Filme - Lilian RossSeptember 29, 2006 2:44 pm

Depois do Günther Grass assumir na autobiografia Descascando a cebola (por sinal, um título que só pode ser sacanagem) que era da juventude hitlerista, que fez parte da Waffen SS e patati e patatá e depois do Gabriel Garcia-Marquez escrever aquela bomba chamada Cem anos de solidão, entre outro exemplos, agora é a vez do Hemingway entrar na galeria dos escritores com potenciais homicidas premiados com o Nobel de Literatura.

Se você não entendeu porra nenhuma até agora, eu explico: o tiozão, famoso pelos relatos no front durante a Segunda Guerra e por livros como O velho e o mar (e haja paciência, torcida brasileira!) e Por quem os sinos dobram (nome do caraleo de bonito de livro, rapá), mandava umas cartinhas amáveis (coloque muita ironia aqui, por favor) aos amigos, onde dizia que gostava de matar os "chucrutes" e tal. Em uma delas, chega ao orgasmo por ter dado cabo de 122 alemães. Se fosse no Medal Of Honor, era recorde!

Aí você me diz: legal Júlio, você leu o Estadão hoje, se mostra informado e tal, mas explica, PUTAQUEMEPARIUDERODINHASLASERCANHÃODEIÓNEDOISTUBOSDEHIDROGÊNIO, o que eu tenho com isso?

Bom, você escreve. Logo, você produz literatura, certo? Tá, você pode ser um dos meus, que não produz nada. Nobel então, só a livraria. Mas, de qualquer forma, nós, enquanto [piada on] escritores [piada off], temos de expiar os pecados de ontem. Sessão Descarrego na ABI, com direito a cházinho servido pelo Sarney. E lá vou eu aproveitar o espaço para dizer que, um dia, eu encenei o Collor no teatro da escola. Aproveito também para dizer que, um dia, eu votei no Alckmin. Assim como eu votei no Lula. Posso ainda contar que, certa vez, eu dormi na porta do Metrô Santa Cecília por causa de uma mulher que não valia uma bala do Hemingway ou do Grass. Ou dizer que quase comecei a vida liteária com Paulo Coelho. O quê isso importa? Nada, assim como os relatos do dos escritores. Mas, numa boa, eu preferia ter matado 122 alemães a ter votado no Lula e no Alckmin. Acho que eu ficaria muito bem no uniforme da Waffen SS, em comparação com Diário de um mago nas minhas mãos. Que merda, eu poderia ser o loser do Sartre, que não foi receber o prêmio porque o Camus ganhou e mimimimimimi.

Depois todo mundo diz que blogueiro é loser. Porra, a única coisa que nos diferencia dos vencedores do Prêmio Nobel é que temos urls. E pontuamos, ao contrário do Saramago.

PS: Nada contra o Saramago, que eu acho foda. Nada lido do Günther Grass. Nada paciente com Hemingway. Tudo contra Cem anos de solidão. E joguem as pedras, caraleo!

Filme - Lilian RossSeptember 28, 2006 12:35 pm

Eu fui intimado uma vez, pela Gabi (e ela tem o chute do Van Damme, quando este fazia filmes com o John Woo), a fazer o treco aí embaixo. Negócio é simples: tenho de dizer seis coisas sobre mim. Eu poderia muito bem escrever cerveja em todas, mas daí ficaria sem graça e eu seria chamado de álcoolatra.

Além disso soube que, quem não responde ao chamado, recebe a visita do coelho do Donnie Darko, aquele que tem uma bala enfiada no meio da fuça. Pensando bem, não seria mal ter uma vida nos moldes de Donnie Darko, afinal de contas o filmaço tem uma trilha sonora foda com Tears for Fears, Duran Duran e, vejam só, Echo and the Bunnymen (pescou, pescou?).

