A sala estava quente. A fumaça acumulada por quinze cigarros, transformando o cinzeiro numa chacina de filtros, alcatrão e nicotina, fazia com que o detetive não enxergasse a outra ponta da mesa. Ou talvez isso era uma grande desculpa que ele usava para disfarçar que o que realmente embaçava a visão eram as pernas da interrogada. Esta, por sua vez, suava loira e alta no ambiente insalubre.

- Onde você estava na noite de 18 de Setembro?
- O de sempre. Casa e uma cama imensa.

A têmpora do detetive deu sinais de que um colapso era iminente.

- Algum álibi?
- Não, era imensa e ocupada por uma só pessoa, eu…

Outros órgãos deram sinal de que um colapso era fato.

- Sei, sei… a velha tática da cama imensa e sozinha.
- Ah tá. Eu, inocente, preciso cantar um policialzinho de merda que não consegue interrogar quando vê um par de pernas, para poder me safar do assassinato de um blog.

E inocentemente o vestido verde, com um decote capaz de trazer paz a qualquer guerra, quase se abriu por força do olhar dele. Ela, também inocentemente, mostrou que pernas falam muito mais do que palavras. Ele era um merda, ela tinha razão. Perdeu a fala de repente. Afrouxou a gravata, lembrou de quando atirava contra os alemães na Segunda Guerra e imaginou que arma potente seria aquele decote e aquela saia na mão dos Aliados.

- Ok, ok, não saia da cidade por um tempo. Lembre-se que estamos de olho em você.
- Tudo bem. Lembre-se que minha cama é imensa e que está calor…
- Éééé… só mais uma pergunta…
- Qual?
- A que horas você costuma tomar banho?

E cada vez mais o oficial Barollo via-se num infinita teia de intrigas. E via-se também numa certa cama imensa.