao fundo:

- Se César e Napoleão puderam, eu também posso!

Só pegou em um livro novamente tempos depois. O mito de Sísifo, do Camus. Que foi encontrado preso em suas gélidas mãos, enquanto ele balançava, de um lado para o outro. Com fio do telefone amarrado no pescoço, próximo à porta da cozinha.

Um conto de duas cidades - C. DickensOctober 23, 2006 4:21 pm

Tudo estava na mais perfeita ordem. Alfabética, por sinal. Contemplando a obra, dois dias de trabalho quase initerruptos, salvo pausa para café e cigarros, ele só faltou bater no joelho, se houvesse um, e dizer "Parla!", tal qual Michelangelo. A, B, C, D, pratos rasos, pratos fundos, amarelo, azul, branco, preto. Havia transformado um pedaço de pedra em uma obra de arte.

Foi à banca de jornais. Quarta-feira era dia de começar pelo caderno de Cultura. Começava a segunda com Brasil, terça ia de Cotidiano. Era assim toda semana, toda vida. Ligava para seus clientes em ordem alfabética. Se outra pessoa fosse atender o chamado, perguntava o nome. Os "fora de ordem" recebiam um bom dia ou boa tarde, seguido de um desligar educado.

No começo de cada dia, uma olhada no obituário. Ontem morreram Joaquins, Josés, Júlios. Nenhum Saulo, nenhum Serafim. Haveria de viver mais um dia, antes de ser o próximo. Eis que, em uma conferida mais aguçada, vê um Tadeu, entre o Alaor e o Caio. Pega rapidamente o telefone e liga na redação do jornal:

- Escuta, tem um erro na página de obituários.
- Um momento.

Pacientemente ele aguarda. E torce para que a próxima atendendente tenha um nome que comece com L.

- Obituário Tarso, em que posso ajudá-lo?
- Tem alguém cujo nome comece com a letra L e que possa me atender?
- Como senhor?
- Nada. Escuta, publicaram o obituário de hoje fora de ordem alfabética.
- Uma pequena falha daqui da redação senhor. Gostaria de uma errata?
- Não, amanhã eu não poderei ler o jornal.
- Como senhor?
- Amanhã, pela ordem alfabética dos obituários, eu morrerei.
- Morrer é fácil, senhor. Fazer comédia é difícil.
- Como?
- Nada. Mas veja só, o senhor não quer aproveitar nossas promoções para obituário?
- Quanto sai?
- Cem reais, meia página.
- Que belo desconto! Eu quero!

E no outro dia o atendente-filósofo Tarso receberia mais um telefonema. Desta vez nem tão cordial assim:

- Obituário Tarso, em que posso ajudá-lo?
- Eu queria reclamar de um anúncio que saiu errado.
- Pois não senhor. Qual o nome?
- Tadeu Borges de Almeida vem depois do Sérgio Alcântara, não antes!
- O nome do senhor, por favor?
- Tadeu Borges de Almeida.
- Er… sim senhor, publicaremos uma errata.
- Tá bom Tarso, mas não erra, viu!
- Sim senhor, mais alguma ajuda?
- Não.
- Tenha uma boa tarde, senhor.

No dia seguinte, a edição do jornal saiu correta, com errata e tudo. E o caderno de Cotidiano noticiou que o senhor Tadeu Borges de Almeida, 56, havia matado a tiros o atendente do caderno de Obituário, Tarso Vinicius de Lima, 23, que será sepultado às 17:30, no Cemitério da Vila Alpina. Ao lado de Sandra Peixoto e Túlio Santos da Costa. O assassino, que se matou após o crime, deixou uma carta dizendo que fazia aquilo por uma simples questão de ordem. Tarso deixou a mulher Zulaiê e a filha recém-nascida Zumira, mulheres de sorte.

Dália Negra - James EllroyOctober 20, 2006 4:52 pm

O cunhado foi o último a chegar, às oito e meia da noite. O pai esclarecia à filha os pontos a serem abordados. A mãe fazia o mesmo com o filho, enquanto retocava a maquiagem. Na sala de estar adjacente à de jantar, o sobrinho dava os pormenores do evento:

- Os candidatos já estão à postos com suas equipes para o início da transmissão. A titia vem para demover dos eleitores a imagem de má gestora. O titio prepara, junto com a sua equipe, réplicas sobre o dinheiro achado na gaveta de meias, que seria usado na compra de um falso dossiê que implica a titia com o leiteiro. Vamos à sala de estar onde nosso enviado especial, o primo, colhe as últimas informações. Primo.
- Boa noite primo. Titia já está pronta para o debate, aguardando apenas o titio. Boa noite titia.
- Boa noite sobrinho.
- Titia, como a senhora pretende rebater as acusações quando ao caso do leiteiro?
- Veja bem sobrinho. Tenho provas substânciais de que o dinheiro encontrado na gaveta de meias é de origem obscura. A última declaração do Imposto de Renda do candidato deixa claro que ele não tem dinheiro suficiente para a compra do dossiê falso.
- Obrigado. É com você, primo.

- Vamos agora falar com a nossa correspondente prima, que está com o titio nesse momento. Prima.
- Boa noite primo. Titio, o senhor pretende comprovar hoje a noite a origem do dinheiro encontrado na gaveta das meias?
- Boa noite sobrinha, boa noite brasileiros. Em primeiro lugar eu quero deixar claro que não sabia de nada. Esse dinheiro, supostamente dado como ilícito, não vem do meu salário, muito menos de qualquer outro bem que seja de minha posse. Eu não sou o Ministério Público, não sou delegado de porta de cadeia, muito menos o leiteiro. Eu não sei o que se passa com a vida da sua tia.
- Obrigado titio. Voltamos aos nossos estúdios. Primo.