Lá vai:

1 - Eu leio muito. Mas muito mesmo. O Junior, certa vez, perguntou por quê diabos eu sempre compareço em qualquer lugar (velório, bar (sic) mitzvah, missa de sétimo dia, festa do cabide, suruba) com um livro. Todo mundo sabe, Sampa é a capital mundial do trânsito (e não me venham falar das capitais do Oriente Médio, onde ninguém respeita ninguém numa suruba respeitável. Temos de convir que eles recém-descobriram o automóvel), logo quem anda de ônibus todo dia, precisa de entreterimento. Daí Lilian Ross, Tom Wolfe, Capote, Shakespeare, James Elroy, Lawrence Block, enfim, um povaréu de escritores, me ajudam. Se eu fosse melhor alfabetizado, o efeito poderia ser mais positivo ainda, mas enfim, cada um com os problemas que lhe pertencem. Também adoro abandonar um livro e voltar, tempos depois. A Peste do Camus, por exemplo, está para ser continuado há alguns meses e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Saramago, há de ser terminado. Em 2037, se eu viver até lá.

2 - Eu tenho três medos: ratos, altura e Björk. Alguns são coligados (exemplo: ratos e Björk, que são da mesma espécie), outros influem em diversas atividades físicas; nadar, por exemplo, é um martírio, uma vez que meu cérebro bizarro faz a equação onde muita água + corpo do Júlio = boiar = ficar com os pés fora do chão = estar em um lugar muito alto. Eu sei, é absurdo, mas enfim, se até a Regina Duarte tem medo, porque eu também não posso ter os meus, ô pá? Se serve de consolo, eu não tenho medo do nariz do Eric.

3 - O lugar de Sampa, e talvez do mundo, que eu mais gosto é a Avenida Paulista. Seja pelos bares, seja para sentar no Fran’s para ler, seja para pegar um cinema, ou mesmo para caminhar pela Avenida, para mim não há lugar como lá em canto nenhum da Paulicéia. Os bares, em especial o Opção, o Asterix, o Puppy e o Charme, oferecem cerveja barata, diversão garantida e, com a mesa certa, idéias malucas com gente foda. Sem contar o yakissoba da Paulista, que só é yakissoba da Paulista quando a Lelê e eu fazemos terapia de amigos degustando da iguaria única.

4 - A culinária é minha forma mais alienígena de vida. Sim, de vez em quando eu como coisas maravilhosas, como o fricassé da Dona Rose, o rango da mamãe, a costelinha que o Junior assa nos churrascos na laje, a lasanha da Gabi e as pizzas que a Lilhoca compra no Tatuapé, por exemplo. Mas eu também chuto o balde com comidas de procedência duvidosa, mas de gosto único. A receita mais adorada nesse menu de Marte é o indefectível yakissoba da Paulista. A receita é simples: pegue um chinês sujo, dê-lhe um carrinho tosco, faça com que ele saiba poucas palavras em português (dô e cinquenta, trê e ciquenta, no tem Côca). Misture com isso uma alface bizarra, carne de algum animal desconhecido pela humanidade, um macarrão excelente, óleo, cebola, molho shoyo, fuligem de ônibus e, se quiser pagar um pouquinho mais caro (ponto de ônibus quase em frente ao McDonalds, perto do Bristol, entre a Augusta e a Frei Caneca), poeira de obra. Leve tudo ao fogo (menos o chinês) e sivra com hashii. Leve a Lelê junto e peça a presença de um rato nas imediações da Alameda das Flores. É diversão garantida.

5 - Eu gosto de cerveja. Não, eu gosto muito de cerveja. Eu acredito que a paz mundial ainda virá por intermédio da cevada. Eu bebo cerveja com os amigos, bebo cerveja sozinho, no calor, no frio, na chuva, no sereno. As preferidas são Serra Malte (Opção, sete da noite, sexta-feira; calor de 28 graus, mais ou menos. A garrafa vem tão gelada que dá vontade de tomar aquilo e morrer), Bohemia e Original. Das caras, encorpadas, essa coisa toda, eu gosto da Erdinger, bagaraleo. E aprendi que uma garrafa long neck de Schmidt pode fazer você ir mais cedo para casa (12, de teor alcoólico, e o Junior corrige se estiver errado). Mas não dispenso também as Brahmas da vida e, num ato de desespero, vai até Bavária.

