A Lapa é de uma decadência estranha. Diferente da São Petersburgo de Crime e Castigo ou da Los Angeles dos livros policiais, não causa pena, amor, ódio. Nem ao menos charme o bairro tem. É como se padecesse de uma decadência fria, típica dos bairros encrustrados entre a pobreza do extremo e o classe média way of life dos bairros emergentes paulistanos.
Na rua Guaicurus, em frente ao Terminal Lapa, há o hotel sem nome, carinhosamente apelidado de "Rodeio". No quarto 12, o Hóspede chegou acompanhado e, enquanto gravata, meias, saia e calcinha eram atiradas para o alto, o Visitante cortou os sussuros e gemidos:
- Uma bela cena, eu diria.
O Hóspede e a Acompanhante, até então no calor da luta para ver quem se despia primeiro, gelaram a ponto dela quase morrer, ali mesmo, de choque térmico.
- Querida, desce e vai tomar uma cerveja ali no bar da esquina, que eu já já apareço por lá…
- Mas…
- Vai agora, eu resolvo isso e desço em cinco minutos.
Ao encostar da porta, o Visitante mal teve tempo de respirar. As mãos voaram da maçaneta para o colarinho, e do colarinho sua cabeça vôou para porta em tempo recorde:
- Na última vez que nos vimos, prometi que você morreria se eu o visse de novo!
- Eu lembro, eu lembro. Um encontro amistoso demais, sem dúvida.
- Então, agora é a hora?
Marcas de dedos apareciam, rubras, no pescoço do Visitante, como um câncer maligno agindo mil vezes mais rápido do que o Ebola. Uma cena animadora.
- Não, se você me deixar falar.
- Dois minutos! Se em dois minutos você não falar algo que preste, eu aperto seu pescoço até transformá-lo em um daqueles patês chiques de ganso.
Definitivamente, o Hóspede sabia ameaçar.
- Lembra do Caixa?
- Lembro dos meus dois mil reais!
- Enfim, cada um com a memória que convém…
As marcas rubras voltaram, e a respiração já começava a minguar.
- Tá, tá… então, ele voltou! E disse que vai te matar, só para parar de dizer que o roubo dos dois paus não valeram nada.
- Onde ele está?
- Agora?
- Não, no dia sete de setembro! Claro que é agora!
- Neste exato momento, num churrasquinho ali do outro lado da rua!
Se roubar 2 mil reais do Hóspede era pedir carona para a Morte, degustar do churrasquinho da Lapa era ir de carona e ainda mexer no som. Feito com a mais tenra e desconhecida carne de alguma coisa, matava mais do que as duas Grandes Guerras somadas. O Caixa já ia para o quinto espeto da noite quando a desconhecida, talvez marciana, carne entalou no pescoço:
- Dizem as más línguas que carne de gato não passa por lugares estreitos!
Ouviu algo parecido com "mas que merda é…".
- E também dizem, as mesmas más línguas, que você quer me matar, fazer o roubo dos meus dois mil valer a pena.
Um naco de algo desconhecido pulou, parando na sarjeta em frente à Estação Ciência…
(continua)

Fala assim da Lapa não rapá! Senão enfio um espeto no te cú véi, teu cú!
*se não acabar essa porra já sabe
*
Comment by Junior — August 24, 2006 @ 8:44 pm
puta merda o/
Comment by Lilhá — August 24, 2006 @ 8:51 pm
Começou romance e está continuando suspense. Vai terminar tragédia ou comédia?
Comment by Tatu — August 25, 2006 @ 1:01 am
O nome do hotel é Alabamba.
Já te disse.
Comment by Gabi — August 25, 2006 @ 1:51 am
Você não vai usar a piadinha do humor frânces corta-barato também com esse “continua”, né?
Comment by Zé — August 25, 2006 @ 5:03 am
Como é que a Gabi sabe o nome do barato?
(hum)
Comment by Eric — August 25, 2006 @ 6:01 am
Aghata Cristie style? Eu gosto… rs
Comment by Sol — August 25, 2006 @ 12:57 pm
Bah Julião, talvez eu teja lesado e tal.. mas essa n entendi direito. Meio confuso.
Malz..
Comment by Tiago — August 25, 2006 @ 2:25 pm