Era só escrever algumas coisas. Nada demais, mesmo porque não tinha daquilo que chamam de "texto apaixonante", ou qualquer coisa do tipo. Um único estilo, o ruim. Cartas anônimas tornariam-se públicas na mesma hora, fosse ele o autor.

Então começou, com a imbecilidade de todo começo, ao menos para ele:

"Oi…"

"Oi…"? Que merda. Oi pede resposta imediata. Um "oi" sem outro "oi" vira vácuo, coisa ignorada. Rasgou o papel, como se pudesse rasgar a barreira que o impedia de fazer uma entrada decente. Ele não queria abrir o texto. Ele queria era que o texto se abrisse.

"Uma citação", pensou. Citações sempre funcionam, sejam elas de Dante ou de um daqueles spams que recebemos por email, falando de dádivas divinas e de crianças ora seqüestradas, ora com câncer.

- O amor é fogo que arde sem se ver…

Legião? Que Diabos! Ok, é Camões*, mas mesmo assim, sempre lembra Legião. Não dá, citação amorosa para ele era a do "tiro no joelho", que ele havia lido em um dos milhares blogs anônimos espalhados ciberespaço afora. Mal sabia se a história do tiro era real mesmo ou plágio?! Pensou em um poema, de autoria própria:

"De todos os males recorrentes,
No tocante ao viver e ao morrer,
Que todos tratam por diferente,
Tão iguais quanto eu ou você."

"Eu, se recebesse uma merda dessas, queimava", gritou-lhe a consciência. Citar um poeta de verdade, então, nem pensar. Mal sabia quem era o Neruda, coitado. A última coisa que leu com rimas dizia "batatinha quando nasce, esparrama pelo chão, mamãe de AR-15, papai de três oitão".

Não, não, é fechar os olhos, escrever sem ler e ver o pau comer:

"De todo perdido, até para começar. Mal sabendo mesmo como vai terminar e, na dúvida, não arriscando. Para quê, no fim das contas você vai se encher, vai me fazer perder o chão. Vai ser como o cara que percorreu Inferno, Céu e Purgatório, só que, quando eu chegar lá, vou descobrir que você já foi, há tempos, e que está bem. Quer saber, talvez é assim mesmo que deva começar. Tudo errado para dar tudo certo. Porque, se for começar certo, uma hora vai dar errado. E, sem dúvida, é melhor mostrar o mal, tirar, para depois ver o bem, repor. Ok, é linha tênue, o bem e mal. O quê, não acha? É, eu sempre vejo tudo como uma linha bem fina, lá no alto. E porra, como eu tenho medo de altura. Eu sei, tenho medo de muitas outras coisas. Eu mal consigo começar uma carta. Mas olha só, vou abrir uma exceção agora. Só não me peça para andar na linha tênue. Principalmente se ela for muito alta…"

Era isso! Sentiu um momento de iluminação, uma epifania. Era o melhor texto do mundo, e era dele. Era incisivo, era simples, era claro, era…

Era uma merda, era enrolado, sem nexo. Tinha vontade de nunca mais ver aquilo pela frente. Vontade de ter nascido analfabeto, cego, maneta. Vontade de voltar na história e acabar com os malditos egípcios, ou qualquer outro que teve a brilhante idéia de se escrever. O mundo não é uma droga por causa das guerras, da Peste, da fome. É essa merda por causa das palavras, das malditas letras, de suas conjunções, verbos, predicados, sujeitos e sujeitas. Principalmente a sujeita que ia receber a carta, antes dela ser amassada e jogada no lixo, para fazer companhia a outras 45 páginas, a maioria em branco.

Três dias depois, sem comer e sem dormir, ele desistiu. Acabou por morrer com uma caneta enfiada goela abaixo. Seu último pedido, um "que as palavras saíam da boca para o papel", se realizou porque ela teve acesso ao conteúdo dos escritos e chorou:

- Tinha um texto ruim, mas era uma grande alma.

Morreu sem razão. Mas tinha razão, no fim das contas.