6 - Eu me apego fácil, vicio fácil e ligo muito para alguns bens materiais. Minha coleção de filmes de livros são uma das minhas maiores paixões, assim como as pessoas que, no mais simples dos atos, fazem eu me mijar de rir ou ficar com aquela cara de emo e apanhar por causa disso. E por causa do CD do My Chemical Romance, seja ao vivo, por MSN, na mesa de bar, sessão descarrego, enfim. Também fumo bagaraleo, e talvez pare um dia. Isso é, se os aparelhos não atrapalharem.

Seis pessoas para responder isso? Lelê (porque o texto da Lelê não pode ficar fora dessa), Alê (é o demônio, imaginem), Pedro (figuraça, passou um dos melhores jogos do Planeta, ontem), Ronnie Von (pô, o cara é o maior vencedor do Qual é a Música, manja dessas coisas), Tiago (porque eu quero ver ele falar mal do "A Vila" para mandar um comentário nos moldes de "não te mando tomar no cu porque és gaúcho, tchê") e  Nahim (para ter o tira-teima final do Qual é a Música, e acabar de vez com a dúvida).

Filme - Lilian RossSeptember 27, 2006 10:01 pm

- Sabe, outra vez pensei em fazer uma serenata para ela…
- Putz!
- Pô, isso é bonitinho!
- É, é fofo!
- Fofo é meu pau fantasiado de Papai Noel!
- Mas aí eu desisti, eu nunca tive dotes musicais. Então pensei em um poema!
- Putz!
- Óunnnnnnnnnn!
- Que lindo!
- Mostra ele?
- Lindo é acordar de manhã e ver que eu deixei 50 mangos no criado mudo!
- Não tenho, nunca saiu no papel, tive vergonha. Então pensei em mandar flores…
- Puuuuuuuuutz!
- Você é o homem perfeito, sabia?
- É, é um fofo!
- Perfeito é dar cinco sem tirar, coisa que eu faço enquanto troco o motor da Scania!
- Mas aí eu resolvi mandar um caixa de chocolates para ela, e mandei!
- Putaquemepariuderodinhas!
- Pára, ele foi romântico!
- É, ele foi um fofo!
- Bah, pergunta para ele o que aconteceu depois…
- É, o que aconteceu depois?
- Conta fofo!
- Bom, er… bem.. depois ela saiu com o Almeida…
- Pô, Almeida!
- Almeida! Que falta de fofura!
- Queridas, não tenho culpa se é verdade o que eu disse: fofo é meu pau fantasiado de Papai Noel, além dos 50 mangos no criado mudo, dando cinco sem tirar!

Filme - Lilian RossSeptember 25, 2006 5:04 pm

Era só escrever algumas coisas. Nada demais, mesmo porque não tinha daquilo que chamam de "texto apaixonante", ou qualquer coisa do tipo. Um único estilo, o ruim. Cartas anônimas tornariam-se públicas na mesma hora, fosse ele o autor.

Então começou, com a imbecilidade de todo começo, ao menos para ele:

"Oi…"

"Oi…"? Que merda. Oi pede resposta imediata. Um "oi" sem outro "oi" vira vácuo, coisa ignorada. Rasgou o papel, como se pudesse rasgar a barreira que o impedia de fazer uma entrada decente. Ele não queria abrir o texto. Ele queria era que o texto se abrisse.

"Uma citação", pensou. Citações sempre funcionam, sejam elas de Dante ou de um daqueles spams que recebemos por email, falando de dádivas divinas e de crianças ora seqüestradas, ora com câncer.