- Muito obrigado aos nossos correspondentes e vamos agora à sala de estar onde será realizado o primeiro debate com os candidatos.

E o debate transcorreu com acusações, comparações à relações anteriores, uso de ironia, números errados, termos esdrúxulos. A esposa tentava a todo custo desvincular qualquer ligação dela com o leiteiro. O marido negava, peremptoriamente, que o dinheiro vinha do jogo do bicho, da caderneta de poupança, do menu de mulheres que ele oferecia aos amigos do escritório ou da venda do Dogde Dart conservado como novo. Falaram sobre a educação das crianças, o trato com a família, o progresso dos Oliveiras e como lidar com os vizinhos árabes, japoneses e italianos. Depois de duas exaustivas horas, o fim do debate veio com aplausos de ambos os lados.

Mas ninguém decidiu quem dormiria no sofá aquela noite. Se a "promíscua", se o "proxeneta"

Dália Negra - James EllroyOctober 19, 2006 2:09 pm

Prometendo nunca mais acordar, e não deixar de beber, ele se viu do lado de uma mulher completamente desconhecida. Desconhecia, inclusive, se era mesmo mulher. Juntou as mãos em prece, rogando a Deus, ao Diabo, a todos os Santos, alvinegros ou não:

- Diz que é uma mulher, diz que é uma mulher!

Um tanto trêmulo, levantou com vagar o lençol e viu que ali adormecia um corpo feminino, daqueles bem bonitos, por sinal. "Mandei bem" foi a primeira coisa que veio à cabeça. Não se sabe de qual, mas veio. Em seguida, a cabeça pensante lembrou de um fator cabal:

- Diz que eu usei camisinha, diz que eu usei camisinha!

Pelo chão, uma caixa inteira de preservativos estava espalhada. No mesmo instante, uma das cabeças acenou, novamente, com o sinal de "mandei bem". Problema era que, como em toda trama, a coisa complicava a cada novo pensamento racional:

- Diz que eu tenho dinheiro, diz que eu tenho dinheiro!

Se fosse uma moça da vida, teria de recorrer ao Serviço de Proteção ao Crédito, visto que ia tomar uma calote, ele tendo dinheiro ou não. Por sorte ela, ao acordar, disse o nome dele seguido de um "já vai, meu bem".

- Diz que você lembra o nome dela, diz que você lembra o nome dela!

Ele não lembrou, e inventou uma desculpa. Tratamento de canal, pensou. "Não! A língua dela percorreu minha boca mais do que todos os dentistas por onde eu passei em toda minha vida. Transplante de rim, isso, pode ser!".

- Eu preciso ir. Mesmo…
- Tudo bem. Me liga depois.
- Claro que sim!

E saiu em disparada. Nunca tinha pedido tanto na vida, nem mesmo na época em que tinha inventado de ser mochileiro. E enquando corria, pedia sem pudor algum:

- Diz que anotou nome e número, diz que anotou nome e número.

Não anotou, mas não ligou muito para isso depois de cinco minutos. Tinha tido uma noite fantástica, mesmo se lembrando de pouca coisa. Aliás, lembrando de quase nada, visto que baixou no hospital, pouco tempo depois, para descobrir que um dos rins havia sido cirurgicamente extraído.

- Diz que não foi ela, diz que não foi ela.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, a mulher sem nome e sem telefone removia, cirugicamente, mais um rim que, tempos depois, pediria em vão para que não fosse ela. Burro, deveria era pedir que não fosse o dele. E ele, na espera de um novo rim, pedia:

- Diz que tem um rim pra mim, diz que tem um rim pra mim.

Não sem antes pensar no quão terrível ficava "rim" com "mim" na mesma frase. E praguejando contra a sobriedade que não deixava ele esquecer do "mim" e do "rim"

Dália Negra - James EllroyOctober 18, 2006 6:28 pm

- Então, veja só, ultimamente eu ando achando que só preciso de você e de uma barra de chocolate, sabia?
- Hum… Um de cada vez ou tudo junto?
- Tudo junto. Eu, você e uma barra de chocolate…
- Cê sabe que chocolate não existe só em barra, né?
- Eu sei que, contigo, o que menos importa é como vem o chocolate, e o que mais me importa é como você vem. Como e quando…

Ele sorriu, pensando: "que seja o quanto antes".

- Ah, mas pro que eu tinha pensado importa e muito como vem o chocolate, sabe?
- E no que você tinha pensado?
- Em mudar de sólido pra líquido. Ou cremoso, pra ser mais exata…

Para bom entendedor, chocolate é cama.

- E eu queria falar algo sobre o quanto é melhor chocolate derretido para um corpo curvilíneo como o seu, mas tenho vergonha… Então digo que eu não tenho resposta para isso, mas tenho pensamentos infinitos sobre o mesmo tema…
- Eu também tenho, mas um deles é urgente: quem lava o lençol depois?

Post Scriptum para lá de importante: a adorável e querida Lívia lançou ontem o Livinrooom. Não pense que é um lançamento qualquer, como se fosse um Sputinik da vida. Não, é coisa de mudar a história da humanidade, meu povo. Só que aproveitem, leiam esta semana. Porque na próxima semana o Imperador, este mesmo que vos escreve - e que tal qual o Pelé, às vezes fala na terceira pessoa - vai aparecer por lá. Ele jura que, quando isso acontecer, ele vai avisar por aqui, para que vocês não venham dizer depois que não sabiam de nada. Viu, Lula?