A quem salvar? A sua obra, escrita por horas, dias, anos, ou a uma obra por você considerada divina?
Se você fosse Camões, deixaria a mulher naufragar, abraçar Netuno e mais diversas analogias, para ir atrás dos seus escritos? Ou, pelo contrário, deixaria os Lusíadas para lá e salvaria a amada do triste fim?
Os vestibulandos podem vir a dizer que os Lusíadas merece ir para o mais fundo dos oceanos, de tão maldito livro. Concordo em partes: acho que trata-se de ótimas histórias escritas de forma errada. Eu não entendo poesia e talvez nunca venha a entendê-las. Em prosa, aquilo é um absurdo de bom.
Os literatos talvez diriam que trata-se da obra mais influente em língua portuguesa. Mais do que escritos em algumas folhas, Os Lusíadas é a história de Portugal.
Os apaixonados, amantes e afins diriam que a obra é efêmera, pode muito bem ser reescrita, mas que a amada é imortal, tal qual aquele filme que tem o Beethoven.
Os suícidas diriam que, entre a cruz e a espada, preferem a forca.
Eu não sei, eu relativizo as coisas. Se Camões amasse a mulher a ponto de tranformá-la em odes, poemas e afins, deveria tê-la salvado. Os Lusíadas e Portugal poderiam ser reescritos, e quem sabe até com uma melhora significativa, como o uso da prosa (sim, estou militando em causa própria). Em contrapartida, se fosse um daqueles amores de incidente (comuns hoje e, creio não, não lá muito usuais à época), Camões queria era a história e, possivelmente, o amor de outras mulheres. Foi a mão de Dom Sebastião afundando a nau oceano abaixo.
Eu provavelmente salvaria. É difícil acreditar que Camões tivesse a menor consciência do que é o livro. É difícil crer que Camões não a amasse a ponto de sacrificar sua obra. Talvez sejam os deuses da Literatura, Camus, Orwell e Machado, que infligiram à Camões uma dor insuportável para que ele escrevesse com o amor que lhe tinha partido. Como diz o Rubem Alves, "pessoas tristes criam grandes obras". Ou algo do gênero, mas essa é a linha.
Mas hoje em dia nós temos o blog. Camões ficaria com as duas coisas: os escritos e a mulher. Quer dizer, quem tem blog não tem amada. No fim essa ferramenta é o mesmo que o barco no qual naufragou a mulher de Camões.
Eu, oras, eu vou segurando meus Lusíadas para todo o sempre. Oito Lusíadas, por enquanto.

Ah, a dúvida cruel que transcreve a essência absoluta da alma masculina…
Comment by Junior — August 11, 2006 @ 7:39 pm
Ó, as águas infinitas deste oceano de letras, que nos rodeiam através de notas musicais como o vento que sopra entre as impurezas de um amor infinito.
PS: Olha, eu não faço a mínima idéia do que comentei, só queria escrever bonito.
Comment by Lilhá — August 11, 2006 @ 7:49 pm
Óun.
*lendo o comentário da Lilhá*
..e porras Julião, n li esse livro não. prefiro os blogs mesmo. O efeito é o mesmo, mas ao menos me divirto!
Comment by Tiago — August 12, 2006 @ 3:13 am
eu acho que, no fim, é tudo lenda.
Comment by Camila — August 12, 2006 @ 4:28 am
E eu que nunca li Os Lusíadas, nem quando me pediram pro vestibular, porque ficava lendo o blog do Julio.
*tenta ganhar uma daquelas cervejas que o Milton deu pro Julio*
Comment by Eric — August 12, 2006 @ 5:45 am
Porra, nem o Camões teria 8 Lusíadas.
Comment by Zé — August 12, 2006 @ 5:47 pm
eu me sinto extremamente burra neste blog.
vou ler o post
Comment by vanessa — August 14, 2006 @ 1:22 pm
se é amor, ainda que o texto não verse sobre o tema, o amado é a inspiração para a escrita. deve-se, pois, salvar a inspiração.
a não ser que vc seja emo e adore uma tragédia.
q
Comment by vanessa — August 14, 2006 @ 1:30 pm
Eu já escrevo em dois blogs e já estou me achando sem tempo (e sem assunto). Vc escreve em oito? Tá explicado pq quem tem blogs não tem amadas. Se tivesse não teria tempo pra atualizar os blogs, e a galera ia reclamar.
Comment by Bruno — August 14, 2006 @ 2:28 pm
“Eu já escrevo em dois blogs e já estou me achando sem tempo (e sem assunto). Vc escreve em oito? Tá explicado pq quem tem blogs não tem amadas.”
Eu acho que o negócio é exatamente o contrário. Quem não tem amadas, e amados =), tem blogs. Geralmente acabo me refugiando nele quando preciso sumir um pouco, nem que eu escreva só besteira. Ok, só escrevo sobre besteiras, mas isso é detalhe e não vem ao caso…
Comment by *Dressa* — August 15, 2006 @ 1:59 pm