- O amor é fogo que arde sem se ver…

Legião? Que Diabos! Ok, é Camões*, mas mesmo assim, sempre lembra Legião. Não dá, citação amorosa para ele era a do "tiro no joelho", que ele havia lido em um dos milhares blogs anônimos espalhados ciberespaço afora. Mal sabia se a história do tiro era real mesmo ou plágio?! Pensou em um poema, de autoria própria:

"De todos os males recorrentes,
No tocante ao viver e ao morrer,
Que todos tratam por diferente,
Tão iguais quanto eu ou você."

"Eu, se recebesse uma merda dessas, queimava", gritou-lhe a consciência. Citar um poeta de verdade, então, nem pensar. Mal sabia quem era o Neruda, coitado. A última coisa que leu com rimas dizia "batatinha quando nasce, esparrama pelo chão, mamãe de AR-15, papai de três oitão".

Não, não, é fechar os olhos, escrever sem ler e ver o pau comer:

"De todo perdido, até para começar. Mal sabendo mesmo como vai terminar e, na dúvida, não arriscando. Para quê, no fim das contas você vai se encher, vai me fazer perder o chão. Vai ser como o cara que percorreu Inferno, Céu e Purgatório, só que, quando eu chegar lá, vou descobrir que você já foi, há tempos, e que está bem. Quer saber, talvez é assim mesmo que deva começar. Tudo errado para dar tudo certo. Porque, se for começar certo, uma hora vai dar errado. E, sem dúvida, é melhor mostrar o mal, tirar, para depois ver o bem, repor. Ok, é linha tênue, o bem e mal. O quê, não acha? É, eu sempre vejo tudo como uma linha bem fina, lá no alto. E porra, como eu tenho medo de altura. Eu sei, tenho medo de muitas outras coisas. Eu mal consigo começar uma carta. Mas olha só, vou abrir uma exceção agora. Só não me peça para andar na linha tênue. Principalmente se ela for muito alta…"

Era isso! Sentiu um momento de iluminação, uma epifania. Era o melhor texto do mundo, e era dele. Era incisivo, era simples, era claro, era…

Era uma merda, era enrolado, sem nexo. Tinha vontade de nunca mais ver aquilo pela frente. Vontade de ter nascido analfabeto, cego, maneta. Vontade de voltar na história e acabar com os malditos egípcios, ou qualquer outro que teve a brilhante idéia de se escrever. O mundo não é uma droga por causa das guerras, da Peste, da fome. É essa merda por causa das palavras, das malditas letras, de suas conjunções, verbos, predicados, sujeitos e sujeitas. Principalmente a sujeita que ia receber a carta, antes dela ser amassada e jogada no lixo, para fazer companhia a outras 45 páginas, a maioria em branco.

Três dias depois, sem comer e sem dormir, ele desistiu. Acabou por morrer com uma caneta enfiada goela abaixo. Seu último pedido, um "que as palavras saíam da boca para o papel", se realizou porque ela teve acesso ao conteúdo dos escritos e chorou:

- Tinha um texto ruim, mas era uma grande alma.

Morreu sem razão. Mas tinha razão, no fim das contas.

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 22, 2006 5:05 pm

Coincidência foi o Jorge e o Abreu, depois de vinte anos, se reencontrarem na porta da creche dos filhos. Saíram para beber, relembraram histórias, marcaram programas família, viram os filhos um do outro, concordaram que a Elisa era a mais gostosa da turma, mesmo vinte anos depois. Essas coisas da nostalgia.

Coincidência foi o Mário encontrar o diário do pai, um quase-famoso escritor, sendo vendido em uma livraria sebo à dois reais, dar uma limpada, uma lida, outra lida, uma revisada, chacoalhar o excesso de texto e, quando limpo o bastante, publicar e virar best-seller.

Coincidência foi a da Ana, que num dia de chuva achou seu guarda-chuvas predileto ao sair da estação do Metrô, na mão de um guarda. Mostrou a identidade, que batia com a ficha que tinha no guarda-chuva (era a paranóia, é claro), além de uma foto com o mesmo em Paris. Foi para casa sem se molhar.

