A Dona Maria tinha 60 anos e quatro filhos. Veio do Nordeste ainda jovem, batalhou horrores e conseguiu criar toda a criançada à base de feijão com farinha de mandioca. Já teve uma Brasília, um Corcel II e um Del Rey. Viajava uma vez por mês para a terra natal, "para mode de ver as crianças". Não declarava o Imposto de Renda há dois anos, gostava de tomar Serra Malte e abominava filmes legendados.
O Agenor tinha trinta e sete. O avô tinha morrido em Monte Castelo e o pai queria ter ido para o Vietnã. Ele, se pudesse, iria para a Guerra do Golfo, a primeira. Já tinha matado alguns pássaros e atirado na perna de um ladrão que tentou levar embora seu carro. Gostava de Wagner e de ditaduras. Dizia que o Brasil é um país frouxo, que o Lula era um "analfabeto" e que os comunistas ainda iam acabar com o mundo. Tinha crises nervosas terríveis.
A Marilia era estudante de letras, 22 anos, cabelos loiros, olhos castanhos. Namorava, lia Dostoiévski, gostava do Kubrick. Pensava em um dia refundar a VPR e chamar a ministra Dilma Roussef. Achava o Capitão Lamarca uma grande pessoa e o Che uma figura extraordinária. Tinha um busto do Lênin no quarto e só conseguia fazer amor com o namorado quando escondia o líder comunista dentro do armário. Sentia ojeriza ao totalitarismo dos pais e queria mudar para Havana o quanto antes. Gostava de cigarros nacionais e do Bob Dylan.
O Pedro, 18 anos, já tinha visto Velozes e Furiosos dez vezes. Achava o Schwarzenegger um grande ator dramático e lia a Veja para "se inteirar do que acontece no mundo". Estudava Educação Física e jogava de meia esquerda no Unidos do Jaguaré. Namorava a Bianca e pagava a Jaciara de vez em sempre. Tinha dois irmãos, um deles adotivo.
O Mário, 13 anos, vendia balas no farol e morava embaixo do Viaduto General Olímpio da Silveira. Filho de mãe solteira, pouco foi à escola. Gostava de jogar bola na quadra do metrô Marechal Deodoro, nas horas vagas, e de tentar ler os jornais com o pouco que aprendeu na porta das bancas. Seu maior sonho era ir em um rodízio de pizza para "comer até cansar". Vendia uma caixa, na média, de Halls por dia.
O Seu Joaquim tinha 47 anos e dois filhos. Caiu no sono perto do farol e o ônibus só parou quando destruiu dois carros e pegou mais dois pedestres na rua. Único sobrevivente do trágico acidente, a única coisa que ele dizia, quando do depoimento à polícia, era:
- Participe do orkut para ampliar o diâmetro do seu círculo social.

Pô, véi.
E os interrogatórios?
Comment by Gabi — September 18, 2006 @ 5:35 pm
Eu diria:
- Participe do orkut para ampliar o diâmetro de sua vida sexual. (heh)
Só o diâmetro, véi, não a prática. =/
Comment by Lilhá — September 18, 2006 @ 5:43 pm
Mas o pior de todos sou eu, que conheço um exemplar de cada um desses tipos aí… rs
Comment by Sol — September 18, 2006 @ 7:53 pm
Vc anda esquizofrênico :-S E o pior, melhor do que eu :-/
Comment by Junior — September 18, 2006 @ 8:46 pm
Ok, ok, você me convenceu: vou deixar o Orkut!
Comment by Tatu — September 19, 2006 @ 3:02 am
Caraleo, tenho um amigo igual ao Agenor. Só que ele tem 26 anos.
Comment by Zé — September 19, 2006 @ 7:14 am
O que é orkut?
E a correta grafia da expressão contida na quarta linha desse texto seria: “Pra mó di vê as criança.”
Comment by Bruno — September 19, 2006 @ 12:11 pm
eu vou me deletar me excluir do meu orkuuuuut
eu vou me bloquear do emeésseeeeeeene
não, não precisa. o msn já me bloqueou do msn.
Comment by vanessa — September 19, 2006 @ 1:36 pm