Coincidência foi a Clara e o Alceu se odiarem por pelo menos três quartos de suas vidas e, anos depois, terem se reencontrado e dormido juntos, acordando casados. Ele tinha um filho de outro casamento, o Jorge. Ela, era mãe do Abreu. Os dois estudaram juntos, em tempos de cólera, o que dá uma dupla coincidência.

Agora não foi coincidência encontrar a ex-namorada no ônibus - toda feliz e sorridente, flertando com um dos passageiros - e dar um tiro no joelho dela. O nome disso é amor.

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 21, 2006 4:04 pm

Era o tipo de pessoa normal, seja lá qual o ranking, por meio de leis, atos, enfim, qualquer coisa que estabeleça isso. Um quadro clínico bom, alguns amigos, alguns amores, alguns ódios. O alemão talvez diria "humano, demasiado humano" para ele. Gostava daquela mesa de bar, daquela avenida, do palavrório alheio. Ia sozinho, mas não se sentia só, o que era estranho.

Um dia se intitulou como "observador da vida alheia". Achou um tanto sem graça, escolheu "Darwin de boteco". "Kinsey, sem o sexo", também seria uma boa, talvez por conta de ser um observador assíduo. No fim, tudo muito intelectual, ele pensou. Foda-se, é esse mesmo e ponto. "Esse qual? Esse ou aquele? Os dois, quando e onde convir. E há de convir? Se não der, use "xereta", "bochicheiro" e afins".

Confabulava com os seus pseudônimos na mesa do bar. Pensava numa tese e lá vinha ele mesmo com a antítese. Ele ou outro. E depois um outro, que buscava uma síntese para tudo. Voltava para a tese, antítese, síntese, sem nunca chegar a um denominador comum. Tinha um número aproximado cinco personalidades diferentes, com variações do mesmo tema. Ia desde de Darwin a Kinsey, passando por Marx, Vinicius, Capote: no fim eram a mesma coisa: malditos observadores, câmeras à mão, gravadores na lapela, esguios, quase invisíveis e indecentemente curiosos. Não era flagrado observando, e sempre olhava, com alternância de Kubrick para Brian de Palma; ora câmera aberta, ângulos faciais, ora dois quadros separados de uma mesma cena, câmeras angulares.

Um dia ela olhou para ele. O suspense, talvez horror. Foi pego com a objetiva em mãos. A cara, no melhor estilo James Stewart, neón piscando na testa que a janela era para lá de indiscreta. Um quê de prazer que só Grace Kelly poderia proporcionar. Claro que sem os malditos Givenchys e afins. Mas ela era outra loira gelada, era a Kim Novak. Tombava a cadeira como se fosse cair do prédio. Ou talvez a Janet Leigh, a faca pulando da mesa na jugular, colo, seios. Não, era Novak. Glacial, introspectiva, observadora.

- O cara da mesa 36 vai pedir ela em casamento…
- Nada, eles são irmãos, vai informar que a mãe faleceu. Ela, por sinal, não vê a mãe há uns 12 anos.

A conversa foi interrompida pelo choro na mesa 36. Dona Alice, dois filhos, dois netos, dois tiros à queima roupa.

- Como?
- Simples: ele disse irmã.
- Um bom ouvido e um olho clínico.
- Por que do casamento?
- A caixinha na mão direita.
- Renovação de votos.  Esposa morena, alta. Ele vem aqui às terças e quintas.
- E você?
- Quase todo dia. Você, até onde eu vi, só falta aos sábados e domingos. É de fora?
- Não, outros ambientes a serem vistos.
- Jornalista?
- Não, psicopata. E você? - ele brincou.
- Assassina em série. E vouyer nas horas vagas. - ela copiou.
- Mais um aqui e vira sindicato.
- Podemos chamar o cara da 53. Matou meia família, pai, mãe e um dos quatro filhos, porque eles não tinham fósforos.
- Meia família por causa de um cigarro?
- Não. Matou meia família com tiros. Se tivessem fósforos, ia o restante e a casa.

Conversaram por longas horas e pararam em um hotel qualquer. Ele subiu, ela também, roupas foram tiradas. Ao fim de uma noite inteira, ele a olhou: calcinha, sutiã, seios perfeitos, boca sibilando "tchau". Arma na mão esquerda. Mão direita rosqueia o silenciador.

Dois tiros. Um acertou a testa, outro o peito. Profissional, sem dúvida, a ponto de, no dia seguinte, ir ver os irmãos dele chorarem sua morte. Valdo, o que morreu, deixou dois irmãos, dois sobrinhos, dois olhos e dois rins para o banco de órgãos. Dois pares de sapatos, dois cigarros no maço, dois fósforos, duas miligramas de vodca. Duas balas…

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 20, 2006 4:54 pm

- Rapaz, tu lembra do Almeida?
- Opa, grande Almeida! Jogava na meia-esquerda, cracaço!
- E o Jeremias?
- Hahahahah, o Jerê rapaz! Dia desses eu o vi na rua, casou e tudo o mais!
- Tinha também o… o…
- O Claudião! Grande figura! Sinuqueiro de primeira! Nunca vi matar tanta bola em toda minha vida!
- E o Adamastor, hein?
- Pois é, outro figuraça… uma morte muito sentida…
- Pois é… e nossa turma era bem legal, né?
- Demais da conta!
- Mas ainda bem que agora você apareceu, rapaz…
- Pô, brigado Pereira. Também fico feliz em revê-lo!
- Ah, não é por isso não. É porque eu não lembro demais porra nenhuma! Aliás, quem é o Pereira?
- Hahahaha, seu sacana…
- É sério, não lembro do Pereira.
- Como não, rapaz… é seu nome!
- Meu? Onde eu tô? Quem é você?
- Pô Pereira, eu sou o Brito, amigo do Almeida, do Jerê, do Adamastor!
- Ah sim! Pô Britão, mal ae…
- Tá bom Pereira, sem problemas…
- Mesmo?
- Mesmo!
- Então pára de tremer, cáspita!

Todo dia o Brito tinha de contar a mesma história, além de sempre pagar a conta do bar. Já o Pereira, não agüentava mais aquele intruso. Mesmo porque, ele sempre derramava a maldita cerveja.

Los Angeles Cidade Proibida - James Ellroy 1:41 pm

O leitor Rogério Castilho mandou essa:

Outra é uma das melhores páginas que a Internet já nos deu nesse mundo, a Desciclopédia, enviada pelo Junior para fazer com que este mije de tanto rir logo de manhã. O artigo sobre os emos da inveja de tão bom! Como vocês poderão perceber hoje, pelo visto, eu não trabalho.

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 18, 2006 5:32 pm

A Dona Maria tinha 60 anos e quatro filhos. Veio do Nordeste ainda jovem, batalhou horrores e conseguiu criar toda a criançada à base de feijão com farinha de mandioca. Já teve uma Brasília, um Corcel II e um Del Rey. Viajava uma vez por mês para a terra natal, "para mode de ver as crianças". Não declarava o Imposto de Renda há dois anos, gostava de tomar Serra Malte e abominava filmes legendados.

O Agenor tinha trinta e sete. O avô tinha morrido em Monte Castelo e o pai queria ter ido para o Vietnã. Ele, se pudesse, iria para a Guerra do Golfo, a primeira. Já tinha matado alguns pássaros e atirado na perna de um ladrão que tentou levar embora seu carro. Gostava de Wagner e de ditaduras. Dizia que o Brasil é um país frouxo, que o Lula era um "analfabeto" e que os comunistas ainda iam acabar com o mundo. Tinha crises nervosas terríveis.

A Marilia era estudante de letras, 22 anos, cabelos loiros, olhos castanhos. Namorava, lia Dostoiévski, gostava do Kubrick. Pensava em um dia refundar a VPR e chamar a ministra Dilma Roussef. Achava o Capitão Lamarca uma grande pessoa e o Che uma figura extraordinária. Tinha um busto do Lênin no quarto e só conseguia fazer amor com o namorado quando escondia o líder comunista dentro do armário. Sentia ojeriza ao totalitarismo dos pais e queria mudar para Havana o quanto antes. Gostava de cigarros nacionais e do Bob Dylan.

O Pedro, 18 anos, já tinha visto Velozes e Furiosos dez vezes. Achava o Schwarzenegger um grande ator dramático e lia a Veja para "se inteirar do que acontece no mundo". Estudava Educação Física e jogava de meia esquerda no Unidos do Jaguaré. Namorava a Bianca e pagava a Jaciara de vez em sempre. Tinha dois irmãos, um deles adotivo.

O Mário, 13 anos, vendia balas no farol e morava embaixo do Viaduto General Olímpio da Silveira. Filho de mãe solteira, pouco foi à escola. Gostava de jogar bola na quadra do metrô Marechal Deodoro, nas horas vagas, e de tentar ler os jornais com o pouco que aprendeu na porta das bancas. Seu maior sonho era ir em um rodízio de pizza para "comer até cansar". Vendia uma caixa, na média, de Halls por dia.

O Seu Joaquim tinha 47 anos e dois filhos. Caiu no sono perto do farol e o ônibus só parou quando destruiu dois carros e pegou mais dois pedestres na rua. Único sobrevivente do trágico acidente, a única coisa que ele dizia, quando do depoimento à polícia, era:

- Participe do orkut para ampliar o diâmetro do seu círculo social.

Los Angeles Cidade Proibida - James EllroySeptember 15, 2006 4:47 pm

Se tinha uma pessoa que não precisava ser interrogada, essa pessoa era a Víuva Negra. Afinal de contas, era a síntese da Blogagi, que nasceu justamente de uma reunião realizada tempos atrás na casa dela, filho de pais desconhecidos.

Não se sabia ao certo o por quê de Viúva Negra, visto que não era casada. Os íntimos diziam que era o humor. Perdia o amigo em um acidente de carro, mas não perdia a piada sobre o tamanho da cabeça, principal causa da tragédia. Por ser metódico demais, Barollo resolveu arriscar, convocando a Viúva para umas perguntas de rotina. Entrou na sala apoiando o paletó no ombro, chapéu panamá na cabeça. "Cubano? Chamo ele de Fidelito?" pensou a Viúva, que acabara de colocar o cigarro no cinzeiro, filtro rubro, tal qual as unhas, tal qual a cara do detetive.

- Onde você estava na noite de 18 de Setembro?
- Numa cama imensa…

Conforme Barollo havia cogitado, a Lôra mentiu.

- Fazendo o quê?
- Coisas de blogueiros…

Mais uma mentira.

- Você sabe por que eu te chamei, né?
- Claro, para saber como eu consegui 470 vitórias consecutivas no Mario Kart!
- SÉRIO? TÁ BRINCANDO!

Era o começo do fim de Barollo, que mordeu a isca feito um pato. Muito burro, patos não mordem iscas.

- Sério… - disse a Viúva, segurando de forma lasciva o cigarro com o filtro vermelho.
- E como você fez isso? COMO? COMO?

Barollo esmurrava a mesa, em um estado de epifania. A Viúva colhia os louros da vitória.

- Um dia eu te conto…
- Quando?
- Quando você lembrar o por que da minha convocação até aqui…

Era o golpe final. Barollo esqueceu completamente o que a Viúva fazia ali. Sua mente ia de Mário para Luigi, de Luigi para Mário. Nunca havia pensado tanto em encanadores em toda a sua vida, mesmo na época em que trabalhava no sindicato.

- Er… hum… bem… alguém morreu, acho eu…
- Antes ele do que eu! - disse a Viúva, justificando o apelido ao deixar a sala.